Destino

2 Capítulo um. — Enganado pela felicidade.


Notas iniciais
Yoo minna!! Comoo vão?

EU E A LUF ESTAMOS SUPER FELIZES POR RECEBEMOS NOSSA PRIMEIRA RECOMENDAÇÃAO! AAAAAAAAAAHHHHH MEU DEUS!! Agradeço de coração ao

Hector Faria ♥ me emocionei com suas palavras. Muito obrigada :D

Aqui está o primeiro cap, feito todo pela Luf. E está perfeito!! Pelo menos fui eu que achei rsrs até pareceu que eu era a leitora da fic quando ela me mandou! Enfim, sem mais delongas, boa leitura ;)

Vinte e quatro anos antes. – Jude Heartphilia.

O barulho incessante da chuva de janeiro caindo, torrencialmente, lá fora me enervava. Parecia que cada pingo de água fora feito especialmente para me incomodar; o som produzido por eles ao bater nos objetos desconcentrava-me, e arrastava meus pensamentos àquela que possuía meu coração. Como estaria Layla?

Passei a tamborilar, impaciente, meus dedos na mesa de mogno, que jazia de frente a mim enfeitando a espaçosa sala em que me encontrava. Pela primeira vez em muitos anos, senti-me verdadeiramente nervoso, parecia que cada poro de meu corpo gritava em pânico. Eu estava ali há cinco minutos inexatos, todavia a sensação era que estava aguardando minha deixa há horas e horas. Esfreguei as mãos, sentindo-as frias e suadas.

Cansado daquilo passei a lançar olhares furtivos à porta fechada do meu lado. Quinze minutos, Layla me dissera. Quinze minutos, e finalmente seguiríamos nossos caminhos juntos. Ainda me lembrava de suas palavras tranquilizantes, e de como a mãe dela rira de minha apreensão. Só que como eu poderia evitar? Se tudo ocorresse bem, finalmente eu estaria completo, mas apenas uma resposta negativa e todos meus planos desabariam, eu desabaria.

Passei tanto tempo devaneando que só voltei a mim quando ouvi os dedos longos e finos da minha namorada estalarem próximo ao meu rosto.

— Terra chamando Jude — Zombou ela.

Levantei o olhar e me deparei com minha deusa particular, fitei-a silenciosamente, sabendo que nós conseguíamos nos comunicar via olhar. Arqueei minha sobrancelha. Ela apenas soltou um risinho entusiasmado e olhou para o lado. Acompanhei seu olhar, e quase dei um pulo do sofá ao finalmente notar o pai dela ali, parado, com a testa franzida, e os lábios repuxados para baixo, avaliando-me. Subitamente me arrependi de não ter vestido minha melhor roupa e nem de está-lo esperando de pé. Ele pigarreou e com a voz forte como um trovão, começou:

— Não vai me cumprimentar... — começou, enquanto eu quase derretia de medo. O pai dela lançou-me um olhar insatisfeito — garoto?

— Ah, sim... — falei, enquanto levantava atrapalhado. Layla continuava a rir, eu não entendia o motivo de tantas risadas. Aquela era uma situação crítica! Não era para rir! — Senhor! — terminei, lembrando da boa educação. Afinal a primeira impressão é a que fica. — Eu sou o Jude, e vim até aqui com a Layla, a sua filha, para... — tentei informá-lo da melhor forma possível que minhas intenções com sua caçula eram as mais puras. Gesticulei estranhamente para a Layla, enquanto a mesma já se retorcia de rir. Franzi o cenho para ela, mas deixei passar.

— Eu sei — interrompeu-me o muro, digo, o pai da Layla.

— Então... O que me diz?

— Você quer um chá, querido? — intercedeu a progenitora da família.

— Claire, eu ficaria feliz se você não se metesse nisso. — respondeu ele, olhando fixamente para mim. Engoli em seco com a constatação.

Pelo canto do olho pude ver a Sra. Chickentiger torcer os lábios em reprovação, e sentar-se longe de todos, como se algo não a agradasse. Eu simplesmente já estava louco para sair dali — levando a Layla, logicamente.

