Destino?
5 Capítulo 5
13/4/2010 – Colégio Interno Para Garotos, Rio de Janeiro.
O Gustavo Hales é o Gustavo Hates. Ele está mudado. Tem uma barba rala em seu rosto, e piercing no lábio e sobrancelha. Além de ter alargador 12mm nas duas orelhas, e o cabelo está um pouco maior, e desarrumado de um jeito sexy. Ele está mais musculoso, e também mais ameaçador. A voz mais grave e rouca de um jeito totalmente sexy. Ele não sorriu desde que eu cheguei aqui, e eu tenho vontade de abraça-lo e perguntar o que aconteceu, mas não posso estragar o disfarce. As poucas vezes que ele prestou atenção em mim, eu me certifiquei de não olhar nos olhos dele, e virar o rosto. Ele não pode me reconhecer de jeito nenhum.
O Lipe e o Nico são meus melhores amigos, e estão ficando juntos. Eles tiraram a mesinha de cabeceira entre as camas deles, e juntaram as camas – sim, eles dormem juntos, mas não transam, pelo menos não enquanto eu estou no quarto. O Gustavo não se incomoda com isso, e eu muito menos.
A cabeceira deles é mais conhecida como esconderijo de comida, onde guardamos Pringles, Ruffles, chocolate, Bono, Fandangos, e mais comida desse tipo. E, no final do corredor do nosso andar – aliás, de todos os andares -, tem uma geladeira com bebidas como água, suco, refrigerante, e remédio de algumas pessoas. Todo final de semana, nós saímos do colégio – eles ficam juntos, visitam a família e tal, e eu vou para casa, lavar a roupa e comprar comida. Quando domingo chega, volto para o apartamento, guardo a comida no esconderijo e vou para a biblioteca ler um livro.
Mas hoje, hoje é diferente. Minha avó disse que ela vai viajar e eu não vou poder ficar na casa dela, então vou ficar no colégio – merda...
Despeço-me do Lipe e do Nico quem vão assumir a amizade colorida deles para o pai do Nico, e volto para o meu quarto. O Gustavo está aqui, sem camisa. Ele tá gostoso.
Tento não demonstrar que estou observando seu físico de tirar o fôlego, mas acho que ele percebe.
— Você é gay? – pergunta de um modo neutro, enquanto tira a bermuda e mexe em sua mala provavelmente a procura de roupa.
Que bunda sexy, puta que pariu. Para de me seduzir!
— Não! Por que acha isso? – minha voz sobe um tom, e eu acho que tô corando. Viro o rosto antes que ele perceba.
— Hum.
E mais nada. Ele entra no banheiro e eu vou para a biblioteca. Só nos reencontramos quando anoitece, e voltamos para o quarto. Ele liga o laptop e coloca algum filme com cenas +18 e eu coro ao escutar os gemidos.
— Quer que eu coloque um fone? – ele pergunta depois de eu ter me escondido embaixo do cobertor e ter colocado o travesseiro em cima da cabeça para abafar o som.
— Hein?
— Você parece incomodado.
— Não é isso, cara. É que estou com uma puta dor de cabeça.
— Hum.
Uma coisa que eu odeio muito é “hum”. É tão “pouco me fodendo para o que você falou”.
Meia hora depois, ele vai para o banheiro e eu finalmente consigo dormir.
Eu estou em uma floresta, e tem alguém me seguindo. Eu tento fugir, mas parece que o perseguidor está se aproximando. E então, eu caio em algum tipo de buraco, não sei. Sei que estou em um tipo de túnel caindo, e caindo, e caindo. Meu coração bate forte e parece que quer sair do meu peito, e eu começo a ficar com muito medo e a berrar.
— Ei, ei, ei! Acorda, cara! – escuto a voz do Gustavo, mas não consigo sair do sonho.
Quando olho para cima, enquanto vou caindo mais ainda no buraco, eu vejo o rosto do meu pai.
— Porra, cara. Acorda! – o Gustavo começa a berrar e eu abro os olhos, mas vejo tudo embaçado. Quando dou por mim, estou chorando. Ele me olha receoso e eu corro para o banheiro.
Ele não me segue – até porque isso seria meio gay demais nessa situação. Tomo um banho, porque estou totalmente suado, e choro silenciosamente até não aguentar mais e eu ficar com uma terrível dor de cabeça. Não sei por que chorei tanto. Sim, eu sinto falta do meu pai, e o rosto dele estava meio deteriorado. E parecia que ele estava me olhando enquanto eu caia em uma cova. E me lembrar do meu pai me faz me lembrar da mamãe, e em tudo o que aconteceu esses anos, mas não era para eu ter me descontrolado tanto! Eu já devia ter superado!
