Destined Souls
9 A Primeira Semifinal
Notas iniciais

Os Duques e Grandes Senhores Feudais da região prestigiavam o festival todos os anos e começaram a lotar o setor exclusivo de espectadores. Vinham com os mais diversos intuitos, mas o principal era procurar uma área em destaque para bom investimento com o propósito de aumentar suas fortunas. Lizzie atuava diplomaticamente, buscando manter o fluxo monetário em alta, de extrema importância para o contínuo crescimento da Nação. Cumprimentava e trocava ideias com todos a fim de chegar a acordos interessantes para ambas as partes, sempre priorizando o bem estar do povo de seu território.
— A Capital parece estar cada vez mais distante, sinto que viajei meio mundo — resmungou Kahic Vanier, o mais rico Senhor Feudal de Illay, um vasto território vizinho a Midtreno, na região das Trevas.
— Tenho certeza que valerá a pena, Kahic. Aprecie o espetáculo e sinta-se em casa — Lizzie o cumprimentou com um sorriso forçado. Se havia uma coisa que detestava era reclamações em demasia, ainda mais de um homem que nunca teve motivos para queixar-se. Voltou rapidamente para seu lugar, para não perder um só momento das partidas. Há tempos não ficava tão ansiosa, mas sua intuição dizia que algo grande estava prestes a acontecer.
A multidão saudava os competidores com gritos fervorosos de incentivo. Roy pisou na arena enquanto lembrava da única orientação dada pelo homem que o acompanhou pelos túneis. “Todas as instruções serão dadas pelo Árbitro da partida, caminhe até ele e espere o sinal. Boa sorte.”
— Que instrução mais inútil — resmungou para si mesmo. Caminhou em direção ao Juiz da peleja, que esperava os corajosos guerreiros bem no meio da arena. Este trajava uma túnica branca que lhe cobria todo o corpo, o brasão dourado dos aurores estava amostra no peitoral, enquanto segurava nas mãos um sólido geométrico de cor acinzentada.
A estrutura interna do Coliseu era minuciosamente preparada para essas disputas, as arquibancadas eram revestidas por diversas magias de confinamento e proteção, impedindo que o calor da batalha atingisse os inocentes espectadores. Isso não era tudo, a arena era modificada de maneira randômica através de magias para simular diferentes ambientes. Desta vez quase toda a extensão do solo era de terra regular e plana, com apenas algumas falhas de relevo esporádicas, a frequência das correntes de ar havia sido intensificada e até uma lagoa fora adicionada ao extremo sul do anfiteatro.
O Árbitro da partida deu sinal para que os quatro jovens se colocassem à sua frente e a plateia se calou, reconhecendo o início das tão esperadas contendas.
— Meu nome é Olaf Sisief e, com o poder concedido a mim pela Cidade Capital do Alvorecer e nossa Rainha Lizzie Leamak, serei o examinador de suas lutas — Olaf bradou e sua voz ecoou pelo Coliseu com a ajuda da acústica do anfiteatro, fazendo seu discurso alcançar até o mais distante ouvinte. — Gostaria que cada um de vocês forçasse seu F.E. por cinco segundos no objeto que vou entregar-lhes.
— Então esse é o famoso P.R.U.D.E.S.? Vamos ver se funciona tão bem quanto foi me dito — comentou Lizzie com Roamn, que estava bem ao seu lado. O PRUDES, ou Partículas Rudimentares Ultra Densas Estruturalmente Sistematizadas, era composto da mistura de mercúrio com uma substância criada em laboratório pelos Alquimistas. Quando unidas, ganhavam propriedades incríveis, com uma delas era possível detectar o tipo de fôlego base de alguém, desde que tivesse um fluxo contínuo. O árbitro usaria isso para definir aleatoriamente a ordem das batalhas e, consequentemente, quem iniciaria as lutas.
