Destino Das Fadas
12 Capítulo 12 — Problemas de amigas
Notas iniciais
Capitulo 12 — Problemas de amigas
Após ver Natsu ir embora com muita relutância, fechei a porta de casa e sabia que, a partir desse momento, precisava sair dali. Não podia mais ficar neste lugar depois de tudo, não hoje. Sei que encararei meu pai um dia ou outro. Mas pretendo que não seja agora. Ainda não estou pronta. Tenho que estar preparada para esse momento.
Como um sinal para minhas preces, escuto meu celular tocar em meu quarto. Subo as escadas correndo para ver quem seria minha salvação. Disparo pela porta e o encontro jogado na cama, tocando. Pego e vejo que não poderia escolher alguém melhor para essa tarefa.
— Alô? — atendo ofegante depois de correr loucamente pela casa.
— Lu-chan? — a voz dela soa preocupada.
— Oi Levy-chan, tudo bem? — pergunto com um suspiro.
Fugir não parece algo muito bom, mas acho que só relaxar me deixaria muito feliz.
— Uhum e você? — responde ainda atordoada — Sua voz parece meio… abatida?
Respiro fundo.
— Sim, tenho coisas para te contar…
— Ótimo — fala rapidamente — E eu tenho um convite para você me contar. As garotas vão se reunir aqui hoje, no dormitório, depois da faculdade. Só para pôr o papo em dia e matar a saudade. Vem também.
Tudo o que eu precisava ouvir. Ergo as mãos para o teto. Obrigada Kami-sama!
— Vou sim — digo, segurando o celular com as duas mãos — Levy…
— Hum?
— Posso ir aí agora? Não vou para a aula hoje.
Ela fica em silêncio por alguns instantes depois da minha fala e começo a pensar que talvez eu esteja estragando algum plano dela. Talvez ela já vá sair com Gajeel… Não posso ser egoísta assim.
— Você? — indaga após seus minutos de silêncio — Faltar na aula? Está doente? O que está acontecendo, Lucy? Estou ficando realmente preocupada.
— Não… é nada disso — respondo, fazendo Levy dar um longo suspiro.
— Claro, te espero aqui — diz por fim.
— Obrigada amiga.
Desligo o ligação e olho para meu quarto. Hora de agir.
Puxo uma cadeira para tirar minha mala de cima do guarda roupa. Jogo algumas trocas de roupas na mala, pego minhas maquiagens — Até porque noite de garotas sem maquiagem, não é noite de garotas — e corro para o banheiro, tomar uma ducha.
Tento espantar toda a energia negativa em cima de mim. Apesar de… Natsu já ter feito isso muito bem. Às vezes me espanto com o quanto ele consegue me surpreender. Acho que estou apegada àquele garoto de dois anos atrás, e vê-lo maduro e atencioso como se tornou, me deixa surpresa. Ele mudou muito nesse tempo fora. Mas… seu olhar ainda é o mesmo.
Desligo o chuveiro e me seco rapidamente. Corro novamente para o quarto e me deparo com Virgo, com os olhos marejados.
— Hime-sama vai embora de novo! — choraminga.
Ando até ela, e coloco a mão em seu ombro.
— Claro que não — tento consolá-la — Vou dormir na Levy-chan, mas logo estarei de volta.
Abro um sorriso leve e ela parece se acalmar. Virgo sempre foi minha grande companheira nesses anos ruins.
— Não devo estar sendo uma boa empregada, deseja me punir?
Hã? Ela e suas manias esquisitas.
— Eu passo — digo gentilmente, pegando minha mala — Cuide de Plue por mim.
Saio de lá com a sensação de não querer voltar. Isso me lembra de quando sai daquela mansão enorme que morávamos para morar em meu apartamento. Sinto muita falta de lá, foi quando toda minha vida mudou. Ele era pequeno, mas aconchegante. E tinha uma janela para meu melhor amigo invadi-lo quando bem entender. Começo a rir sozinha com as lembranças. Parece que foi ontem...
