Destino?

8 Capítulo 8


08/09/2011 – Alguma cidade deserta, em algum país que não fala inglês ou português.

— Essa putinha ainda não falou nada? – a voz do cara assustador invade a cela, e eu tremo de medo.

— Nada, já tentamos de tudo, mas ela só chora, e berra, e nos manda para o inferno. – o outro cara assustador resmunga, olhando para mim com ódio no olhar.

Estou aqui há dois meses, ou três, ou cinco anos, não sei. O tempo passa tão lentamente aqui. Estou presa em um quarto escuro, com apenas uma pequena janela na parte mais alta da parede. As paredes são sujas, úmidas e dão um ar aterrorizante ao lugar. Vira e mexe aparece um inseto nojento para me fazer companhia, e eu passei a me acostumar com eles, depois de ver que eles não poderiam fazer nada pior do que os homens.

Sub tortura diária, não sei por que eles ainda não me mataram. Eu já tentei, mas eles me impediram. Tenho a cicatriz em meu pulso esquerdo, uma grossa linha cicatrizada cortando meu pulso na horizontal. Quando cortei, me senti livre, mas logo eles me socorreram. Até esse dia, alguns homens jogavam garrafas vazias de vidro dentro da sela para eu parar de chorar.

Chorar, outra coisa que eu desconheço faz tempo. Nos primeiros dias eu chorei. Chorei tanto que questionei de onde saia tanta água. Depois da tentativa de suicídio, eu decidi ser forte. Minha avó vai conseguir me tirar daqui, eu espero. Não posso ser fraca agora – vivo repetindo para mim quando sinto vontade de chorar. Até agora, funcionou.

Os homens continuam falando sobre eu ser uma vadia e sobre como eles queriam me foder, então eu fecho os olhos e penso no Gustavo. E nos nossos momentos juntos.

Em julho, quando eu consegui me matricular em outra escola, fora do Brasil, com o Gustavo me protegendo, eles me sequestraram, e prenderam o Gus em algum lugar bem longe daqui, por traição.

Enquanto ele fugia comigo, ele me disse que gostava de mim, mas foi em um momento tão rápido, no qual nós dois estávamos exaustos de fugir, que quando eu acordei no dia seguinte, não sabia se era verdade ou mentira, então não tocamos mais no assunto. Ele também não me contou nada sobre as nossas famílias, disse que, agora que nos encontraram, quanto menos eu souber, melhor.

Atualmente, ele deve estar numa situação melhor que a minha — o que me deixa um pouco feliz. Prefiro pensar nele, e em qualquer outra coisa, do que ficar acordada nessa realidade dolorosa.

Sinto alguma coisa afiada passando lentamente em minha perna e acordo assustada. Um dos brutamontes está me cortando com uma faca afiada e meio enferrujada.

Mordo o meu lábio inferior para não berrar e concentro minha fúria em meu olhar direcionado ao cara.

— Você vai me dizer agora o que vocês planejam, ou eu vou te fazer sofrer tanto que você implorará pela morte. – agora que eu percebi, esse é um cara diferente. Maior e com um olhar ameaçador, assim como ele parece que vai cumprir sua promessa. Tremo de medo, mas não falo nada.

— Larga ela, seu filho da puta do caralho! – uma voz familiar berra, meio rouca e muito raivosa.

Olho em direção à fonte do som e vejo o Gustavo amarrado em uma cadeira.

Pera. Onde diabos eu estou?

Tento me levantar para soltá-lo, mas eu estou igualmente presa, e não estou no quarto de antes, acredito que esse seja o quarto em que prenderam o Gus. É mais limpo, e tem uma cama confortável, aparentemente, e alguns livros, assim como uma janela. Aqui parece o paraíso comparado ao lugar que eu estava antes.

— Ou você conta tudo, moleque, ou a sua putinha vai contar. Quer queiram, quer não.

E assim, ele começa a mesma sessão de tortura pela qual eu passei nos últimos dias, ou meses. Mordo meu lábio inferior para não berrar, mas o cara me machuca mais forte e ri quando eu berro. Meus berros se misturam com os do Gus, que está berrando atrocidades para os homens. Fecho os olhos, mas isso não impede meus olhos de lacrimejarem. A dor quase insuportável me fez desmaiar. Por um instante, meu mundo se resumiu ao nada. Tranquilo, pacífico, sem dor, como se eu estivesse dormindo. Mas no minuto seguinte – ou hora, realmente não sei – eu volto à realidade. E a dor me consome.

— Joaninha, você está bem? – o Gustavo está a centímetros do meu rosto, sua preocupação é quase tangível. Ele tenta secar minhas lágrimas, mas eu não consigo parar de chorar. Ele me abraça de um modo acolhedor, mas que não me machuque mais, e eu o abraço de volta.

Eu não estou mais presa, e nem ele. E os homens sumiram. O que diabo aconteceu enquanto eu estava desmaiada?

Olho para ele, confusa e desorientada, e para minha sorte o Gustavo entende a minha dúvida. Ele olha pela janela e engole seco. Deve ter alguém nos vigiando, eu suponho.

— Eu prometi a eles que, se eles a soltassem, eu faria você me contar tudo o que sabe, e com isso, ganhamos tempo para o que eu vou fazer a seguir.

— O que? – me assusto com a pouca voz que me resta. Estou rouca, completamente rouca.

— O quanto menos você souber, melhor. Mas fica tranquila, Joaninha, eu vou te tirar dessa.

Ele me dá um sorriso acolhedor e então, pega um celular. Ele simplesmente pega um celular, digita alguma coisa, e então, quebra. Até porque, é apenas um celular, então usa e descarta, não tem problema! (Meu humor não está muito bom, e acho que minha ironia está meio enferrujada).

