Destino Das Fadas
9 Capítulo 09 — Entrevistando sentimentos
Notas iniciais
Capitulo 09 — Entrevistando sentimentos
Lucy
Ouço a buzina do carro de Natsu soar em frente de casa e sinto meu corpo estremecer. Droga, não estou nada a vontade com essa história. Nem com um bom pressentimento. Respiro fundo, me olhando no espelho. Estamos tentando ser bem profissionais quanto ao nosso relacionamento pelo bem do trabalho e para não ficar um clima estranho na faculdade, mesmo assim...
Por que diabos um motel?
Só pode ser brincadeira. Isso não é nada bom. Claro que para completar a ironia, tinha que ser o motel do qual fomos depois da balada. Porque nada na droga da minha vida vai pelo caminho fácil. Ela simplesmente segue os piores caminhos para quando eu achar que chegou no fim e estou na situação mais deplorável possível, daí ela mostra que não, pode ser pior.
Dupla? Opa, dupla com o ex-namorado que me odeia. Lugar? Opa, por que não um motel para deixar tudo pior? Motel? Vai que está tudo na pior, vamos coloca-los no motel onde eles passaram o dia todo...
Lucy, está ficando louca?
Olho pela última vez no espelho, me lembrando o quanto foi desconfortável combinar essa “entrevista”.
Flashback on
— Então... — ele diz sem graça, olhando para suas mãos em cima da carteira ou para os lados.
Não que eu esteja diferente. Encará-lo seria... no mínimo terrível. Estou angustiada com essa situação. Uma semana depois de ter passado o trabalho, a professora pediu para que as duplas se juntassem para combinar como seria feita tal entrevista. Parece que ninguém havia avançado em nada ainda em relação ao trabalho e ela ficou irritada.
E aqui estamos com nossas carteiras mais ou menos de frente uma para a outra.
— Pois é... — sussurro, inquieta na cadeira.
Quando olho para baixo vejo que estou mexendo a perna freneticamente abaixo da carteira. Nunca me imaginei com tantos chiliques em um momento só. Ficamos em silêncio, cada um buscando algo para olhar, ou qualquer coisa que faça parecer a cena de nós dois em um motel menos depreciativa.
Natsu solta um longo suspiro que me faz olhá-lo, e depois juntas as mãos em sua frente parecendo determinado.
— Olha — fala suavemente — Eu sei que as coisas estão bem estranhas entre a gente, mas... podemos tentar levar numa boa? — pergunta sem jeito, mas com sua sinceridade direta característica.
— Ah, claro — respondo um pouco nervosa, sentindo minha mão suar frio — Como... dois colegas de turma, certo? — forço um sorriso.
Sei bem que nunca seremos apenas colegas de turma.
— Isso aí — responde, desviando novamente o olhar — Podíamos ir hoje e acabar logo com essa palhaçada, pode ser? — pergunta convicto.
Olho para ele como se tivesse enlouquecido de vez.
— Hoje? — indago de maneira mais pasma do que gostaria.
Não estou preparada psicologicamente para isso, não mesmo. Na verdade, é uma entrevista, Lucy! Não precisa estar preparada. Mesmo assim, meus nervos estão a flor da pele só de pensar. Ainda mais de maneira tão precipitada e nada planejada.
— Sim — responde com simplicidade — Daí ficamos livres. Nós trabalhamos, não teremos tempo para essas coisas — simplifica como se tudo fosse um mundo perfeito.
Arqueio as sobrancelhas para ver se assim deixo claro de como essa ideia é maluca, porém ele me olha como se fosse eu, a louca.
— Está tarde — afirmo o óbvio, assustada por sua falta de perspicácia.
Ele devolve a mesma expressão para mim.
— Não acha que é o horário que o motel mais funciona? — pergunta sarcasticamente, e sinto minhas bochechas corarem.
Droga.
— Tudo bem, então — falo de forma pausada, ainda hesitante.
— Vamos montar as perguntas na aula, depois vou para casa me trocar e passo na sua casa — resolve sozinho.
Suspiro fundo.
