Destined to be yours.
2 Veneza.
Notas iniciais
Narração por Draco Malfoy.
Senti Astoria Greengrass — agora Malfoy — tremer ao meu lado após mamãe anunciar que ela devia se apressar por em alguns minutos iríamos para a nossa lua de mel. Percebi rapidamente que toda a situação — tanto o casamento quanto a consumação do mesmo — não apavorava só a mim, mas a pequena Greengrass também não estava satisfeita.
Era de se esperar, afinal, quem gostaria de ter seu corpo, futuro e vida inteira vendidos? Ainda mais para alguém tão repugnante quanto o filho de um Malfoy. Suspirei parcialmente aliviado por ela estar tão insatisfeita quanto eu, e parcialmente frustrado por saber que essa seria a única chance que eu teria de estar me casando, e era com alguém que me repudiava. Certo, eu não mereço menos do que isso.
— Mas já? Está tão cedo!- Astoria forçou uma surpresa e insatisfação por deixar a festa. Eu e ela sabíamos o quanto queríamos que toda aquela farsa acabasse de uma vez por todas, mas aparentemente ela não estava disposta a enfrentar a vida de casada depois daqui. Bom, nem eu.
— Fizemos uma reserva para vocês em um dos melhores hotéis da região, vocês precisam fazer chek-in no horário combinado para que tudo saia perfeito!- Mamãe falou, sorrindo animada. Eu não a via tão feliz a bastante tempo. Por parte, eu estava feliz por toda essa palhaçada acontecer, por ela. Porém, por outro lado, ela tinha colocado expectativa demais nesse casamento, que já se inicia fracassado.
— Vocês não vão mesmo nos dizer para onde vamos? E se for um lugar que um de nós dois não gostemos? Nós nem nos conhecemos, e vamos ficar trancados em um lugar que odiamos?- Eu perguntei, erguendo uma sobrancelha para ela. Eu já tinha testado essa tática antes, não funcionou, e agora tampouco. Mamãe revirou os olhos.
— Em alguns poucos minutos vocês estarão lá, eu não vou estragar a surpresa de vocês. E como eu já repeti milhões de vezes, Draco Malfoy: vocês vão gostar do lugar.- Ela falou a última frase pausadamente, parecendo irritada com a minha insistência. Eu bufei frustado, e ela olhou para a garota do meu lado.- Agora vamos, Astoria. E você, Draco — olhou para mim — vá falar com seu pai. Ele tem algo para lhe dar.
Que não seja uma poção de não-engravidamento, por favor. Eu pensava enquanto procurava meu pai no salão. Ele estava sentado em uma grande mesa, segurando um copo com alguma bebida alcoólica, conversando com um senhor que parecia estar pouco interessado no que ele falava. Revirei os olhos, provavelmente, nessa altura do campeonato, ele já estava bêbado.
— Mamãe me pediu para procurá-lo. Disse que tinha algo para me dar antes de eu e Astoria irmos embora. Ela disse que devia ser rápido.- Eu falei, enfiando as mãos nos bolsos, esperando ele responder. Papai virou o rosto vagarosamente para mim, com desdém. Seus olhos pareciam cansados, ele parecia mais velho do que realmente era. Engoli em seco, vê-lo assim me dava náuseas de tristeza e irritação.
— Vamos lá dentro.- Ele disse, virando-se novamente para o senhor.- Foi um prazer conhecê-lo Sr. Montain, mas preciso dar algo ao meu filho. Volto em alguns poucos minutos. Caso não esteja mais aqui, a família Malfoy agradece sua cortesia e comparecimento. Tenha uma boa vida.
Eu revirei os olhos. Odiava a falsa amizade de papai com qualquer pessoa que tivesse um status socialmente bom. O homem igual a mim, levantou-se da sua cadeira, e diferente do que eu imaginava, não cambaleava de bêbado.
Sem dizer uma só palavra, ele foi mancando com sua bengala até a casa, eu o segui. Andamos até seu escritório, ele foi até sua mesa e tirou de dentro de uma gaveta uma caixinha de tamanho médio, e me entregou.
