Destinos Incertos
8 Aslan!
Notas iniciais
─── Ashley on ───
Quando acordei minha garganta queimava e eu tossia desesperadamente tentando respirar, sem muito sucesso; ao contrário, me afogava mais. Alguém se exaltou ao meu lado, mas meus olhos se recusavam a me mostrar qualquer imagem que fosse. Percebi quando colocaram um copo em minha boca e eu engoli seu conteúdo vorazmente sendo o que fosse, já que não sentia o gosto daquilo.
– Aqui, aqui, calma garota — disse Lucy enquanto eu bebia. Assim que terminei, lembrei-me do pequeno leão e logo meus olhos, até agora desobedientes, colocaram o mundo em foco enfim, me mostrando a enfermaria e, por coincidência ou não, o mesmo quarto de antes.
– Onde ele está? Cadê ele? Oh meu... — comecei, mas fui impedida pela minha própria língua, que se recusou a pronunciar “Deus”.
"Ashley vá devagar. Eu estou aqui." ouvi meu Dimon dizer com calma em minha mente e senti sua patinha roçando minhas costas numa leve carícia.
"Ainda bem, o que houve?" perguntei, me referindo a não ter conseguido pronunciar aquela palavra.
"Você é uma vampira Ashley, não pode falar nomes divinos" ele disse como se fosse óbvio e só então eu reparei que a voz dele não era exatamente igual a do meu irmão. Ela parecia mais com a...
– Hey, hey, calma gatinha — ouvi Dilan falar, me fazendo pular de susto. Completei meu pensamento falando:
– Dilan?
"Yep" ouvi o leão ao meu lado "Sabe, eu preciso de um nome, você não pode me chamar de 'O Leão' para o resto da vida. Não quero fazer pressão, mas se puder ver isso logo, agradeço" disse, impaciente. E logo completei a frase, ignorando-o.
– O que faz aqui?
– Eu precisava te ver — disse, corando e desviando seus olhos de mim. Achei muito fofo o jeitinho dele e, sem resistir, passei a mão em seu cabelo levemente enquanto sorria.
– Obrigada — Seu olhar me fitou como se me admirasse e foi minha vez de corar. O leão se mexeu atrás de mim e saiu do lençol num pulo, sobressaltando Dilan. Decidi explicar, vendo que estava impressionado com sua aparição nada discreta — Ele é meu Dimon.
– Ele é... Branco? — perguntou, e só então percebi que não estava ouvindo seus pensamentos e me senti vulnerável no mesmo instante. Como se ele estivesse escondendo algo de mim e, de certo modo, cobrindo seus pensamentos, mas eu não conseguia entender como.
"Você prefere com os pensamentos?" perguntou meu leão, olhando Dilan.
"Você fez isso?" acusei, impressionada.
"Sim, e posso desfazer agora mesmo" Seu tom era de brincadeira; Ele sabia que eu não queria ouvir os pensamentos dele. "Sabe, serei como seu controle remoto. Você pede, eu controlo ou desfaço. Combinado?"
"Tá bem, pode ser" percebi que o garoto ainda fitava meu novo companheiro, sem palavras.
– Sim, algum problema? — Coloquei o gato-leão em meu colo e percebi que Dilan estava tentado a tocá-lo, mas se repreendendo, e fiquei um pouco apreensiva.
"Não deixe que ele me toque" implorou o ser em meus braços "Apenas posso sentir o seu toque e o de mais ninguém. Só você" ele parecia desesperado, por isso afaguei sua cabeça, entre as orelhas, de modo a tranquiliza-lo.
– Não, eu apenas, bom, nunca tinha visto um tão branco...
– Okay pombinhos — Lucy se pronunciou e se colocou entre nós, fazendo com que quase tivéssemos outro paciente e uma ainda mais debilitada do que já estava — Ela precisa descansar e, antes que você me interrompa, você não pode ficar aqui, sua aula começa em 15 minutos e o Cameron está louco atrás de você, quase que literalmente espumando de raiva.
– Droga... Ash, me desculpe, não poderei ficar com você, mas assim que eu puder eu volto, prometo — disse-me ele, se curvando sobre mim e depositando um beijo em minha bochecha com impressionante delicadeza. Corei violentamente com isso e sussurrei algo em agradecimento, meio sem ar.
– Vocês dois hein? — disse Lucy enquanto me ajudava a sentar, tomando cuidado para não tocar no Leão e Dilan corria porta afora com pressa — Ainda vão dar muito que falar.
