Destino?

6 Capítulo 6


12/9/2010 – Colégio Interno Para Garotos, Rio de Janeiro.

— Você vai ficar aí de novo, Ribeiro? – o Lipe me pergunta enquanto espera o Nico acabar de se arrumar para eles saírem.

— Vou, minha avó vai receber visitas na casa dela, e não vai ter lugar para eu dormir. – De uns tempos para cá, minha avó tem recebido muitas visitas, e eu passo a maior parte dos finais de semana sozinha com o Gustavo, mas pelo menos nós estamos cada vez mais íntimos, todos nós, na verdade. O Gustavo mudou, está mais alegre.

— Sabe, a gente pode marcar um dia de passarmos o final de semana na casa do outro, comendo pizza e tal. – ele é tão fofo!

— Bora, eu topo.

— Tipo uma festa do pijama? – o Nico aparece ao lado do Lipe, com os olhos brilhando.

— Desde que não tenhamos que tomar banho juntos, ou dormir abraçados, ou fazer guerra de travesseiros pelados, eu topo. – o Gustavo implica enquanto assalta a mesinha de cabeceira dos pombinhos, acabando com o ultimo pacote de Ruffles.

— Ah, por favor, vocês podem trazer mais comida, e muito mais chocolate, por favooor! Eu necessito! – imploro, fazendo-os rir.

— Tu parece uma garota na tpm, cara. Mas vou tentar trazer mais comida, estamos acabando com o nosso estoque. – o Lipe me garante.

— Muito obrigado, Lipe.

Ele sorri e se despede da gente, assim como o Nico. Quando eles finalmente vão embora, eu me jogo na cama e como a ultima barra de chocolate.

Não me orgulho disso, até porque minha pele parece mais um Chokito, mas eu preciso de chocolate para ficar sã.

Mas, é bom ser garoto – tecnicamente. Eu não preciso me depilar – o que já é um ponto e tanto. Não preciso me incomodar com espinhas além do necessário, porque os garotos não ligam para outros garotos com espinhas. E posso usar jeans e camisetas grandes sem alguém implicando com meu jeito desleixado.

— Você come demais para uma pessoa tão pequena. – lá vem o Gustavo implicando comigo.

— Não sou pequeno! – resmungo, revirando os olhos. Não importa se ele sabe quem eu sou ou não, ele sempre implica com a minha altura!

Eu me concentro no chocolate e não noto, de inicio, que o Gustavo tá me observando.

— Ei, hum, Ribeiro, posso te perguntar uma coisa?

— Eu não sou gay!

— Não era isso que eu ia perguntar... Você conhece uma menina chamada Joana Ribeiro?

Puta merda. Eu começo a suar frio, meu coração bate mais rápido e minha boca fica seca.

— Nã-nã-não. – gaguejo.

— Não mesmo? Uma garota baixinha, ruiva, cabelo encaracolado, berro estridente e-

— Não conheço! – falo ríspido e volto a comer meu chocolate.

— Vocês dois são bem parecidos... Talvez gêmeos separados na maternidade. – ele murmura suas ideias mirabolantes.

— Bem, tente não se apaixonar por mim também. – retruco.

— Humpf, e quem disse que eu era apaixonado por ela?

— Tá na cara. Seus olhos estavam brilhando quando você falou dela. E você já me falou dela, e quando eu perguntei se você gostava dela, você deu uma resposta evasiva. Logo, você gostava dela.

— Vai se foder você também. – ele resmunga saindo quarto e batendo a porta.

Quase posso ver um biquinho mal-humorado em seus lábios.

Mas, tudo o que eu consigo pensar é: ele gosta de mim. Ou pelo menos gostava.

Não conversamos muito o resto do final de semana. Quando o casal volta – finalmente com a comida -, agimos como se nada tivesse acontecido.

Tento parecer mais masculina, mas o Nico está sempre de olho em mim, e o Lipe presta atenção em todo deslize que eu cometo, e o Gustavo está cada vez mais desconfiado.

— Ei, você tá bem, Jô? – o Lipe pergunta em uma tarde de um domingo chuvoso.

Odeio quando me chama de Jô. Não sou o Jô Soares, porra!

— Tô.

— Não parece. O que houve?

Eu estou sentada na grama, observando o por do sol – desta vez sem tirar fotos. Ele se senta ao meu lado e me encoraja a contar meus problemas.

Respiro fundo.

— Hoje é dia dez de outubro. – sussurro, tentando controlar a vontade de chorar. – Faz um ano que minha mãe morreu.

— Que merda, cara. – ele me dá um tapinha no ombro, e depois me abraça.

— Que diabos está acontecendo aqui, Felipe Augusto Souza? – o Nico chega berrando ao nos ver abraçados. Por um momento eu tinha esquecido que era um garoto e abraçado ele, coisa meio gay e suspeita nessa situação.

— Não é o que você está pensando, Nicholas! – o Lipe berra desesperado enquanto o Nico berra comigo e tenta me bater. – Ele está sofrendo e eu fui abraçar ele pra consolá-lo! – o Nico parece não escutar e me dá um soco forte no rosto, que se não quebrou meu nariz, enganou bem.

Meu nariz começa a sangrar e eu me desespero. Tenho certo pânico de sangue desde que encontrei minha mãe morta com os cortes no pulso, todo aquele sangue no chão, em sua roupa, seu rosto.

— Seu imbecil, a mãe dele morreu um ano atrás e eu vi que ele precisava de um amigo, você, mais do que qualquer um aqui, deveria entender isso!