— Bom, dentro desse compartimento tem um colar com o brasão da nossa família. Todos os novos integrantes recebem um, deve ser passado de pai para filho, sempre. Como não temos nenhuma garota na família, sua mãe me pediu para que eu entregasse o dela para que você desse a Astoria. E você deve dar o seu ao filho de vocês.- Papai disse, encostando o corpo na mesa, cansado demais para conseguir ficar de pé sozinho.
— Não pretendo ter filho nem tão cedo, pai.- Eu dei de ombros. Ele revirou os olhos.
— Isso é irrelevante. Também contém algumas poções para não-engravidamento, e outras para engravidamento, para quando vocês decidirem ter filhos. São receitas da sua tataravó. Nunca usei, mas devem funcionar.- Papai disse, erguendo o queixo, se exibindo de sua virilidade. Eu revirei os olhos.
— Algo mais?- Perguntei, erguendo uma sobrancelha. Ele suspirou antes de negar com a cabeça.
— Eu só me lembro disso. Se tiver algo mais, você verá quando abrir. Só estou repassando a tradição.- Ele disse, dando de ombros e se desencostando da mesa.- Espero que seu casamento seja bom para vocês. O mundo é complicado Draco. Relacionamentos são complicados. Vocês vão conseguir.
— Obrigado.- Eu disse, fazendo uma careta de desagrado diante da conversa sentimentalista. Meu pai não era sentimental, eu nunca ao menos recebi um abraço dele, e agora ele decide que vai me dar conselhos amorosos? Me poupe.- Posso ir agora?
— Sua mãe não disse mesmo para onde vão, não é?
— Não. Você sabe?- Perguntei, enquanto andava para fora do escritório, sem olhar para ele.
— Provavelmente para algum lugar entre o frio e o calor. Pelo que eu entendi, a sua esposa ama praia. Você odeia sol. Vai ser complicado conciliar, mas sua mãe é magnífica.- Papai disse, antes que eu conseguisse fechar a porta. Consegui ouvir, quase tocar, toda a devoção dele a mamãe. Isso era inspirador, mas não funcionaria comigo jamais. Não com Astoria.
— Certo, obrigado, ajudou muito. Tchau.- Eu disse, fechando a porta atrás de mim.
No momento em que olhei para cima, Astoria descia com mamãe em seu encalço. Ela estava bonita. Os cabelos estavam soltos e caiam em cachos delineados sobre seus seios, que estavam bem cobertos por um vestido composto na cor branca, com florzinhas amarelas na estampa. Ela usava um sapatinho dourado, e pareceu aliviada ao me ver. Provavelmente mamãe a torturou lá em cima. O pensamento me fez sorrir, ela deve ter achado que eu sorria para ela, por forçou um sorriso para mim também.
— Ela não está maravilhosa, Draco?- Mamãe a engrandeceu. Eu fiquei constrangido em ser forçado a elogiar Astoria. Eu mal a conhecia, ora bolas! Não que ela não fosse uma mulher estonteante. Mas toda a situação já era tão forçada!
— Sim. Podemos ir?- Fugi logo do assunto, não querendo que isso se estendesse. Mamãe revirou os olhos, Astoria pareceu ficar nervosa. Eu não entendi seu nervosismo no momento, então apenas deixei passar, focando em mamãe.
— Vocês não vão se despedir dos convidados? É muita falta de educação, Draco.- Mamãe falou, me olhando de forma repreensiva.
— Eu não conheço nenhuma daquelas pessoas. Nenhuma delas me interessam, assim como elas não se interessam por mim. Não vieram por mim e por Astória, vieram para ver o show que os Malfoy iam dar. O show já acabou. Podemos ir agora?- Eu perguntei. Eu queria ir embora dali. Eu queria ir pra qualquer lugar.
