Destiny
1 Capítulo único
Notas iniciais
Boa leitura <
Olhos castanhos. Cabelos longos e enrolados em um ruivo natural. Pele branca tal qual porcelana. Mãos macias e face com sardinhas quase invisíveis. Quem a visse, nunca suspeitaria que aquela doce garota de 18 anos tivesse uma maldição cravada em suas mãos.
Estava cansada disso. Queria que todos fossem para o inferno e não se importava com o que acontecia com o que tocava. A culpa não era sua de ela ser assim. Sua mãe morrera ao lhe dar o parto, enquanto, sem saber, uma mãe vivera ao dar a luz mesmo com inúmeras complicações que lhe dariam a morte certa. Seu pai a abandonara, morrendo de câncer meses depois. Enquanto, em algum lugar mais perto do que ela imaginava, um pai amava seu filho incondicionalmente após curar-lo de um câncer de próstata.
Ela causava a destruição.
Olhos azuis. Cabelos curtos e arrepiados em um loiro escuro. Pele bronzeada e músculos definidos. Mãos macias e uma pinta perto dos lábios. Ele era uma tentação para a maioria das mulheres e homens, para ela, ele era a causa da sua maldição, mesmo sem imaginar isso.
Ele gostava de ajudar, e era incrivelmente amado por todos. Por uma benção recebida quando criança, ele curava tudo aquilo que tocava. Ele às vezes se perguntava o que acontecia com toda aquela dor que exilava com o toque. Ela se perguntava onde estava à salvação que estivera ali antes dela tocar.
Ele causava a salvação.
Asuka Swen odiava as pessoas por lhe olharem com olhos ruins. Seu hobby era pintura, e o fazia muito bem. Desde que nascera, era chamada como monstro. Já a benzeram, exorcizaram, e procuraram remédios que lhe dizia serem milagrosos. Nada. Quando era pequena e não possuía consciência do perigo que era, ela havia tocado a tomada de sua casa como qualquer bebê curioso. Ela não levara choque, mas fizera com que a casa inteira pegasse fogo, não restando nada. Sem saber, em um lugar aparentemente perto, Andrew Carter impediu que uma casa pegasse fogo quando curioso, tal qual qualquer bebê em sua idade, tirou a tomada de uma TV, impedindo que o fio queimado entrasse em choque com a tomada.
Andrew Carter preferia skate, e qualquer lugar perigoso o bastante para treinar suas manobras.
Nesse dia, porém, ele preferiu ir a um lugar menos habitado. A adoração que as pessoas tinham por ele era sufocante. Portanto, preferiu andar mais de vinte quilômetros para chegar a uma praça abandonada. Muitos a temiam, por seus boatos de fantasmas e assombrações. Ele não, pois não acreditava em tal besteira. Ela, o mesmo. Mas não estava ali para ver qual era o melhor modo de quebrar seu pescoço ou fraturar um fêmur, ela estava ali para fugir de tudo e de todos. Havia momentos em que crianças tacavam-lhe pedras, berrando palavras esdrúxulas para afugentá-la. Asuka já havia se acostumado, e criado artifícios para se proteger.
Um deles era fugir.
Nem que fosse por cinco meros minutos, mas fugir.
Ambos queriam. Por isso estavam ali. Destinos entrelaçados? Talvez.
Ambos queriam fugir. Fugir da adoração e da repugnância, fugir dos pedidos e dos escárnios, fugir dos elogios e dos xingamentos... simplesmente... fugir.
Ela se refugiava em suas pinturas ambientalistas, ele em suas manobras evasivas.
Foi ai que o destino finalmente os juntou.
Andrew errara em uma manobra, indo a cair de um modo que lhe renderia morte na certa. Asuka o observava de longe, e percebera o futuro erro, pondo-se a correr em sua direção antes do pior acontecer. Jogou seu miúdo e formoso corpo em direção ao outro que cedia a gravidade, caindo os dois em cima de um mato, afofando a queda.
-O que...? – questionava Andrew, sem nada entender. Foi ai que a viu. Seus acastanhados olhos cintilavam, o vento suave farfalhava seus lindos cabelos, dando-o uma beleza mágica, seu frágil rosto demonstrava preocupação e seus lábios de uma textura que estava louco para provar começaram a se mover, soltando uma melodiosa voz que o tirou do êxtase.
