Destino

1 A Curiosidade


Eu tinha total consciência de que estava sendo ridícula, mas isso não importava muito quando contemplava minha geladeira totalmente desprovida de alimento. Tudo bem, eu confesso que gastava a maior parte de meu salário comprando besteiras e pagando o pacote mais caro da Netflix, mas eu estava desempregada, e isso não mudaria se eu deixasse de assistir minhas sagradas séries.

Quis matar Octavius quando o mesmo resolveu me despedir só porque acabei me metendo em um assunto de policiais, e não de detetives. Será que aquele velho não entende que detetives são absurdamente curiosos de natureza? Não havia como mudar meu jeito e, aliás, eu só o ajudei a desvendar toda aquela baboseira de armas roubadas e tudo mais.

Confesso que não entendi exatamente o porque de eu não poder ajudar e investigar juntamente com os policias, mas também admito que o velho me alertou inúmeras vezes, dizendo para eu ficar o mais longe possível daquele caso, senão o pior aconteceria. E eu, na minha ingenuidade de vinte e três anos, acreditei que o pior era morte, quando fui surpreendida descobrindo que, na verdade, este era perder o emprego.

Não me entenda mal: eu não acho que morrer é menos pior do que perder o emprego, não me veja como uma mulher depressiva que escuta Lana Del Rey e deseja estar morta – mesmo que Ultraviolence seja um álbum maravilhoso. Na verdade, eu gosto de viver, por mais que seja bem complicado na maioria das vezes. Mas eu também gosto muito de ter a minha geladeira cheia e tomar banho de água quente sem precisar bater na porta do meu melhor amigo todos os dias pedindo para ele gentilmente me emprestar quinze minutinhos de seu chuveiro que nem é um dos melhores.

Fui despedida há quase quinze dias e não consigo encontrar trabalho nenhum em nenhuma das estações policiais da cidade. Pelo jeito, Octavius têm amizade com todos os xerifes ou seja lá quem manda nos policias, porque todos adoram gritar um não na minha cara quando imploro por serviço.

Eu já estava ficando aflita, de verdade. Eu sabia que não poderia me aproveitar de Thomas, que, mesmo que ganhasse uma boa quantia com seus livros de fantasia para juvenis, não poderia me sustentar pelo resto da vida. Ele é um bom melhor amigo e vizinho, mas eu me sinto na necessidade de produzir meu próprio dinheiro e ver que todas as minhas tentativas de voltar a trabalhar não estavam surtindo efeito algum estava me fazendo enlouquecer. Com todo aquele desespero tomando conta de mim, eu poderia aceitar qualquer trabalho que surgisse em minha frente, aceitando qualquer ideia de me tirar do fundo do poço.

A ideia idiota veio de Thomas. Ele estava lendo o jornal – não me pergunte porque um homem lindo com vinte e quatro anos estava lendo aquela junção de papéis velhos – quando viu uma propaganda de um detetive particular. Na hora, o moreno entrou em meu apartamento que parecia estar abandonado se não fosse pela minha bendita presença naquele sofá velho e rosado que havia sido de minha mãe até ela comprar um novo. Ele jogou aqueles papéis fedidos na minha cara e, após rogar praga e chamá-lo de todos os nomes feios que existiam, eu escutei a sua ideia que era uma bosta, mas eu juro que pareceu genial na hora.

Thomas sugeriu que eu virasse uma detetive particular, mesmo que o dinheiro não fosse tanto. O trabalho não era tão complexo, eu deveria apenas fazer o que meu cliente quisesse, desde perseguir o patrão até descobrir se seu companheiro estava o traindo. Eu aceitei toda essa idiotice sem nem pensar duas vezes, e com um dinheiro que meu melhor amigo emprestou, lançamos a propaganda no jornal.