Entro no carro e dirijo até o dormitório. Lá normalmente é apenas para estudantes da Fairy Tail. Mas o diretor não conseguiu expulsar as meninas e as deixou ficar até que se casem ou construam seus próprios lares. Claro que ele as fez prometer que isso não demoraria. Novas estudantes sempre iriam aparecer para as aventuras que elas já fizeram parte.
Estaciono o carro e pego minha mala. Ando até a entrada, onde Levy já me espera, sorridente. E preocupada. Porque ela não sabe disfarçar. Ela corre até mim e me abraça forte. Depois segura em meus ombros e me olha.
— O que aconteceu?
Tão direta.
— Vamos esquecer isso por enquanto, certo? — sorri — Preciso me divertir essa noite.
— Tá, tá. Vamos — deu-se por vencida, enlaçando seu braço no meu.
Ela foi me guiando entre os vários quartos. Tudo continua igual. Quartos infinitamente alinhados. Passamos por um quarto em especial. 108. Lembro muito bem desse lugar. Lembro até mesmo da disposição dos móveis.
“Sou apaixonado por você”
Consigo até mesmo sentir de novo, o que senti quando ouvi essa frase. Eu era tão boba. Eu queria gritar que era apaixonada por ele o tempo todo. Mas preferi me esconder. Talvez tudo tivesse sido diferente naquela época e ainda fosse diferente hoje.
— Lu-chan?
Olho para o lado e vejo Levy com as sobrancelhas arqueadas, me olhando. Enquanto estou parada na frente de um quarto aleatório. Para ela.
— Desculpe, acho que me distrai.
Ela dá risada de mim e eu finjo rir também. Olho uma última vez para aquela porta.
Talvez fosse diferente.
[...]
Assim que entro no quarto de Levy, vejo ser meu quarto dos sonhos. É grande como o meu, mas parece tão… Levy. Isso que torna um espaço qualquer a ser chamado de lar, certo? Há uma cama enorme, sofá, escrivaninha e claro, uma parede toda ocupada por uma estante gigantesca de livros. Enfeitado na medida certa. Isso cheira a Levy.
Porém, deixando minha admiração de lado, vejo Gajeel saindo do banheiro.
— E aí bunny girl — cumprimenta, levantando a mão.
— Ai meu Deus. Eu não queria atrapalhar vocês! — exclamo envergonhada.
Levy revira os olhos e começa a empurrar Gajeel para fora do quarto. Enquanto ando até a cama.
— Até parece, Lu-chan. O Gaj já estava saindo mesmo, não é amor?
Ela o empurra até a porta, olhando para ele como “Você sabe a resposta para minha pergunta, certo?”. Não sei se isso me deixa melhor.
— Claro — Gajeel responde rápido — Até amanhã pequena.
Ele dá um selinho nela. Eu desvio o olhar por parecer uma louca ali por expulsá-lo e ainda ficar olhando. Escuto ele sussurrar que a ama, e começo a sorrir. É tão bobo. Mas essa cena é tão difícil de se ver. Será que um dia terei um relacionamento tão fofo dessa forma? Não é inveja da Levy. Ela merece isso e muito mais. Só acho lindo o que ela conseguiu. Porque ao contrário dela, eu só me meto em confusão quando o assunto é amor.
— O que foi, Lu-chan? — sua voz dispersa meus pensamentos.
Olho para ela e vejo que já está na minha frente.
— Nada — sorri — Vocês são fofos.
Sento em sua cama, deixando minha mala ali perto. Olho para o relógio na parede e vejo que não falta muito para a aulas começarem.
— Não se importe comigo, vá para a aula, por favor.
Ela senta ao meu lado, sorrindo.
— Tudo bem. Pensei melhor e decidi ficar aqui com você — fala animada, fazendo com que eu lance um olhar mortal para ela — Não tenho nada importante hoje e faz tempo que não conversamos, não é?
Deixo meu olhar malvado por um sorriso e a abraço forte de lado.
— Você é a melhor amiga de todas.
Ela ri.
— Eu sei.
[...]
Conversamos por horas. Sobre a faculdade, amigos, trabalhos. Relembramos os tempos de colégio, e rimos de coisas nada a ver. Fizemos as unhas e tudo o que uma reunião entre velhas melhores amigos merece. Tentei contar por cima sobre o que houve com meu pai. Levy ficou revoltada, dizendo que processaria ele e depois disse mais um monte de atrocidades. Tentei acalmá-la, dizendo que resolveria isso depois.