— Ok.
Flashback off
Por que meu coração está tão acelerado para uma droga de entrevista? Meu consciente grita em minha mente de tão angustiado. Bom, pelo menos Natsu não está me ignorando...
Começo a sorrir e depois desfaço o sorriso rapidamente.
O que diabos estou dizendo? Esse idiota me largou no meio da rua chorando de amor por ele. Imbecil. Eu deveria ignorá-lo e não o contrário. Suspiro contrariada. Mas eu deveria ficar mesmo feliz por as coisas estarem melhores entre nós. Isso torna nossa convivência mais fácil de ser suportada.
Meu celular vibra, me assustando. Vejo que é uma mensagem e tenho medo que ele possa ter ouvido meus pensamentos.
“Você vai descer aqui ou vou ter que te arrastar?” — De meu Natsu.
Não sei o que me chocou mais: sua mensagem rude ou seu apelido em meu celular. “Meu Natsu”. Que engraçado. Não mais. Tento não ficar abalada com isso e mudo seu apelido para não ficar pasma toda vez que ele me mandar uma mensagem e reparar como a vida é sarcástica.
Pego minha bolsa, dobro o papel com as perguntas e enfio dentro dela. Desço as escadas e assim que estou para chegar no térreo, meu pai aparece, vindo da cozinha. Ele me olha em um misto de raiva e curiosidade.
— Aonde pensa que vai? — questiona autoritário, como sempre — E nesse horário?
Lá vamos nós.
— Trabalho da faculdade — respondo seca e tento passar por ele.
Claro que ele não aceitaria uma resposta como esta. Sua mão logo tomou meu braço com força, me fazendo parar no mesmo lugar. Olho para ele, indignada. Como pode usar tanta força em sua própria filha? Esse cara pode me matar a qualquer hora.
— Me solta! — falo irritada sem me dar por vencida.
Ele ri de sua forma irônica e superior.
— Quer que eu acredite nessa palhaçada? — fez uma pausa apenas para me olhar furiosamente — Nosso nome é reconhecido, não fique manchando ele por aí, se tornando uma vadia qualquer! — disse ríspido e me jogou para trás, fazendo-me cair no chão com força.
Então simplesmente me olhou de cima, virou-se e foi para seu aposento.
Sinto a ânsia de querer chorar. Eu deveria aceitar isso? É normal um pai tratar a única filha deste modo? Jogando-a no chão e chamando ela de vadia? Não sei mais no que acreditar. Às vezes realmente acho que todos os pais são assim, não se importam. Não é como nos filmes, ou como vejo com a maioria de meus amigos. Sinto-me tão angustiada que até minhas boas lembranças sobre o que significa “família” ficaram borradas. Chego a me perguntar se foi mesmo real.
Levo a mão até minha boca, engolindo meu choro. É inaceitável chorar por ele. Levanto do chão com o resto da minha dignidade e bato na minha roupa como se quisesse estar livre de qualquer vestígio de ódio que ele tenha deixado em mim. Depois passo a mão na marca avermelhada em meu braço.
Não vou chorar. Eu sou forte.
Ajeito meu vestido e respiro fundo para não demonstrar o quanto estou abalada para Natsu. Tenho mesmo que sair de casa um pouco.
Passo pela porta principal e logo avisto o carro de Natsu parado em frente. Ele também deve estar furioso comigo. Devo mesmo ser boa nessas coisas. Passo pelo portão e entro no carro em silêncio. Sinto que não vou aguentar minha pose por muito tempo se abrir a boca. Coloco o cinto e fico olhando para minhas mãos em meu colo.
Natsu dá partida no carro, olhando para mim de lado.
— Até que enfim — diz irritado, tudo o que eu queria era mais alguém irritado comigo — Estava para fazer cem anos aqui.
Não quero mais brigar.
— Desculpe — sussurro, olhando pela janela ao meu lado.
Não quero encarar ninguém.
Passou alguns minutos de silêncio entre a gente, e reparo que o carro é desligado sem nem ao menos ter saído do lugar. Olho para o lado procurando o motivo e encontro um Natsu me fitando.
