Destiny (HIATUS)
3 O Ataque
"O pior cárcere não é o que aprisiona o corpo, mas o que asfixia a mente e algema a emoção."
Augusto Cury
Havia pego no sono, finalmente, mas aquele pesadelo se fez presente de novo, insistindo em me manter acordada. Minhas pálpebras se abriram de imediato e me sobressaltei ao ver um par de olhos verdes a me observar atentamente e apesar de não saber a quem pertenciam, me pareceram extremamente familiares, mas não fazia a mínima ideia do motivo disto, já que a única coisa visível dentro da grande touca eram as duas esmeraldas brilhantes de sadismo.
Suas mãos estavam levantadas, segurando o que me pareceu uma faca e baixaram rapidamente, sem me dar tempo de defesa, o que me proporcionou um golpe muito próximo ao peito, ocasionando um pouco de dor, pois mesmo que fosse apenas parcialmente humana, essa minha parte que vivia ainda sentia, claro que não como antes, mas a ardência no local da ferida era inegável.
Alcancei rapidamente a adaga guardada debaixo de meu travesseiro, agradecendo ao fato dela sempre estar ali e a minha cautela considerada exagerada. Parti para o ataque, mas parecia que o inimigo conhecia todos os meus movimentos, desviando na maioria deles e contra atacando de forma eficiente.
Os ataques eram bem alternados, não dando para dizer quem levava a melhor ou não, devo admitir que o adversário era excelente, bem como eu, por esse motivo, estimei que aquilo levaria um bom tempo até terminar e não estava errada, nenhum de nós vacilava e não pretendia ser a primeira a recuar.
Acertei-lhe o ombro, fazendo-o dar alguns passos para traz, colocando a mão sobre o mesmo. Já avançava para desferir um golpe mais preciso, porém, assim que me aproximei, surpreendendi-me com sua risada, fria e cheia de escárnio, era, na verdade de uma mulher, mas isso não foi o que mais me chamou atenção e definitivamente não tinha sido o que me fez vacilar.
Não era a risada de uma qualquer, mas uma que eu conhecia mais do que bem e isso me assustou, a única pessoa neste mundo que era capaz de abalar minha confiança e me desestruturar por inteira, aquele simples som diafragmal me fez perceber que não adiantaria lutar e resistir, pois se ela quisesse me matar não precisaria de muito.
Seu riso parou aos poucos e a voz saiu um tanto quanto baixa e rouca, como se estivesse arranhando a garganta ao sair, diferente do normal. — Ainda quer me matar? Venha! Me mate! — Seus braços se abriram, deixando a capa que lhe cobria corpo e rosto e sua cabeça pendeu para traz, sem medo ou temor, afinal, ela sabia que eu não podia fazer aquilo, mas sua arrogância extremamente irritante quase me deu o impulso necessário para tentar.
Ela esperou alguns poucos minutos, mas logo gargalhou e voltou seu olhar para mim, ele continha grande quantidade de desafio e superioridade, mesmo não sendo exatamente assim, ou talvez fosse, pelo menos ali parecia, afinal, eu estava de mãos atadas.
Todo meu corpo clamava por algum tipo de reação, uma estratégia que me tirasse daquele sufoco, mas nada prudente me vinha em mente, nada que fosse bom o bastante para ser posto em prática naquele instante.
Pensei em lhe enfiar o punhal no peito, pois não era possível que aquilo estivesse acontecendo, mas quando olhei novamente para seu rosto, a mulher se pronunciou com um sorriso debochado. — Não seria muito inteligente de sua parte, é só olhar para o seu ombro e toráx para confirmar isso.
Foquei em seu corpo, que estava coberto com uma capa a pouco tempo atrás, e que agora estava coberto apenas por uma calça e blusa pretas, dando visão para o grande corte que havia sido aberto no mesmo local em que o meu.
Ivoluntariamente, coloquei minhas mãos em cima da ferida e mesmo que estivesse se fechando aos poucos, ainda estava ali, sangrando, entretanto, não mais doendo, apenas existia e era evidente que era a mesma que a de minha oponente.
Olhei também para meu ombro, onde a havia atacado e percebi tardiamente que também estava ferida, provavelmente porque meu foco naquele instante não era a dor e sim a luta.
Mas se era assim, qual o motivo de ter me feito sangrar e ter tentado me matar? Não fazia o menor sentido, nada se encaixava, era como um quebra cabeça complexo demais para que cada peça pudesse se juntar às demais.
— Nada aqui faz sentido Katlyn — explicou com paciência exagerada, mostrando ser realmente bem parecida comigo, pois ser paciente não era uma de minhas virtudes — Eu vivo há muitos anos na sua cabeça pra saber disso.