Roy segurou o estranho objeto octaédrico com ambas as mãos e se concentrou para passar sua energia por ele. A energia se condensou e a figura esculpida de um arco e flecha brilhou intensamente em dois lados do sólido. O garoto ficou abismado com as propriedades do estranho artefato, tanto que nem escutou as vozes comemorativas da multidão ou sequer observou seus oponentes enquanto faziam o mesmo. Em seguida, um jovem de cabelos castanhos espetados passou pelo mesmo processo. O largo sorriso apareceu instantaneamente quando a figura de uma lança de batalha, marca da materialização dos ventos, brilhou em outros dois lados da superfície do octaedro. Brad Danloes foi o próximo, a energia avermelhada incendiou o metal por um instante e acendeu as manoplas, símbolo da materialização do fogo. Por último, um compenetrado oponente de pele morena, nariz achatado e baixa estatura segurou o sólido, encarou Roy continuamente no processo até que a energia se mostrou, reluzindo o símbolo das águas nas duas últimas faces do octaedro, uma espada de uma mão e um pequeno escudo, denominado broquel, que era marca dos Conjuradores.
— Uma boa diversificação, os quatro competidores têm naturezas elementais distintas. Será um ótimo treino para Roy — apontou Lizzie, procurando conversar com o Primeiro Mestre.
— Neste ano não pediu para ver as credenciais dos competidores? Por acaso está abandonando seus métodos, Lizzie? — Roamn rebateu abismado. Lizzie sempre checava as características dos competidores que alcançavam as finais, Aloe entregava todas as informações disponíveis após uma extensa pesquisa.
— Não desta vez — respondeu em tom sério.
“O que será que ela viu nesse garoto? Não consigo entender o porquê de toda essa confiança…”, pensou o Mestre por um instante, mas não chegou a nenhuma conclusão. Voltou a si quando viu Olaf segurar com as duas mãos o artefato mágico recém apresentado. Uma parte da multidão ficou apreensiva, pois nunca tinham visto aquilo antes, mas a espera chegaria ao fim. Após um breve momento, o octaedro foi jogado para o alto. Logo após tocar o chão, quicou algumas vezes emitindo luzes randômicas, das quais duas se sobressaíram no final.
“Até que enfim! Mostre-me a que veio, Roy!” O primeiro Mestre comemorou internamente, ávido a satisfazer sua curiosidade. O arco e a lança de batalha apareceram, anunciando quem seriam os primeiros a duelar. A primeira semifinal estava definida, Auror contra Cavaleiro Feroz, representantes da Luz e dos Ventos respectivamente. A multidão aplaudiu de pé a demonstração do artefato mágico produzido em laboratório e o anúncio da partida.
— Os outros dois participantes, por favor, retirem-se e esperem a sua vez. Começaremos com Roy Hector contra Sammuel Kchouc. — O anúncio incendiou a torcida, que gritava ensandecida. O árbitro caminhou de um lado para outro, demarcando com um “X” o local onde os oponentes esperariam o sinal do início da luta. — As regras do combate são simples. Irão lutar até um se render ou ficar incapacitado de prosseguir, seja por ferimento de gravidade majoritária ou nocaute técnico. A arena inteira pode ser usada como os competidores bem entenderem, todas as manipulações elementais são permitidas, assim como armas e dispositivos diversos, incluindo os vetados por usarem tecnologia. Estarei acompanhando bem de perto todos os seus movimentos e não hesitarei em parar a luta caso haja algo fora dos conformes, estamos entendidos?
— Claro — Sammuel respondeu prontamente.
— Sim, tudo entendido — Roy respondeu e balançou a cabeça positivamente.
— Muito bem. A fé é a mais poderosa arma. COMECEM! — o juiz exclamou e se apressou a sair do caminho, para não atrapalhar uma possível investida rápida. Os dois não se mexeram, Samuel estava completamente imóvel, nem se deu ao trabalho de colocar-se em posição de batalha. Roy estava concentrado, cerrou seus punhos enquanto observava minuciosamente seu oponente pela primeira vez. Samuel aparentava ser mais velho, era bastante alto, perto da casa dos 1,80 talvez. Não portava armas aparentes ou quaisquer apetrechos, com exceção de uma pequena bolsa de couro na cintura.