Agora, após dez dias imersa nessa ideia burra, aqui estou eu, sentada na mesa de um café esperando minha primeira cliente. Juro que não acreditei na rapidez da procura e nunca imaginei que alguém realmente precisasse de um detetive particular para descobrir coisas tão inúteis. As pessoas são tão estranhas, e olha que isso é pouco. Thomas me disse que soube de uma mulher que contratou um detetive particular para descobrir se havia um detetive particular a investigando. Eu sei, é bizarro.

Uma mulher que aparentava ter vinte e poucos anos se aproximou da mesa que eu estava tomando meu capuccino, ou melhor, tendo a minha língua queimada graças à minha impaciência. Ela usava uma calça jeans e uma camiseta simples, mas ainda assim parecia elegante. Mais alta do que eu, mesmo usando apenas uma sapatilha. Quer dizer, não é muito difícil ser mais alta que eu, já que passei minha infância achando que eu era uma pigmeu porque não crescia como meus coleguinhas.

– Isabelle? – Perguntou ela, encarando-me com seus olhos esverdeados.

– Ah, olá – Não estava acostumada a dizer olá, sempre achei oi muito mais prático, mas eu queria passar uma boa impressão – Você é Sarah, certo?

– Sim, sim. Muito prazer – Ela sentou-se na cadeira à minha frente.

– O prazer é todo meu.

Um silêncio um pouco constrangedor se instalou na mesa, e dei um gole no capuccino ainda quente, praguejando quando senti minha língua queimar novamente.

– Então, como meus serviços podem te ajudar?

– Sou uma pessoa muito desconfiada, entende? Costumam dizer que é insegurança, mas não é – Ela parecia inquieta, e quase pedi para ela se acalmar – Estou achando que meu namorado está me traindo. Namoramos há quase quatro anos, e de uns tempos para cá ele vem me evitando, só sai com aqueles amigos hippies e eu... Eu preciso saber se Axel ainda me ama.

Me pergunto como uma pessoa pode chegar a esse ponto. Não quero julgar Sarah, mas, sendo uma pessoa prática quando o assunto é sentimentos, não seria muito mais fácil perguntar para esse tal de Axel o que está acontecendo?

Eu queria muito poder ajudá-la, dizer para ela deixar toda essa desconfiança de lado e apenas sentar ao lado de seu namorado e tentar entender tudo que está acontecendo, o porquê de a relação deles ter chegado à esse nível, e eu até poderia aconselhá-la agora mesmo e fazê-la desistir dessa tortura que era ter que confiar em outro alguém para descobrir algo de alguém ela supostamente deveria confiar.

Mas eu precisava de dinheiro, e digamos que não sou tão altruísta quanto deveria.

– Entendo. – Respondo – Preciso dos dados dele, algum local que eu possa investigar, a idade...

– Está tudo aqui – Ela interrompe, colocando um envelope cor kraft no centro da mesa.

Sem largar minha curiosidade, o abro e leio a ficha em voz alta.

Axel Lavender, vinte e um anos, estudante de música na faculdade de Goldsmiths. Um pouco hippie, aprecia as bandas The XX, The Royal Concept, The Strokes e Take Me Home. Gosta de ler os livros da série Harry Potter e, aos finais de semana, fica for a do campus, na casa de sua avó.

– Tudo bem – suspiro, imaginando o trabalho que me espera – Mantenho contato sempre que descobrir algo novo. Sendo hoje sexta-feira, começo meu trabalho na segunda.

– Uma parte da quantia já está no envelope. – Sarah diz, e checo se o dinheiro está mesmo ali – Boa sorte, Isabelle. Espero que consiga descobrir o que se passa com meu Axel.

Estremeci ao ouvir Sarah falar de Axel como se ele fosse um objeto de sua posse, mas fiz que sim com a cabeça observando-a a sair da cafeteria. Quando a mulher deu as costas, liguei para Thomas o mais rápido que pude e, assim que meu melhor amigo atendeu, vomitei as palavras no microfone do celular como se o mundo estivesse prestes a acabar:

– Você não sabe o quanto eu estou ferrada.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.