Destino Irônico
16 Capítulo 15 - Passado
Notas iniciais
No capítulo anterior:
Ela caiu ajoelhada, vendo o demônio se desintegrar a sua frente. Rin embainhou a espada e andou lentamente até a garota.
— Luna... o que é isso? — Perguntou-o.
Tudo o que ela fez foi fita-lo com olhar aflito.
Capítulo Atual:
O silêncio pairou naquele túnel escuro, a única luz provinha das chamas azuladas de Rin que ainda queimavam em certas partes dos trilhos, porém a luz era fraca. Os olhos de Luna pareciam brilhar em meio a escuridão, literalmente.
— Eu ia revelar isso mais cedo ou mais tarde. — Disse a garota, pegando sua touca que estava caída ao seu lado.
— Como assim ia dizer mais cedo ou mais tarde? — Perguntou o garoto de olhos azuis. — Luna, conte-me. O que isso significa.
A garota fitou desconcertada o rapaz que continuava a olhá-la sério.
— Isso aconteceu a muito tempo atrás. Quando eu ainda era uma criança de uns sete anos.
— O que aconteceu?
— Por algum motivo eu conseguia ver demônios desde que nasci, mas não é o mesmo caso de Yukio, eu não tenho parentesco com nenhum tipo demônio, não que eu saiba pelo menos.
— Mas e as orelhas?
Luna suspirou e fitou o chão, mergulhando sua mente no passado.
— Por algum motivo, meu dom despertou curiosidade nos mais altos oficiais do Vaticano. Por esse motivo nunca conheci meus pais biológicos. Se conheci ou não, eu não me lembro. — Disse com certo pesar. — Os oficiais do Vaticano me acharam e decidiram manter-me em cativeiro para pesquisas científicas de alto sigilo. Eles faziam várias pesquisas em mim. Faziam-me deitar em uma maca metálica por horas e obrigavam-me a passar por coisas muito dolorosas. Um dia, depois de uma sessão de pesquisas alguma coisa os assustou, deveriam ter chegado a uma conclusão.
— Você soube o que eles descobriram?
— Não, nunca soube, mas foi aí que a loucura começou. As sessões tinham acabado, eu ficava apenas trancada em meu quarto todos os dias. Eu sabia que eles planejavam alguma coisa. Depois de uns três meses eles me chamaram para ir ao laboratório e eu fui, mas em vez de eu deitar em uma maca eu fui trancada em algo parecido com um caixão de vidro. Foi muito assustador.
— E o que eles fizeram? — Rin perguntou temendo a responda que seguiria.
— Eles injetaram um tipo de líquido em mim. Foi uma sensação horrível. Todo dia eu era chamada para aparecer naquele lugar e fazer o mesmo procedimento, isso durou uns sete meses. No decorrer do tempo as minhas orelhas e uma cauda cresceram.
— Cauda? Você tem uma cauda? — Perguntou pasmado.
— Sim, só que eu mantenho-a escondida, assim como você, não sou maluca de andar por ai com uma cauda! Posso continuar? — Exigiu já impaciente.
— Claro...
— Tudo bem, quando as orelhas e cauda cresceram eles continuaram com as sessões, e cada vez mais dolorosas. Foi quando eu ouvi uma conversa que eu não deveria ter ouvido. Eu descobri que o líquido que eles injetavam em mim era sangue de bakeneko, o que constituiu características felinas em mim. Isso é semelhante aquilo que Staz faz com Fuyumi, só que mais artificial. Quando eu ouvi isso eu simplesmente enlouqueci, perdi a cabeça. Tudo o que eu queria era sair dali, eles tentaram me segurar e me impedir, até tentaram me matar uma vez, mas consegui fugir, cheguei até a matar alguns dos que tentaram me prender. — Admitiu com pesar na voz. — Eu estava exausta, fiquei cansada e por fim apaguei. No dia seguinte me encontrei em uma casa desconhecida e foi quando eu encontrei os Hayato, o casal me adotou e eu vivi com eles, sim, eles souberam do que aconteceu comigo. Ao decorrer da minha infância eu brincava com pequenos demônios e cheguei a gostar muito deles, foi então que me sugeriram virar exorcista e eu aceitei.
Quando Luna terminou de contar sua história Rin ficou sem palavras. Não sabia o que dizer. Não se tinha o que dizer. Ele sabia o quão um “sinto muito” soaria vago, falso e idiota. Optou por não dizer nada até que uma dúvida acendeu em seu interior.
— Hey, Luna. — A garota o olhou. — Você não disse que usava uma foice?
Os olhos de Luna brilharam por um momento.
— Não achei apropriado para agora, além do mais, estou treinando também para ser uma Aria. Eu consigo invoca-la, assim como Shura consegue invocar sua espada. — Luna explicou com a voz um tanto quanto constrangida. Ela parecia corada na escuridão e seu semblante não era um dos melhores no momento.