— Não precisava ser grosseiro.- Mamãe falou baixo, olhando para Astoria envergonhada. Astoria não parecia prestar atenção, na verdade, parecia pensar em qualquer coisa fora deste mundo.- Podem ir. A chave do portal é o brasão dos Malfoy que está dentro da caixa que seu pai lhe deu. Suas malas já estão no hotel. Tenham uma boa lua de mel.- Mamãe falou, irritada, saindo do cômodo sem falar nada mais.
— Porque ela está irritada?- Astoria pareceu voltar a si. Revirei os olhos.
— Ela me acha mal educado. Você quer ir agora? A gente pode ficar trancado lá em cima se você estiver se sentindo mal, e ir só amanhã de manhã. Deve estar cansada.- Eu falei, pensando que seu nervosismo fosse cansaço. Ela mordeu o lábio inferior. Fiquei impressionado em como o gesto me hipnotizou. Pisquei rapidamente, tentando voltar a olhar aos seus olhos. Ela não pareceu perceber meu lapso.
— Tudo bem, vamos.- Ela deu de ombros, indiferente.
— Para cima, ou para a viagem?- Eu perguntei, confuso. Ela suspirou.
— A viagem. Estou curiosa para saber onde é.- Ela disse, forçando um sorriso novamente. Percebi que ela fazia muito isso. Dei de ombros.
— Certo. Vamos.- Eu disse, abrindo a caixa e puxando o cordão que eu daria a ela por um lenço. Colocamos a mão na mesma hora e eu senti um puxão no meu estômago. Eu detestava viajar de portal.
Abri os olhos quando meus pés pousaram no chão. Eu pousei suavemente, diferente de Astoria que cambaleou e eu tive que segurá-la pela cintura. Ela pareceu ficar constrangida por não conseguir ficar de pé sozinha, eu revirei os olhos.
— Ser um comensal da morte me dava o privilégio de conseguir me teletransportar mais rápido. A sensação é um pouco pior do que viajar de portal. Eu me acostumei um pouco.- Dei de ombros, explicando o porquê de eu conseguir pousar com maestria.
— Além de você jogar quadribol. Te dá um pouco de noção de altura e velocidade.- Ela deu de ombros. Eu estreitei os olhos, espantado.
— Como sabe do quadribol?
— Todo mundo sabe do quadribol.- Ela revirou os olhos, andando na minha frente na direção do hotel. Pareceu constrangida novamente. Revirei os olhos, ela está sempre constrangida. Segui-a.
Assim que passamos pelo portal do hotel, percebi que estávamos em um lugar florido e cheiroso. Era dia ali. Nunca tinha ido até aquele lugar. Uma mulher sorridente se aproximou, ela era bonita.
— Bom dia, sr e sra. Malfoy. Sejam bem-vindos. O hotel Veneza agradece a preferência e os felicita pelo casamento.- A garota falou, seu sorriso me dava agonia. Meus pais deviam ter nos trazido para um lugar bem distante mesmo para ter alguém que não sentisse repulsa ao falar meu sobrenome.
— Você disse Veneza?- Astoria estava de olhos arregalados, parecia que o nome do lugar a deixou espantada. Não soube identificar se era de alegria ou insatisfação.
— Sim senhora. Estamos no centro de Veneza, na Itália.- A moça disse, orgulhosa da localidade. Eu reconheci o nome do lugar, mas ainda não entendi o porquê do espanto de Astoria, que tornara-se um sorriso enorme. Eu não a tinha visto sorrir assim. Ela estava mais bonita agora.
— Não brinca! Estamos na Itália mesmo?- Astoria perguntou, olhando para mim. Eu dei de ombros, confuso. Ela estava radiante demais, eu queria entender o porquê, mas tive medo de perguntar e ficar mais confuso.
— Sim senhora!- A moça deu uma risada irritantemente alegre. Até parece que ela não vê reações assim o tempo todo. Revirei os olhos. Deseja subir para o seu quarto agora? Preparamos tudo para vocês, devem estar cansados. No entanto, caso estejam dispostos, podemos visitar a cidade. Eu serei sua guia turística. Não precisam se preocupar, todo o sistema bruxo aqui é camuflado. Nenhum trouxa irá se meter em seu caminho.