– Ah, claro — concordei, como se ela fosse minha melhor amiga e estivesse me atentando sobre o aluno novo.
– Vejo que já conheceu seu Dimon — cantarolou, animada — Já escolheu o nome?
– Não ainda, por enquanto chamo-o de "O Leão".
"Nossa Ashley como você é criativa!" brincou ele, sarcástico.
"Obrigada" provoquei-o, sorrindo mentalmente.
Ele mordeu a ponta do meu dedo como resposta, como se ele fosse um perigo enorme naquele tamanho.
– Se isso ajudar, meu Dimon se chama Little, pois é uma borboleta e gosta de ficar pequenina. — ao falar, uma minúscula borboleta se movimentou em meio as flores do jardim que era a cabeça de Lucy.
"Blergh, retiro o que eu disse Ashley, ela é mais criativa que você" disse, pulando da minha mão e ficando do tamanho de um gato na cama, me olhando com uma mescla de reprovação e ironia.
– Acho que ele não gostou — disse ela, observando-o — Uma vez entrou na Academia duas irmãs. Elas foram transformadas em Vampiras ainda pequenas e ganharam seus Dimons cedo, assim como você. A irmã mais velha tinha um leão dourado e ela se tornou muito poderosa e influente aqui na academia, tanto que foi ela quem fundou os Filhos da Noite, o grupo de vampiros populares da Academia. O nome dele era Aslan.
"Aslan... Me parece legal" falou a criaturinha, depois de um tempinho no qual pensava.
– Aslan é o nome do Leão de As Crônicas de Nárnia — falei pensativa, me lembrando da maravilhosa obra de C. S. Lewis que eu tanto admirava quando mais nova. — Acho que é uma boa homenagem.
Olhei para O Le... Digo, olhei para Aslan que brincava com a ponta da coberta e decidi que era realmente uma boa escolha. Uma dentre as várias que terei de tomar aqui.
(~•••~)
Logo voltei para o quarto, mas não antes de Melissa me submeter a uma série de perguntas e olhares preocupados. Tentei garantir a ela que eu estava bem, mesmo ela ainda me olhando com descrença. Mas fingiu acreditar em mim, e me deixou sozinha com meu Dimon no quarto depois de me recomendar repouso.
Me joguei na cama, pensando em tudo que estava acontecendo, e Aslan veio se juntar a mim, no tamanho de um gato adulto e se deitando ao meu lado, virando uma bolinha de pelos fofa e branca. Me lembrei da expressão confusa de Dilan ao ver o pequeno leão branco em meus braços.
Por que será que ele se espantou tanto? Não me parecia ser algo tão extraordinário assim, afinal, devia existir vários Dimons brancos, certo?
Mas eu sentia que não era isso. Era algo diferente, misterioso e poderoso.
– O que você sabe sobre o meu poder? — falei para a bola de pelos.
"Bola de pelos é a mãe!" disse ele revoltado mordendo a barra da minha blusa.
– Ta bom, desculpe! — Ergui minhas mãos em rendimento.
"Eu sei que você é muito poderosa, mas nem comece a se achar, pois como parte da sua consciência devo lhe lembrar de que você é perigosa”.
– De um jeito bom? — perguntei sorrindo de lado pra ele.
"Não. De um jeito muito, muito ruim." abaixei minha cabeça, envergonhada "Por isso que você precisa de mim, e por isso que eu vim cedo. Seu poder tem dimensões inimagináveis! Você pode controlar a mente de cada e todo ser vivo desse planeta! Mas isso vai lhe custar energia, então vamos usar com moderação, sim?”.
– Claro! E tem como eu ler a mente de uma pessoa de cada vez? — falei animada
"Sim Ashley, você pode praticamente tudo" disse ele impaciente.
– O que foi? — perguntei notando algo errado.
"Você está esgotada, logo eu também estou." disse ele se aninhando. Eu não havia percebido o quão cansada eu estava. Deitei na minha cama e ajeitei ele ao meu lado. Eu estava esgotada e morrendo de ódio.
"Ódio? Ashley, posso saber o motivo?" perguntou me olhando.
– Ódio daquele que me tirou da minha vida. Ódio de quem acabou com tudo. Odeio o Erik — falei e fechei meus olhos esperando o sono me alcançar.
