Destino Incerto
10 Minha Promessa
Notas iniciais
Meus olhos abriam aos poucos. A luz que batia no meu rosto, estava me incomodando. Quando finalmente acordo todos ali me olham de cima — eu estava deitado, mas não conseguia me lembrar direito o que havia acontecido. Me lembrava de sangue, de um galpão azul e completamente enferrujado, e dele... Jungkook.
— Bru... Bruno! – era a voz da ruiva, que se espanta ao me ver. — Você acordou, eu não acredito. — ela me abraça de repente, e eu ainda sem entender tudo aquilo.
Jimin e o pai dela também estavam lá, contentes ao me ver. É quando me dou conta de que estava deitado sob colchas brancas, e as paredes também eram dessa cor sem graça. Por algum motivo, estava no hospital, mas ainda sim não fazia ideia do porquê.
— O que houve? — pergunto de repente.
— Acho melhor não forçarmos suas lembranças ainda Bruno, você acabou de acordar. — a ruiva pela primeira vez tinha uma voz triste e não aquele cheia de energia como sempre.
— Não, eu quero saber! O que eu estou fazendo aqui? Cadê o Jungkook? — nesse momento percebo que o moreno não estava por perto.
— Tudo bem, eu vou te falar... Por favor, não surta ok?
— Sabrina, acho melhor não! — Jimin interrompe.
— Ele não vai desistir até que eu conte tudo, não adianta tentar impedi-lo. — ela rebate.
— Rápido, me fala logo, você está me assustando. — digo.
— No galpão, Tales estava armado e fora de si, sendo completamente controlado pela raiva. Depois que desamarramos nosso amigo, ele apontou a arma para Jungkook. Você simplesmente pulou na frente e o tiro te atingiu.
— Sim! Disso eu estou me lembrando, mas cadê ele Sabrina? Aonde está o Jungkook?
— Calma, por favor, deixe-me terminar. — ela insiste. — Felizmente o tiro pegou de raspão, mas fez com que você entrasse em coma. — sua expressão muda completamente.
— Em coma? Como assim? Para de fazer piadas em uma hora como essas Sabrina! Deixe que eu mesmo procuro por ele. — nesse momento tento me levantar da cama, mas Jimin me impede, estava com alguns aparelhos espetados em mim então não poderia me mover.
— Não estou mentindo Bruno, sei que é difícil aceitar, mas essa é a verdade. Já se passou uma semana desde o ocorrido. Jimin e eu denunciamos o Tales, agora ele está no reformatório e seu pai cuidando de um monte de processos. Aquele canalha ainda conseguiu sair ileso de tudo.
— Uma semana? — não conseguia acreditar em tudo aquilo. — Tá, mas cadê ele? Me fala Sabrina! Cadê o Jungkook?
— Mantenha a calma, eu imploro... — ela parecia relutar em me dizer. — A mãe dele descobriu de tudo, que ele foi espancado e quase morreu por um tiro. Ela mandou seu meio irmão vir buscá-lo o quanto antes, eles saíram daqui não fazem nem vinte minutos.
— O que? Não... Não é possível! Para de brincar Sabrina... Me diz que isso é mentira, por favor! — eu implorava para que tudo aquilo não fosse verdade.
— Queria poder dizer que é tudo mentira, mas prometi nunca mais mentir pra você. — ela estava completamente abalada. — Eles estão retornando para a Coreia do Sul.
— É mentira... Eu vou acreditar nisso! — digo confuso. Ainda estava atordoado, tinha acabado de acordar e eram muitas informações vindo de uma única vez.
— E tem mais uma coisa... — ela muda sua expressão novamente, e dessa vez vejo pequenas lágrimas escorrendo em seu rosto. Nós dois não conseguimos manter a nossa promessa no final das contas.
— Me fala. — já estava me preparando para o que poderia ser em seguida.
— A sua mãe... — ela não termina a frase.
Meu mundo acabou ali. Não conseguia mais raciocinar direito, imaginando que aquilo tudo não passasse de um maldito pesadelo. Mas as expressões nos rostos deles ali ao meu redor eram absurdamente reais. Pela segunda vez sinto as lágrimas escorrerem pelo meu rosto sem que conseguisse controlar, a imagem de mamãe surgia na minha frente e as lembranças iam passando diante de mim.
Não.
Isso era impossível.
Minha mãe não podia estar morta, jamais...
Todos choravam. Sabrina, Jimin, sr. Mouro. Nesse momento eu sentia minha vida perdendo os sentidos aos poucos, a cada lágrima que escorria era um pouco da minha alma que ia embora.