Eu ergui uma sobrancelha. Aparentemente, alguém a informou de que a minha família não é muito fã dos trouxas. Ou aqui na Itália o fascismo anti-trouxa é ativo ainda? Bem, papai adoraria viver aqui, se for.
— Podemos ir para o quarto? Eu estou morto.- Eu disse, passando a mão nos cabelos. O sorriso de Astoria vacilou. Quis bufar. Ela não queria ir ver um país inteiro agora, queria? Fala sério!- Você quer ir ver a cidade?- Eu perguntei, incrédulo. Ela mordeu o lábio inferior. Eu revirei os olhos, ainda incrédulo.- Você está brincando comigo!
— Eu amo esse lugar, Draco! Sempre quis conhecer.- Ela disse, parecendo decepcionada. Eu percebi que essa tinha sido a primeira vez que ela tinha falado comigo. Mas deixei passar.- Eu posso ir sozinha.
— Não vou deixar você andar sozinha em uma cidade que você não conhece.- Eu fiz uma careta de desagrado. Ela apontou para a moça na nossa frente.
— Eu vou com ela!
— Você não a conhece também.- Eu disse, dando de ombros. A moça não estava mais sorrindo, observava nossa conversa. Provavelmente tentando arranjar alguma brecha para arrancar dinheiro da gente.
— Então vá comigo! Eu juro que vamos só conhecer algumas coisas e depois voltamos para casa. Digo, hotel.- Ela deu de ombros. Eu revirei olhos. Olhei para a moça irritado. Ela parecia constrangida. Revirei os olhos.
— O que você quer ver?- Eu perguntei. Astoria deu um pulinho infantil, animada. Olhou para a moça, que voltou a sorrir.
— Tem algum vinhedo aqui perto?- Ela perguntou. Eu suspirei. Não acredito que vou ver uvas.
— Temos um bem proximo. Estão prontos?- Ela perguntou. Astoria concordou com a cabeça animada. Eu apenas dei de ombros. A mulher estendeu a mão e nós a seguramos. Aparatamos no meio de um monte de mato. O sol estava quente, porém frio. Era confuso.
— Olha que lindo!- Astoria bateu palmas.
Ela e a moça passaram o dia inteiro olhando o vinhedo. Depois a moça no levou para um local onde várias pessoas trabalhavam para fazer vinhos de todos os tipos. A moça nos deu cada um dos vinhos para experimentarmos. Em pouco tempo, Astoria já parecia um pouco bêbada e sonolenta. Eu solicitei que voltássemos pro hotel, com medo que ela começasse a dar algum tipo de vexame ou fazer algo que fosse se arrepender amanhã.
Quando voltamos para o hotel, Astoria e eu fomos para o quarto. Lá dentro, mais umas 7 taças de vinhos diferentes estavam distribuídas para a gente. Provavelmente para comemorar o momento. Eu revirei os olhos. Amanhã tentamos isso.
Procurei alguma água para que ela bebesse, mas quando me virei para entregar, Astoria já estava deitada na cama, dormindo. Suspirei, insatisfeito. Eu estava extremamente cansado e com sono, mesmo assim, me sacrifiquei.
Fui até ela, tirei seus sapatos e coloquei no chão. Puxei seu corpo leve para que pousasse sua cabeça sobre o travesseiro, a cobri pois estava começando a fazer frio, agora que a noite se aproximava. Olhei para a janela. A vista era para o vinhedo que em outrora estávamos. Ela adoraria ver esse pôr do sol, imaginei. Mas não a acordaria agora.
Tirei a roupa e decidi tomar um banho. Eu parecia não tomar banho a décadas, e me senti mais aliviado depois de tirar todo aquele grude e suor de mim.
Me deitei ao lado de Astoria, que dormia suavemente ao meu lado. Me virei do lado oposto e, mesmo sabendo que não conseguiria dormir, fechei meus olhos.
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