Destino Das Fadas
55 Capítulo 52 — Palavras ocultas
Notas iniciais
Capítulo 52 — Palavras ocultas
O sol ainda estava eficientemente irradiando seus raios, assim como o mar trazia com suas ondas uma brisa que bagunçava meus cabelos suavemente. Andei um tempo pela praia, sentindo a areia esfoliando meus pés enquanto eu segurava meus calçados em mão. Estava ali na companhia de todas essas belezas da natureza e ao mesmo tempo distante em um mundo só meu. Não é um mundo assim tão lindo, esse que é formado apenas em minha cabeça, mas era silencioso e calmo, algo que eu procurava no momento. Era de se esperar que uma conversa com a Yukino fosse me abalar, aliás ela é aquela que irá se casar com o único homem que realmente amei. Falando dessa maneira parece que a culpo, mas não é verdade, ela não tem culpa. Eu sei que não tem.
Meus sentimentos oscilavam entre raiva, confusão, dor, decepção e conformidade. Raiva desse destino imperdoável que pôs Natsu em minha vida para depois tirá-lo. Confusão entre o que seria o certo ou errado a se fazer. Dor, porque simplesmente não posso fugir dessa sensação. Decepção por... tudo. E conformidade, porque não consigo achar motivos para continuar lutando contra algo que é impossível.
Sempre há dias em que ficamos para baixo sem nenhum motivo aparente, o dia simplesmente despertou para te deixar mal. Não acho que seja esse o meu caso, parece mais que a vida despertou para me dar motivos de desistir dela. Não estou pensando em me suicidar, até porque tenho também fortes motivos para viver. Só queria... que essa angustia me deixasse logo. Poderia ser mais fácil tirar as pessoas que amamos da cabeça. Como “Ah ele não quer ficar comigo, beleza” E como mágica essa pessoa nunca mais te atormenta em pensamentos. Ok Lucy, isso nunca vai acontecer.
Olhei um momento para o mundo ao meu redor, para o céu que brilhava sobre minha cabeça. Olhando para as nuvens e o sol tão radiante, pude me lembrar do sorriso de minha mãe... Mamãe... queria que você estivesse comigo agora. Você era sempre tão sensata e esperta, o que faria no meu lugar? Esqueceria? Contaria à Natsu? Choraria até dormir? Eu não sei, e apesar de estar rodeada de pessoas, me sinto tão sozinha. Sinto sua falta. Sinto falta do seu abraço que afastava todas as coisas ruins.
Falando em coisas ruins.
LEVY! Ela precisa de mim. Como pude esquecer? Despertei do meu transe sem fim e comecei a procurá-la. Havia me esquecido completamente. Fiquei tão perdida com meus próprios problemas. Que amiga terrível eu sou. Passei pela porta da pousada, passei pela recepção e fui em direção ao quarto de Levy. Não me lembrava muito bem aonde era exatamente, apenas que era no térreo. Andei vagarosamente pelo corredor até ouvir um choro baixo, pude perceber na hora. Era minha azulada. Aproximei-me da porta de onde vinha o som e a abri lentamente para não assustá-la. Então fiquei surpresa por ter sido eu a assustada.
Assim que abri a porta uma bola de tênis foi arremessada em minha direção com a força de um troll raivoso. Detalhe: Errou por muito pouco, e teria acertado caso eu não tivesse abaixado na velocidade da luz. Detalhe 2: Não era um troll, era apenas minha melhor amiga de olhos vermelhos. Detalhe 3: Ela pode ser muito mais assustadora com raiva do que um próprio troll.
— LU-CHAN! — gritou ao me ver. O que era um “bom” sinal. Se ela não estava sorrindo quer dizer que a bola raivosa não era para mim. Ou talvez estivesse triste por ter errado, enfim, graças aos céus ela errou.
— Novo tipo de recepção? — perguntei ainda com as mãos na cabeça.