-Você está bem? – perguntou ela. Igualmente encantada com o rapaz alto e loiro a sua frente. Se pudesse, mergulharia eternamente naqueles oceanos que pairavam em seus olhos, o sol reluzia sua estrutura bronzeada, tornando-o mais perfeito do que lhe parecera.
-Es... estou melhor... agora. – sussurrou a ultima palavra, que ela conseguira ouvir, fazendo-a corar. Ele, encantado, aproximou delicadamente para a face estonteante a sua frente. Sem entender como alguém lhe causava tamanho estonteamento em tão curto tempo.
Ambos não sabiam, mas, esse encontro casualmente estranho, estava escrito nas estrelas tais quais seus destinos entrelaçados.
Ela estendeu-lhe a mão para que pudesse se levantar. Ele a aceitou. Uma corrente elétrica nunca antes sentida por eles percorreu-os com o toque das mãos. Ela lembrou-se então. Destruição. Era isso o que causava ao seu toque. Voltou sua mão ao mesmo tempo, arrancando a centelha de felicidade de ambos. E causando, ao mesmo tempo, pavor nela, dúvidas nele.
-O que ouve? – perguntou Andrew a ela.
-Eu só... não... eu tenho que ir embora. – apressou-se ela, virando-se e se pondo a correr. Ele fora mais veloz, segurou-a no pulso, impedindo seu percurso.
-Me diga ao menos seu nome. – clamou ele. Ela então cedeu àqueles olhos mágicos.
-Asuka Swen. – e correu. Deixando sua pintura para trás e um rapaz que descobria uma nova sensação.
Andrew olhava para sua mão, a mesma que havia tocado aquelas mãos perigosas que ele desconhecia, refletindo sobre a nova informação.
-Asuka...
Asuka tremia, suava frio e olhava desesperadamente para todos os lados. Pessoas achavam que era uma fugitiva, outras que estava sendo perseguida, outras simplesmente a ignoravam. Mas nada disso importava para ela. Ela o havia tocado. Aquelas mesmas mãos que trouxeram desgraça para tudo e todos tocaram a única coisa que lhe parecera estranhamente importante.
Chorava. Uma tristeza horrenda a invadia, tomando conta total de seu ser. Começava a se desesperar mais ainda, não sabendo o que de horrível poderia acontecer com aquele garoto. Sentou-se então na calçada em frente a uma pequena loja, onde pairava na placa de néon queimada o nome “Madame Christine”, e em baixo, mesmo com letras faltando ela conseguiu ler “Consulte o seu destino e de quem você ama”.
Enquanto Asuka se esperançava com uma falsa cigana. Andrew se desiludia voltando para casa, na direção completamente oposta a de onde seu pequeno anjo ruivo pairava.
Tentava compreender ainda, em vão, o desespero daqueles tão lindos olhos, e na palidez anormal de sua pele após o toque de suas mãos. Descartara a hipótese de doença, pois seu pai, um ótimo dermatologista o informava de todos os tipos de doenças de pele, e só de olhar, percebia que a garota não possuía nada fora do normal, apenas uma normal falta de pigmentação.
Então... por que? Perguntava-se mentalmente, sem nunca passar pela sua mente que aquele doce anjo trazia em suas mãos o peso de suas salvações.
Adentrou sua residência, dirigindo-se para sua suíte, onde se despiu e tomou um longo banho. Tentava tirar da sua mente a imagem da garota quando ela o salvou. Ele sentia algo, uma conexão, um mistério, e o dever de encontrá-la.
Asuka arrependeu-se de entrar naquela lojinha estúpida. A mulher a tratara mal, chamando-a de monstro, dizendo ser filha de satã ao ler as linhas de sua mão, da qual Asuka impediu de tocá-las.
Incrivelmente raivosa e se sentindo um dos seres mais ignorantes do mundo, parou em uma praia, mergulhando seus pés na água gelada de inverno.
Foi ai que percebeu que aquilo não era para ela. Desde que nascera, desde que chegara a esse mundo, ela só causara a destruição do mesmo. Ela era o fogo de uma floresta, era o veneno dos insetos, era a overdose de um drogado.