Mudamos de assunto para deixar o clima pesado de lado. Ela pegou várias revistas, para me mostrar alguns planos que tinha para sua casa. Fiquei tão orgulhosa dela. Eles tem várias planos, nada grandioso, mas deles. E acho que isso é o mais importante de tudo.
— Nee Lu-chan — Levy chama com certa cautela.
Agora estávamos deitadas uma ao lado da outra de bruços, folheando revistas de moda.
— Oi? — respondo, olhando alguns modelos lindos.
— E… seu coração, como está? — pergunta, desviando o olhar da revista para mim.
Faço o mesmo, olhando para ela.
— Batendo, obrigada. Olha que vestido horrível! — aponto para a revista novamente para mudar de assunto.
Eu sei muito bem aonde ela quer chegar e eu realmente não quero falar sobre isso. Aliás, eu não quero contar porque sei que ela vai ficar louca.
Escuto ela suspirar ao meu lado.
— E Natsu? — insiste ainda mais diretamente, sabendo que precisa ser assim comigo.
Só por ouvir o nome dele, sinto um arrepio passar por meu corpo. Eu sabia que não poderia fugir por muito tempo.
— O que tem ele? — respondo como se estivesse desinteressada.
— Para de se fazer de boba, Lu-chan! — agita-se com minhas atitudes — Quando vocês irão se resolver?
Continuo tentando ignorar tudo. Ah, ela vai surtar.
— Voltamos a ser amigos… — murmuro baixinho, prezando por minha própria vida.
Ela fica em silêncio e por um momento tenho medo que tenha infartado. Arrisco um olhar e a vejo paralisada, me encarando.
— O quê? — grita pasma e se senta — Qual é o seu problema?
Respiro fundo e vejo que não poderei fugir dessa conversa. Fecho a revista e me sento também. Olhando para minhas mãos.
— Estamos bem assim… — digo com bico — A gente nem estava conversando. Então ele pediu para voltarmos a ser amigos e claro que aceitei! — tento me defender.
Levy passa a mão por sua cara como se estivesse derretendo de tão abismada.
— Por que vocês complicam tanto? — olha para mim, irritada. Tão irritada que por um breve momento tenho a impressão que ela irá pular em mim e me chacoalhar.
— Não complicamos nada — respondo também irritada — Só não servimos para ficar juntos!
Deito na cama com os braços abertos. Falar sobre isso dói um pouco para mim. É como tentar me convencer que assim está ótimo. Como se minhas palavras um dia pudesse ser o que eu realmente sinto. E não gosto de falar com Levy-chan porque ela sempre sabe o que eu sinto e sempre me fala na cara.
— E por que não? — pergunta séria, olhando de lado para mim.
Fico em silêncio diante de sua pergunta e depois fito o teto, buscando argumentos.
— P-porque… oras, porque… — tento formular algo, mas as palavras resolveram fugir em má hora.
— Eu te respondo, Lu-chan — Levy fala sarcasticamente — Porque são dois idiotas teimosos! — praticamente grita e depois suspira — Vocês são mais felizes quando estão juntos! Mas que droga!
Fico olhando para ela em todo seu fervor para tentar me provar seu ponto. Odeio muito quanto ela tem razão e normalmente ela tem. Será que Gajeel consegue ganhar alguma briga com ela? Levy é a pior. E ela fala tudo tão diretamente que machuca.
— Levy-chan, deixa de…
— Você sabe que é verdade! — me corta, encarando meus olhos como se pudesse entrar na minha alma — Lu-chan, pela amor de Deus! Estive ao seu lado esse tempo todo! Até mesmo quando achava que estava errada, eu estive aqui! Mas você sabe que errou! Você mesma já disse que se arrepende por não ter confiado nele! Aquele cara correu atrás de você o Ensino Médio inteiro! Se você pedisse para voltar a ser amiga dele naquela época, ele diria “Não”. Ele nunca teria aceitado ser só seu amigo, Lucy! Acorda para a vida, mulher. Seu orgulho idiota não deixa você ser feliz!