O Nico olha confuso para mim e para o Lipe, e arrependimento está escrito em sua testa.

— Eu, eu, eu, sinto muito, Lipe. Eu só não podia acreditar que vocês estavam abraçados assim, parecia outra coisa e-

— E foda-se, perguntasse antes de meter a porrada nele! – agora os dois estão berrando.

O sangue continua jorrando, mais e mais, e eu me sinto fraca. Caio e fico de joelhos na grama, e começo a entrar em pânico. Não consigo respirar direito, e nem me mexer. Meu coração bate rápido e minha garganta se fecha. As lembranças daquela noite que eu tentei tanto esquecer brotam em minha mente.

— Meu Deus, João! – o Lipe olha para mim assustado. Ele tem sangue em seu rosto, e seu corpo. Ou eu estou imaginando isso? Tudo está ficando cheio de sangue e, o cheiro de sangue me causa náuseas – Eu vou te levar à enfermaria, ok? Fica calmo, por favor. E você – ele aponta para o Nico. – Fique bem longe da gente, imbecil.

Sinto um pouco de pena do Nico, mas tenho que me concentrar em andar, porque o Lipe não vai conseguir me levar sozinho para a enfermaria. Tento me acalmar, respirar fundo e manter os olhos fechados.

Quando chegamos à enfermaria, uma senhora velha e pequena limpa o sangue que escorreu do meu nariz, e verifica se meu nariz está quebrado, o que não é o caso, então ela me dá um saco de gelo e me manda deitar. Eu obedeço.

— Então, como ele conseguiu esse machucado? – ela pergunta ao Lipe.

— Eu, eu caí. – falo baixo e só então percebo o quanto estou fraco.

— Isso não parece resultado de uma queda.

Dou de ombros. Assim que meu nariz para de latejar, ela tira o gelo do meu nariz e me manda ter mais cuidado por onde ando. E também me manda colocar gelo quando chegar ao meu quarto.

Assim que eu volto para o quarto encontro o Nico desesperado conversando com o Gustavo — que também não parece muito calmo. — Ei, Joan — ele para de falar e olha fixamente para meu nariz — Tá tudo bem? — ele parece preocupado demais para um amigo não-gay que não sabe quem eu realmente sou. — Maravilhoso — resmungo e deito na cama. Fecho os olhos e escuto o Nico e o Lipe discutindo, mas antes de eu pedir que eles saíssem, o Gustavo pede por mim. Tudo é mais silencioso quando eles não estão por perto, mas eu ainda não sei se isso é uma coisa boa ou ruim. — Cara, o que aconteceu? Conto tudo, até a parte sobre o suicídio da minha mãe, e o meu pânico de sangue. Por alguns minutos, eu esqueci que não deveria agir como a Joana, e sim como o João. — E o seu pai? Tipo, porque você tá aqui, sozinho? Eu me lembro de que quando a minha velha morreu, eu larguei até a escola pra ficar com o meu pai, sabe? — Meu pai morreu antes dela, aí ela entrou em depressão e não resistiu. E só para constar, eu também a ajudei e repeti um ano, por isso estou aqui. — Puta merda, hein cara. Dou de ombros, mas ainda consigo sentir o olhar dele em mim — mesmo eu estando de olhos fechados. — Quer perguntar mais alguma coisa? — fui um pouco ríspida com ele, mas porra, ele não para de me olhar, é estranho. — Na verdade, sim. Eu meio que acho que sei qual vai ser a tua resposta, mas eu preciso perguntar. Espero um tempo em silencio e abro os olhos. Ele está corado, tipo assim, muito corado. Um pimentão humano na minha frente. — O que eu quero saber é — JOAO, ME DESCULPAAA! — o Nico entra no quarto berrando e eu não escuto a pergunta do Gustavo. — Me desculpa. Me desculpaa. Eu prometo que vou trazer quantos chocolates você quiser, ou melhor, vou fazer o que você quiser, mas, por favor, me desculpa! Caralho, ele tá chorando! — Tá tudo de boa entre a gente, Nico. Se eu estivesse no seu lugar, faria a mesma coisa. — dou meu sorriso mais convincente e escuto a risada baixinha do Gustavo. — Eu sabia, cara. Sabia. — do que diabos ele tá falando? E por que tá sorrindo desse jeito estranho pra mim? — Então estamos de boa? — ele pergunta com os olhinhos brilhando. — Sim, estamos de boa. Agora vai abraçar o seu namorado e me deixe dormir. E ele vai para perto do Lipe, todo alegre e serelepe. Puta que pariu, eu acabei de descrever o Nico como "serelepe"? Me internem! Meu nariz ainda está doendo, assim como meu coração, mas eu me sinto um pouco melhor ao ter contado a história completa ao Gustavo — mesmo ele não sabendo o significado disso para mim. Agora eu não consigo mais dormir, estou curiosa a respeito da pergunta que o Gustavo fez e tecnicamente já sabe a resposta. — Ei, Gustavo. — sussurro e cutuco sua perna com a minha. Só pra constar, já são quase duas da manhã. — O que foi, Joan — ele para de falar abruptamente — João? — Qual era a pergunta que você fez pra mim? — Se eu te contasse teria que te matar. Agora vai dormir. Reviro os olhos e o mando para puta que o pariu, em meus pensamentos, claro. Será que ele nunca vai me contar? Eu sou uma pessoa curiosa, eu preciso saber!