— Então você é desses? — disse Sammuel desapontado.
— O que quer dizer? — perguntou Roy, curioso com a atitude.
— “Analise cuidadosamente seu inimigo para que ele não o pegue de surpresa…” Toda essa baboseira encontrada em qualquer manual básico de combate. Me poupe! Eu vim aqui atrás de emoção. Que tal você me dar um pouco disso, han? — debochou em tom ríspido, abrindo os braços como se esperasse o primeiro passo do jovem auror.
A multidão começou a ficar impaciente, ansiava pelos esperados combates há meses e a demora os consumia. “O que estão esperando?”, “Vamos logo com isso!” gritavam inquietos a procura de ação.
— Patético. — Sammuel colocou a mão dentro da pequena bolsa e o movimento fez Roy dar um passo para trás, apreensivo. Logo se revelou o que o jovem havia retirado dela, um suntuoso cachimbo de madeira. — Sabe, Roy, sempre me disseram que os Aurores eram bravos guerreiros de mente brilhante e vigor infinito, os últimos a cair no campo de batalha porque se recusavam a perder. Sempre escutei que o mundo deveria agradecer a vocês por não vivermos em tempos de guerra. Começo a achar que isso não é verdade — o garoto discursou enquanto procurava algo mais dentro de seu pequenino apetrecho. — Existem vários tipos de tabaco, mas posso separá-los em três classes principais. A primeira vem das regiões áridas nos arredores da Cidade Capital de Baluarte. As folhas de Denique usadas em sua produção queimam intensamente, propiciando uma rápida e desprazerosa degustação, sendo usadas somente para alimentar o vício, por isso são consideradas de baixa qualidade e vendidas a um preço baixíssimo. A segunda tem produção massiva além do nosso continente, viajam milhares de quilômetros, atravessando os oceanos. É chamada de Summa porque passa meses a deriva em águas perigosas. Já a terceira é plantada na região de Hiems, nos territórios gelados no extremo norte do continente. O aroma da planta que ganha o mesmo nome de seu território é suave e queima vagarosamente, aumentando o prazer a cada tragada, seu valor comercial é altíssimo, sendo considerado um produto insubstituível para a economia de quem o produz.
— Desculpe-me, eu não me interesso por nada do que você está falando. Particularmente, acho um ato nojento — respondeu Roy sinceramente, quebrando a torrente de palavras sem sentido do Cavaleiro Feroz. Sammuel o olhou friamente enquanto acendia o cachimbo e inalava sua fragrância.
— Roy, você e os aurores são como as folhas de Denique. — O garoto sorriu dando mais uma tragada. A comparação foi o estopim, Roy abandonou a análise que havia começado e juntou as mãos por um breve instante. Em seguida, manifestou sua energia em forma de arma.
“Isso, materializar e manter distância é a estratégia ideal contra um Cavaleiro Feroz. Talvez não seja tão idiota assim”, pensou Roamn, que observava os movimentos do garoto meticulosamente. Sem demora, o garoto passou a fina linha diagonalmente por um braço e prendeu o arco nas costas, ficando com as mãos livres. Esticou o membro superior direito e apontou um dedo na direção de Sammuel.
“Essa técnica? Será que…” Roamn olhou para Lizzie, que sorria reconhecendo o que o garoto estava para fazer.
“Manipulação Elemental da Luz — Lampejo Branco.” O raio de luz partiu da ponta dos dedos do Auror de maneira disforme, a energia tinha alvo certo, mas Sammuel desviou do projétil num rápido movimento. A energia atingiu uma parede do anfiteatro, abrindo um buraco no concreto. Roy correu na direção de seu inimigo, aproveitando a manobra defensiva e iniciando o embate corpo a corpo. Os socos e chutes eram facilmente previstos pelo Cavaleiro, que não demonstrava esforço para esquivar-se.