Continuo a encará-la a medida em que suas palavras saem e saem sem parar, apunhalando meu peito de todas as formas possíveis. Levy parece bufar diante de mim.
— Não precisava ser tão sincera — digo em um misto de ofensa e brincadeira.
Levy ri suavemente ao reparar em todo seu sermão e depois estende a mão para eu segurar. Faço isso com questão.
— Eu quero te ver feliz. E devo saber mais do que ninguém, que você é mil vezes mais feliz e mais você mesma, com Natsu.
Engulo em seco por sua frase. Ela me pega desprevenida. “Mais eu mesma”? Por mais que eu esconda muitas coisas dentro de mim, eu realmente me sinto mais leve com ele. Mesmo das vezes que eu não queria demonstrar meu lado irritante, ele sempre conseguia despertar meus sentimentos.
— Eu sei — murmuro e viro meu rosto para ela. Eu sei de tudo isso — Mas as coisas estão bem assim, Levy-chan. Eu posso ser feliz sem ele. E quero muito, muito mesmo que ele também seja feliz — digo, sentindo meus olhos marejarem — Mesmo que seja com outra pessoa.
— Tsc — Levy expressa, indignada — Típica frase de garotas que desistem fácil.
— Fica quieta.
—♥—
A noite se passou e sem notar já eram onze horas. Tive que ouvir a Levy por mais alguns minutos até que Erza, Cana, Juvia e Lisanna chegassem ao quarto. Ouvir as batidas foi o som mais maravilhoso da noite. Logo eu seria posta em uma guilhotina por minha melhor amiga. Ela quase me fez chorar. Mas seu objetivo é me fazer feliz, vai entender.
Abracei as meninas, todas empolgadas pelo reencontro. Faz algum tempo que não as vejo e na balada nem pudemos conversar muito por causa do som. E claro, no hospital todas estavam abatidas demais para qualquer conversa rotineira. Principalmente Juvia, que ao meu ver está bem estranha hoje. Enquanto todas estavam super animadas, ela parece um pouco para baixo em minha opinião. E sei que Levy notou também, porque me olhou no mesmo instante quando a vimos.
Acho que o mais estranho é ver Lisanna. Passou muito tempo depois de tudo aquilo. Eu nunca mais os vi junto de forma amorosa, nem ao menos ouvi falar que estavam namorando. Por mais que eu não queria pensar em passado, eu sempre quis perguntar se ela teria coragem de mentir para mim. É como um buraco na minha vida não preenchido. Se eu tivesse acreditado em Natsu, seria acreditar que Lis mentiria para mim. Eu não quero acreditar nisso.
Deixando todos esses fatos de lado, a noite foi muito agradável. Conversamos muito. Elas nos contaram sobre suas aulas de hoje e como eram os professores. Assuntos que normalmente temos quando não vemos alguém depois de muito tempo. Claro que ficamos atormentando Erza para contar sobre seu relacionamento com Jellal. Ela ficou tão envergonhada que tornava tudo mais engraçado. Cana começou a encher a cara, dizendo que precisava de um namorado.
E Juvia… continua quieta, apenas concordando com tudo.
— Tragam mais sake! — Cana grita com uma garrafa em mãos.
Começo a rir ainda mais, sentindo meu rosto esquentando por causa da bebida. Hora de parar. Não sou garota de ficar bêbada.
— Chega Cana! — Levy olha para a amiga descontrolada, tomando a garrafa de sua mão — Preciso reconhecer meu namorado depois de hoje ainda.
Sua fala sai acompanhada de uma risada maléfica. Cana toma a garrafa de volta.
— Azar o seu. Eu não preciso reconhecer o meu!
Todas nós damos risadas escandalosas. Fico pensando se vamos acordar o resto do dormitório se continuarmos a rir desse jeito. As duas começam a brigar pela garrafa e eu apenas assisto tudo, dando risada.
— Gente, tenho algo a contar para vocês — Lisanna atrai a atenção de todas.