(~•••~)
— Asheleeeeeeeeeeeeeyyyyyy... — Foi essa a sirene que ouvi logo que acordei, forçadamente diga-se de propósito, com uma vampira quase fazendo cambalhotas em cima de mim.
— CELINA! SAI DE CIMA DE MIM! — Gritei, sem aguentar mais fingir dormir. Estava irritada e cansada, sentia que não era meu dia aquele.
Ela se assustou e quase caiu da cama — AI! — Gritou também, caindo fora e indo para a cama dela — credo, está bem, não precisa gritar sua Chata!
— Hunf — Bufei — Desculpe por isso — Me sentei na cama, espreguiçando e olhando de relance para Aslan, que continuava dormindo.
— Tá — Disse apenas, meio fria — Tenho uma notícia pra você. Você começa suas aulas amanhã.
— Oh.. Mesmo? — Fiquei desanimada; queria saber, de fato, como eram as aulas daqui, mas não queria ter que voltar à vida de estudante, com lições, provas e tudo mais.
— Sim. Aqui — Jogou uma chave, pequena e prateada, com alguns números que indicavam onde era meu armário. Peguei no ar e agradeci com um murmúrio — Melissa disse que todo o seu material está separado e dentro de seu armário.
— Um vampiro esquisito perguntou por você... — Disse, me olhando com certa maldade — Ze... Zencon, Zacc, algo assim, não me importo mesmo.
— Zenon, não é?
— Esse mesmo. Parece conhecer já... — Ela me olhou com profunda curiosidade, além de uma certa maldade e malícia em seus pensamentos.
— É, eu trombei com ele logo no primeiro dia.
— Hum... Bem, eu marquei um encontro pra você. Com ele — Sorriu e ficou analisando as imperfeições de suas unhas, sendo que não havia nenhuma.
— VOCÊ... — Me segurei, respirando fundo e tentando acalmar a voz, e senti um movimento atrás de mim; Aslan tinha acordado — Não acredito que fez isso Celina.
"O que...?" Perguntou meu Dimon, sonolento e confuso.
"Já falo com você, dorminhoco" Por estar nervosa, fui um pouco ríspida e logo me senti meio culpada, mas não antes de encarar a peste que havia virado minha colega de quarto
— Não foi beeeem um encontro. Ele apenas perguntou se poderia encontrar-se com ele quando pudesse e eu disse que sim.
Respirei fundo novamente, me acalmando — Tá, tá bem, agora, vai lá, e diz que eu não posso. Isso, exatamente — Falei, mais como se estivesse pensando alto do que comentando.Até o momento, Aslan tinha ficado quieto depois da minha aspereza, mas resolveu virar outra pestinha. "Isso, cancela com um vampiro, depois corra pros braços do seu lobisomem" Bufou e se deitou novamente, enrolando a cauda ao redor de si mesmo.
Até o momento, Aslan tinha ficado quieto depois da minha aspereza, mas resolveu virar outra pestinha. "Isso, cancela com um vampiro, depois corra pros braços do seu lobisomem" Bufou e se deitou novamente, enrolando a cauda ao redor de si mesmo.
— Cala a boca Aslan! — Explodi, minha paciência se esgotando como o pavio de uma bomba.
— Aslan?! Quem é Aslan? — Perguntou uma Celina tão desconfiada quanto seus olhos e pensamentos retratavam.
– E-eu... Estava falando com você Celina, óbvio. Não tem mais ninguém aqui, não? — Olhei-a atentamente, tentando decifrar sua reação.
– Não – Disse, ainda desconfiada e me encarando com olhos semicerrados – É claro que não Ashy.
“Deixe-me ouvir os pensamentos dela, Aslan” pedi gentilmente, sem tirar minha atenção daquela vampira.
“Certo” Senti como se um pequeno pano fosse retirado do mundo e aos poucos pude ouvir Celina:
“Não sei o que pensar sobre ela” Sua voz era acusatória, cheia de veneno e ódio, causava arrepios.
“Você acha que ela está escondendo algo, Cel?” Ouvi uma voz finíssima perguntar e fingi me ajeitar na cama, tirando o cobertor de minhas pernas para melhor esconder Aslan. Certamente ela tinha um Dimon e provavelmente ele estava no quarto, então passei a olhar discretamente o cômodo, olhando um pouco a janela e então a cama ao lado.
“Tenho quase certeza, Lis” Ouvi Celina e percebi seus olhos grudados em mim, como se fossem de um predador analisando a presa e procurando uma fraqueza e um momento para atacar.