— O que aconteceu? — perguntou... preocupado?
Também não quero a pena de ninguém. Nem atrapalhar a vida de ninguém. Tudo o que consigo é preocupar os outros? Devo ser muito talentosa para preocupar o cara que mais me odeia no planeta.
— Nada — tento responder de forma firme — Reclama tanto e ainda fica aí enrolando para ir — finjo estar irritada.
Ele arqueia as sobrancelhas por meu estresse repentino.
— Mulheres... — murmura ao meu lado, dando novamente partida no carro.
Finalmente, vejo aquela mansão se afastar. O lugar imenso e frio onde moro. O lugar onde nunca senti ser meu lar.
Mamãe... como eu queria você aqui.
—♥—
O motel se localiza em um lugar bem afastado e levou algum tempo de muito silêncio para chegar até lá. Para melhorar, uma chuva torrencial nos pegou pelo caminho e Natsu reduziu a velocidade para eu não ter um enfarte. Não conseguia enxergar nada nessa escuridão. Quando finalmente chegamos no portão, Natsu começou a nos identificar para saber aonde ir.
Esse lugar... que nostálgico.
Quando viemos eu estava tão extasiada que mal me lembro dos detalhes dessa entrada grandiosa. A estrutura toda e gigantesca se ergue como uma fortaleza.
O portão se abre e Natsu passa a procurar um lugar para estacionar perto da área administrativa. Passando por diversos quartos pelo caminho. Memórias, parem de me atormentar. Quando finalmente encontrou onde deixar o carro, reparamos como a chuva estava mesmo terrível.
— Que dia horrível para se vir a um motel independente da finalidade — sussurrou para si mesmo, apanhando um guarda-chuva no banco de trás — Espere aqui — fala para mim, saindo do carro.
Fico ali sem entender, quando o vejo abrindo o guarda-chuva e dando a volta no carro para me buscar. Não acredito que ele tenha feito isso. A porta do meu lado de abre e ele me aguarda com o guarda-chuva logo acima.
Abro um sorriso fraco, sem reparar. Saio do carro e ele fecha a porta para mim. Seu braço passa por minha cintura para me manter por perto, e sinto meu rosto corar imediatamente. Seu corpo emana tanto calor que tenho medo de minhas próprias ações. Estava pronta para mais ilusões quando meus pensamentos se dispersam rapidamente pelo som de trovões ecoando por toda parte.
— O céu está prestes a cair sobre nós desse jeito — brinca, fazendo eu rir baixinho.
Olho para ele, analisando sua forma natural de agir e logo seu olhar se encontra com o meu. Ficamos assim por um tempo até ele sorrir.
— Isso combina mais com você, Lucy — comenta, levando-me até a cobertura.
Meu rosto cora novamente. Esqueci dessa sua capacidade incrível de me fazer ruborizar por qualquer coisa.
Por que está sendo tão gentil? Meu coração não aguenta vê-lo desta forma. Seja chato, irritante, rude! É mais fácil aceitar tudo. É uma droga... estar perto de você, se você for agir dessa forma.
Chegamos em uma cobertura, onde havia um pequeno aposento com a porta fechada. Natsu fechou seu guarda-chuva e o encostou ao lado da porta, e depois deu algumas batidas leves. Aqui deve ser onde o administrador geral fica. Tento pensar no trabalho que temos pela frente, mas ainda me sinto hipnotizada por Natsu. Nossa relação é estranha. Vivemos e passamos por muitas coisas, brigamos tantas vezes e ainda assim... ele parece tão legal. Um imbecil legal.
A porta se abre, mostrando um rapaz moreno e charmoso, dono de olhos verdes fascinantes. Fizemos as devidas apresentações e fiquei apenas ao lado de Natsu, fazendo anotações enquanto ele prosseguia com o protocolo social. Descobrimos logo que se tratava do próprio administrador, seu nome é Ken. E imagino que deve ser um pervertido completo para gerenciar um motel de luxo desses.