Todas param de rir ou de se mexer e olham para ela, como se fosse um discurso do século. Voltamos a nos sentar — como Juvia que parece nem se mexer — e esperamos por sua novidade.
— O que houve, Lisanna? — Erza pergunta, apoiando as costas na cama para não cair.
A albina suspira e volta a sorrir.
— Eu vou voltar para o exterior.
Sinto que todas pararam de respirar ao mesmo tempo, especialmente eu.
— O que? — Gritamos juntas, com exceção de Juvia que continuava quieta.
— Acho que será bom para mim também — fala, sorrindo.
— Mas… mas e Natsu? — Cana pergunta com a língua enrolada.
O clima parece ficar pesado depois dessa pergunta. Levy me olha, mas continuo a fitar Lisanna como se não a visse. Sinto meu coração apertar. Apesar de não haver especulações, as pessoas ainda acham que eles devem ficar juntos.
— Bom — Lisanna diz com um suspiro sem deixar de sorrir — Ele está em boas mãos, né Lucy?
Seu olhar se voltou para mim, assim como de todas as outras. Continuo a olhá-la sem entender nada, ao mesmo tempo que meu rosto ruboriza rapidamente.
O que está acontecendo aqui?
— Q-q-que? Por que está todo mundo me olhando? — questiono, nervosa.
Lisanna sorriu para mim e não deixei de fazer o mesmo. Mas meu coração parecia dividido. Ela está… dando a benção dela para nós? Depois de todo esse tempo? Ela desistiu de Natsu? O que diabos está rolando? O que eu deveria interpretar desse ato?
Sinto meu bolso vibrar, e ignorando todos os olhares, pego meu celular. Nova mensagem.
“Hei, está melhor? Espero que sim. A aula foi terrível, mais tediosa do que normalmente é. Sorte sua não ter ido. Está em casa? Por sua luz desligada, acredito que não. Tente não se matar. Beijos” — De Natsu chatinho.
Fico olhando para a tela do celular com um sorriso bobo. Ele está preocupado, que fofo. Logo reparo que meu ato não foi nada pensado, pois olho para frente e vejo um monte de olhos maliciosos em minha direção. Levy em um pulo toma o celular de minhas mãos e começa a ler a mensagem em voz alta. Pulo para cima dela, tentando alcançar o celular, mas ela terminar de ler com a voz ainda mais enfática “de Natsu chatinho”.
— Maldita — praguejo baixinho.
— Ele está estudando com você? — Erza pergunta curiosa.
— Vocês estão mesmo saindo juntos? — Cana questiona perdida.
Lisanna apenas ri com um olhar baixo e penso se ela está se sentindo mal por isso. Odeio essas situações. Por isso sempre escondi tudo o que senti em relação a Natsu. Por ela.
— Me deixem em paz!
—♥—
Depois de tentarem conseguir informações de mim e não obterem nada, porque eu insisti em dizer que éramos só amigos, como sempre fomos. Nos despedimos. Lisanna foi a primeira a ir embora, por morar longe. Erza ofereceu seu quarto, mas ela disse que precisava resolver algumas coisas. É madrugada para resolver qualquer coisa que seja, mas ela parece tão determinada que ninguém a quis parar. Parece que ela irá daqui a algumas semanas, mas deixou claro que haveria uma festa de despedida.
Erza me disse algo interessante antes de sair.
“Eu sempre soube sobre vocês. Natsu é muito transparente, não acha?”
Fiquei encarando seus olhos, vendo se acho algum indicio de brincadeira, mas ela apenas sorriu docemente e foi para seu quarto. Mesmo assim, continuei a encarar a porta, pensando sobre isso. Natsu é muito transparente. Ela quis dizer que estava na cara que ele gostava de mim?
Cana passa por mim aos tropeços, pergunto se ela quer ajuda, mas ela apenas ri loucamente e diz que não. Tudo bem então. Juvia passa logo atrás de Cana.
— Acho que já vou indo também — fala cabisbaixa, fingindo um sorriso — Obrigada pelo convite Levy, foi bom revê-las.
Ela se virou para a porta, mas Levy a fechou com tudo e nós duas entramos na frente com os braços cruzados.