“Olhe nos lençóis” Me movi em direção a Aslan de modo protetor, sem pensar direito, antes que ela pudesse chegar perto “Não falei?!”.
– Que foi, Ashy? – Disse ela, provocando e sorrindo um pouco de lado, mostrando a presa afiada, como se rosnasse – Está escondendo algo...?
– Olha aqui Celina – Ameacei, encarando-a sem medo e interrompendo sua fala. Não era preciso ler sua mente para saber o que ela queria. Intimidar, derrubar, manter sua pose de “mais importante”, nem que matar fosse preciso – Não quero o seu lugar, só quero viver normalmente como Novata.
“Pois é que ultima coisa que você terá, novata; paz!” Disse "Lis", fazendo Celina prender a respiração e, por um momento, vi em seus olhos um certo assombro. Até mesmo Aslan se assustou. Isso não era pra acontecer. Algo está errado, muito errado.
– Não é tão fácil Ashley. Sou líder dos Filhos da Noite apenas por que sou a melhor e mais poderosa vampira, pelo menos era. Com você aqui é uma questão de tempo até eu perder minha posição!
– Mas eu não quero saber disso! – Gritei – Minha vida acabou de desmoronar, a última coisa que eu quero é essa liderança!
Quando eu terminei, ouvi batidas na porta e Celina se apressou em abri-la.
– Vamos Celina? — Disse quem quer que fosse do outro lado. Um garoto, pela voz grossa.
"Aslan, quem é?"
"Veja por si mesma" Disse, me mostrando, em seguida, cenas de quando os dois se conheceram. Eles eram pequenos, crianças ainda, quando ele foi transformado e ela o viu agonizando, o veneno consumindo seu corpo, presenciou seus gritos e sua fome. Ela o apoiou, mas ele fugiu.
"Olhe para ele, Ash" Levantei meus olhos e percebi que ele era muito bonito. Seu braço estava erguido e apoiado na porta, olhando para ela com os olhos brilhando, completamente parado; Não totalmente, mas se mexendo muito devagar, como se eu estivesse vendo aquele programa que filma coisas aleatórias em câmera hiper lenta. Olhei para seus olhos mais atentamente, tentando entender o que estava acontecendo.
"Tem algo errado" disse a criatura embaixo das cobertas, se movendo.
"O que?" Pensei atenta, tem mais alguém aqui, sentia isso.
"Quer vasculhar o quarto?" Perguntou ele se empoleirando em meu ombro.
"Quero"
Mal tive tempo de tomar fôlego e tudo ficou preto, me fazendo desesperar, mas Aslan me acalmou dizendo que era assim mesmo. Aos poucos pequenas luzes se acenderam, formando um mapa em minha mente.
Uma maneira boa de explicar é baseando no Mapa do Maroto, de Harry Potter, com diferenças mínimas. Num fundo negro, haviam pontinhos prateados e brilhantes, alguns mais que outros. Mas tinham também pontos coloridos, numa variedade cromática imensa.
"Deixa eu te explicar" Começou meu professorzinho peludo "Você está em transe, pra começo de conversa. Cada luz prateada indica uma pessoa, os mais brilhantes são fadas, enquanto os foscos são feiticeiros, assim fica fácil diferenciar. Cada Dimon possui uma cor própria, o que nos torna únicos. Desse jeito você pode saber onde qualquer um está, incluindo Dimons"
"Isso é tão..." Comecei, mas fui interrompida quando senti alguém tocar meu braço. Imediatamente tentei me esquivar, em instinto, e tudo que havia se formado em minha mente simplesmente desapareceu, me fazendo voltar a consciência aos poucos. Uma luz me cegava quando abri os olhos, mas logo vi o rosto de Celina cobrindo a luz e ao lado dela vi o seu amigo junto de um outro rosto que eu não reconheci.
"Aslan? O que aconteceu?" perguntei a ele, me sentando na cama, tonta.
"Você perdeu a consciência enquanto examinava o quarto, esqueci de falar que isso poderia acontecer...” Subiu no meu colo, assumindo o tamanho de um gato, me olhando preocupado.
— Ashley, você tá bem? — perguntou Celina com os olhos esbugalhados. Não sei se deveria confiar nela, ou acreditar em qualquer palavra de sua boca, mas no momento eu não tinha escolha.