— Gomem ne! — desculpou-se com o rosto expressivamente preocupado — É um novo tipo de terapia — Aproximou-se para me ajudar a ficar de pé novamente. Era mesmo bom ela me ajudar porque minhas pernas ainda estavam bambas com o susto.
— Terapia? — indaguei — Para psicopatas quando ouvirem o barulho de uma porta abrindo?
Ela murchou sua expressão, fitando o chão.
— Não, para quando se descobre que tem um namorado ridiculamente idiota.
Hum. Ponto para Levy. Recompus-me. Estava ali para ajudá-la, não para deixá-la pior ainda. Olhei-a e respirei fundo.
— Ahn... e quer me dizer porque seu namorado se tornou ridiculamente idiota? — Falei com a voz tranquila.
Às vezes queremos guardar os problemas só para nós. E às vezes tudo o que precisamos é desabafar. Eu estaria ao lado dela para qualquer uma dessas opções. Ouvi seu suspiro profundo, então ela começou a andar em direção a cama, eu a segui. Levy se sentou e me olhou parecendo sem paciência só por lembrar do que iria me falar.
— Enquanto eu estava planejando loucamente um plano para acabar com o casamento até amanhã, assim que descobri que Erza e Juvia estariam ao meu lado, Gajeel me deixou na mão. Eu disse que ele poderia fazer o que quisesse, só não me atrapalhasse. É claro que em “o que quisesse” não incluía jogar baralho e beber que nem... — respirou fundo como se não agüentasse nem pronunciar as palavras — Eu o encontrei em um salão de jogos, todo bêbado e fedendo. Ele nunca foi de beber assim e só o mundo sabe como eu odeio namorado bêbado. Por todos os céus Lucy! Você sabe como eu odeio isso! É claro que ele pode beber, mas até não agüentar mais? Vou matá-lo!
Assim que ela terminou a sentença, fechou os olhos e respirou fundo. Fiquei tentando formar algum conselho útil. Odiava vê-la brava. Não de odiar, é mais por medo mesmo. Parabéns Gajeel. Agora eu teria que falar algo para defendê-lo ainda. Não gostaria nada que eles acabassem terminando por algo assim.
— Levy-chan... — comecei. Ela me lançou um olhar mortal.
— Não está pensando em protegê-lo está?
Engoli a seco.
— De jeito nenhum — respondi mais rápido do que pude prever as conseqüências desta resposta.
— Pense comigo Lu-chan, daqui a algum tempo iremos casar, ter filhos. Ou talvez ter filhos antes de casar, que seja. O problema é que você pode se imaginar no meu lugar e pensar que o pai do meu filho está enchendo a cara enquanto eu estou tentando salvar o mundo?
— Salvar o mundo parece... — exagero. Pensei em dizer, mas ela já me ignorava.
— Imagino eu chegando em casa, e vendo-o ensinando MEU filho a beber. Não quero nem pensar nisso. Ele é um canalha! — Apesar de suas teorias serem para lá de impossíveis, sua raiva era quase palpável. Mas percebi que sua mágoa era maior quando lágrimas passaram a escorrer em seu rosto — E-ele é um idiota — disse já soluçando — E-eu... só...
— Shiiu — sussurrei e a abracei — Não se esforce assim.
Deixei que ela chorasse. Amizades são assim. Uma cuida da outra. Ela cuidou de mim tantas vezes e eu me sentia útil por poder cuidar dela agora. Seus soluços eram cada vez mais intensos. Acho que ficamos mais sensíveis quando estávamos grávidas. Porque estamos carregando um pedacinho de outra pessoa dentro de nós. É uma sensação ótima e ao mesmo tempo... assustadora.
[...]
Ficamos um bom tempo abraçadas. Pelo menos até Levy-chan se acalmar e conseguir falar novamente. Ela voltou a xingá-lo, chegou a querer sair pela porta para procurar por ele e terminar tudo, mas eu a segurei. Seria um terrível erro ela fazer isso, e me sentiria a pior de todas se deixasse que ela fizesse. Ela estava apenas de cabeça quente, quando estivesse realmente calma e o ver novamente tenho certeza que tudo se resolverá. É o que eu espero.
