Destino Indesejado
1 Destino Indesejado
Destino Indesejado
Nuvens carregadas juntavam-se sobre o navio. Hyoga, parado no convés entre outros passageiros no meio da tarde, avistou o céu e notou imediatamente que os deuses prometiam uma chuva pesada. O vento começava a carregar pequenos pertences das pessoas e a dá-los ao mar. Alguns não escondiam o desconforto com o balançar das águas, cada vez mais agressivas, gerando medo nos mais ansiosos.
Era o dia do naufrágio. Onde estava sua mãe? Lembrava que deveria estar naquela área, em algum lugar, se sua memória não falhasse. Lentamente percorreu com os olhos o seu entorno, buscando o casaco rosa que ela vestia. Precisava encontrá-la e tê-la por perto, a fim de salvá-la quando chegasse o fatídico momento. Em poucas horas, uma das ondas romperia o casco do navio, e apenas ela, na tentativa de encontrá-lo, seria levada para as profundezas. Isso não teria acontecido se ele tivesse permanecido ao seu lado.
Talvez estivesse em outra área. Correu para a popa e lá a encontrou, de mãos dadas para uma criança. Mas quem seria aquele? Ele era o filho dela, que deveria ali. Foi quando se deu conta de que era um adulto. O menino virou-se para ela e fez algum comentário, inaudível àquela distância. Apesar disso, Hyoga sabia o que estava sendo dito: que preferia ter permanecido na Rússia, pois tinha medo da mudança. E sua mãe, muito gentil, ofereceu-lhe seu rosário, dizendo que Deus o protegeria. Foi o que aconteceu, tal como lembrava.
A realização finalmente lhe alcançou a mente: estava sonhando. Temeu acordar, pois ainda queria estar com ela, por pior que a situação ficasse. Aproximou-se devagar e em silêncio, enquanto perguntava-se o que dizer. Sou eu, o Hyoga. Agora, um adulto. Eu estou bem e sou feliz. Só que Natássia poderia reagir de maneira inesperada, pensando que se tratasse de alguém mal-intencionado e mentiroso. Talvez sequer lhe desse atenção, como se ele fosse apenas um mero espectador de um filme. Além disso, o sonho poderia tomar um rumo completamente indesejado, o que ele esperava evitar, considerando o fato de que poucas vezes conseguia ter algum controle sobre aquelas loucas narrativas.
Estava prestes a alcançá-los. Já levantava a mão para tocar no ombro dela, mas acabou não executando o gesto, pois sua mãe virou-se para trás.
“Venha, Hyoga, vamos voltar ao quarto.”
Ao passar pelo adulto, fitou-o e disse, educadamente:
“Com licença.”
Ele deu passagem e não conseguiu reagir de nenhuma outra forma. Ela o via, ou não teria pedido licença. Ao mesmo tempo, não o reconhecia como seu filho, o que fazia todo o sentido. Afinal, conduzia-o pela mãozinha na direção das instalações internas, pois logo o tempo se tornaria assustador demais para uma criança.
Um calor no peito aflorou, ainda que não fosse reconhecido. O fato de ela ter-lhe dirigido palavras reencheu um espaço, esvaziado há muitos anos, levando-o a uma gigantesca vontade de chorar. Uma simples expressão padrão de educação trouxe de volta o amor materno que lhe dava tanto aconchego. Mesmo longe dos pais, Natássia o criara em meio a adversidades sem jamais reclamar ou sentir rancor dos que a desprezavam, ensinando-lhe a respeitar todas as pessoas.
Parado no mesmo lugar, enxugou os olhos. Se bem lembrava os fatos, ainda levariam mais algumas horas até os momentos de desespero. Até lá, ela o consolaria na estreita cabine, em meio a cobertores, contando histórias e cedendo-lhe parte de sua própria comida para vê-lo bem. Uma das táticas de Hyoga para obrigá-la a alimentar-se era recusar-se a comer até que ela também aceitasse um pouco. Certa vez, quando a viu trocar de roupa, ficou extremamente preocupado com sua magreza, pelas costelas evidentes, algo que não aparecia nos corpos de outras pessoas que eventualmente observava. Agora, adulto, achava que não se tratava de uma magreza exagerada, embora ela tivesse bastante dificuldade para comprar uma boa variedade de alimentos.
Mesmo tendo tempo, precisava ir atrás deles. Um possível plano para salvar sua mãe era ficar de guarda no corredor, a fim de interceder no momento do rompimento do casco e impedi-la de afastar-se dele criança. Assim, ela não ficaria procurando por ele no navio, enquanto todos eram conduzidos aos botes salva-vidas; um plano simples, mas que mudaria todo o seu futuro… ao menos no sonho.
Um homem próximo à cabine do capitão gritou. Hyoga correu para o convés e deparou-se com enormes ondas. Um raio caiu perto, deixando todos mais assustados. Estava começando cedo demais! Disparou para o quarto de Natássia, temendo chegar muito tarde. Procurava por ela, mas encontrou um homem — o mesmo de seu passado real — carregando seu eu criança, que não parava de chorar. Impediu-o.
“Espere! A mãe dele está procurando por ele!”
“Diga que ele está num dos botes!”
“Ela não vai acreditar! Deixe que eu o levo com ela!”
“Não há tempo! É melhor que você também tente se salvar!”