Ele nos convidou para irmos até sua sala, havia três. Passamos por uma, onde uma moça nos ofereceu algo para beber, mas recusamos. Depois estávamos na sala dele. É simples e bem decorada. Tem praticamente o tamanho de meu banheiro, mas acredito que não é necessário mais que alguns armários e um computador para administrar o local.
Eu e Natsu nos sentamos em frente sua mesa, tirei nosso planejamento da bolsa e Natsu começou com as perguntas sobre a administração do local. A história, o ano em que foi inaugurado, tempo de construção, dificuldades. Fiquei focada nas anotações, mas não se se é apenas impressão. Quando olho para frente, Ken tem seus olhos em mim. Uma hora, nossos olhares se encontraram e ele sorriu de lado de maneira sexy, fazendo meu rosto corar.
Tusso sem graça e continuo anotando.
Mais um para me deixar sem graça, não dá. Natsu olhou para mim algumas vezes, parecendo irritado, mas talvez seja só impressão também.
— Então Sr. Ken — usou seu tom grave para voltar a atenção do mesmo para si — Como havia lhe perguntado antes, como surgiu a ideia de abrir esse motel?
Os dois se encararam e o clima da sala pareceu pesar por alguns instantes. Conheço esse olhar de Natsu, parece desafiar o dono do motel a alguma coisa. Ameaçá-lo. Perdi algo nessa entrevista?
— Bom — Ken começa a responder, segurando uma mão na outra acima da mesa — Eu sempre quis ser dono de um grande negócio, ser empreendedor, sabe? — continuou, parecendo bem profissional — As ideias... — fez uma pausa, fitando a mim novamente — Apenas vinham em momentos coerentes — terminou com uma piscadinha.
Ruborizo, ficando sem ação. Paro de encará-lo e olho para o chão como se houvesse algo interessante a ser olhado ali. Não é impressão. Ele está me cantando!
Os trovões lá fora ficam mais fortes, tremendo o chão da pequena sala. Natsu se levanta, irritado e pega em minha mão.
— Chega. Vamos embora! A entrevista acabou — Afirma, parecendo furioso.
O que está acontecendo? Sinto um choque me percorrer ao sentir sua mão quente segurando a minha. Mais em choque ainda ao não entender sua reação súbita de ira. Será que fiz alguma coisa para deixa-lo assim? Eu fiquei fazendo anotações a entrevista inteira!
— Mas... você ainda não fez todas as — sussurro um protesto em vão.
— Eu disse que acabou! — repete, olhando para mim, irritado.
Penso em contestar, mas as luzes se apagam. Tudo se apaga em um breu sem fim. Ah, não. Maldita hora para se acabar a luz. Eu odeio escuridão. Quase quanto odeio altura. Aperto a mão de Natsu, querendo me sentir mais segura.
— Ai meu Deus — exclamo com medo.
Escuto alguma movimentação e imagino que seja Natsu procurando algum lugar mais claro, mas sinto sua mão soltar a minha bruscamente. Então sinto minhas costas baterem em uma parede, com mãos segurando meus pulsos ao lado da cabeça. Meu coração acelera anormalmente. O que está acontecendo?
— N-natsu? — murmuro, assustada.
“Shiu” escuto um sussurro em meu ouvido.
Esse não é o cheiro de Natsu. AI-MEU-DEUS!
— Lucy! Cadê você? — Ouço a voz de Natsu desesperada por perto.
Mas não perto o bastante para segurar meus pulsos. Engulo em seco, pensando se devo gritar, porém meu corpo parece paralisado. Sinto uma respiração se aproximando de mim, e depois lábios passeando por meu pescoço.
Sinto meu corpo arrepiar e ao mesmo tempo me sinto enojada.
Estou prestes a voltar meus movimentos, quando uma luz ardente se acende na escuridão. Meus olhos ardem até entender a cena. A primeira coisa que vi foi Ken bem próximo de mim e depois vi Natsu segurando seu celular com a lanterna ligada em nossa direção.
