Destino Incerto
4 Vontade Insaciável
Notas iniciais
Meus olhos não conseguiam parar de acompanhar Jungkook. Minha alma parecia estar sendo sugada por ele pouco a pouco, e mesmo após descermos do brinquedo, minha caixa torácica ainda era esmurrada fortemente. Uma gota de suor insistia em escorrer pelo meu pescoço — mesmo estando completamente frio.
— Estar melhor agora? — pergunta o moreno ainda recebendo um feixe de luz da grande São Paulo em seu rosto, deixando-o ainda mais belo.
Não conseguia responder, continuava repetindo em minha mente as belas palavras que havia me dito a alguns instantes atrás.
— BRUNOOOO! — volto a mim com o grito exorbitante da ruiva.
— Olha o bicho vindo. — penso alto. Sabia que provavelmente era meus últimos minutos vivos após desobedecê-la e irmos sozinhos na montanha russa.
— Eu não disse para me esperarem? Vocês dois estão mortos. — seu olhar era tão amedrontador que fez até mesmo personagens icônicos de filmes de terror — como Chuck ou Jason — parecerem anjinhos perto dela.
— Tudo é culpa sua. — o coreano corta nossa discussão. — Se não fosse tão mandona desse jeito, Bruno estar sorrindo agora. — seu tom de voz mudou de um timbre calmo a um completamente serio em instantes. Por mais que fizesse pouco tempo que o conhecia, nunca imaginei que ele ficaria daquele jeito... Por mim? Jeon Jungkook estava preocupado com a minha felicidade agora?
— Eu só... — a ruiva fica sem palavras e franzi o cenho. — Sinto muito... — Sabrina pedindo desculpas? Meu deus alguém grava isso!
Somos interrompidos por passos atrás de nossas costas. Alguém me agarra pelos ombros, virando-me com força para que ficasse de frente a ele.
— Não acredito que até aqui encontro vocês. — parecia bastante empolgado.
— Tales? O que faz por aqui? — não era de seu feitio másculo vir em um parque de diversões.
— Vim trazer minha gata para um passeio. — murmura mostrando Lisa, que até então mantinha-se atrás dele. — Mas e vocês? Por acaso são um triângulo amoroso? — ele ri descaradamente.
— Para com isso amor, não vai adiantar nada você ficar zoando essas pobres crianças, além de que aquele ali nem vai entender o que está falando. — aquela garota me dava nos nervos.
— Escuta aqui o Barbie Girl, quer apanhar agora ou prefere que eu te busque nos teus sonhos? — chegou a salvadora da pátria. Sabrina nunca levava desaforo para casa, ainda mais um vindo da Lisa.
— Não fala assim dele! — as palavras saíram espontaneamente de minha boca. — Jungkook é muito melhor que vocês dois juntos, ok? — simplesmente não sei o que me deu, mas estava nervoso e senti que devia protegê-lo assim como ele me protegeu antes.
— Ei, ei! Calma aí galera, foi só uma brincadeirinha de mal gosto. — e bota mal nisso, hein Tales. — Foi até bom encontrar vocês aqui, amanhã vai rolar uma festa monstra lá em casa. Apareçam por lá, é um convite.
— Mas nem que a vaca tussa eu coloco meus pés de princesa na sua casa. — rebate a ruiva.
— Então não vai querida, quanto menos gente da sua laia melhor para nós. Não é amor? — agora era eu que queria decolar com minhas mãos e pousa-las na cara daquela garota.
— Quem disse que eu preciso de você em Sabrina? O que importa mesmo é meu brother Bruno ir. O resto seria só um brinde do cereal comprado.
— Venha Kook, antes que eu cometa assassinato aqui perto de todo mundo, deixa o traidor do Bruno conversar com o inimigo. — Sabrina puxa o coreano para longe, indo em direção a saída do parque.
— Caralho irmão, essa sua amiga aí é uma pantera prestes a atacar sua presa, tomaria cuidado se fosse você. Tu gosta dela desde a primeira série, desencana de uma vez.
— Chega Tales. — murmuro bem baixinho, não conseguia enfrenta-lo a altura, afinal era meu amigo apesar de tudo.
— Tá legal, sinto muito se eu te ofendi garotão. Mas vê se aparece em casa amanhã então.
— Certo, vou ver se consigo, mas agora preciso ir atrás deles. — digo já virando as costas sem ao menos me despedir, estava chateado por dentro e não consegui ficar por mais tempo olhando aquele casal repugnante.