– Estou, minha cabeça dói, só isso. — Pressionei com a mão o local onde doía, percebendo um curativo ali, e assim que toquei uma onda de dor se espalhou pelo meu corpo, me fazendo lacrimejar.
— Não toque — Disse o amigo de Celina, retirando minha mão do local — Você bateu a cabeça quando caiu e como você acabou de ser transformada, seu sangue ainda está circulando pelo seu corpo, por isso sua cabeça sangrou. E por isso também você não é tão pálida quanto a gente, mas não se preocupe, não deve levar uma semana até que seu sangue desapareça.
O olhei assustada. Era péssimo pensar que eu estava morta e que "em uma semana meu sangue desapareceria". Me arrepiei e me encolhi só de pensar nisso e percebi que Celina ainda tinha sua mão no meu braço. Puxei, me livrando do toque dela.
Ele piscou, como se estivesse se acostumando com a luz do quarto.
— Derek? Você tá legal, cara? — perguntou o outro rapaz que não tinha falado até então.
"Quer saber quem é ele?" Perguntou-me, lambendo meus dedos aliviado por eu estar bem "Eu não aconselharia".
Acenei que não com a cabeça que doía. Fechei meus olhos e respirei fundo. Tudo ficou em silencio e então eu percebi que tudo se mexia devagar de novo, em câmera lenta. Abri os olhos e vi o garoto se aproximando de mim rapidamente.
– É você quem tá fazendo isso! — Falei, o acusando. Ele se assustou comigo por um momento, se recompondo rapidamente, apesar de ainda aparentar surpresa.
– Não era pra você perceber — Disse.
"Aslan, me coloque na cabeça dele" falei rapidamente.
"Você já está, Ash" disse meu Dimon.
"Al, por que não deu certo?" ouvi ele perguntar para seu Dimon.
"Deu certo, só ela não foi afetada" respondeu uma voz fina e eu vi um lagarto correndo da porta até ele no tamanho de uma lagarta.
– O que você é, garota? — Perguntou ele se aproximando de mim e seus pensamentos me deixaram confusa. Ele achava que eu era uma ameaça e ao mesmo tempo achava curioso que eu não tivesse sido afetada.
– Depende — Me lembrei de uma frase que eu sempre usava em Boston e em tom de ameaça completei — Posso ser sua melhor amiga, assim como sua pior inimiga.
– Estou vendo que vamos nos dar bem — Com um sorriso torto no rosto, o cara se apresentou — Sou Jack Nolan.
– Ashley Reynolds — Falei de queixo erguido.
– Belo nome, agora me explique: o que você faz?
– Prefiro mostrar — Perguntei a Aslan como entrar na mente dele de modo que eu pudesse falar.
– Manda ver.
"Apenas se concentre nele e fale" me instruiu. Fechei meus olhos e me imaginei na mente dele "Se você mantiver seus olhos abertos é mais fácil de você não perder a consciência"
"Certo" falei abrindo meus olhos.
– Olhe pra mim.
– Com prazer, gata — Disse ele me olhando profundamente.
"Aslan, não consigo me concentrar, você poderia, sabe... Tirar os pensamentos dele?" pensei.
– Quem é Aslan? — Perguntou, e eu voltei a atenção pra ele. Consegui entrar!
"Aslan é um temível leão dourado, fundador de Nárnia e controlador do mundo" Encarei seus olhos com certo orgulho "E também meu Dimon”.
– Dimon?! Não é possível! Você acabou de ser transformada!
"Eu sei" Me encostei, suspirando "Muitos já me falaram isso... Ou pelo menos pensaram”.
– Espera, você... — Começou ele, se dando conta do que eu falei. Seus olhos se arregalaram — Você não pode só falar em minha mente, não é? Você pode ler meus pensamentos!
"Exato!" Sorri "E você? O que exatamente você faz?”.
– Achei que pudesse saber, já que você pode olhar a minha mente.
"Eu sei, apenas quero ouvir" Falei ameaçadoramente, fazendo-o engolir em seco, com medo. Ri por dentro.
– Ahn, eu, ahn — Ele se atrapalhou todo.
– Desenvolve! — Falei mais alto e o fiz dar um pulo. Estava morrendo de medo de mim e essa sensação era ótima. Afinal ele não era tão confiante assim.
– Eu controlo o tempo. Posso pará-lo, diminuir sua velocidade ou fazê-lo passar mais rápido. E posso escolher se as pessoas irão ou não perceber isso. E nesse momento não era pra você perceber.