— O que estão fazendo? — pergunta, olhando para nossas poses a frente da porta.
— Você fica — Levy diz, autoritária.
— Isso mesmo — completo ao seu lado — Vai nos dizer exatamente o que está acontecendo. Porque está muito quieta para nosso gosto.
Ela nos olha, assustada. Depois suspirou.
— Só estou cansada — mente claramente.
Começo a rir.
— Eu também estou e nem por isso deixei de me divertir com as garotas. Você, com certeza, tem um problema muito maior para te distrair tanto!
Juvia desvia o olhar, provavelmente caçando algo no que se apoiar. Mas não vai encontrar. Juntando minha teimosia e a curiosidade de Levy, nunca sairá daqui sem dar respostas convincentes. Ela volta a nos olhar, contrariada.
— Tudo bem — suspira novamente — Não podem contar para ninguém, certo? — olha para nós duas, séria — Ninguém mesmo! Nem para o padre na confissão, nem para namorados, nem para Kami-sama mentalmente.
Olhamos para ela e depois olhamos uma para a outra. Então assentimos, concordando com os termos. Andamos novamente para onde estávamos antes, ao lado da cama, em círculo no chão. Sentamos e ficamos esperando ela começar. Juvia parece pensar muito em cada palavra, e por isso, damos espaço e tempo para que ela se prepare.
— Tenho dois problemas — confessa, olhando para as próprias mãos.
— Um começa com G e outro com L? — Levy interrompe.
Olho feio para ela por não conseguir se conter. Juvia ri baixinho, sem nos encarar.
— Bom, na verdade, sim — admite — Vocês sabem que Juvia e Lyon estão namorando há algum tempo — começa a contar com o rosto ruborizando — Lyon… Lyon… Ele quer… quer… — tenta falar, mas a vermelhidão toma conta de seu rosto.
— Sexo — Levy completa de forma direta.
Olhamos para ela, espantadas. Ah meu Deus, ela tem que aprender a não ser tão direta assim. Eu realmente havia pensado na mesma coisa, mas… teria sido mais sutil.
— Que foi gente? Não me olhem como se nunca tivessem feito isso — replica como se fosse a coisa mais normal no planeta.
— Eu achava que você era a santa aqui — murmuro em deboche.
Começamos a rir uma da outra até perceber que alguém parecia de fora. Viramos para Juvia novamente e vemos seu rosto ainda mais corado.
— Ah não… — sussurro, já prevendo o que está por vir.
— Você é virgem? — Levy completa, boquiaberta.
Então é real. A garota da qual se apaixonou pelo cara mais cafajeste de toda Magnólia, é virgem. O mundo parece não ser irônico apenas comigo.
— Parem de me olhar assim! — grita, escondendo seu rosto.
— Que fofa! — Levy pula em cima de Juvia para a abraçar.
— E qual o problema? — pergunto para continuarmos a história.
Juvia respira fundo, quando Levy sai de cima dela e volta para sua expressão contemplativa.
— Nenhum — responde atordoada — Nenhum mesmo, só estou nervosa. Combinamos em nos encontrar em um motel. Ele já reservou e me deu a chave. Eu concordei com tudo e mesmo assim, não sei se…
— Está pronta — Levy completa novamente.
Primeiro olho para Levy, apenas para mostrar minha perplexidade ao vê-la completando tudo o que a gente fala. Ela tem poder de ler mentes por acaso? Então me pego pensando em várias coisas, como a forma como Juvia estava desesperada no Hospital.
— Você ainda ama o Gray, não é? — tento perguntar com a voz mais delicada e suave possível. Pois sei como é horrível remexer no passado. Ainda mais aquele que queremos esquecer.
Juvia desvia o olhar.
— Isso entra no meu segundo problema — afirma com a cabeça baixa — Mas não, eu não o amo.
Arqueamos a sobrancelhas, mostrando claramente que não acreditamos nisso. Ela revira os olhos, cansada.
— Não minta para suas amigas — Levy fala, séria.
Sinto que Juvia está para explodir por dentro.