Teoricamente, eu ainda estava esperando a resposta dele, no entanto parecia que ele esperava alguma reação minha. Ele acabou por se sentar em uma poltrona, e me encolhi levemente ao sentir o fulminante olhar dele. Após alguns minutos de quase silêncio mortal — quase, pois Layla continuava a rir histericamente — o próprio começou a rir também, e tive certeza que eles estavam rindo da minha petulância de ter pedido Layla em casamento. Quando pai e filha se postaram a rir, minha careta de confusão deve ter sido tão grande que a própria Claire se levantou e pôs suas mãos em meus ombros tensos, como um gesto de compreensão.

— Não ligue Jude. Eles têm problemas — me falou enquanto balançava a cabeça, em negação. Depois abriu um sorriso doce e largo — Bem vindo à família, querido.

“Bem vindo à família”. O quê? Isso quer dizer que ele deixou? Eu vou poder me casar com a Layla? Em euforia apenas corri até minha namorada e a abracei, como se não quisesse soltá-la nunca mais. E de fato eu não queria soltá-la. A sensação de tê-la em meus braços era tão boa que eu poderia ser o cara mais feliz do mundo com apenas isso.

— Nunca mais me engane desse jeito — sussurrei em seu ouvido, e percebi que ela se arrepiou. Sorri largamente.

O pai dela voltou a pigarrear, soltei-a instantaneamente.

— Não tenho nada contra vocês se agarrarem, mas façam isso longe de mim, por favor. — Olhei de esguelha para Layla e acabei vendo-a extremamente corada e assentindo lentamente. — Desculpe por isso Jude. Mas, vamos admitir, sua cara foi muito engraçada. — Ele recomeçou a rir, com algumas lágrimas escapando de seus olhos escuros. — Aliás, me chame de Paul.

Parecia que eu realmente estava em uma família de loucos. Pois todos riram acompanhando a risada contagiante de Paul. Mas, eu não estava nervoso com isso. Eu tinha Layla ao meu lado, nada poderia ficar melhor.

Seis meses depois.

— Não e não, Jude! Nós já conversamos sobre isso!

Estávamos eu e Layla deitados na cama, novamente tentava persuadi-la a aprovar minha ideia. Por que ela simplesmente não concordava? Tudo estava indo tão bem! Nosso relacionamento sempre fora tão amigável, e agora, brigávamos de cinco em cinco segundos. Todos os nossos vizinhos podiam escutar nossas brigas que sempre giravam em torno do mesmo assunto: o circo abandonado que me fora deixado de herança do meu avô.

— Mas Layla, é uma lembrança! Nós poderíamos...

— Não! Nós não poderíamos. Escute, nós estamos muito bem aqui na casa de meus pais. Moramos na capital, você tem um bom emprego, eu tenho um bom emprego, por que arriscar tudo e ir tocar esse... — Ela fez uma pausa, como se não soubesse que palavra usar — Esse... Circo. — terminou em repugnância.

Tudo bem que ela não quisesse ir para lá, mas falar tão asquerosamente sobre meu patrimônio familiar era inadmissível. Olhei em fúria para ela.

— Escute, você. Será bom para nós dois! Ou você ficar debaixo da saia da sua mãe para sempre? — gritei sabendo que ela detestava que eu tocasse nesse assunto.

Layla sempre fora totalmente independente, mas ultimamente eu estava estranhando-a. Segundo ela, seu sonho sempre fora conhecer muitos lugares, viajar afora, todavia, agora ela queria conforto. Queria ficar no conhecido. Parecia que algo a prendia naquele lugar. E eu não conseguia entender isso.

Observei minha esposa que parecia à beira de lágrimas, então logo notei o que havia feito; gritei com ela. Antes nunca tinha nem alterado a voz ao lhe dirigir a palavra. Ouvi passos no corredor e soube que os meus sogros haviam chegado.

— Layla, Jude, você estão aí? — A voz adocicada da Sra. Chickentiger, mãe de Layla, soou em nossos ouvidos como válvula de escape.

— Vamos terminar essa conversa depois — Murmurou a minha loira, com uma voz falha e magoada — Agora... Sai daqui... Por favor...

Eu estava em frangalhos. Como pude fazer isso? Ela era meu tudo e meu nada, sem aquele sorriso puro e aquele olhar inocente eu era apenas mais um homem. Me sentindo o pior de todos os maridos, saí do quarto, sem nem tentar uma aproximação.