"Diga a ele que isso só é possível por você ter entrado na mente dele" Disse meu lindo Dimon e eu repeti.
– Isso é muito legal... Será que se você tentar você pode me controlar?
– Posso — Afirmei depois que Aslan confirmou.
— Legal! — Com ânimo, ele sorriu.
~•••~
– Então, tudo bem se você começar com as aulas amanhã Ashley? — Perguntou Melissa. Estávamos sozinhas em sua sala, apenas conversando, quando ela tocou no assunto das aulas. Isso me fez perguntar se o real motivo dela ter me chamado seria esse.
– Posso começar assim que você achar que eu devo.
– Não foi isso que eu perguntei — Disse, com suavidade — Eu pedi sua opinião.
– Não sei se quero... — Fui sincera com ela, tentando lhe dar certa confiança.
– O que houve?
– Nada.
– Não quer falar sobre isso? — Percebi que ela queria que eu falasse algo, que eu desabafasse com ela. Queria saber mais sobre mim, se aproximar.
– Me sinto ameaçada — Confessei enfim, colocando uma mecha de meu cabelo para trás da orelha — Celina quer me ver longe daqui, Jack é muito poderoso e me intimida. E o Dilan, bom, eu nem ao menos sei o poder dele e é o mais próximo que eu tenho de um amigo aqui.
– Ashley, você nem começou a conhecer a Academia ainda. Tem tanta coisa que irá te surpreender que você se arrependerá de pensar que não se encaixa aqui. Ânimo garota!
– Tudo bem — Decidi que iria fazer isso por ela, não por mim, afinal, ela era uma das que mais estava a me apoiar nesse lugar. Fingi entusiasmo e sorri — Teria como eu começar hoje?
– É assim que se fala! — Melissa se levantou, animada demais — Vamos, venha comigo.
– Vamos... Pra onde? — Desconfiei daquele estado de felicidade repentina. O que poderia ser?
– Vou lhe apresentar a sua coordenadora — Ela saiu da sala, quase me arrastando, enquanto eu a seguia.
– Mas eu achei que você fosse minha coordenadora.
– Não — Sorriu levemente, enquanto passávamos por um grupo de bruxas líderes de torcida. Uma delas sorriu pra mim e eu percebi que ela tinha tantos dentes quanto um tubarão. Preferi ficar quieta, vai que... Nunca se sabe quando um sorriso pode te fazer perder a cabeça, literalmente. — Eu sou sua Mentora. Cuido de você, do seu poder e da sua vida, junto de seu Dimon. Sua coordenadora cuidará de assuntos escolares.
– Ah sim.
– Olá Ashley.
Zenon subia a escada enquanto descíamos a mesma, mas no ritmo da minha mentora, apenas sorri como resposta, sem tempo para pensar direito. Pude ver que Melissa tentava conter um sorriso.
– Aqui, entre — Disse, abrindo a porta.
A Coordenadoria era mais ou menos o mesmo tamanho de um quarto, um pouco maior eu arrisco. Cheia de estantes com alguns livros, pastas, cadernos de anotações e materiais também, prateleiras com pequenas esculturas coloridas das raças da Academia, além de duas janelas médias, abertas para o ar da noite entrar. Apesar de ser cheia de objetos, não poderia ser considerada abafada e com o ar de sufocamento, mas sim o contrário, devida à organização e limpeza do lugar, que cheirava a morangos e framboesas.
– Camille, quero lhe apresentar minha nova protegida. Esta é Ashley Reynolds — Disse uma Melissa, cuja aura irradiava exclamações, atraindo a atenção da vampira mais tediosa e cheia de nuvens negras que já vi, debruçada sobre um caderno de horários — Ashley, essa é Camille Scaledove, sua coordenadora.
– Olá — Minha voz quase saiu num chiado, mas consegui firmar melhor enquanto a coordenadora se levantava e se aproximava de nós, dando a volta na bancada onde estava.
"Só uma curiosidade: eu poderia ouvir os pensamentos dela?" Perguntei a Aslan enquanto ela me cumprimentava e eu a observava com receio. Ela tinha os olhos tão vermelhos quanto sangue e sua pele era a mais pálida que eu já havia visto entre os vampiros daqui e tirando Zenon nenhum dos que eu vi tinha olhos dessa cor. Seus lábios estavam cobertos por um batom escuro, o que apenas aumentava o ar sinistro de Castlevânia*. Seus cabelos escuros caíam em seus ombros e eram lisos. Muito lisos. Ela era alta. Tanto quanto Melissa, mas mantinha o queixo erguido o que lhe proporcionava um ar de superioridade que, talvez, ficasse só no queixo e no nariz empinado mais fino que já vi.