Ando bem lentamente por todo aquele caminho cercado de papeis de bala e panfleto jogados pelo chão. Fico refletindo tudo o acabara de acontecer, não sabia o motivo pelo qual fiquei tão nervoso ao lado dele. Meu coração acelerou-se quando estávamos juntos naquele brinquedo e batia cada vez mais forte quando nossos olhos se encararam, era como se não tivesse mais nada ao meu redor além dele. Todo meu pavor se foi com suas ações, ele conseguiu me acalmar de uma maneira que ninguém jamais havia feito. Tentava achar respostas, mas parecia algo impossível, nada vinha na minha cabeça. Nada além de Jeon Jungkook...
— Ei Bruno... BRUNOOOO!
— Hã? — estava completamente distraído. Nem percebo quando chego a saída do parque. — Desculpe, estava refletindo algumas coisas.
— Pensando em como acabar a amizade com aquele panaca do Tales? Pois deveria! Ele não é boa companhia pra você.
— Me desculpe, mas ele é meu amigo desde sempre, não posso fazer isso.
— E eu também sou oras! Isso não basta? Além do mais, agora você tem o JK.
— Quem disse que eu tenho ele? Da onde você tirou isso Sabrina? — desespero-me sem motivo.
— Nossa, calma Bruno, foi só o modo de dizer.
— Esquece, vamos embora de uma vez.
— Meu pai está vindo nos buscar, só vai ficar difícil para levar o Kook. Ele disse que seu apartamento é longe de casa.
— Você mora em um apê? — pergunto surpreso.
Ele fica com uma cara de paisagem me encarando. Às vezes eu esquecia que ele mal entendia o português, quem diria as gírias dos adolescentes brasileiros.
— Sabrina, vamos! — o senhor Mouro chega de repente com seu Fiat Uno branco do ano de 2001.
— O que faremos rapazes?
— Deixa que eu o levo. Preciso andar um pouco mesmo, vai ser bom.
— Mas Bruno, está ficando muito tarde, pode ser perigoso demais.
— Ia ser ainda mais perigoso pra ele que não conhece nada. Não precisa se preocupar comigo. — abro um sorriso de ponta a ponta para deixa-la menos apreensiva.
— Me avise a hora que chegarem então, ok? — apenas aceno com a cabeça.
Depois de cumprimentar seu pai — e ela entrar no carro — eles partem, e aos poucos seu carro desaparece no meio de tantos outros naquela rua tão movimentada.
— Vamos? — Sorrio para ele, que me acompanha sem questionar.
Só conseguia prestar atenção nele e em seu olhar conforme íamos andando sem pressa nenhuma. O modo engraçado como ele parava depois de um tempo caminhando, para puxar mais um pouco de ar pelo nariz e soltar lentamente depois, deixava-me feliz e com uma vontade de rir ao mesmo tempo. O caminho cansativo, se tornava algo imperceptível estando com ele ao meu lado.
O moreno me assusta quando de repente cai ajoelhado no chão.
— O que houve? — pergunto desesperado.
— Nada, apenas meu pé doer um pouco. — retiro seus calçados e vejo como seus pés estavam vermelhos e com alguns machucados espalhados. Respiro profundamente e sorrio para ele.
— Suba, eu te carrego. Deveria ter me dito antes que eles estavam doendo. — digo já me agachando para que ele subisse nas minhas costas.
— Não precisa preocupar, eu conseguir continuar.
— Cala a boca e sobe logo. Quer perder seu pé?
O moreno cora suas bochechas, mas me obedece. Seus braços envolvem meu pescoço e eu seguro suas pernas com os meus, e nas mãos eu levava o seu par de tênis. Sinto sua respiração acelerar junto com as batidas de seu peito, afinal deveria estar completamente constrangido de ter que ser carregado por outro garoto.
— Descu...
— Apenas relaxa, tá? — murmuro calmamente antes dele terminar sua frase, para que assim se sentisse melhor.
Sinto ele respirar profundamente e soltar o ar perto das minhas orelhas, o que me faz arrepiar e nesta hora senti as famosas borboletas no estômago¹, após meu coração palpitar mais rápido também.
Continuo andando mais um pouco, colocando cada vez mais força para segura-lo. Meus braços já estavam se cansando após mais ou menos seis esquinas — não parava de contar para saber quantas ainda faltavam para chegar ao seu apartamento. Sinceramente o caminho parecia ter sido bem menor quando estávamos indo até o parque. Gotas de suor escorriam pela minha testa e desciam até o pescoço, sendo absorvidas pelo tecido de algodão da minha camiseta. Eu soltava o ar pela boca, conforme ficava mais cansado.
Felizmente, quando sinto que meus braços estavam a ponto de se deslocar, vejo a praça perto de minha casa, e não penso duas vezes para encontrar um banco abaixo das árvores que cobriam todo aquele lugar, acomodar Jungkook e depois esticar minhas pernas.
— Nunca mais... Vamos... Obedecer às ideias da Sabrina, beleza? Me lembre disso. — digo com umas pausas entre as palavras, para que conseguisse tomar um pouco de fôlego.