O homem desviou-se dele e continuou correndo. Hyoga não estava preocupado consigo, pois sabia que se salvaria. O problema era sua mãe, que jamais sairia de lá sem ele. Por um breve momento, desesperou-se: o que podia fazer para convencê-la? Uma mãe como ela só sairia de lá se tivesse certeza de que o filho estava a salvo. Pensou dizer que a levaria até o bote com o filho e a forçaria a salvar-se. Não era uma opção tão ruim, considerando que a prioridade era tirá-la daquele navio antes de ser tarde demais.
Conhecia aqueles corredores perfeitamente. Percorrera-os todos os dias, levando flores para o seu leito de morte, de modo que memorizara toda a arquitetura da embarcação. Correu até o quarto, chapinhando a lâmina d’água que começava a engrossar no corredor. Precisava tirá-la de lá a todo o custo. E seria fácil! Afinal, ele tinha o cosmos para protegê-la daquele desastre. Quando tudo terminasse, ela o abraçaria no bote salva-vidas e o cobriria com todo aquele transbordante amor. Tudo terminaria bem.
Abriu a porta. Lá estava Natássia, de pé, com a água gélida alcançando-lhe os joelhos.
“Mama! Precisamos sair daqui!”
“Hyoga? Você está bem? Estava te procurando, querido.”
“Eu estou, mas agora precisamos sair daqui.”
Ainda bem que o reconhecera! Assentindo com a cabeça, ela estendeu a mão para que a segurasse. Seria tão fácil por ser um cavaleiro. Hyoga entrou e aproximou-se, erguendo a sua. Com um pouco de poder, tudo acabaria. E, a centímetros de distância, algo o impediu.
Não era nenhum obstáculo físico. Afinal, sua mãe estava com o braço ali, pronto para ser agarrado e puxado para fora daquela tragédia. Seu cosmos queimava abundantemente, com força suficiente para tirá-la da pior das situações. Sua mãe reconhecera-o como tal, por isso não estava preocupada em procurar seu eu criança. Contudo, o problema encontrava-se em sua mente.
Confuso, retraiu o braço devagar. Disse, numa voz baixa e envergonhada:
“Não…”
E, para a sua surpresa, Natássia pediu, sorrindo:
“Cuide delas, meu filho.”
O nível da água começou a subir rapidamente, e ele não podia mais ficar lá. Olhou para ela uma última vez, deu as costas e saiu correndo. Com o cosmos, rapidamente escapou do navio, que afundava numa velocidade gradualmente maior. E sua mãe, com sua beleza angelical, novamente acabou naquele mesmo leito. A dor do luto retornou tão forte quanto no dia em que a perdeu, e ele gritou, desesperado. O que fizera?!
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“Hyoga! Hyoga!”
Acordou. Enterrado sob grossos cobertores, abriu os olhos. Estava em seu quarto, em Asgard. Freya estava sentada ao seu lado na cama. Fitou-a.
“Está tudo bem? Você começou a chorar e a gritar, querido.”
“Desculpe. Eu te acordei, não é? E você está tão cansada…”
“Eu fiquei é preocupada. O que foi? Teve um pesadelo?”
“Não sei se posso chamar de um pesadelo… Sonhei com o naufrágio, de novo. Mas, desta vez, eu estava lá, adulto, forte e crescido, com uma chance de ouro. Eu podia salvá-la, Freya.”
“A sua mãe?”
“Sim. Eu sei, é só um sonho… Mas pensei que podia salvá-la pelo menos lá. Mas… não consegui.”
“Muita coisa pode acontecer em um sonho.”
“Mas não havia nada que me impedia… além de mim mesmo.”
“Como assim?”
“Eu… eu decidi não salvá-la. Estou tão confuso.”
Sua esposa enxugou o resto de lágrima de seu rosto com a mão e beijou-o na testa.
“Não deixe que isso o perturbe. Foi só um sonho, e eu sei o quanto você ama a sua mãe. Sei que, se pudesse voltar no tempo, com certeza a salvaria.”
“Eu me pergunto agora…”
Um choro cortou a conversa. Freya soltou um suspiro e comentou:
“Acabei de trocar a fralda dela...”
Hyoga levantou-se molemente.
“Ela também deve ter se assustado. Eu cuido disso. Descanse, ok?”
Indo até o canto do quarto, espiou o berço, onde a bebê esperneava e berrava. Hyoga pegou-a nos braços e saiu do quarto para acalmá-la e dar um pouco de paz para a esposa. Não imaginava o quanto viria a amar aquele pequenino ser; sentia-se grato a tudo e a todos por poder ter chegado àquele momento em que teria sua vida estendida numa nova. Ainda bem que virara um cavaleiro. Ainda bem que conhecera Freya.
Verificou a fralda, que estava limpa. Ela já não mamava com tanta frequência quanto nos primeiros dias; portanto, não devia ser fome. Enrolou-a com o cobertor, pois era inverno.
“Eu te assustei, não é? Deve ser isso. Está tudo bem, filha. Nada vai te acontecer enquanto eu te proteger. É uma promessa."
Abraçou-a junto ao peito e reforçou:
“Eu te protejo desde antes de nascer, porque agora é a minha vez.”
Beijou-a na cabeça e continuou caminhando cuidadosamente pelos corredores do palácio, tentando acalmá-la.
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FIM
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