Em súbito, corro dali — me desprendendo de todos os aparelhos — e ando pelo corredor daquele maldito hospital que parecia não ter fim, com aquele roupão enorme, que era dado aos pacientes, querendo se desprender do meu corpo conforme corria sem rumo. Subo as escadas e vou até o térreo, o único lugar que conseguia respirar fundo. Eu simplesmente caio ajoelhado no chão e não consigo conter as lágrimas que escorriam sem sessar.
— Mamãe! — eu gritava aos céus, na esperança de poder vê-la pelo menos uma ultima vez.
Não conseguia aceitar o fato de que quando ela se foi eu não estava lá. A hora que ela precisava do filho em seu lado, eu estava em uma droga de cama de hospital sem conseguir acordar. Meus punhos serrados socavam o chão de concreto do térreo com força e logo eles começam a sangrar. Eu não pude ver minha mãe indo embora e isso era irreversível, pra mim era impossível aceitar esse fardo.
Sabrina vem correndo preocupada e também com lágrimas em seu lindo rosto. A ruiva se ajoelha e me encara por alguns segundos antes de me abraçar.
— Bruno, eu sei a dor que você está sentindo, e sei que não vai passar por mais que o tempo corra. Mas eu quero que saiba que eu estou aqui por você, jamais vou te deixar sozinho. Divida sua dor comigo, mas por favor lute, não desista. — sinto as gotas do seu choro pingarem naqueles trapos velhos hospitalares.
— X —
Ficamos ali por quase uma hora. Abraçados e chorando, quebrando nossa promessa. A dor que eu sentia era inexplicável, havia perdido duas pessoas importantes da minha vida e não consegui fazer nada para impedir.
— Sua mãe estará ao seu lado para sempre Bruno. Ela não iria gostar de ver seu filho desse jeito, ainda mais depois das ultimas palavras que ela disse pra você e da promessa que fez a ela.
— Eu só queria ter ficado do lado dela...
— Tenho absoluta certeza de que ela entenderia, sua mãe era uma das pessoas mais maravilhosas desse mundo. Vamos continuar juntos, por ela.
— Obrigado, Sabrina... — era tudo o que eu conseguia dizer. — E o corpo?
— Vai ser enterrado amanhã. Você precisa cuidar de uns papéis.
— Não sei se sou forte o suficiente para isso...
— Eu vou estar ao lado Bruno, se você achar que vai fraquejar, te darei mais forças para continuar. Eu prometo. — ela da um sorriso sincero para mim, que por milésimos de segundos consegue me acalmar um pouco.
— Queria que ele estivesse do meu lado também... Perdi os dois. — digo repentinamente.
— Então mude isso! — a ruiva diz em súbito.
— O que você quer dizer?
— Como eu já te disse, eles saíram a pouco tempo atrás. Se você for agora, acho que consegue alcançá-los a tempo, antes do avião decolar.
— Você acha?
— Sim, eu acho. Mas a questão aqui é... Você tem cabeça pra isso? — ela pergunta com uma expressão seria no rosto. — Digo porque estou preocupada.
— Eu perdi mamãe sem poder fazer nada, e isso vai me incomodar para todo o sempre. Se eu não for agora atrás dele, eu posso me arrepender no futuro, não acha?
— Sim Bruno, é exatamente o que eu penso. Você deve lutar pelas pessoas que ama, então por favor, trás o Kook de volta. — ela sorri.
Em minutos eu visto minhas roupas — que estavam guardadas no quarto onde eu estava internado — e saio do hospital. Felizmente um táxi passava ali por perto nesse exato momento, e não reluto em chamá-lo.
— Por favor senhor, ao aeroporto. — digo enquanto tomava fôlego graças a correria.
Ao ficar olhando para a estrada pelo vidro do carro, me perguntava a todo momento se eu estava fazendo a coisa certa. Havia acabado de perder minha mãe — a pessoa mais importante do mundo para mim — e mesmo assim corria para tentar alcançar alguém que morava do outro lado do mundo, não conseguia parar de pensar que era injusto com ela, mas ao mesmo tempo eu me lembro das ultimas palavras que disse para mim e Jungkook, no fundo ela sabia do meu sentimento por ele e queria que fossemos felizes. Tenho certeza que mamãe estaria feliz nesse momento, independente a onde estivesse, só pelo fato de estar indo atrás da pessoa que eu amava.
— X —
O táxi para na frente da entrada do aeroporto principal da cidade, depois de entregar o dinheiro ao senhor que havia me levado até lá, desço do veículo desesperado, foram quase cinquenta minutos até e eu rezava para que ainda desse tempo de alcançá-lo.
Corro por todo o lugar na esperança de achá-lo, vou passando por várias cadeiras azuis de espera, onde as pessoas ficavam assustadas ao me ver naquela euforia toda, muitos dormiam agarrados com as bagagens, provavelmente eram voos atrasados ou algo do tipo. Aquilo estava lotado, parecia que a cidade inteira resolvera viajar aquele dia, eram tantas pessoas que sequer conseguia analisar todo mundo. Meu desespero batia a cada vez que o ponteiro do relógio se movimentava, e para piorar ele não atendia minhas ligações.