— Ficou sabendo da Erza e do Jellal? — disse quando havia se acalmado e parado de tentar ir atrás de Gajeel.
— Não — respondi por reflexo, até me lembrar de vê-los brigar depois que saí da enfermaria — Quero dizer, não soube, os vi brigando na recepção. O que aconteceu?
— Como te disse, nos juntamos para acabar com o casamento, então... — Ela ia continuar a dizer quando a ficha me caiu. Opa, oi, acabar com o casamento? O que eu perdi?
— Que? Acabar com o casamento? — perguntei indignada.
Ela me olhou, eu a olhei, ela desviou o olhar, eu continuei a olhá-la, ela mordeu o lábio e eu surtei.
— Desembucha!
Ela soltou um longo suspiro.
— Tá bom — disse/gritou — Eu decidi acabar com o casamento.
Revirei os olhos.
— Você decidiu? — ironizei.
— Deixa eu terminar — olhou-me fingindo mágoa, respirei fundo para me acalmar e relaxei os ombros dando a entender que a escutaria — Bom, eu estava no quarto com todas minhas teorias e idéias rodeando meu cérebro, e pensei “Porque não?”, e parecia ser uma missão impossível vai que você e o Natsu são dois orgulhosos cabeças dura — gritei um “Ei” em rejeição, mas ela ignorou — Então um milagre aconteceu e todos nossos amigos também queriam acabar com o casamento, eu acabei deixando escapar um “Seria tão bom se eles, você e Natsu, ficassem juntos”. Todos se olharam e sorriram. O plano estava armado. Mas meio que saiu pela culatra. Porque veja bem, eu briguei com o Gaj, porque ele não queria me ajudar, ele ficou repetindo “Deixa de ser intrometida, mulher” com aquele jeito ogro dele, e isso não me deixou muito feliz, mas ok, eu o amo e deixaria ele livre. Não TÃO livre quanto ele achou que estaria, daí eu estava andando quando eu vi ele lá enchendo a cara...
— Levy, foco, por favor — pedi percebendo que sua revolta estava por reaparecer.
Ela me olhou fazendo beicinho, mas continuou:
— Tá... Vamos ver. Gray ficou de seduzir a Yukino, só para ver se ela era facilmente seduzível, daí seria fácil fácil acabar com o casamento. Resumindo, Yukino não cedeu e Juvia não gostou. Briga. Jellal ia conseguir informações, entretanto escolheu o jeito errado de fazer sua missão porque a Erza encontrou ele abraçado com aquela esquisita lá. Enfim, surtou também. E para melhorar, não adiantou droga nenhuma — olhou-me emburrada.
— O que? — perguntei sem entender.
— Seria tão mais fácil se você desse um jeito de voltar logo com ele... — cantarolou como se não quisesse nada.
— Levy-chan... — comecei na defensiva.
— Eu sei, eu sei... “Estou pensando na família dele” — disse numa tentativa tosca de me imitar. Eu ia reclamar da forma como ela ridicularizou a minha voz, mas deixei passar.
— Exatamente! — afirmei.
— Você é uma pessoa muito boa Lu-chan, tenho certeza que sabe disso — disse com a voz calma, depois segurou minha mão e me olhou — Sei que pensa que é egoísmo tirar a única chance da família do Natsu se reerguer... Mas não seria egoísmo também... — levou minha mão até minha barriga — deixar ele sem saber?
Sua voz era tão afetuosa que senti minhas lágrimas virem. Controlei-me para não chorar, não por causa de algo que já decidi. Pensei muito sobre isso. Todas as noites. Ainda penso na verdade. É claro que parece egoísmo. Qualquer opção parecer ser egoísmo e isso me corrói por dentro de uma maneira que ninguém imagina.