Lancei um olhar desolado para a Claire, que pareceu me entender. Saí de cabeça baixa, sem nem ousar dirigir-me para Paul. Porém ao contrário de mim, ele parecia querer conversar, e agarrou meu braço. Alcancei seus olhos, apesar de ser quase uma cabeça mais alto que o mesmo.

— Ela está bem — falei à contra gosto — Nós só tivemos uma pequena discussão. — concluí, absorvendo a verdade inevitável daquelas palavras. Que pareciam mais um soco no estômago.

Era tudo tão estranho. Parecia que eu a amava por nós dois, às vezes. Como se ali não houvesse nada além de um grande afeto. Ela nem tentava me entender, e estava magoando-me.

Família sempre foi importante para mim, agora minha família eram apenas aquelas três pessoas, que me acolheram tão bem. Mas minha esposa não queria me ouvir.

Nós éramos jovens, tínhamos tantas e tantas coisas para viver, para ver, para sentir. Aquilo parecia uma oportunidade tão boa! Meu avô sempre contava história para nós dois sobre aquele circo. Lembro-me dos olhos castanhos dela brilhando em excitação, porém agora tudo aquilo jazia desprezado. Saí da casa e diferi impropérios para o nada, cheio de raiva e frustração acumulada. Há uma semana vínhamos brigando sobre isso, sendo que nenhuma vez questionei o que diabos haviam acontecido com ela. Talvez fosse hora de desistir. Aquele era um sonho de menino, mas eu não era mais um menino. E preferia esquecer aquele circo, do qual cresci ouvindo, do que perder o amor de minha vida.

Finalmente decidi. Talvez agora tudo voltasse ao normal, talvez agora a Layla me perdoasse pela insistência. Seriamos felizes novamente. Quase corri até o nosso quarto, ansioso para pedir perdão, porém me contive ao ouvir sussurros nervosos vindo do quarto. Entreabri a porta, curioso.

Layla estava de costas, falando com alguém no telefone fixo da casa. Aparentemente o assunto era agradável, apesar da conversa não passar de um murmúrio.

— Layla? — chamei, sem poder esperar pela nossa reconciliação.

A mesma deu um pulo da beirada da cama, largando o telefone no processo, e ficando de frente para mim. Sua expressão estava transtornada pela confusão, e com outro sentimento que não pude identificar algo como... Culpa.

— Jude? — perguntou como se não pudesse acreditar — Eu achei que tivesse te pedido um tempo... — acusou.

Fitei seu rosto, sem saber o que responder. Optei por não perguntar sobre a ligação, e parti para o meu objetivo principal. Depois nós conversaríamos sobre aquilo, quando estivéssemos os dois mais tranquilos.

— Layla, querida, eu... — hesitei ao vê-la se aproximar com um sorriso casto no rosto. — Desculpa tá? Não queria ter gritado com você. Mas, você sabe, eu...

Não pude terminar, pois fui envolvido com os braços finos de minha esposa. Ela colocou sua cabeça em meu peito. E senti o pano da minha blusa ficar úmido.

Logo estávamos os dois chorando, a raiva esquecida e enterrada. Ela tinha esse poder sobre mim, o poder de fazer-me esquecer do mundo, de esquecer sentimentos ruins, de apenas amá-la como se não houvesse amanhã. Levantei seu rosto angelical, depositando um selar de lábios em sua boca. Soltamo-nos e a encarei docemente. Feliz por tê-la comigo novamente.

— Por que estamos perdendo tempo? Vamos logo para a sua cidade! — falou soltando um gritinho no final. Admirei aquela mudança. — Vai ser muito bom! Nós vamos mudar aquela cidade! Vamos juntar artistas! No início poderemos até atuar junto! Você já imaginou? Circo é uma junção tão linda, faremos todos se comoverem com nosso show. — gritou balançando a cabeça como se aprovasse tudo o que dizia. Começou a pular pelo local, voltando a ser aquela adolescente por quem me apaixonei. — Consegue ver, Jude? — sussurrou, me agarrando pelo braço, e esticando a mão para frente, como se enxergasse uma miragem. — Será perfeito... — terminou.