Andrew corria desesperado, perguntando a tudo e a todos para onde fora uma bela ruiva de cabelos enrolados, todos apontavam para a direção errada, na esperança de levar aquele tão belo rapaz para longe daquela moça que todos a batizavam como daughter of the devil. Filha do diabo. Ele conseguira ouvir isso de duas velinhas que conversaram após sua saída.
-Ela destrói tudo o que toca. – dizia uma.
-Parece que quando ela nasceu à mãe dela morreu. E o pior não é isso, o pior foi que a mãe dela tinha tudo para estar aqui conosco, o parto saiu-se incrivelmente normal. – completou outra.
Andrew interrompeu.
-Com silencia, minhas senhoras, mas o que acontece com o que a ruiva da qual procuro toca?
-Tudo morre. – precipitou-se uma.
-Sim, uma vez eu a vi tocando uma flor, da qual imediatamente murchou. – confessou a outra.
-É. E eu soube que o pai da mesma morrera de câncer meses depois, sem nunca ter apresentado os sintomas. – surgiu outra velhinha, se empenhando em cancelar a busca do garoto.
-E a senhora sabe quando isso ocorreu? – perguntou Andrew, curioso. Tudo isso lhe trouxeram lembranças e questões das quais a muito tenta esquecer.
-Se me lembro bem, foi em setembro de 2007. – respondera a primeira velhinha, quando a terceira demorou-se a responder.
Droga, pensou ele. Foi no mesmo mês em que curara seu pai de um câncer de próstata extremamente avançada. Parecia que a maldição da garota não estava na palma de suas mãos, mas sim, nas da dele.
O questionamento que o fizera há tempos atrás parecia ser respondido apenas agora. As noites sem sono com a preocupação de toda a desgraça que ele extraia estivessem indo para outra pessoa estava sendo finalmente comprovada. Ele era o monstro, não ela.
Disparou novamente pela rua, assustando as velhinhas que já haviam mudado de assunto completamente.
Foi ai que a viu. Uma cabeleira ruiva sentada à beira do mar. O contraste de cores do poente tornava-a mais bela do que ele achava que ela poderia ficar.
Sentou então ao seu lado, assustando-a.
-Você...
-Andrew Carter. – apresentara-se ele, com um sorriso sedutor no rosto e a mão estendida.
Ela hesitou.
-Não se preocupe. Não irá me machucar. – tentou acalma-la.
Ela por fim, estendeu a mão, resistindo à tentação de sentir a textura de todo o corpo do loiro a sua frente.
Ambos ficaram assim, de mãos dadas, por longos segundos, que lhes pareceram mais como horas.
-Me desculpe. – falou ele, por fim.
-Do que? – perguntou ela, confusa.
-Não são suas mãos que trazem a desgraça, mas sim as minhas.
-Como? Pelo que sei, suas mãos já salvaram milhares.
-Sim, e as enfermidades desses tais foram para você, que as transmitiu sem um querer maior. Como um veneno de uma cobra que não deveria ser uma cobra peçonhenta. Você é a injustiçada, eu sou o vilão.
-Mas do mesmo modo que eu, você não os controla, seja lá o que for.
-Mesmo assim. Sou o seu mal, do mesmo modo que você pode ser o mal dos outros.
-Portanto, suponho que eu tenha que carregar comigo esse mal por toda eternidade? – um sorriso malandro brotava em seus lábios de seda.
-Você pode encontrar a cura.
Ele se aproximava dela.
-Eu posso recusá-la.
Ela diminuía o espaço igualmente.
-E se ela for tentadora?
Não existia mais espaço.
-O gosto do perigo é melhor.
Ambos se beijaram, fazendo com que o choque elétrico tão conhecido percorre-se seus corpos caídos na areia, entregues ao amor.
Asuka e Andrew mudaram daquela hostil cidade, mudaram de vida, mudaram de nome, e simplesmente mudaram. Do mesmo modo que antes fugiam, agora não havia mais motivo para isso. E sabe o porquê?
Porque o destino finalmente entrelaçara seus caminhos.
Fim.
Notas finais
E lembre-se, uma autora com review é uma autora feliz <.
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