Respiro fundo e tento relaxar. Quando eu saio do banheiro, quase uma hora depois, com meu nariz vermelho e meus olhos inchados, ele olha para mim com preocupação no olhar.
— Pesadelo. – resmungo depois de me jogar na cama de costas para ele.
Escuto ele respirar fundo e se deitar na cama.
— Se quiser, tenho alguns remédios para você dormir sem pesadelo. Funciona bem para mim.
Ele toma remédios? O que aconteceu desde a última vez que nos vimos?
— Valeu, mas não precisa. Eu tô bem. – eu estou convencer ele ou eu?
— Se precisar, tá na primeira gaveta, lá no fundo.
Tento dormir sem o remédio, mas toda vez que eu fecho os olhos, o pesadelo volta à tona, e eu fico com medo. Não sei quanto tempo fiquei me remexendo na cama, mas até o Gustavo se irritou.
— Porra, cara, tá com fogo no rabo, é?
Reviro os olhos.
— Vai se foder. – retruco e fico toda encolhida embaixo da coberta.
Não conversamos mais. Um tempo depois, ele dorme e eu fico sozinha no quarto. Vou para o “quarto de estudos” – tecnicamente, só o Nico o chama assim. Para o resto das pessoas, ali é onde guardam as bebidas, malas, e coisas pornôs.
O Lipe e o Nico tem uma revista só com fotos quentes de homens, mas eu tenho medo de pegar e alguém desconfiar. Tudo bem que eu posso simplesmente falar que sou gay, mas realmente não quero inventar mais uma mentira.
Quando a noite de domingo chega, os pombinhos voltam com sorrisos no rosto.
— Então, como foi com o pai do Nico?
O Lipe morde o lábio e olha para baixo, e o Nico gargalha.
— Eu não acredito que você contou isso para ele! – o Nico ri, deixando o Lipe vermelho de vergonha. – Ribeiro, eu e o Lipe fomos pra um motel, mas ele ficou com vergonha até de entrar lá, ficou corado da cabeça ao pé!
— Ei, não conta isso! – ele dá um empurrão no Nico com o ombro, mas ele o ignora e continua me contando sobre como o Lipe estava com vergonha.
— E como foi o seu final de semana? Soube que o Hates ficou aqui também. – o Lipe pergunta, trocando de assunto.
— Ah, foi normal. Mal conversamos. Eu fiquei na biblioteca, e ele só aparecia de noite para dormir.
Enquanto eu converso com eles, percebo que o Gustavo continua na cama dele, deitado de costas para a gente, olhando em seu celular.
Queria poder abraça-lo e falar que ele pode conversar comigo, mas isso soaria muito gay, e ele provavelmente me ignoraria. E eu tenho que tomar cuidado com o que falo perto dele. Com os dois, não, porque eles pensam igual a mim, e não me olham estranho quando dou minha opinião sobre certos assuntos. É legal, eu sinto como se fosse eu mesma com eles, e tal o João.
Passamos a semana toda estudando, testes chegando... Uma merda total. O Nico ensina pra mim e para o Lipe tudo o que não aprendemos na aula – o que é praticamente a matéria toda, porque eu e o Lipe ficamos ou conversando, ou dormindo em todas as aulas.
Testes vêm, testem vão. O Nico foi o aluno com as maiores notas, o Lipe ficou em decido segundo lugar, e eu fiquei em quinto. Nossa turma tem trinta pessoas, sendo que metade são os que foram obrigados a vir para cá porque seus pais acham que eles são problemáticos. E o colégio faz essa comparação toda para os alunos ruins se sentirem uma merda, e os bons terem seus egos inflados. Sério, é isso que acontece – exceto comigo, com o Lipe, com o Nico e com um garoto da nossa turma que parece ser gente boa, mas tem vergonha de falar com alguém.
— Ei, Ribeiro, posso te perguntar uma coisa? – o Nico fala baixinho enquanto o Gustavo toma banho.
Estamos sentados na cama dele – que na verdade é a cama dele e do Lipe, e são as duas camas juntas.
Faço que sim com a cabeça, já meio nervoso com a pergunta.
— Você é gay?
O Lipe presta atenção na conversa e deixa o livro de lado. Sinto meu rosto corando. Porra, já é a segunda vez que me perguntam isso! Eu estou dando uma de menininha e não reparei?