“Hm... Sim" Aslan sussurrou, o que estranhei, mas ignorei enquanto ele se ajeitava, escondido em meu bolso. Melissa e eu havíamos decidido que era melhor deixá-lo em segredo, para não chamar atenção demais.
– Vou deixar vocês a sós. Tenho assuntos a resolver — Disse minha mentora, já saindo da sala e me fazendo entrar em pânico instantaneamente. "Não me abandone aqui!" era o que eu queria gritar, mas continuei sorrindo, assim como a senhorita Scaledove.
A porta se fechou e o clima de alegria dentro da sala se foi. O sorriso amigável de Camille se transformou em um ameaçador e perigoso mostrar de dentes. Suas presas estavam levemente expostas, num silencioso e bem inteligível aviso.
– Então é você a Novata de quem todos comentam? — Perguntou ela me olhando dos pés a cabeça, num sarcasmo forte e direto. — Eu esperava mais.
Abri minha boca para rebater, mas me interrompi, me lembrando de que eu sempre teria um bônus contra qualquer um. Pedi a Aslan que me desse informações sobre ela e tudo o que ela não esperava que eu fizesse eu fiz.
– Você não viu nada — Dispensei as formalidades, entrando na dança.
– Então me mostre. Me disseram que você é a vampira mais poderosa que já pisou nessa Academia e eu duvido que isso seja verdade — Cruzou os esqueléticos braços, me desafiando com um levantar de sobrancelha — Conheci muitas vampiras poderosas e, modéstia à parte, eu sou uma das mais fortes da história desse lugar.
– Não acho que seja — Respondi, tocando em seu ponto fraco recém descoberto. — Se fosse, não estaria aqui, fazendo o que quer que seja nesse lugarzinho minúsculo. Podemos falar sobre minhas aulas?
Passei por ela e me sentei em frente a sua mesa. Ela estava em estado de choque pela minha coragem e eu sabia que ela estava me xingando internamente. Vi os ombros dela ficarem rígidos e mais uma vez tive certeza de que aquele não era o meu lugar.
— Certo. Tentarei ignorar sua arrogância e falta de respeito — Murmurou entre dentes enquanto passava por mim e se sentava na cadeira de couro negro. Sua expressão era de pura raiva e ela tentava não demonstrar. Ri por dentro; aquela expressão compensou minha estadia inteira na enfermaria — Então, não sei por que Melissa te trouxe para mim hoje.
– Como assim?
– Não há necessidade de vir aqui antes de decidir começar nas aulas — Sua expressão se transformou num tédio zombeteiro. Ela me avaliava sobre todos os ângulos.
– Começarei hoje. Por isso estou aqui.
– Certo. Você terá aula de Convivência, História Vampírica e depois da ceia irá ver os conteúdos que você perdeu, com Melissa.
– O que seria "Convivência"? — Perguntei, ignorando a dor que começou a se formar em meu estômago. Tossi e senti minha garganta arranhar, seca, então cruzei os braços em frente a barriga para tentar amenizar a dor. Óbvio que não adiantou, mas tentei me focar nela, sem deixar me abalar.
– É uma aula onde nós, vampiros, passamos um tempo com outros seres, de outras raças. Entendeu?
– Tá — Comecei, mas fui interrompi por outra tosse e quando continuei minha voz estava um tanto rouca — Mas pra quê isso?
– Eu também não entendo a finalidade disso, mas há quem diga que é para sabermos nos "comportar" em locais públicos — Revirou os olhos e eu apenas assenti, poupando minha voz — Hoje você terá aula com os lobisomens e semana que vem será a vez dos bruxos, pode ser?
– Claro — Assenti e tossi novamente — Você teria água?
– Sim — Ela me olhou desconfiada, mas levantou-se e buscou um copo com água. A espera era uma tortura sem fim. Assim que ela me entregou, bebi desesperada, molhando minha camiseta. Ela me entregou um guardanapo e eu agradeci, apenas assentindo com a cabeça — Você está bem?