E um segundo após... Meus pulsos foram libertados com Natsu dando um soco certeiro na cara de Ken. Fico indignada com tudo aquilo. Natsu me entrega seu celular e parte para cima do dono deste motel. Não sei o que fazer ao vê-lo tão alterado.
— Não ouse tocar nela, otário — advertiu depois do terceiro soco.
— Natsu! — grito, segurando-o pelas costas — Pare com isso!
Ken fica de pé e ri de forma sarcástica, estralando o pescoço e depois passando a mão onde Natsu acertou o primeiro soco.
— Você é namorado dela? — pergunta, sério.
Natsu fica em silêncio por alguns instantes até responder.
— Não.
— Hum... — murmura — Então é casado com ela? — continua a perguntar.
— Não — responde novamente, parecendo que irá pular em Ken a qualquer momento, novamente.
Ken arqueia as sobrancelhas, intrigado com a situação.
— Então, por que me bateu com tanta convicção?
O sorriso nos cantos de seus lábios indicava sua provocação. Natsu continuou parado e tirou minhas mãos que o seguravam com as suas de leve. Com medo que ele avance novamente e acabe preso, tento intervir.
— Vamos embora, Natsu — digo, encostando em seu braço.
Mas ele não se moveu. Queria poder saber o que está pensando tanto. Ken passa a mão por suas roupas, sem deixar de encarar Natsu caso ele parta para o ataque.
— Não conseguirão ir embora — fala sem muita animação — O sistema está fora do ar, os portões não abrem — explicou.
Mais essa agora para me provar que minha teoria estava correta. Sempre tem como piorar.
— Os quartos possuem luzes de emergência — continuou, indo até sua mesa e abrindo a gaveta para tirar uma chave. Depois voltou e ficou de frente com Natsu, o que me deixou com medo — Aceite ficar em um deles como um pedido de desculpas.
Sua mão estendida na frente de Natsu, fez meu corpo estremecer. Natsu olho para chave e depois para ele. Seus punhos ficam cerrados. Seus olhos parecem queimar a chave em pensamento.
— A senhorita parece com frio — continua a falar, direcionando seu olhar para mim enquanto Natsu parece ignorá-lo — Posso leva-la para meu quarto presidencial — sorriu de forma sedutora.
Natsu pega a chave da mão de Ken com força e me puxa pelo braço.
— Vem — fala irritado.
O que está acontecendo aqui?
—♥—
Sou arrastada através de quartos e mais quartos. Ainda sem entender tudo o que está acontecendo. Natsu parece perdido, mas não sou louca de comentar alguma coisa até porque ele já parece bem estressado. Fico olhando enquanto sua mão vai lentamente descendo de meu antebraço até minha mão. Abro um sorriso discreto sem conseguir me conter. Mesmo sabendo que não é uma boa situação para sorrisos.
Finalmente, ele encontra o quarto — do qual já passamos, pelo menos, trinta vezes na frente — e bufa, irritado. Finjo não ter visto também e fico ao seu lado.
— Até que enfim — reclama.
Ele solta minha mão assim que se deu conta que a estava segurando. Parece estar meio desnorteado. Mas acorda em seguida, pegando a chave e abrindo a porta. A luz de emergência já está acesa e reparo que o quarto é idêntico àquele que estivemos da última vez.
Isso não é nada bom.
Passo pela porta e ele passa logo atrás, ainda soltando fogo pelos olhos. Natsu está mesmo irritado e confesso que chega a ser engraçado. Mentalmente.
Ele senta na cama, suspirando fundo, enquanto eu fico de pé a alguns metros a sua frente, encostada em uma estante de toalhas. Não falamos nada. Não sei se sou eu quem deve começar a falar sobre a cena constrangedora que se passou.
— Aquele maldito com nome de boneca — murmura para si — Vou processá-lo, com certeza.
Seu olhar para em mim ao final da frase. Ele espera alguma resposta? Olho para ele um tanto assustada. Sua perna fica se mexendo freneticamente, batendo o pé no chão. Nunca o vi tão irritado a ponto de fazer seus tiques aparecerem.