De repente meu olhar é cortado para um senhor que segurava uma espécie de pilar cheio de doces pendurados, provavelmente estava indo embora depois de um dia não muito produtivo de vendas. Não penso muito para chama-lo, afinal morria de fome e os barulhos em meu estômago estavam me deixando constrangido ao lado dele.
— Ei senhor, venha cá por favor! — ele se aproxima todo sorridente com seu chapéu de palha na cabeça. — Pode me ver dois algodões-doces por favor?
Puxo do meu bolso algumas coisas que sempre deixava jogadas lá. Entre elas estavam um ingresso de cinema que tinha ido com Sabrina na semana passada, uma borracha que havia encontrado no chão da sala de aula — e se tratando de material escolar, achado não é roubado como diz o ditado — além das minhas chaves de casa e o pedaço de papel que o moreno havia me dado para me ajudar com aquele exercício na aula de matemática, mas havia apenas uma moeda de um real. Fico decepcionado, queria comprar um para cada um.
— Senhor, me desculpe, mas vou levar apenas um. — digo entregando-lhe o dinheiro.
— Não se preocupe, ser pobre nessa sua idade não problema nenhum meu jovem, deve curtir a vida primeiro. Leve mais um por minha conta.
— Mas... — fico chocado com a bondade vinda daquele senhor.
Após isso ele vai embora, ainda mais feliz que antes. Aquilo também deixou o moreno abismado, ele nunca havia visto um gesto tão bonito como aquele antes.
Estava com tanta fome que aquele simples doce feito à base de açúcar, parecesse um prato enorme de lasanha — minha comida predileta.
— Espere! — o coreano me assusta de repente, principalmente por causa da sua pronuncia perfeita.
Ele aproxima-se de mim lentamente, fixando seus olhos em meus lábios e fazendo com que minha caixa torácica batesse tão forte que parecesse com uma bomba prestes a explodir a qualquer momento. Seu olhar era penetrante e parecia estar avaliando minha boca, o que deixa minhas bochechas coradas novamente. Por fim ele levanta seu dedão e desliza-o pelo canto direito do meu lábio inferior, indo até perto de meu queixo.
— Estava sujado ali. — porra Jeon, tanto drama pra me ajudar a limpar minha boca? E esse “sujado” aí no meio de sua frase? Brochou legal.
— Quer saber... — dou um pulo repentinamente que o faz assustar. — Você deveria dormir em casa essa noite, é logo aqui na frente mesmo. Está praticamente noite e é perigoso, além de tudo, amanhã é domingo então não tem aula, nem precisa do seu material escolar. E também...
— Está bem, eu dormir com você. — ele corta minha fala desgovernada, que apenas iam jogando cada vez mais palavras graças ao meu nervosismo.
Assim que terminamos de atravessar a praça, pego minhas chaves do bolso e abro a porta de casa. Minha mãe estava dormindo deitada no sofá e com a televisão ligada nas notícias noturnas. Resolvo acorda-la para que conseguisse se acomodar em seu quarto.
— Mãe, chegamos. — chacoalho seus ombros bem devagar.
— Olá querido, estava ficando preocupada. Liguei a tv para tentar me distrair, mas acabei pegando no sono.
— Estávamos até agora de pouco no parque mãe, desculpe pela preocupação. Aliás, tudo bem se o Jungkook passar a noite aqui? Está muito tarde para voltar para seu apartamento.
— Claro que não tem problema. Agora essa casa também é sua querido. — diz olhando para o moreno e passando as mãos em seus lisos cabelos.
— Nem eu sendo seu filho recebo tantos mimos assim. — brinco. — Mas obrigado, vamos subir e tomar um banho antes de deitarmos.
— Boa noite meus bebês.
— Fala sério, mãe!
— X —
Espero deitado em minha cama — com o lençol já todo desarrumado — e as pernas esticadas para que parassem de latejar um pouco. Estava distraído lendo um livro intrigante — chamava-se “Relatos de um gato viajante” — quando sou interrompido pelo barulho da porta do banheiro ao lado do meu quarto se abrindo, e ele aparecendo na minha frente, com uma toalha branca tampando da cintura para baixo, mostrando apenas seu tronco e as pernas. Meu coração começa subitamente a pulsar mais acelerado, aquelas gotas de água escorriam por todo seu abdome perfeitamente esculpido, com gomos em seu tanquinho — nem mesmo eu, com anos de academia conseguia ficar com uma aparência perfeita como a dele. Minha atenção estava unicamente voltada para Jungkook e sinceramente não conseguia disfarçar, mesmo ainda sem saber o motivo. Ele era perfeito, desde os fios morenos escorridos pelo rosto agora molhados e com um brilho absurdamente demarcado, até a ponta dos seus pés. Engulo um seco, realmente minha vontade era de abraça-lo e poder tocar naquele corpo angelical. Sim, ele era como um verdadeiro anjo, e estava bem em minha frente.
