DESOLADA

Kelsey

Tento me lembrar do dia em que o mundo mudou tanto. Tento revivê-lo, conjurar meus últimos momentos anteriores a esse inferno em que tudo se retornou.

Mas, simplesmente, não posso.

Estou tão destruída, tão abalada e tão modificada, que toda vez em que tento recordar tenho minhas forças drenadas. É como se de algum modo eu quisesse tanto viver aquilo outra vez que ser reavisada de que não posso fazê-lo me machuca e me estilhaça.

Estou sentindo isso agora.

A pressão atmosférica, aqui, é sufocante. É como se todo o ar ao meu redor se concentrasse no único ponto que é o meu corpo, me pressionando ao concreto da estrada que serpenteia o bairro em que moro. Minha cabeça está explodindo, latejando, gritando silenciosamente que não aguentará; que será espremida até restar uma massa estirada ao seu máximo. Massageio com o polegar minhas têmporas, sempre massageando, sempre esperando que a dor pare de se propagar magicamente.

Ela não para.

Continuo caminhando, porém. Uma voz subconsciente comanda minhas pernas e exige-as que continuem me fazendo seguir em frente, sem me interromper de algum ou qualquer modo. As pessoas acenam sérias para mim, e eu as ignoro. Elas andam devagar, cabisbaixas, vestindo trajes cinzentos. Vestem-se todos os dias para um velório que nunca acontece, transformando tudo ao seu redor em pálido.

Algumas árvores lançam sombras escuras em minha direção. Noto cada uma delas, decora-as e sorrio com o quão insano é o fato de que apenas elas estão iguais a antes da praga. São as mesmas árvores pelas quais eu passava quando era criança, as mesmas árvores que vislumbrei no meu último dia com a sanidade preservada, e as mesmas árvores de ontem, de antes de ontem, de um mês, de um ano, de infinitos anos atrás.

A praga aconteceu há dois anos. Não deu aviso algum. Chegou e modificou a nós todos. Nenhuma nuvem negra se insinuou aos céus. Nenhum grito foi dado, nenhuma lágrima foi derramada. As pessoas apenas dormiram e, puff, acordaram assim.

Seres mortos-vivos: osso, carne, órgãos, dentes, unhas, pêlos, olhos, tudo constituindo um corpo erguido e morto.

Ninguém tem mais sentimentos.

As pessoas se transformaram em robôs humanos. Criaturas tão desumanas e ao mesmo tempo tão humanas em sua forma física que eu nem mesmo consigo classifica-los. Por muito tempo perguntei-me se este havia sido um salto instantâneo na evolução da espécie humana. Acreditei que Darwin podia explicar isso.

Lógico, ele podia.

Eles, os Infectados, evoluíram. E eu sei o que acontece agora.

Darwin disse certa vez, há muitos anos, que apenas os mais fortes sobrevivem. A natureza por si própria se encarregaria disso. Nada díspar. Algo banal.

A Seleção Natural das Espécies, era o que dizia Darwin.

E por isso que eu entendo minha situação.

Pense comigo: eu não evoluí.

Pense comigo: eu sou fraca.

Pense comigo: eles, os Infectados, são a espécime dominante agora.

Penso comigo: Eu vou morrer.

Não morrer apenas.

Eu vou ser assassinada.

Preciso saber quando. Preciso prever o meu próprio futuro. Preciso entender.

Notas finais
Bem, é isso! Espero que tenham gostado.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.