Destino
1 I.
Notas iniciais
Toda vez que alguém mencionava o nome dela, ele ficava feliz por não ter dito adeus. Todos perguntam por que ele não deu um ultimo adeus à pessoa que ele mais amava. Tivemos muitos “olas”, não precisávamos de um adeus. Porque para ele, ela ainda estava lá.
Estava lá nas flores que cresciam próximas à janela. No reflexo prateado da lua de verão na fonte do parque. Na primeira chuva depois de meses de seca, na primeira nota de uma canção. Ela era beleza e beleza nunca se vai.
Ele sente falta dela de um jeito que os outros não compreendem. Sente saudades de ser acordado com cafuné nos cabelos, do riso bobo dela toda vez que ele pedia para ter a gravata ajustada. Sente falta do jeito que os olhos dela brilhavam quando refletiam as estrelas, ou quando ela contava dos planos para o futuro, as coisas que queria fazer, os filhos que queria ter. Ele sente falta de como ela o incluía em todos esses planos.
Toda vez que ele fecha os olhos, a enxerga vividamente, quase pode tocá-la. Nada poderia tirar o rosto dela de sua cabeça, porque ele ainda o vê, todos os dias, todas as horas, todos os minutos. Ele a vê quando olha para a esposa dormindo, serena, de manhã, quando beija o rosto dos filhos antes de, puxando as mochilas de rodinhas, fazem seu caminho para a escola, voando um pouco a cada passo. Ele a vê no rosto alegre da mãe quando avisa que vai passar o domingo com ela e nas palavras reconfortantes do pai sobre como ele está orgulhoso do homem que o filho se tornou. Porque ela é amor, e o amor nunca se vai.
Ele não sente medo, nem tristeza ao pensar nela. Porque sabe que, quando for sua vez de fechar os olhos, eles vão se encontrar. Ele sabe que, em algum lugar, em alguma vida, ela o espera. E ele não sabe quando, nem como, ou por que não quer apressar esse dia. Ele sabe que vai chegar, que ele vai revê-la, poder acariciar seus cabelos de manhã outra vez, vai poder ouvir a risada dela enquanto ela ajeita a sua gravata. Ele tem certeza disso e não quer apressar. Ele sabe que vai estar com ela outra vez, de algum modo, a perderia cinquenta vezes se pudesse cinquenta vezes viver o infinito finito ao lado dela. Ele pode viver sua vida, amar seus filhos, amar sua esposa, seus pais e seus amigos porque sabe que ela o esperará. E quando ele chegar, ela saberá que ele a esperou também. Porque ela é seu destino, nesse mundo, ou em outros, nessa vida ou em outras. E o destino há de colocá-los juntos outra vez. Em algum momento. Ele esperará.
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