— Estar bem Bruno? Sou tão feio assim para ficar me encarando desse jeito? — o moreno quebra o silêncio repentino que se formou no cômodo.
— Não nem um pouco. Você é perfeito... — digo sem pensar.
— Aish! Achar que realmente bateu a cabeça, como Sabrina disse. — nesse momento percebo a merda que tinha dito.
— Quero dizer que é linda essa toalha que está usando, não acha? — engulo um seco tentando disfarçar, e aquilo desce raspando em minha garganta.
— Bruno, você é engraçado! — o coreano ri baixinho com seus lábios serrados e seus olhos redondinhos, feito um bebê. Jungkook era como um neném. Meu deus Bruno, vira macho, olha as merdas que você está pensando!
— Vamos dormir logo de uma vez, está bem tarde. — digo já apagando o abajur que havia colocado em cima da minha cômoda do lado esquerdo.
O moreno fica parado em frente aos pés da cama me observando, o que me deixa sem entender nada.
— O que está fazendo aí seu doido?
— Onde devo deitar? — pergunta pensativo e novamente bagunçando seus cabelos, eu adorava quando ele fazia isso.
— Na minha cama, onde mais seria? A menos que queria dormir na banheira. — lanço um sorriso sarcástico o que o deixa irritado, percebo pelo biquinho que ele faz com a boca.
— Junto de você? — questiona e suas bochechas avermelham no exato momento.
— Como se não tivesse feito isso antes, não é? Para de enrolação e deita logo. Prometo não te assediar durante a noite. — cruzo os dedos das duas mãos bem em sua frente, enquanto lanço outro olhar sarcástico.
— O que ser isso? — pergunta curioso.
— Melhor nem querer saber... Não devo poluir sua mente em tão pouco tempo aqui no Brasil. Venha de uma vez e chega de perguntas! — estava completamente embargado pelo sono que não conseguiria ficar conversando por muito mais tempo.
Jungkook — mesmo acanhado — finalmente senta e se aconchega no colchão da minha cama — que não era assim tão confortável — mas era o que tinha. Quando deita eu o cobro com o cobertor azul que tinha pego em cima do meu guarda-roupa enquanto ele tomava banho, fazia frio e eu não queria que pegasse um resfriado por minha culpa.
Antes de dormir, fico pensando sobre o que havia acontecido na roda gigante horas atrás, no fato do moreno ter conseguido me acalmar com seus gestos. Só queria me entender melhor, entender o que era aquele sentimento. Depois de alguns minutos, finalmente consigo pegar no sono, com meus olhos fechando pouco a pouco.
— X —
Acordo assustado com um barulho que parecia de algo batendo, mas não consigo identificar o som. Olho para os lados — mas o escuro me impede de ver qualquer coisa — e rezo para que não seja nada sobrenatural, porque modéstia parte eu odeiava qualquer coisa que envolva o capiroto e afins.
Depois percebo algo suspirando e se mexendo perto de mim, era ele. Jungkook estava tremendo de frio, seus dentes rangiam — esse era o barulho que me havia me acordado.
Foi então que nesse momento eu penso se ele não estaria sentindo falta de sua casa, nessas horas sua mãe provavelmente lhe traria mais cobertores ou até mesmo um chá bem quente para se esquentar.
Sem perceber, boto um sorriso bobo no rosto, encarando-o enquanto se encolhia de frio. Não penso duas vezes em abraçá-lo e tentar esquentá-lo com meu calor. Muitos pensariam coisas erradas numa situação dessas, dois garotos dormindo juntos abraçados... Mas sinceramente eu não estava nem um pouco preocupado, senti que deveria fazer isso, e fiz.
Em pouco tempo, ele para de ranger os dentes e de tremer. Se solta novamente na cama, mas eu não conseguia parar de abraçá-lo. Por mais que quisesse, meu corpo não me obedecia. Jungkook realmente havia feito algo para que ficasse daquele jeito, eu só pensava nele, unicamente nele.
— X —
Ele passou novamente a manhã em casa, já ficara viciado em café preto em tão pouco tempo — gostava do mais forte o possível — e até ajudou minha mãe a preparar a refeição. Fico apenas o observando e me perguntando se ele poderia ter percebido em algum momento que eu abraçara durante a noite passada, mas preferi nem mesmo tocar no assunto, seria um tanto quanto constrangedor para nós dois.
Não queria que ele fosse embora, a companhia dele estava me fazendo bem. Inventei que gostaria de ver um filme de terro durante a tarde, mas que não tinha coragem de fazê-lo sozinho, então consegui convencer o moreno a ficar mais um pouco.