— O que foi? — pergunta ao ver minha falta de palavras.
— Nada — respondo rapidamente, tentando esconder um sorriso traíra.
Não foi por você, Lucy. Não foi. Entenda isso. Eu sei que não deveria pensar desta forma. Mas... mesmo que não fosse um ataque de ciúmes, — E não que eu espere por isso — ele me protegeu. Natsu sempre me protege.
— Do que está rindo? — pergunta com as sobrancelhas arqueadas.
— Nada — repito, tentando segurar minha felicidade.
Ele revira os olhos.
— Estranha.
— Bom — começo a falar sem conter um sorriso de lado — Não fui eu quem bati no dono de um motel renomado, do qual devíamos apenas entrevistar — enfatizo a última palavra para ver se ele ao menos se lembra desse detalhe.
Ele cruza os braços, parecendo muito contrariado. Suspiro, cansada.
— Pelo jeito terei que entrevista-lo eu mesma... — murmuro para mim mesma, já temendo ter pronunciado as palavras.
— Nem pensar! — grita alterado.
Olho para ele, curiosa e ele desvia o olhar novamente. Continuo apenas parada, esperando alguma continuação. Seu pé continua batendo no chão.
— Pare com esse pé! — digo depois do silêncio.
Natsu para e por sua reação nem havia reparado no ato. Depois volta a me olhar para retomar o assunto.
— Ele tentou te abusar sexualmente — replica, parecendo muito irritado por minha contestação ao seu heroísmo. Parece um advogado.
— Ele não fez nada — rebati.
— Porque eu impedi! — retrucou ainda mais convicto.
Isso não vai levar a lugar algum.
— Certo — dou-me por vencida e abro um sorriso — Obrigada.
Ele sorri de volta.
— Sou seu herói? — pergunta de forma convencida, me fazendo rir ainda mais.
Sento ao seu lado na cama.
— Seu sonho de consumo, hein? — provoco.
Ele ri também. E assim o assunto se encerra de forma natural e cômica, o que poderia ter sido muito trágico. Mas depois a situação ficou mais estranha. Quando nos demos conta que éramos apenas nós dois, em um cômodo que te incentiva a fazer coisas que não deve e o barulho da chuva lá fora, nos dizendo que não podemos fugir.
Ele deita na cama, parecendo mais relaxado que antes.
— Teremos que esperar — fala, olhando para o teto.
— Parece que sim — digo, deitando ao seu lado, mas um pouco afastada.
Medidas de segurança.
Ficamos em silêncio, sem saber o que deveríamos falar em uma situação assim. Só para recapitular, eu vim para o motel fazer uma entrevista de faculdade com meu ex-namorado, o dono que devíamos entrevistar estava dando em cima de mim, a energia cessou, ele tentou me agarrar, Natsu saltou para cima dele e por fim, estamos em um quarto sem saída, sozinhos.
Achei que era brincadeira, mas poxa, é real.
Tic Tac.
Mordo o lábio, impaciente. Essa noite vai ser eterna.
Então Natsu pega seu celular e começa a ver vídeos. Tento ignorar sua tentativa de me ignorar. Mas ele começa a rir muito. Não tive outra opção a não ser me aproximar instintivamente. Jogo meu corpo para o lado para conseguir ver também. Foi aí, que sua cabeça encostou na minha e sem perceber seu braço estava abaixo de meu pescoço, me fazendo deitar em seu peito.
Poderia contestar suas ações não pensadas. Deveria fazer isso.
Mas me sinto tão bem assim.
É inexplicável estar tão perto de seu coração. Ouvi-lo bater tão forte e pensar por mínimos minutos que ele bate por mim.
A noite não foi tão eterna, afinal. Não dá forma que imaginei que seria. Não sei quanto tempo passou, não ouvi mais o som do relógio incomodo. Ficamos assim, abraçados, ouvindo o som da chuva lá fora, pensando que talvez não tenha sido assim tão ruim. Vimos vários vídeos engraçados, rimos e jogamos conversa fora.
Como antes.
Destino, por que brinca tanto comigo?
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