— Com licença moça... — digo eufórico para a atendente do balcão onde as pessoas compravam as passagem, cortando fila de todos que estavam a tanto tempo esperando em pé. — Poderia me informar em qual horário o voo para a Coreia do Sul vai sair? — pergunto.
— Eu sinto muito jovenzinho, mas o avião decolou fazem quinze minutos. — ela me responde para minha infelicidade.
Aquelas palavras acabaram com a última chama de esperança que estava acesa dentro do meu peito. Eu apenas me sento no chão no meio do aeroporto e olho para o as janelas de vidro fosco que cercavam a construção, onde dava para ver os aviões decolando, e havia sido um daqueles ali a levar embora quem eu amava para sempre. Perdi a minha mãe e Jungkook no mesmo dia, e também o resto de esperança que restava em mim.
— 2 ANOS DEPOIS —
Pov Jungkook
Mamãe tinha preparado uma ótima refeição aquele dia, estava de bom humor para variar. Meu irmão já se entupia com kimchi¹ que havia acabado de ficar pronto, mas eu preferi apenas ficar na salada, já que meus amigos e eu iríamos retomar a banda em breve, queria manter uma boa aparência. Meu pai ainda não havia chegado em casa do trabalho, geralmente ele ficava o dia inteiro por lá, e só voltava a noite.
Já se faziam dois anos desde de que havia voltado do Brasil e sinceramente queria muito saber como ele estava, se já tinha melhorado e o que estaria fazendo da vida naquele instante, provavelmente dormia, afinal já era noite lá enquanto na Coreia eu aproveitava o horário do almoço.
— Ei, Namjoon, me deixe um pouco de kimchi para mim! — digo antes que ele comesse até mesmo a travessa.
— Você não disse que ia comer apenas essas coisas verdes aí? Azar seu maninho. — meu meio irmão era a pessoa mais engraçada que eu conhecia, acho que podemos dizer que ele quase se comprava a Sabrina, tirando claro os surtos que ela dava sem motivos as vezes.
— É que vendo você devorar isso aí me deixou com vontade. — rio.
Lembro-me que quando voltei eu fiquei feliz por estar novamente junto da minha família, estava com saudade de todos, das brincadeiras do meu meio irmão mais velho, dos surtos da minha mãe e das reclamações do meu pai pelo trabalho. Mas ao meu tempo triste, tive que deixar tudo aquilo que eu amava para trás. Fiz tantas amizades e aprendi tanto no Brasil que era como minha segunda casa, mas o pior definitivamente foi deixá-lo sem poder me despedir. Bruno havia salvado minha vida e mesmo que não quisesse admitir eu havia começado a desenvolver sentimentos por ele... No começo eu relutava, principalmente depois daquele beijo na festa, mas eu não suportava ficar longe dele, sequer entendia o que estava acontecendo comigo. Quando eu descobri que ele sentia o mesmo eu fiquei feliz, mas parece que o destino não nos queria juntos.
Só esperava que ele estivesse feliz por lá, que Sabrina o tenha ajudado a suportar a morte de sua mãe e a seguir em frente. E que ele virasse um grande homem no futuro, isso era tudo o que eu mais queria.
“Ding dong”. Somos interrompidos de repente do almoço de família pela campainha que ecoa por toda a minha casa.
— Namjoon você pode atender por favor? — digo ao meu irmão que estava largado no sofá assistindo um filme de ficção científica, longe de mim e de nossa mãe.
— Vish, sabe o que é maninho, surgiu uma dor nas minhas pernas de repente, acho que não vou mais conseguir me levantar. — ele rebate.
— Aham Cláudia, senta lá! Super acredito em você. — digo o meme em português.
— Olha, eu já disse que não entendo essas porra que você fala ai não.
— Deixa que eu atendo vai! Depois não reclama que eu sou o filho preferido da mamãe.
Levanto-me da mesa para atender a porta, me perguntando quem poderia ser numa hora como aquela. Pego na maçaneta da porta e nesse momento sinto um pequeno déjà-vu, como se algo familiar estivesse por perto.
O copo de suco que eu segurava com a mão esquerda cai e se quebra em vários cacos de vidro depois de a porta é aberta e o vejo bem em minha frente, cheio de malas ao seu redor e com aquele seu mesmo olhar penetrante nos olhos.
— Bru... Bruno? — mal conseguia falar. — O que faz aqui? — gaguejava.
— Uma vez eu te disse que te acharia independentemente de onde estivesse, portanto estou só cumprindo a minha promessa. — ele sorri. E era aquele mesmo sorriso pelo qual eu havia me apaixonado a dois anos atrás.
— FIM —
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