Quando o sol resolve desaparecer em meio ao fim da tarde, me preparo para ligar a televisão — depois de ter preparado uma tigela de pipoca caramelizada — me acomodo no sofá de veludo amarelo de três lugares na sala, mas para minha infelicidade, somos interrompidos pela campainha que soava desesperada.
— Vocês ainda não estão prontos? — era Sabrina, mas não sabia que papo era aquele.
— Pronto para quê, minha filha?
— A festa do Tales, ora. — ela responde com clareza.
— Ué, não era você que jamais pisaria em solo inimigo? — brinco, mesmo confuso.
— É claro que eu estava brincando né seu babacão! Se eu não for, mostro que sou fraca, e assim aqueles panacas vencem o jogo. Então vamos logo nessa caralha. — ok, sem duvidas Sabrina era a garota mais doida do universo.
— Beleza, mas tem um pequeno problema. Bem pequeno, coisa pouca.
— Desembucha de uma vez, preciso preparar meu socão pra dar na cara daquela Polly Pocket falsificada. — essa com certeza era a Lisa, porém adorei o apelidinho.
— São seis horas da tarde, a festa começa as oito, daqui duas horas.
— Merda! Acho que empolguei demais. — ela franzi o cenho.
— Como sempre. — digo.
— Cala a boca, vamos ver meu querido Freddy Krueger, liga aí sua Netflix. — já foi se jogando no sofá e tirando as botas que calçava, se achando a dona da casa. culpa da minha mãe de dar essa liberdade toda.
— Jungkook e eu vamos subir e tomar uma ducha então, pode ficar apreciando seu amado enquanto espera a gente. — ela nem deu bola, estava entretida demais para isso.
Minhas roupas novas estavam acabando de tanto que as havia emprestado para Jungkook, mas eu nem me importava, ficavam melhores nele do que eu mim mesmo. Deixei ele escolher dessa vez, o moreno pegou uma calça jeans — praticamente branca — e uma camiseta vinho, e calçou os seus tênis que usara para ir até o parque no dia anterior.
— Mãe, vamos indo até a casa do Tales, ok? — digo ao descer as escadas depois que nos trocamos.
— Se cuidem meus queridos. — ela se preocupava com cada um de nós, o que no fim era legal, saber que meus amigos eram bem vindos em casa.
Ao sairmos pela porta principal, me deparo com o carro do pai de Sabrina estacionado na frente de casa, bem colado com a guia, e o senhor Mouro aguardava encostado no poste de energia ao lado de minha casa.
— Cuide bem dele Bruno, mesmo sendo velho é o único que temos. — ele ergue sua mão e nela segurava as chaves de seu carro.
— Mas senhor, eu não posso...
— Não aceito não como resposta. Faz tempo que você não dirige, sua carta de motorista vai enferrujar na carteira desse jeito. — não conseguia acreditar como aquele homem era tão bom pra mim. Era o máximo da figura paterna que tinha perto de mim desde que meu pai havia ido embora, ele confiava em mim a ponto de me deixar sair com sua filha sem se preocupar, sabia que não faria nada de errado. — Só não beba, se o fizer eu ficarei sabendo.
— Certo senhor, muito obrigado. Muito obrigado mesmo. — as palavras tardaram a sair, ainda não tinha caído a ficha de que ele me confiaria seu carro.
Monto naquele carro e sinto uma nostalgia de estar colado no banco do motorista depois de tanto tempo. Assim que tirei carta, pude dirigir apenas umas duas vezes, depois tivemos que vender para cortar gastos que eram necessários para os remédios de minha mãe. Agora estava podendo sentir de novo aquele incrível sensação. Coloco a chave na ignição e ligo o carro. Sentir minha mão tocando o volante novamente era uma sensação tão boa. Depois de muito tempo curtindo o momento, finalmente seguimos nosso caminho.
A casa de Tales era longe da minha — um pouco depois do colégio, subindo umas cinco quadras. Chegamos em mais ou menos trinta minutos, e já dava para ouvir aquela música eletrônica estalando de muito longe. Não curtia muito esse tipo de som, quase não tinha letra, e o pessoal ficava só pulando que nem uns doidos com aquela batida que me dava dor de cabeça.