— Então isso é um sonho? Isso explica muita coisa e também significa que posso acordar quando quiser — Deduzi, pois mesmo que não pudesse entender o que acontecia em meu subconsciente, tinha a certeza de que poderia dar um basta naquilo.
— Pode tentar, querida. — nunca havia parado para pensar no quanto aquela palavra poderia ser ser detestável — Mas aqui, não é você quem dita as regras. No meu mundo, você é apenas passageira. — Ao terminar sua fala, levantou o objeto pontiagudo em suas mãos, pronta para me atacar.
Fechei meus olhos e concentrei-me em voltar à realidade, aquilo era só um sonho, já era tempo de acabar com aquilo, de eu mesma controlar o que acontecia em minha cabeça.
Fiz um grande esforço para poder voltar para meu verdadeiro quarto e quando os abri, não estava mais na presença da garota que se parecia comigo. "Na verdade, ela ERA uma parte de você", uma voz dentro de mim insistia em me dizer, mas a ignorei, pelo simples motivo de estar analisando o espaço onde me encontrava.
Mesmo não estando mais no mesmo lugar, também não havia voltado à vida real. Não sabia exatamente onde me encontrava, mas não era difícil notar que o ambiente era um quarto de bebê, feminino e simples, nada de excepcional, apesar de muito bem organizado.
O berço e os diversos bichinhos de pelúcia decoravam o espaço, mas não havia nenhuma criança no quarto, não havia ninguém por perto, então me dirigi para o berço, onde encontrei uma criança dormindo, um tanto quanto grande para o espaço que ocupava.
Ao observá-la, em um primeiro momento, me pareceu normal, mas logo percebi que havia algo faltando. O rosto. Não havia nada ali, apenas pele lisa. Nada de olhos, boda, nariz, ou qualquer outra coisa que pudesse se esperar encontrar em alguém.
Me afastei do berço, confusa com aquilo, principalmente por não saber o motivo de aquilo estar presente em meu sonho, então me dirigi à porta, para verificar se estava aberta e constatei, para minha surpresa, que estava.
Saí do quarto e segui o largo corredor que ali se encontrava, tentando abrir cada uma das portas existentes nele, mas nenhuma delas se abria, por mais que eu forçasse, a não ser por uma, no final do corredor, bem a minha frente, que abriu assim que passei meus olhos por ela.
Hesitante, adentrei no único cômodo que me era permitido e o analisei. Havia somente uma cama de casal, com lençóis que um dia foram brancos, coberto por um líquido vermelho.
Dava para sentir de longe o cheiro de sangue e já me provocava uma vontade violenta de experimentar do mesmo, provar pelo menos um pouco daquele líquido com cheiro tão tentador quanto qualquer droga.
Me aproximei da cama, não podendo negar meu instinto, mesmo com a ameaça iminente de que algo ruim pudesse acontecer. Mas aquilo era um sonho, não? Não precisaria temer, dali a algum tempo iria acordar e tudo isso não passaria de uma lembrança.
Se fosse uma adduxit não ficaria tão tentada, mas como pertencia à ordem de legitimam, sentia a necessidade de consumir sangue humano, para sustentar minha real força e poder, não que os alimentos que comia antes de me transformar não fossem suficientes para me manter de pé, mas não me traziam energia o bastante.
Passei minhas mãos pelo lençol, levando-as logo após à boca, me regozijando com o sabor delicioso de sangue fresco. Ao fixar meus olhos no chão, do outro lado da cama, vi a quem pertencia o sangue de gosto tão peculiar, diferente, sem falar em extremamente bom.
Estava encoberta pela cor vermelha, suas vestes, pele, cabelos longos, tudo parecia ter sido encharcado pelo líquido escarlate e aquilo me fez ficar com enorme vontade de beber da fonte, mesmo que já estivesse morta, seria alimento fresco, o que tornava aquilo ainda melhor.
Sem ao menos perceber ou controlar meus movimentos, já estava me ajoelhando ao lado daquele corpo, no intuito de tomar todo o resto de vida que ainda lhe restava, mas antes que pudesse fazê-lo, sua cabeça se levantou levemente e seus olhos cor de mel fixaram-se em meu rosto, me fazendo parar, gostaria de vê-la, observar o fio de esperança sendo arrancado aos poucos.
— Me ajude! — Essas foram as últimas palavras que ouvi, antes de sentir algo ser fortemente batido contra minha cabeça, a escuridão me tomar e o rosto pequeno e delicado da garota desaparecer.
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