“Agora!” , os olhos afiados de Sammuel perceberam o passo em falso que seu oponente havia dado. Durante um cruzado de direita, Sammuel se abaixou e fez um movimento rasteiro com a perna. O golpe desequilibrou o Auror, que reagiu rapidamente. Durante sua queda apontou o dedo mais uma vez na direção de Sammuel, disparando a torrente de energia. Com ótimos reflexos, frustrou outra vez a tentativa do jovem auror e ainda desferiu um forte soco em sua face. A platéia se entusiasmou de vez quando Sammuel evocou sua energia para liberar a materialização dos ventos. O Fôlego Espiritual de cor esverdeada tomou forma de uma lança curta, ideal para combates de média distância. Roy cambaleou algumas vezes até finalmente conseguir parar, retirou o arco das costas e pôs-se a disparar suas flechas.
— É tudo que pode fazer? — gritou Sammuel enquanto avançava na direção do arqueiro. As flechas de energia luminosa ricocheteavam e se prendiam ao chão a medida que o Cavaleiro utilizava sua lança para desviá-las. Roy continuou a torrente de ataques a distância, contudo a destreza ia diminuindo frente a velocidade do inimigo. Guardou o arco mais uma vez quando percebeu que seu oponente venceria a distância que os separava no próximo segundo.
A cada movimento percebia-se a superioridade de Sammuel sobre seu oponente. O jovem Cavaleiro utilizava a distância segura de sua lança para atacar sem dar a chance de um contra-ataque, revezando golpes com a ponta afiada da lança e a haste de energia pela qual a segurava. Fazia malabarismos e firulas para confundir os sentidos do arqueiro, acertando esporadicamente várias partes de seu corpo, minando seu vigor pouco a pouco. Roy tentou estender o braço novamente, mas foi impedido por um golpe rápido. Para finalizar, Sammuel fincou sua lança no chão e usou a haste para pegar impulso, acertando um chute no estômago do arqueiro, que rolou por alguns metros.
— Essas suas magias estão fazendo você perder o melhor da batalha, Roy! Mas já que insiste numa batalha de poder mágico, irei atender ao seu desejo.
O movimento seguinte foi veloz e preciso. O garoto saltou rapidamente para trás, parando a alguns metros de distância da sua lança, mirando o ponto exato onde seu inimigo iria estagnar. Deu uma intensa tragada no cachimbo, que incrivelmente ainda estava aceso, e encheu os pulmões com a fumaça proveniente do objeto. Expeliu bruscamente o gás acinzentado, formando uma enorme bolha ao redor de sua arma, juntou as mãos e reuniu o poder mágico necessário para o próximo ataque.
“Isso não é nada bom, ele vai matar o garoto? Devo parar a luta agora?”, titubeou o árbitro da partida, que acompanhava a uma distância segura tudo que estava acontecendo. Decidiu esperar mais alguns segundos, mesmo sem saber se Roy aguentaria o que estava por vir.
“Manipulação Elemental do Fogo — Incendiar.” O jovem, que também utilizava magias de combustão, retirou seu cachimbo da boca e cuspiu uma pequenina bola de chamas na direção da grande bolha de fumaça, iniciando uma reação em cadeia. A energia dos ventos presente na lança serviu de estimulante para a queima, fazendo as labaredas subirem e irem de encontro a Roy, caído até então.
— Seu tempo acabou, pequena folha de Denique. — Sammuel estendeu os braços, intitulando-se o vencedor da contenda. A plateia foi a loucura, ovacionando a batalha emocionante à medida que as labaredas chamuscavam a parede do lado oeste do anfiteatro. No setor exclusivo, os nobres comentavam a batalha fervorosamente enquanto Lizzie e Roamn se entreolhavam. Foi quando Roy surgiu abruptamente, correndo em velocidade total de encontro ao seu inimigo.