— Pense sobre isso amiga, amanhã o Natsu vai noivar. Você nem ao menos disse a ele tudo o que sente, todas as palavras que estão enterradas no seu coração a tanto tempo. E também... — deu uma pequena pausa, pensando nas palavras que seguiriam a ela — seu filho merece conhecer o pai verdadeiro.
Sabe esse lance de melhores amigas? Bom, devo dizer que às vezes isso me “irrita”. Elas costumam sempre dizer a verdade na lata. E normalmente eu não gosto dessas verdades. Ainda mais quando uma pequena, repito, pequena parte de mim quer concordar com ela. Daí fica dois contra um. Minha melhor amiga sincera demais e minha pequena parte traidora contra mim. Injustiça.
— Apelando para meu filho? Você joga baixo, Levy-chan — murmurei emburrada.
— Eu chamo isso de “poder da amizade”.
— Para mim parece uma “maldição da amizade” — falei de maneira cansada.
Levy soltou uma risada baixa com meu modo de falar e logo abaixou a cabeça com um olhar nostálgico.
— Não é estranho... — disse com a voz baixa — algum tempo atrás discutíamos qual prova da escola era a mais difícil. E agora... todas essas outras situações amplas e complicadas.
Parei para pensar em sua frase. É mesmo estranho como o tempo passa tão rápido, sem nem conseguirmos controlá-lo. Chega a ser sufocante a rapidez com que os dias são atropelados. Ainda mais sufocante quando se tem que tomar uma decisão definitiva e complexa todos os dias.
— É... eu gostava mais daquela época — concordei entrando em sua áurea de nostalgia.
— Só porque você estava com o Natsu — disse sem perder tempo.
— Cala a boca Levy-chan.
—♥—
Passamos um bom tempo lembrando de vários momentos de nossa amizade. É engraçado pensar que a conheço apenas do Ensino Médio, para mim, ela é minha melhor amiga de uma vida inteira. Na verdade, o estranho mesmo é parecer que minha vida começou no Ensino Médio. Tenho minhas boas lembranças com minha família quando pequena, e então um buraco negro de coisas que não gosto de me lembrar e depois disso, minha vida pula para o dia em que pisei na Fairy Tail e encontrei Natsu. Já faz tanto tempo assim? Quanto aquela garotinha mudou daquela época para hoje? Sinto que sou a mesma, felizmente ou infelizmente, apenas com problemas bem maiores.
— Lu-chan, sabe que estou fazendo isso por você certo? — Levy repetiu pela milésima vez enquanto caminhávamos para a recepção.
Depois de tanto tempo tentando convencê-la de perdoar Gajeel, finalmente consegui.
— Aquele idiota não merece perdão — completou emburrada.
— Deixa de ser exagerada Levy-chan, todo mundo merece ser perdoado — falei também pela milésima vez.
— Olha quem fala — Levy disse me olhando de lado enquanto andávamos — A garota que demorou anos para perdoar o namorado por algo que ele não fez.
Sabe quando você sente aquela pontada te empurrando contra o chão? Foi exatamente isso que senti. Eu já esperava que ela fosse dizer algo assim, mas é sempre pior do que imaginamos quando acontece.
Eu estava prestes a rebatê-la, mas fiquei sem forças, sem ideias e sem vontade. Porque eu sei, ela está certa. Deixei Natsu ir embora da minha vida tão fácil. E por mais que ele insistisse em querer entrar para ela novamente, eu não deixei, até ele desistir. Quando ele voltou eu tive a falsa sensação que estávamos bem, mas era apenas uma ilusão. Ele nunca voltou definitivamente para mim.
Fiquei tão perdida em pensamentos que nem reparei quando Levy-chan parou bruscamente até bater contra ela. Ia reclamar de sua parada repentina, mas logo vi o que chamou sua atenção. Já estávamos na recepção. Pelo corredor da direita estávamos eu e Levy, pelo da esquerda Juvia, pela porta central Natsu e Gajeel, pela porta da esquerda Erza e pela da direita Jellal e Gray. E aí se encaixa aquela velha frase “Se tivéssemos combinado não seria mais perfeito”.