Maravilhado demais para responder, a virei pelos ombros, depositando beijos em seu pescoço, circundando-a com meus braços. A situação era parecida com um sonho, estava sentindo-me entorpecido pela realização.

Eu era o homem mais feliz de todo o universo, e não estou exagerando.


Anos depois.



— Respeitável público! — falei no microfone em minhas mãos, mirando o olhar para aquelas dezenas de pessoas — Boa noite — gritei, recebendo outro “Boa noite” em uníssono — Espero que estejam todos confortáveis! Esta noite teremos uma apresentação especial no circo Fairy Tail! Então, vocês, que estão esperando uma noite comum de diversão, preparem-se! Pois o show aqui visto será diferente de todos os outros! — ouvi gritos incentivadores e uma salva de palmas que me emocionou, porém continuei inabalável — A nossa programação hoje conterá um convidado, ou, melhor dizendo, uma convidada, especial! Como será que a nossa nova Fada finalmente aparecerá? — comentei com aquela voz de mistério que costumava usar. — Aguardem meus queridos. Mas, enquanto isso, estão todos confortáveis? Já compraram suas pipocas e afins? Se sim, vamos continuar o espetáculo! — gritei, enquanto todos já pareciam animados. — Entre, Virgo, a equilibrista!


A música começou a tocar em níveis alarmantes, e todos os corações batiam em um só compasso. Aquilo não era uma simples apresentação, toda a nossa fé estava colocada ali, era algo indescritível. As pessoas estavam o tempo todo estressadas; ocupadas; alarmadas; com medo, ali elas poderiam botar aquelas emoções todas para fora, mas de forma artística, incentivadora. Toda vez que Virgo fingia que ia cair e na verdade fazia uma manobra, as pessoas vibravam, temendo por ela. Era como remédio, para a alma, para a autoestima.

Todos estavam dando o melhor de si para se apresentar. Como terapia.

Poderiam ser o que fossem: triste; rejeitado; solitário, não importava. Ali tudo isso sumia. Como se os corpos se fundissem e formassem só um.

Algo maravilhoso de se ver.

Quando parti para minha cidade natal nunca pensei que poderia fazer tanto sucesso com o circo. Passei por diversas dificuldades, que variavam constantemente. Mas no fim, consegui o apoio governamental, e parti em minha jornada. Levando alegria a crianças. Inicialmente, éramos apenas eu e Layla, atuando como podíamos, porém depois, mais pessoas juntaram-se a nos, e quando vi, já éramos famosos.

Não era simplesmente o meu sonho realizado. Um sonho coletivo se realizava todos os dias.

A pequena Wendy apresentava-se agora, mostrando sua verdadeira aura de artista. E pensar que eu havia tirado-a da fome e da sarjeta.

O tempo passou rápido e logo eu estava apresentando nossa nova estrela: Chelia. Que faria dupla com Wendy, as duas usando fitas como ferramentas. A graciosidade investida era admirável, e me permiti assistir o grande desfecho como um espectador qualquer.

Meu avô estava certo o tempo todo, aquilo era incrível.

Semanas depois.

O escritório parecia abafado. Ultimamente fazia muito calor, mesmo com o ar-condicionado funcionando, a sensação de mormaço não passava. Era inevitável, estava calor, o circo estava fechado temporariamente, todos estavam treinando arduamente, Layla estava na cidade fazendo compras, e eu estava em um tédio mortal.

Saí do escritório e fiquei vagueando, levemente chateado, pela mansão em que estávamos hospedados — temporariamente.

Passei a observar as formigas, claro ato de quem não tem nada para fazer. Na verdade, eu tinha alguns orçamentos para revisar, porém não estava com vontade de fazer isso. Naquele momento eu queria apenas curtir minha querida esposa. Como se houvesse descoberto a cura para o câncer, saí da casa, e rumei à cidade, sabendo que passaria muito tempo procurando a Layla, mesmo que ela fosse bastante indiscreta.

Para a minha surpresa, a encontrei rapidamente, próxima à praça. Conversando com um homem.

Espera, conversando com um homem?

Ela chorava baixo, e o homem, que aparentava ter a minha idade, tinha os braços em volta dela, consolando-a. Se o monstro do ciúme não havia dado as caras antes, agora rugia insatisfeito em meu peito. Aproximei-me, sem cogitar uma única vez a ideia de traição, e pigarreei alto o suficiente próximo a eles.