Beber a água não me ajudou em nada, continuei com uma dor horrível no estômago e na garganta, que agora ardiam, como um ácido. Ergui meu braço para pegar o guardanapo, mas parecia que o membro pesava uma tonelada, então desisti no meio do caminho, me encostando na cadeira. Vi Camille se aproximar e só então percebi que Aslan estava quieto. Senti um gosto metálico invadir minha boca, sem saber que as minhas presas haviam perfurado meus lábios sem querer.
– Calma. Você está com sede. Há quanto tempo não toma sangue? — Perguntou a Coordenadora, me impedindo de cair no chão quando senti a cadeira ser empurrada. Percebi que alguns objetos pequenos se movimentavam no ar e eu não sabia se estava alucinando ou eu estava causando aquilo. Torci para que fosse a primeira opção, não queria fazer com Camille o que fiz no quarto com Jem e Ciara. Balancei minha cabeça negativamente, respondendo Camille. Só havia tomado sangue naquele dia em que vi Zenon, mas não encontrei minha voz para lhe dizer aquilo. — Não se mova.
Ri irônica, xingando mentalmente. Ela me deitou suavemente no chão e eu senti uma vontade enorme de atacá-la, morder e arrancar todos os seus membros. Matá-la. Tudo o que eu pensava era nisso, mas quando vi alguns vampiros mais velhos que eu entrarem na sala junto com um feiticeiro, minha atenção se voltou para ele. Não sei como eu sabia de que raça era, apenas sabia.
Ele percebeu que meus olhos estavam nele e só então percebi que estava em pé. No momento seguinte o prendi pelo pescoço na parede. E sorri vendo o desespero em seus olhos. Suas mãos seguravam as minhas com força, tentando se soltar e eu o levantei do chão, rindo enquanto ele tentava me chutar sem sucesso.
Ouvi gritos e um dos vampiros veio até nós, me puxando pelo braço e jogando no chão. Eu o empurrei e ele acertou uma das estantes, derrubando algumas tantas coisas. Me virei para o feiticeiro novamente, este encolhido no chão, e corri em sua direção, sendo impedida por um vampiro que me era familiar. Zenon. Ele me pegou pelo pescoço e me jogou no chão e enquanto eu estava distraída pela sua força, ele me imobilizou enquanto Camille se aproximava e despejava algo em minha boca. Eu tentei me soltar dele, mas percebi que Camille estava me dando sangue.
Bebi desesperadamente enquanto Zenon me soltava lentamente. Esvaziei o recipiente e só então me dei conta do que eu havia feito.
"Você é burra ou o que?! Sua idiota! Por que não me ouve? Ai que raiva!" ouvi Aslan gritar dentro da minha cabeça. Ele tinha falado algo?
"Eu não ouvi você" Falei me sentando e olhando ao redor, meio encolhida enquanto minhas bochechas ardiam.
"Tá vendo! Isso tudo é culpa sua! Você quase matou um feiticeiro! UM FEITICEIRO!" Parando para pensar nisso, acho que Aslan havia me falado que ele era um feiticeiro, não tinha certeza.
"Desculpe." Zenon me olhava com pena enquanto Camille cuidava do feiticeiro. Pelo olhar de medo que recebi dele quando saiu correndo da sala acho que não terei uma boa reputação entre os de sua raça. O outro vampiro se aproximou de mim e deu um sorriso torto.
"Desculpe, desculpas não vão reverter a cena que você acabou de fazer!" Aslan estava realmente revoltado comigo. Sei que ele estava certo, mas nada me impedia de me irritar com aquele Dimon.
– CALA A BOCA, ASLAN! — Berrei, uma enxaqueca aos poucos se infiltrando em minha mente. Atraí a atenção dos outros vampiros e só então percebi que havia falado em voz alta. Merda...
"Tá, eu fico quieto, idiota"
– Aslan? — Perguntou Camille — Quem é Aslan?
– O Dimon dela — disse o outro vampiro. Me virei para ele, apavorada e curiosa. Como podia saber?
"Ele prevê suas respostas" Disse o Aslandiota, e revoltado completou "Ah, desculpe é pra eu ficar quieto, não é mesmo?”.
"Para de drama, caramba!" Esperei a reação de Camille.
Suas sobrancelhas estavam arqueadas e ela me olhava como se não acreditasse. Foi então que tirei Aslan do meu bolso e mostrei a eles. Ele pulou da minha mão e ficando do tamanho de um leão normal me ajudando a ficar em pé enquanto os vampiros ficavam sem fala.
E mais uma vez percebi que aquele não era o meu lugar.
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