Foi tudo muito estranho. Todos se olharam e um silêncio totalmente constrangedor se fez. Olhei para Levy e estava certa de empurrá-la para conversar com Gajeel, mas vendo sua reação paralisada não tive coragem. A cena que se prosseguiu do silêncio foi inacreditável. Levy simplesmente ignorou tudo e todos e saiu pela porta ao nosso lado. Juvia voltou pelo corredor que entrou mesmo quando Gray gritou “Juvia, espera”. Erza, bom, nem consegui ver ela sair, só pude ver Jellal desesperado atrás dela. Então sobraram, eu, Natsu e Gajeel. Ah claro, e a incrível sensação de angústia.
Natsu suspirou e deu uma cotovelada em Gajeel.
— Cara, acho que você devia ir atrás da Levy.
Gajeel olhou pela porta em que Levy saiu, depois olhou para o chão pensativo.
— Deixa para lá, ela deve me odiar agora — disse em um suspiro de desistência.
Natsu o olhou inconformado, dava para ver em seus olhos tamanha indignação. Gajeel fez um sinal que iria sair, nos deu as costas e... Natsu o segurou com tanta força que parecia querer arrancar o braço de Gajeel fora. Minha surpresa foi quase tão grande quanto a de Gajeel. A diferença é que meu braço não corria risco de invalidez.
— Deixa para lá? Acorda Cara! Ela está esperando um filho seu, nunca ia te odiar por algo tão ridículo!
Sinto que prendi a respiração quando ouvi Natsu exaltado daquele jeito. Levei um susto. Meu coração passou a bater tão acelerado que pensei que possa saltar para fora em uma dessas batidas. Senti que fosse chorar. Uma onda de emoções começou a passar por mim. Não sabia se foi a palavra “filho” que mexeu tanto comigo, ou sua postura tão madura e inesperada. Talvez tenha sido o conjunto completo. Só sei que meu coração não aguentaria tanto tempo.
Pude ver a surpresa no rosto de Gajeel também, ele olhou assustado para Natsu por um momento e depois voltou a real.
— Certo — respondeu quase roboticamente — Você está certo, vou atrás dela.
Ele se soltou do braço de Natsu e correu em direção a porta que Levy saiu. Mas antes de tudo, ele parou perto de mim e me olhou. Meus olhos se esbugalharam, sussurrei um inaudível “Pois não?”.
— A pequena está certa, ele merece saber — murmurou e saiu.
Como se fosse possível meu coração se acelerou ainda mais. Eu poderia explodir agora mesmo. E as frases “Ele merece saber”, “Conte a ele”, rodeavam minha mente como nunca. Porque todos ficam me dizendo o que fazer?
Natsu começou a se aproximar, o que chamou minha atenção. Agora era apenas ele e eu. Teria oportunidade maior?
— Esse casamento está sendo mesmo uma maravilha, não concorda? — ironizou.
— Tem sido uma surpresa atrás da outra — respondi sua ironia. Minha voz saiu meio fraca. Ele sorriu com meu comentário.
“Conte a ele”. Devo? O que eu faço? De repente não eram apenas os pensamentos rodando em minha mente, toda minha cabeça rodava. Droga, agora não.
— Ei, você está bem? — perguntou vindo mais apressadamente em minha direção. Para minha sorte, vai que senti minhas pernas bambearem.
Natsu me segurou antes que eu desabasse no chão. Não sabia o que estava acontecendo. Minha cabeça estava um pouco zonza, e talvez o perfume dele muito perto de mim esteja me enjoando um pouco — e com isso quero dizer muito —, e talvez uma fraqueza inexplicável tenha sido aplicada em minhas pernas. Nada fora do normal. Tentei me recuperar, mas ter Natsu tão perto meio que fazia meu coração acelerar, o que não ajudava no processo de estabilização.