Sua casa era espetacular — não esperava menos da construção onde o prefeito da cidade, senhor Agreste e sua família moravam. Era toda formada de retângulos simetricamente esculpidos pelos melhores pedreiros da região — e eram segurados por pilastras de azulejos imitando pedras brilhantes. Tinha uma pequena varanda cercada por muretas de vidro, e era perto do quarto de Tales. O jardim na entrada era sempre de um verde vívido, com tantos funcionários para manter aquilo em ordem seria de se estranhar se não estivesse tudo em perfeito estado. Mas o que mais chamava a atenção era a gigantesca janela de vidro do lado esquerdo, onde ficava a sala da família — e que sala, sempre que ia jogar alguns games na casa dele, me espantava com o tamanho dela. Nos fundos, além de mais cômodos secretos que não podiam ser vistos do lado de fora, havia uma enorme piscina, onde Tales e eu costumávamos brincar quando mais jovens.
Depois de apreciar mais uma vez aquela magnífica construção, tocamos a campainha, mas duvidava de que alguém fosse escutar com aquela barulheira toda, mas para minha surpresa, Lisa — a namorada chata do meu amigo — atende.
— Olha amor, a gentalha chegou! — grita para que ele ouvisse de longe. Aquilo estava cheio de gente, até mais que o próprio colégio.
— Fala brother! — ele aparece no meio daquele pessoal e vem me dar um abraço. — Achei que sua cachorrinha não viesse, ela quase me mordeu no parque. — juro que se não fosse meu amigo, ele estaria morto.
— Bruno, me segura. — a ruiva arregaça as mangas e serra os punhos. Por sorte Jungkook a segura com toda sua força.
— Calma galerinha, vocês não têm um pingo de humor não? Venham e curtam de uma vez. — entro primeiro, tinha medo de Sabrina cometer um assassinato se o fizesse.
As decorações internas eram de se invejar, repleto de quadros com molduras banhadas a ouro, vasos de tamanhos diversos, abajures com várias cores que chegavam a iluminar mais que um poste de rua, espalhados por todos os cantos. Eram milhares de detalhes e decorações que até os olhos chagavam a doer se fosse tentar observar tudo. Felizmente já conhecia praticamente todos os cantos daquela casa, antes de Lisa entrar na vida de Tales, ia quase todos os dias.
— Ainda de queixo caído com minha casa Bruno? Veja seus amigos, não conseguem parar de babar. — olho para trás e vejo que ele tinha razão. Jungkook estava com os olhos brilhando tentando observar os detalhes do lugar, enquanto Sabrina mal se movia e mantinha um olhar fixo nos potes enormes de chocolates de países diversos que os pais do garoto colecionavam.
— Onde estão as bebidas? — pergunto, mesmo lembrando da promessa que tinha feito ao pai da ruiva. — Preciso apagar umas coisas da minha cabeça. — queria ver se assim eu tirava um pouco o coreano da minha mente, já que ele era tudo que eu pensava.
— Lá na cozinha. Vai logo e depois volte aqui na sala, vamos jogar “verdade ou consequência.” — modéstia parte, eu odiava esse jogo com todas as minhas forças, mas estava tão acabado e confuso psicologicamente que apenas aceito.
— Meu deus, olha aquele sofá! — Sabrina nem sabia disfarçar seu entusiasmo. — Bruno, me traga uma vodka que eu vou esperar bem ali naquele acolchoado de veludo vermelho.
— Quer que encha o copo? — pergunto para evitar receber um soco gratuito.
— Que copo o que seu doido, me traga a garrafa inteira, quero chapar por bosta hoje. — eu só estava chorando por dentro sabendo que provavelmente teria que cuidar de uma bêbada.
— Vou com você. — Jungkook afirma, já ficando atrás de mim para me seguir.
Preparo um copo de caipirinha para nós, enquanto ele segura a garrafa para Sabrina. Nesse momento realmente queria perguntar o que os adolescentes costumavam fazer para se divertir na Coreia, uma vez que a maioria aqui no Brasil gostava de encher a cara, mas acabei ignorando minha curiosidade.
— Quer que eu deixe fraco para você? — pergunto lançando um olhar de sarcasmo.
— Isso é um desafio? — ele torna o olhar com a mesma expressão que a minha. — Poder botar mais álcool nisso! — ok, se era o que ele queria, quem é Bruno para poder questionar.
— 1, 2, 3... — ambos viramos uma dose de tequila, após termos bebido a nossa caipirinha, sabia que isso não ia prestar, mas queria me divertir um pouco. — Mais uma? — pergunto ao moreno que já cambaleava um pouco.
— Parar por aqui.
— Seu mariquinha! — brinco, e dessa vez sou eu que bagunço os seus cabelos. Caralho que cabelo macio, queria saber que tipo de bruxaria era aquela?
Depois da bebedeira, resolvemos voltar para a sala. O corredor que ligava os cômodos estava lotado de adolescentes caídos no chão — provavelmente haviam abusado do álcool e estavam tentando se recuperar. Os que não estavam assim, estavam se beijando, um beijo mais estranho que o outro — mas admito que gostaria de estar no meio deles. O cheiro de bebida alcoólica naquele corredor era tão forte, que meu estômago começa a embrulhar só de sentir o cheiro.