Só naquele momento reparei o papel nas mãos delicadas dela; parecia um exame clínico. O homem me olhou surpreso, largando Layla. Ela se virou, me vendo pela primeira vez. O que acontecia ali? Quem era aquele cara? Por que Layla chorava?

Minha cabeça girava em busca de informações; percebendo isso, minha mulher voltou seu corpo de frente para mim, ficando na ponta dos pés e cumprimentando-me com um beijo rápido. O desconhecido franziu o cenho.

— Jude, o que faz aqui? — perguntou, porém não me deixou responder, continuando: — Esse aqui é Gildartz... Meu... Primo.

Primo? Desde quando ela tinha primos? E o mais importante, por que nunca me contara sobre ele?

— Olá Jude — falou o tal Gildartz, estendendo-me a mão.

— Olá Gildartz, eu sou o marido da Layla — retruquei, apertando firmemente a mão que me foi estendida.

Ele contorceu sua face em compreensão, olhando de mim para a Layla — esta que permanecia quieta, aparentemente apreensiva e mordendo os lábios.

— Entendo — murmurou — Layla fala sempre de você.

Pena que ela nunca me disse nada sobre você.

Resolvi ignorar aquele comentário.

— Layla, você estava chorando?

Ela arregalou os olhos, e por reflexo passou a costa da mão direita sobre os olhos. Olhou para seu suposto primo, assentindo em seguida. Logo depois me entregou o papel que estava em suas mãos. Desdobrei o papel lentamente, sentindo sua textura em contraste com minha pele grossa.

Achei que fosse desmaiar de tanta emoção. Ali, naquele papel, estava a constatação da personificação de nosso amor. Levei minhas mãos ao ventre de minha amada involuntariamente.

Layla estava esperando um bebê. O nosso filho.

Dez meses depois.

Novembro. Mês de chuva. Deveria ter me lembrado disso antes de sair para ir ao mercado, sem carro e sem guarda chuva.

Estava longe de casa ainda. O circo estava parado, pois recentemente Layla havia dado a Luz. Estávamos ocupados demais as mimando.

A chuva molhou-me minimamente, antes que eu entrasse apressadamente em uma padaria. Mas não era uma simples padaria, era a padaria preferida da Layla. Talvez houvesse algum benefício em ter ficado impedido de voltar para casa. O barulho irritante do sino da porta nem fora ouvido, devido ao mundo despencar nas ruas. Por um segundo senti medo, uma sensação estranha dominava-me naquele dia, eu apenas torcia para que nada de ruim acontecesse.

— Boa tarde Sra. McGarden! — cumprimentei alegremente.

— Muito boa tarde!

McGarden era realmente impossível. Ela era viúva, tinha uma filha de um ano, mas era extremamente alegre. Afinal, quem é que cumprimenta outra pessoa com “muito boa tarde”?

— Você tem aqueles pãezinhos de laranja?

— Claro que sim! Você sabe que eles são sagrados para mim! Fazê-los todos os dias é quase como um mantra... Mas, diga a verdade, tentando agradar a patroa? Já sei, você aprontou, não é? Essa cara de bom moço nunca me enganou, e...

— Não delire McGarden! — retruquei rindo.

— Não me chame de McGarden, seu palhaço! Faz-me sentir mais velha do que realmente sou. Tenho só trinta anos, idiota.

Ri mais um pouco e deixei que ela fizesse seu trabalho. Escolhi uma mesa no fundo do estabelecimento e pedi um café à atendente. Como sempre, passei a botar meus pensamentos em ordem, um meio que adquiri para não pirar com os desejos inconstantes da Layla.

Eu era pai. De uma pequena e linda menininha chamada Lucy. Gildartz se tornou meu melhor amigo; meu circo estava fazendo sucesso e estavas prestes a entrar em uma turnê mundial; minha felicidade era imensurável.

Pequenas lágrimas escorreram de meus olhos, lágrimas de emoção. Me sentia completo, em puro êxtase.