— Está tudo pronto. Presta atenção porque eu não posso repetir. Daqui a meia hora, você escutará um alarme como se fosse um alarme de incêndio, quando isso acontecer, você vai escapar por aquela janela, e vai correr até o motel, é fácil de encontra-lo, pequeno, uma placa brilhante com “motel” escrito. Espere na porta por mim, mas caso eu não apareça em cinco minutos, ligue para esse número. – ele me entrega um papel meio amaçado com uns números rabiscados.

— Por favor, Joaninha, você precisa fazer o que eu estou pedindo. Corra, não importa o que aconteça. Estamos entendidos?

Faço que sim com a cabeça, incapaz de falar algo. Estou com medo, mas ao mesmo tempo ansiosa para sair daqui. Só não sei se conseguirei correr, porque minhas pernas estão muito machucadas.

— Descansa um pouco, ok? – ele pede, e sai da cama.

— Obrigada. – sussurro antes de fechar os olhos e dormir.

Começa o barulho ensurdecedor e eu acordo em um pulo. O Gus me ajuda a sair pela janela e ao mesmo tempo, um dos brutamontes invade o quarto. Com uma faca.

— VAI! – o Gus berra e parte para a luta.

E eu vou. Ignoro a dor em meu corpo, e no liquido quente e molhado que provavelmente é o seu sangue que escorre de todos os cortes em meu corpo. Escuto tiros e me desespero. Por um instante, eu me permito parar e olhar para trás, e percebo que esse foi meu erro. Tem um cara me seguindo, e ele não parece nada amigável. Corro o mais rápido possível para o motel, despistando o cara, e espero pelo Gustavo.

Um minuto e meu coração ainda bate como se eu tivesse corrido a maratona – o que meio que é verdade.

Dois minutos e eu sinto que estou sendo observada. Olho em volta, mas não encontro aquele homem que estava me perseguindo.

Três minutos e eu amaldiçoo o tempo que se passa tão lentamente quando eu mais preciso que ele acelere. Incrível, eu pensei que essa mágica só acontecesse na escola, mas, aparentemente, quando se está fugindo de torturadores e esperando a única pessoa que pode te ajudar, o tempo também decide ser um filho da puta.

Quatro minutos e eu estou quase arrancando os cabelos. Olho para o relógio eletrônico na calçada e espero que ele funcione mais rápido.

Cinco minutos e eu começo a sentir toda a dor voltando, talvez porque a adrenalina está indo embora, ou porque só agora eu me dou conta que corri quase um quilômetro, e mal consigo ficar em pé sem ficar bamba.

— Joaninha, que bom que te encontrei. Anda! – o Gus berra em cima de uma moto. Ele está com um corte feio na bochecha, mas um olhar de alivio. Sento na garupa e ele nos leva para longe de tudo isso. – Se segura forte, vou ter que acelerar bastante.

A cidade passa como um borrão, e eu não sei para onde ele está me levando, mas eu confio nele, então fecho meus olhos e apoio minha cabeça em seu ombro.

— Você está bem? – ele me pergunta, ainda sem tirar os olhos da estrada.

— Graças a você, obrigada.

Não estou vendo nada, mas acho que ele sorriu. Um tempo depois, a moto para. Estamos em um motel caindo aos pedaços.

— Espero que não se importe, aqui é o lugar onde eles acham que você nunca entrará, então vai ser o ultimo a eles visitarem, e até lá, já teremos partido novamente.

— Sem problemas.

Ele estaciona a moto ao lado do hotel, e pega uma mochila que estava guardada embaixo do acento da moto.

Entramos no motel e somos atendidos por um velho bêbado cheirando a comida estragada. Dou o melhor sorriso possível e escuto o Gus falando com o cara em uma língua desconhecida. Ele nos leva a um quarto pequeno e com mofo, mas pelo menos tem uma janela grande e uma cama de casal que parece ser realmente confortável.

Assim que o velho saiu do quarto, ele abre a mochila.

— Joaninha, não me leve a mal, mas eu preciso limpar seus machucados, antes que eles fiquem piores do que já estão.

Engulo seco e sento na beirada da cama.

— Conseguimos sair porque Eu consegui contatar a sua avó enquanto eu estava preso lá, e ela conseguiu me mandar algumas coisas, e pediu para que eu cuidasse de você. Amanhã mesmo ela estará enviando um jato particular para a gente voltar para o Brasil, ok?

— Onde estamos?

— Algum lugar da Índia. Agora, vai tomar logo o banho pra eu cuidar de você.

Reviro os olhos quando percebo o pequeno sorriso em seu rosto. Caminho até o banheiro e tento tirar a roupa, mas meu corpo todo dói.

— Ugh, Gus?

— Deixa-me adivinhar... Você quer que eu te seduza e te dê um banho e depois deitar com você e esquecer o mundo. – sinto a brincadeira em sua voz, mas ao negar, vejo que ele não estava completamente de brincadeira. – Seguinte, tem roupa limpa na mochila, então você toma seu banho, faz os curativos nos lugares onde você não quer que eu veja, e eu te ajudo com o resto.

Dito e feito, ele me ajudou com os corteis mais profundos, e os mais infeccionados. Ele não precisou de ajuda com os machucados dele, até porque ele não tinha muitos, só uns hematomas devido aos socos que ele recebeu.

— Descansa bem, ok? Amanhã será um longo dia. Eu te prometo que não vou deixa-los te pegarem novamente. Você confia em mim?

Meus olhos já tinham se fechado assim que ele pediu para eu me descansar, mas mesmo assim, dou meu melhor sorriso e abro os olhos.

— Sim. Boa noite, Gus.

— Boa noite pequena joaninha flamejante.

Sorrio com o antigo apelido e durmo tranquilamente pela primeira vez em muito tempo.