Somos interrompidos de repente por uma pessoa, que puxa o coreano pelos ombros, o fazendo virar para trás. Nunca tinha visto aquele rapaz antes, mas ele também tinha olhos puxados, assim como Jungkook.
— Então você é o coreano novo da escola? — pergunta o loiro.
— E você quem é? — rebato confuso.
— Meu nome é Park Jimin, o mestiço. — ele não era muito alto, quase da minha altura. Tinha um porte físico forte e os olhos puxados também. Mas o que chamavam mais atenção naquele garoto, eram seus lábios carnudos.
— Como assim mestiço. — o moreno pergunta confuso.
— Minha mãe é brasileira, e adora tudo aqui, desde o carnaval e as comidas, até a correria para o trabalho logo pela manhã. Meu pai é coreano, e eles se conheceram na Coreia do Sul. Também nasci lá, mas vim para o Brasil com dois anos de idade, então quase não lembro de nada, até me confundo um pouco para falar o coreano, mas enfim, é legal saber que agora eu não estou sozinho, e que tem um outro camarada igual a mim.
— Ohhh! Ficar feliz de saber que posso contar com mais alguém.
— Seu português é engraçado. Se precisar, posso te dar umas aulas extras. — diz piscando os olhos e colocando suas mãos imundas no ombro de Kook.
— Gomapseumnida. Eu adorar que me ajudasse. — não Jungkook, você não adoraria...
— Ele já tem a mim para que o ajude, muito obrigado pela sua gentileza viu. Agora temos que ir, foi um prazer te conhecer! — Faço questão de enaltecer essas palavras em um tom mais elevado. Depois disso pego o moreno pelo braço e o arrasto de volta, deixando o outro confuso olhando a gente se afastar.
— Por que demoraram tanto? — a ruiva mantinha o cenho franzido.
— Estávamos curtindo, apenas isso.
— Safadinhos.
— Vai se foder. — adorava o modo como nos tratávamos.
Entrego a garrafa de vodka para que parasse de resmungar. Foi o bastante para que seus olhos brilhassem e ela a agarrasse com toda sua força. Estava tão feliz como se fosse um bebê ao receber mamadeira.
— Meu amor, mamãe tá aqui, nunca vou te soltar. — falava com a garrafa como se realmente fosse sua filha.
— Certo galera, vamos começar o jogo! — Tales interrompe a todos. — Quem quiser participar cola aqui comigo que é sucesso.
Todos sentaram no carpete branco de veludo no centro da sala, formando uma roda de adolescentes bêbados e barulhentos — minha cabeça também girava feito carrossel, não deveria ter virado tantas doses de tequila. O dono da casa pega uma garrafa vazia na cômoda ao lado da sua televisão — uma das muitas espalhadas pelos lugares daquela grotesca construção.
— Let's start guys! — ele adorava jogar na cara dos outros que era fluente em inglês, fora que também sabia francês e japonês.
Tales gira a garrafa abruptamente, e ela pega uma velocidade que demoraria para parar, apenas aumentando a minha tensão — como já disse — odiava aquele jogo.
— Sabrina e eu. Olha só como é o destino. — tantas pessoas jogando e ela tinha que cair justo com o Tales?
— Aí, fala logo o que você quer garoto, obvio que não vou ser fraca e escolher verdade. — sinceramente estava preocupado com ela, preferiria que escolhesse verdade do que desafio, sabia como meu amigo era afinal.
— Vire essa garrafa de vodka inteira em menos de dois minutos, vou cronometrar no relógio.
— Sabrina não fazer isso, vai morrer. — pelo menos o Jungkook queria botar um pouco de juízo na cabeça daquela menina.
— Cala a boca coreano, isso é coisa mais fácil do mundo. Foi o desafio mais fácil que já recebi, fez isso justo pra mim? A boca de litro em carne e osso? — e lá foi ela, estava completamente preocupado, e essa tensão só crescia conforme o liquido escorria pela sua garganta. Aos poucos a vodka da garrafa foi acabando, até se reduzir a pó, e isso em menos de um minuto, Sabrina não brincava mesmo em serviço.
— Você está bem? — pergunto morrendo de medo da resposta, ela para de repente, suas pupilas dilatam e seu corpo paralisa. Até que do nada, em um movimento súbito, ela vira sua cabeça para mim e manda um sorriso assustador, sem dúvidas ela estava em outro planeta naquele momento.
— BRUNOOOOO, MEU AMIGO! — depois de dizer essas palavras, a garota cai dura no chão, sem mais nem menos. Era como alguém que havia se jogado na cama depois de um dia longo e cansativo de trabalho.
— Me ajuda a levantá-la. — digo ao moreno que estava sentado em minha frente.