— Eu não posso amar ele! — grita por fim, assustando nós duas — Eu passei anos atrás dele, entende? Anos! Para finalmente me dar conta que ele nunca se interessaria por mim. Foi nessa hora que resolvi mudar! Não foi por ele, foi por mim! Gray nunca vai me amar. Eu demorei tanto, mas tanto para aceitar isso. E agora que eu finalmente havia conseguido tirar ele da minha mente, esse idiota vai lá e…
Ela para sua frase na mesma hora, provavelmente entrou em uma região perigosa da conversa. Algo que não quer nos dizer.
— E…? — Instigo ao vê-la paralisar.
Juvia fecha os olhos. Sinto que está xingando a si mesma por permitir dizer algo que não queria em um desabafo. Depois abre os olhos de novo e nos encara.
— Meu pai… tem problema com jogos.
Meus olhos se abrem ainda mais por não acreditar no que acabei de ouvir. Não sou a única com problemas familiares por aqui? Levy também não diz mais nada, engolindo em seco. Finalmente reparamos que os problemas de Juvia estão bem mais a fundo.
— É uma longa história — fala, comprimindo a boca — Mas digamos que ele perdeu muito dinheiro. Dinheiro demais para ter que apostar a própria filha.
— O que? — grito, juntamente com Levy, inconformada — Ele não fez isso.
Juvia ri de forma irônica.
— Fez sim, e perdeu.
Fico estática sem saber aonde essa conversa pode parar. Não é possível ter seres humanos que consigo conviver com isso. Eu e Levy queremos revidar e questionar, mas Juvia levanta a mão para continuar.
— Uma noite depois, meu pai contou para mim e para minha mãe. E na mesma noite, depois da balada, eles me encontraram. Os caras que meu pai devia dinheiro. Eles foram em casa, e me puxaram pelos braços. Minha mãe chorava, meu pai suplicava, mas não podiam fazer nada — conta, fechando os olhos, como se sentisse dor — Eles me arrastaram até uma rua, queriam me estuprar. Então...
— Gray apareceu — Levy completa divinamente.
Juvia sorri, achando a própria história inimaginável.
— Sim, ele apareceu. Não sei de onde, nem como, mas apareceu — confirma — Foi o dia que ele levou o tiro. E por isso eu dizia que era minha culpa. Ele me protegeu até o fim.
Levo as mãos até a boca sem acreditar. Tudo parecia se encaixar perfeitamente.
— Eu estava pronta para as consequências. Estava pronta para esconder tudo depois. Eu passei até mesmo a amar Lyon, e a forma carinhosa como ele sempre me trata. Mas… não estava preparada para perder Gray.
— E como sua primeira vez se encaixa com toda essa outra história? — Levy questiona o que estava em minha mente.
Apesar de querer saber muito mais sobre isso. Não quero que Juvia fique relembrando dores tão fortes quanto essas.
— Foi hoje que Lyon me pediu — começa a explicar — Eu concordei, claro. Não queria fazer ele esperar mais. Mesmo sem me sentir bem preparada, concordei rapidamente. Sem dúvidas. Aliás, eu ainda estava com medo daqueles homens aparecerem novamente. Então… é melhor que minha primeira vez seja com alguém da qual eu goste, certo?
Eu e Levy balançamos a cabeça em concordância, esperando por mais.
— Mas… — continua, suspirando — Quando cheguei em casa do trabalho, minha mãe veio em minha direção me abraçar. Ela estava chorando. Eu fiquei desesperada no começo, mas percebi que ela estava sorrindo. Ela me contou que recebemos uma carta, dizendo que todas as dividas estavam quitadas.
Continuei com as mãos em frente a boca.
— Eu não pude acreditar — fala com um sorriso — Fiquei imaginando se meu pai havia feito algum empréstimo ou algo do tipo, mas quando cheguei no meu quarto, tinha um envelope com meu nome. Estava escrito:
“Manter segredos não é o meu forte. Talvez seja íntimo demais. Dessa forma, não precisarei contar a ninguém e não me sentirei pressionado a guardar isso comigo. Não precisa carregar o fardo sozinha. Você merece mais que isso.”
Juvia cita cada palavra, como se tivesse lido e relido aquela carta muitas vezes, até decorá-la.