Meu café chegou, e a garçonete dera uma risadinha para mim. Logo notei que junto ao café, um bilhete estava pregado. Um bilhete com um número telefônico. Descrente, peguei o papel checando se não era o delivery da padaria. McGarden surgiu do limbo e arrancou o papel manchado de café de mim. Suas bochechas estavam extremamente rosadas.

— Olhe, desculpe por isso... Essas meninas de hoje em dia... Enxerida... — resmungou — Jude, seu idiota, tá aqui teu pão, agora vai embora. Vai, vai!

A padeira expulsou-me do local e ainda por cima bateu a porta na minha cara...! Sendo que ainda está caindo um dilúvio. Indignado, tentei proteger minhas compras, enquanto jurava nunca mais voltar àquele lugar — mesmo sabendo que não cumpriria a promessa de jeito algum.

Passei a mordiscar um pequeno bolinho, que adquiri no mercado, pensando no que faria para o jantar. A casa deveria estar cheia, então uma boa comida renovaria o ânimo de todos.

Após muito tempo andando, cheguei ofegante na casa de meus sogros. Lucy deveria estar faminta. Ao pensar na pequenina, deixei que um sorriso sincero se alastrasse pelo meu rosto.

Atrapalhando-me com as chaves, demorei um pouco à soleira da porta, porém antes que abrisse a mesma, fui surpreendido por uma Wendy chorosa que se agarrava a mim, como se fosse sua última esperança. O impacto nos fez cambalear para trás levemente.

Apertei-a de volta, em um reflexo. Sempre a considerei minha filha de coração, então possuía todos os motivos do mundo em me preocupar com seu bem estar emocional.

— Wendy? — chamei em um sussurro, enquanto seu corpo era atravessado por grandes soluços. Ela estava muito vermelha, e então me alarmei, pensando no pior — Wendy olhe para mim. — pedi. Ela balançou a cabeça, e me apertou mais ainda.

Os olhos puros e inocentes, agora vermelhos, inchados e recheados de dor, fitaram-me em silêncio. Como se fosse a pior das notícias ver-me ali parado.

— Ela... Ela... — começou, mesmo que soluçasse muito — Se foi! Ela se foi! — gritou, enterrando sua cabeça em meu ombro. Chorando escandalosamente.

— O quê? — perguntei, querendo saber se ouvira certo. Alguém do circo se fora? Abandonou-nos? Quem?

— E-Ela...

Wendy apertou seus bracinhos finos ao meu redor, e após alguns segundos de pura confusão, sua amiga Chelia juntou-se a nós. Com os olhos também chorosos, porém mais controlada que a azulada.

— Desculpe Jude — sussurrou secretamente Chelia — Eu tentei... Mas não pude fazer nada. Ela se foi.

Levantei delicadamente e deixei as duas abraçadas, ali mesmo. Minha mente era um breu de confusão. O que aconteceu?

Entrei na casa, largando as compras na mesa da sala, acabei encontrando meus sogros sentados no sofá. Claire estava ninando Lucy, e Paul olhava martirizado para o nada. Nessa confusão toda nem pude falar com a Layla...

— Jude... — começou Virgo. Botando sua mão delicada em meu ombro — Sinto muito.

E entrou em um dos quartos trancando-se lá. Olhei para os pais de minha esposa, e arqueei a sobrancelha. Claire parecia concentrada demais em Lucy, e Paul não parava de encarar o nada.

— O que diabos aconteceram aqui? — gritei ultrajado pela falta de informações.

— Layla nos deixou — sussurrou Claire. — Layla fugiu. Fugiu com o Gildartz... E te deixou uma carta...

O barulho do copo com água que acidentalmente derrubei, era o mesmo barulho que o meu coração fazia. Como vidro estilhaçando, e perfurando cada pedaço da minha alma com pequenos pedaços. Tombei meu corpo no chão, sentindo a dor de ser perfurado. Acatando-a com pesar. Gildartz. Eu deveria ter percebido. Desde que Layla falou que ele era seu primo. Agora entendo porque ela chorava. Ela nunca quis a minha Lucy. Ela nunca quis a mim.

Ela me abandonou na fria chuva de novembro...

Notas finais
Fiquei com dó do Jude, Luf é muito má haushuahsa

Mas então, o que acharam?

Quero ver a opinião de vocês ok? *------------*

Até breve!

Beeeijos!