— Lucy? O que você está sentindo? — perguntou acariciando meu rosto suavemente enquanto tirava os fios de cabelo que estavam sobre meus olhos — Você está quente — concluiu após passar a mão em minha testa.
Claro que estou, você está em cima de mim, idiota.
— Estou bem, estou bem — falei prontamente tentando me levantar — Foi só... — comecei a me explicar até ver seus olhos me observando tão de perto.
— Foi só...? — repetiu meu começo de frase.
Mas a continuação não veio. Nada. Nada vinha. As palavras ficaram entaladas em alguma parte do meu cérebro que dizia “Conte”. Tentei com toda minha força ignorar essa frase, mas ter seus olhos tão atentamente em mim me fazia vibrar. Não sei se era de uma maneira boa. Talvez peso de consciência, ou talvez... aquele sentimento profundo e intenso que eu trancava com todos os cadeados possíveis e inimagináveis. Como ele poderia abrir todos eles apenas com um olhar?
— Natsu, eu... — falei com a voz trêmula, hipnotizada sob seu olhar preocupado — Eu preciso...
— de um médico — completou a frase inesperadamente. Meus olhos estalaram, ele estranhou — Estou brincando — disse logo depois — Desculpa — pediu sem eu entender o porquê — Fiquei nervoso.
Fiquei novamente sem palavras. Havia sido difícil começar aquela pequena frase, como ele pode me cortar assim? Depois de eu ter reunido tanta coragem... Como assim “fiquei nervoso”?
— O que eu faço com você... — sussurrei cansada de tanto tremor e angustia.
Ele ficou em silêncio, apenas me olhando. Tentei desviar o olhar, já sentia minhas bochechas queimarem. Pare Idiota, se ficar me olhando assim vou explodir.
— Ei Lucy... — chamou como um sussurro.
— Hm? — sibilei. Estava nervosa demais para falar. Então o olhei. Ele estava mais perto do que eu imaginava.
— Eu... — começou tentando reunir coragem — Sabe, ainda dá tempo... — disse em um impulso maior e com determinação no olhar.
— AMOR!
Hm? Ambos olhamos para o lado e vimos Yukino entre uma das portas. Ah claro, amor. Nos separamos desajeitadamente.
— A Lucy quase caiu —Natsu explicou prontamente nossa situação.
Apenas com esse ato eu percebi que ele se preocupava com ela. E como não? Eles vão casar depois de amanhã. É lógico. Tão óbvio que me deixa com raiva. Raiva desnecessária e incompreensível. E o que eu posso fazer com esse sentimento? Não sou assim.
— Quase caiu? —Yukino repetiu com as sobrancelhas arqueadas e direcionou o olhar para mim — Você está bem Lucy? Devemos chamar um médico? — perguntou com a expressão preocupada.
Sabe, ver essa expressão meio que me joga no chão. O que estou pensando? Ela é ótima.
— Está tudo bem, vou me deitar um pouco apenas — falei olhando para um de cada vez e dando as costas.
Senti o olhar deles me seguindo. Ou talvez nem estivessem, não sei. Às vezes sentimos que alguém está nos olhando, apenas porque queremos que essa pessoa nos olhe. Você joga charme e bom, a pessoa nem está mais no local. Só soube que eles ainda estavam ali, porque pude ouvir Yukino dizendo para Natsu ir com ela ver alguma coisa de decoração. A decoração que nós dois escolhemos. Que ironia. Aliás, essa tal de ironia tem me perseguido por muito tempo.
Antes de sair dali, quando olhei para Natsu pude sentir algo diferente. Aquele olhar de palavras não ditas que sempre temos. Sempre pensamos que vamos pronunciá-las depois, mas não. Elas ficam escondidas dentro de nós.
Espera.
Natsu disse tudo para mim. Apenas eu estou com todas essas palavras rodeando a minha mente. Então... Tive uma ideia.
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