— Foi Gray? — Levy questiona — que pagou?
— Foi — responde calmamente — Eu o encontrei, disse que devolveria tudo, que não era obrigação dele. Ele só sorriu e disse que não sabia do que eu estava falando, então piscou e saiu. Só ele sabia. Eu pedi para que não contasse a ninguém, por isso sabia que era ele quando li a carta.
— Acho que estamos fugindo do assunto de novo — falo, olhando para as duas no jogo de detetive.
— Certo — Juvia retoma — Quando me senti livre, me senti mais despreparada para Lyon. E… além disso… depois de tanto tempo…
— Seus sentimentos despertaram? — murmuro.
As duas olham para mim. Normalmente é Levy quem completa as frases. Mas, Juvia se parece tanto comigo quando o assunto é sentimentos. Tentando ser outra, esquecer seu amor passado e seguir em frente. As coisas não funcionam bem assim. Ela me olha e algumas lágrimas começam a escorrer de seus olhos.
— Lyon me ama — sussurra — Devo isso a ele.
— O que? — Levy praticamente grita — Fazer sexo com ele é obrigação? Não fale besteiras, Juvia! Você tem que fazer isso porque quer! E de preferência com quem você ama.
— Não são todos que vivem seus contos de fadas, Levy — replica com o olhar baixo — Já perdi tempo demais sonhando. Consegui um beijo do cara que eu amava, forçado. Além disso, Gray está super feliz com todas as mulheres correndo atrás dele.
Sinto uma dor imensa ao ouvir ela dizer isso. O pior de tudo, é que seja verdade. Gray não para. Deve pegar uma por semana, ou se não por dia. Mas… apesar dele não prestar nem um pouco, está tão claro os sentimentos dele por ela.
— Por que ele pagaria uma dívida tão grande? — a pergunta sai de meus lábios sem permissão — Acha que ele faria algo assim por alguém que ele não sente nada?
Juvia paralisa por uns instantes diante minha frase e depois ri.
— Ele só não queria carregar o fardo desse segredo com ele.
— A Lu tem razão, Juvia. Gray nunca está interessado em nada. Não faria algo assim sem motivo.
Juvia suspira, se levantando.
— Parem. Está tudo bem. Só foram muitas emoções para um dia só e fiquei confusa, acontece — fala, espreguiçando-se — Eu posso fazer isso. E nem tentem impedir, estou determinada a ser feliz com Lyon.
— Juvia, não desiste — intervenho — Tenho certeza que se você der uma chance, Gray irá…
— Não — Juvia me corta — Agradeço a preocupação. Nem sei porque eu disse tantas coisas embaraçosas. Mas já tomei minha decisão. Gray é passado.
Por que… eu sabia exatamente que isso não daria certo? Não adianta fingir, Juvia. Não é tão simples quanto parece ser. Quando alguém nos marca, esses sentimentos nos corrói por anos, mas nunca vai embora definitivamente. Ao contrário dela, ainda pude ter minha primeira vez com a pessoa que eu amava. Ter que ouvir isso e não poder fazer nada, me faz parecer tão inútil.
— Posso ir para meu quarto, pensar em paz e me preparar agora? — brinca.
Ela sorri, mas sei que por dentro está destruída. Levy abre a porta para ela e nos despedimos. Assim que ela saiu, ficamos em silêncio. Foi muito para absorver. Ela concordou com algo por achar que tinha um futuro pior. Então o cara que ela ama a salva, e ela não consegue reverter o cenário. E nada disso vai mudar, se Gray não definir seus sentimentos logo.
Olho para Levy para ver se ela está tão pensativa quanto eu.
— Você sabe a única pessoa que pode impedir isso, né? — Levy fala, séria e me olha também com um sorriso — Não que eu goste de me intrometer na primeira vez das minhas amigas.
Dou risada ao perceber que ela pensou na mesma coisa que eu estava pensando.
— Claro que não — digo sorrindo — Hora de agir.
“Oi Natsu. Estou melhor, obrigada pela preocupação. Que sorte a minha não ter ido, você pode me passar a matéria depois? Ah, e falando sobre morte. Preciso da sua ajuda”
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