— É melhor sairmos daqui por agora. — Rin levantou-se e estendeu sua mão para a garota que ponderou em aceitar ou não. Por fim deixou sua mão ser agarrada pelo moreno, uma leve corrente elétrica correu de sua espinha até sua cauda e sentiu-a arrepiada. Rin puxou-a para cima e ambos ficaram próximos. Próximos de mais...
Luna parecia entorpecida, ao seu redor tudo parecia um sonho distante quando sentiu a respiração do rapaz roçando com a sua. “Não era preciso um visco, era?” Pensou-a.
A última chama azul se apagou no mesmo instante que ambos os lábios se tocaram pela primeira vez.
=/=
Fuyumi estava sentada em um dos bancos da praça vendo os últimos resquícios de neve. Não que tivera derretido tudo, mas grande parte já fora transformada em água ou a própria umidade. Sua respiração quente produzia aquele típico vapor no ar.
Luna não estava lá e mais uma vez Fuyumi estava sozinha e só de pensar em Staz seu estômago parecia evaporar e sentia-se como, como... ela não sabia como se sentia, apenas que a sensação era tão torturante quanto aquela tensão em um filme de terror. Fazia você pensar que algo de horrível poderia acontecer e o medo do erro era constante.
Ela se pegou imaginando se ela poderia estar apaixonada por Staz, o que era bem provável. Não ficaria muito pasmada se fosse isso, uma vez que vivera grandes coisas ao lado do vampiro, mas no fim ele só a via como um prêmio, ou seja lá como ele a chamava. Uma vez perguntou-se se a única coisa que ele queria era seu sangue, tal pensamento fazia-a tremer.
Se fosse o caso de ambos estarem apaixonados quem dirá que daria certo? Ninguém... Ele é um demônio e ela seria uma humana se achassem um jeito de revivê-la.
— O que eu faço? — Grunhiu, jogando a cabeça para trás
— Poderia começar em parar de me evitar, talvez? — Fuyumi sentiu seu coração acelerar ao ouvir aquela voz rouca. Abriu os olhos e viu a imagem de Staz, de ponta cabeça. Ela levantou a cabeça quase que instantaneamente, sentindo seus curtos cabelos negros roçarem sobre seus ombros.
Staz sentou-se desleixadamente ao seu lado, com cada um dos cotovelos apoiados no encosto do banco. Já Fuyumi estava sentada ereta, com as pernas praticamente coladas, as mãos juntas e descansando em seu colo.
— Você ainda está me ignorando. — Fuyumi iria protestar, mas Staz não lhe deu chances. — Não se finja de desentendida, você não me dirigiu uma palavra desde ontem.
Ela não disse nada. Staz se endireitou no banco, fitando a garota.
— Fuyumi, olhe para mim. — A garota, hesitante, inclinou-se um pouco e olhou de soslaio para Staz, aquela noite pálida parecia contratar mais ainda as bochechas coradas da menina.
Staz estava confuso também, não sabia o que tinha feito de errado, na verdade, já sabia que a garota o evitava por causa de todo o rolo na festa de natal, aquilo fora realmente algo estranho. Quando a garota puxou-o pelo colarinho de forma tão bruta ele já se preparara para dar-lhe um xingão, mas os lábios da garota o impediram, então era como se o seu coração parasse de bater e seu estômago embrulhasse de uma maneira engraçada. Por mais estranho que aquela sensação fosse ele queria sentir de novo.
E foi isso o que ele fez.
Tomou impulso para sentir mais uma vez aquela sensação extasiante. Logicamente a garota se assustou com a súbita ação do vampiro, mas de certa forma, não deixou de se sentir certa felicidade. Aquilo significava que ele gostava dela, não? Ou era só uma vingança...
Sentiu Staz tomar uma distância para tomar mais fôlego antes de tomar novamente os lábios da morena, dessa vez aprofundando o beijo. Pedira passagem que também fora concedida e quando ambas as línguas se tocaram aquela sensação eletrizante tomou conta de ambos os corpos por alguns milésimos de segundos. Fuyumi nunca pensava que iria ter seu primeiro beijo com um vampiro otaku. Na verdade sempre se imaginou somente nos estudos.
Staz conseguia ser frio e ao mesmo tempo quente — muito quente— em vários sentidos. Era um pouco desajeitado no início, mas logo se ajeitou.
Ao se afastarem com a respiração um pouco pesada, Staz volta a sentar como estava antes. Fuyumi o olhava curiosa.
— Staz-san, você... — Sua voz morreu, não sabia como perguntar o que queria “você gosta de mim?” Queria dizer.
O vampiro inclinou a cabeça e olhou-a de soslaio, arqueando uma sobrancelha. Quando viu que ela não ia falar mais nada ele soltou um suspiro e levantou do banco.
— Vamos indo, você vai pegar uma gripe se continuar aqui fora. — Chamou o vampiro estendendo a mão para a garota que aceitou sem hesitar.
E, assim, de mãos dadas, eles seguem seu caminho.
Fale com o autor