— Nada disso brother, o jogo tem que continuar. — Tales me interrompe, e eu não conseguia desobedecê-lo. Mais uma vez a garrafa é girada, dessa vez Lisa perguntaria a seu namorado.
— Verdade ou desafio, meu amor? — ela sorri apaixonada.
— Claro que desafio né. Espero que seja arrebentar com esses seus lábios, deitados na minha cama. — ele morde os seus de tesão, provavelmente depois da festa era exatamente isso que fariam no fim das contas.
— Fume uma comigo. — franzo o cenho ao ouvir aquilo. Mesmo sabendo do que se tratava não queria aceitar o fato de que meu amigo de infância tinha se atolado em drogas, mesmo que já tivesse ouvido isso de algumas pessoas, no fundo, desejava que fosse mentira.
— Não acredito que faz isso Tales. Seus pais ficariam decepcionados com você. — digo com a voz seria.
— Que bonitinho, meu amigo se preocupando comido... Relaxa cara, eu sei me cuidar. Além do mais, meus velhos estão viajando a dias, então dá tempo do cheiro ir embora. — ele bate nos meus ombros para que eu entendesse que estava tudo bem, mas isso não funcionava mais, não tínhamos mais cinco anos de idade.
E lá foram eles, detonando-se nas drogas. Só torcia para que ele não tivesse se envolvido com pessoas erradas. Era meu maior medo.
— Próxima rodada. — diz uma garota que estava entre nós, e dessa vez quem giraria era aquele tal de Jimin, com quem tínhamos nos esbarrado a algum tempo atrás. Me espanto quando ela para bem na minha direção, a maldita garrafa.
— Eu quero verdade. — digo rapidamente, estava com medo dos desafios que viriam depois de ver os anteriores.
— Ah para de ser mole Bruno, não vou pegar tão pesado assim, eu mal te conheço. — diz o louro.
— Prefiro a verdade. — insisto.
— Nada disso, eu vou escolher um desafio. — droga, eu estava fudido. — Já sei, você deve ficar sete minutos no armário de casacos com... — ele encara todos os jogadores daquela roda, parecendo avaliar um por um, da cabeça aos pés. — Com o Jungkook.
Meu coração palpita no exato momento que ele diz seu nome, nossos olhos se encaram assustados. Minhas pernas tremiam enquanto me levantava para cumprir o dito por aquele loiro. Depois de algum tempo nos encarando, entramos no armário — perto de onde a roda estava — onde Tales e sua família guardavam uns casacos e outras coisas, como alguns guarda-chuvas.
— Vou apagar a luz e depois que o tempo acabar eu obro a porta, ok?. — Jimin grita já fechando a fechando lentamente.
Ficamos parados um de frente para o outro, tentando enxergar algo diante de nós — o que estava praticamente impossível, apenas sentíamos a respiração um do outro.
Sentia meus pelos se arrepiarem, nossas respirações aceleravam conforme o tempo ia passando. Olhava para o horizonte negro que formara graças a luz apagada.
— Que coisa não! As festas lá da Coreia não devem ser assim tão chatas. — digo para quebrar o silêncio.
— Na verdade, quase nem ter festas assim. Os jovens de lá vai mais em baladas.
— Vão...
— O que?
— Você falou errado outra vez. — solto um sorriso bobo, mesmo que ele não pudesse me ver.
— Aish!
— É tão fofo quando fala isso. — ele torna a ficar calado depois do que eu digo.
Seu perfume — apesar de ser o que eu havia emprestado — impregnava em meu nariz pouco a pouco e me deixava todo arrepiado. Neste momento ali no escuro, flashbacks apareciam diante de mim, desde o momento em que nos conhecemos até o de agora. Ele tinha sido um garoto tão bom, cuidando de mim mesmo que eu tenha me comportado como um verdadeiro babaca no começo. Ele me fez rir verdadeiramente, e sorrir sem ter que fingir. Eu achava que estava ficando louco, mas ele me fazia tão bem. Não conseguia mais imaginar um mundo onde Jeon Jungkook não existia, onde ele não estivesse do meu lado.
Subitamente dou um passo para frente, e deslizo minha mão pela sua cintura — mesmo não enxergando, sentia seu corpo com a palma dela. Fecho meus olhos e meu coração esmurra minha caixa torácica como nunca havia acontecido até então. Sinto meus lábios tocarem os seus lentamente e minha mão ser levada para segurar seu pescoço e sentir novamente aqueles cabelos tão macios que pareciam de outro mundo para mim, era sufocante senti-los sem poder fazer nada.
Aquela vontade insaciável de algo querendo se soltar dentro de mim finalmente foi saciada. Eu havia beijado aquele coreano. Beijado Jeon Jungkook.

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