— Não! – berro, escondendo meu rosto com um travesseiro.
— Pode falar, a gente não vai espalhar pra geral. – o Lipe tenta me tranquilizar.
— Mas eu não sou!
Eles se entreolham e sorriem de um jeito maligno.
— Então, já que você não é gay, posso te mostrar uma coisa? – eu sinto que devo dizer não, mas aí eles vão desconfiar mais ainda.
— Pode.
— Fecha os olhos e estende as mãos.
Faço o que o Nico pede, e mordo o lábio. Sinto alguma coisa leve na minha mão, e está andando? Puta que pariu! Abro os olhos com um puta medo e dou de cara com uma tarântula grande e peluda.
Berro tão alto que a risada escandalosa dos dois não pode ser ouvida. Corro até a minha cama, jogando a aranha no chão, e continuo berrando e xingando eles.
O Gustavo abre a porta do banheiro em uma velocidade tamanha que quase que faz um buraco na parede quando a porta bate nela. Ele olha preocupado para os lados, e então, para o casal rindo. E então, para mim. E eu aponto para a aranha, enquanto tento controlar a minha respiração.
Eu tenho um pouco de medo de aranha, sabe?
— Foi você que berrou? – o Gustavo pergunta meio sem fôlego, como se tivesse corrido a maratona. Só então eu percebo como ele está totalmente molhado, apenas com uma tolha enrolada na cintura. Fico imaginando como seria por baixo da toalha e meu rosto esquenta rapidamente.
— Os viados filhos da puta colocaram uma puta aranha na minha mão. – resmungo, e começo a chorar de raiva.
O Gustavo se junta aos gays para rir da minha cara, e eu reviro os olhos. Essa foi a primeira vez que ele riu desde que eu cheguei aqui.
— Você é mesmo uma figura, Joan — ele para de falar abruptamente e eu olho para ele confusa e irritada. – João.
— Eu sabia que você era gay, mas não sabia que você era tão medroso assim não. Tem mais medo de aranha que o Rony Weasley. – o Lipe fala entre risos e eu reviro os olhos.
— Primeiro, eu não sou gay. Segundo, essa merda é do inferno, e eu agradeceria se alguém a matasse por mim. Terceiro, vou tomar meu banho e esterilizar minha mão. Quarto, se colocarem essa merda perto de mim novamente, vocês vão morrer. – lanço meu olhar ameaçador aos três, mas os gays estão rindo da minha cara, e o Gustavo está me olhando de um jeito estranho, com um meio sorriso nos lábios. – E quarto, vão se foder.
— Com prazer! – o Nico berra e começa a beijar o Lipe de um jeito bem quente, e sexy, e fofo. O Gustavo faz sons de vômito e ri novamente enquanto eu reviro os olhos e entro no banheiro.
Tomo um banho com calma e escuto o barulho da porta se abrindo. Berro e me enrolo na toalha. Afasto a cortina um pouco e vejo que o Gustavo está olhando para mim, com um olhar estranho.
— Ah não, você é viado também? – resmungo, desligando a água.
— Não... Só vim me trocar. Lá fora tá tenso, os dois quase transando ao meu lado não é muito legal.
Reviro os olhos. Enquanto ele se troca, eu, ainda enrolada na toalha, vou penteando o cabelo.
— Sabe, você tem um berro de garotinha.
— Vai se foder.
Talvez porque eu seja uma garota! Só talvez.
— Por um instante te confundi com uma garota que eu conheci por aí. O berro foi igualzinho, e os xingamentos também. Ela ficava puta comigo, e me xingava no mesmo tom que você xingou eles, só que num tom mais fino, porque éramos pirralhos.
Bons tempos aqueles em que brincávamos sem nos preocupar com o mundo a nossa volta.
— Você... Você gostava dela? – a pergunta saiu antes que eu pudesse me controlar. Ainda bem que ele não pode me ver agora.
— E isso te importa? Para de viadagem, cara. – voltou a ser o Gustavo mal-humorado de antes.
Ele sai do banheiro e eu me arrumo. Está ficando cada vez menos tranquilo tomar banho por aqui, porque eu vivo me esquecendo de trancar a porta, e uma vez, o Lipe perguntou se eu pintava o cabelo, porque não achei tinta preta, e tive que ficar uma semana com a raiz na minha cor natural. Eu preciso me concentrar, eles não podem descobrir de nenhum jeito!
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