O Auror cerrou o punho direito e preparou o golpe. Sammuel escutou as largas passadas e, usando de sua destreza, virou-se repentinamente e desferiu um soco com a mão esquerda. Os golpes encontraram seus respectivos alvos e Roy levou a pior.
“Devo admitir que foi esperto. Na ponta das flechas estendeu linhas feitas de energia e as deixou quase imperceptíveis a olho nu. Quando estava prestes a ser atingido pelas labaredas, usou toda a sua força para puxar o peso do próprio corpo e sair do caminho da magia. No processo acabou ferindo gravemente sua mão direita, o que interferiu na potência do contra-ataque. No fim das contas, poderia ter pensado em algo mais. Não sei se terá outra chance.” Roamn repassou toda cena anterior em seus pensamentos, analisando a estratégia do jovem Auror, que, apesar de astuciosa, não era suficiente para derrotar seu oponente.
Após o golpe, Roy rolou pelo chão novamente, ficando momentaneamente indefeso. Samuel correu e saltou na direção do jovem caído, forjou às pressas uma nova lança para finalizar o que havia começado. Fitou o torso do Auror e arqueou o braço que segurava a arma, pronto para empalar seu oponente.
— Eu venci!
Roy não poderia levantar-se com velocidade superior à de seu inimigo, que estava prestes a lhe atingir, mesmo que rolasse para algum lado ainda seria atingido. Durante a queda, um momento antes de perfurar seu alvo, o Cavaleiro sentiu uma força a mais lhe puxar, algo além da gravidade. Roy não se moveu um milímetro e a lança atingiu o chão com violência, acertando suas costelas apenas de raspão e espalhando sangue pela terra. A poeira abaixou e Samuel tentou puxar de volta sua lança, mas Roy não permitiu. Segurou-a o mais firme que podia com a mão machucada e estendeu o dedo indicador da mão esquerda, mirando o peito do adversário.
— Quero ver desviar dessa.
Entendendo o que estava acontecendo, Sammuel decidiu recuar. Tentou abandonar a lança para esquivar-se da poderosa magia, mas percebeu que não era apenas Roy que segurava seu braço.
— Se disparar a essa distância, eu não serei o único a sofrer o dano. O impacto também lhe...
— E quem disse que eu me importo? — interrompeu Roy. Seus olhos exprimiam o foco e a vontade que inflavam cada célula do seu corpo.
O brilho intenso ofuscou a arena momentaneamente, o raio de luz explodiu e o impacto jogou Roy para longe. A poeira se ergueu e foi espalhada pelas fortes correntes de vento. “Não parar a luta naquele momento foi a decisão correta. Caso contrário, jamais teria presenciado tamanha determinação”, pensou o árbitro. Observou Roy levantar-se com dificuldade e aguardou um instante antes de decidir dar a vitória para o dono da casa.
— Por nocaute técnico, eu declaro o vencedor dessa luta.
— NÃO OUSE! ISSO AINDA ESTÁ LONGE DE ACABAR!
Os ventos cessaram, a poeira se extinguiu e Roy finalmente pôde ver seu inimigo. Por um breve momento, todo o corpo de Sammuel ficou envolto em uma espécie de aura formada por pura energia.
— Ser obrigado a usar Vitalia contra alguém como você é humilhante. Ainda bem que meu mestre não está aqui para presenciar tamanha vergonha. Devo admitir que lhe subestimei, não imaginava que poderia esconder seu fôlego tão bem durante os ataques. Caso não tivesse usado isso, eu teria sido atingido em cheio.
— Eu tenho que admitir, Roamn, os oponentes mais interessantes só aparecem quando você está liderando o festival.
— Eu que devo reconhecer. O seu garoto é realmente mais interessante do que eu havia percebido. Mas ele precisa ser lapidado. Acontece que o oponente dele pode usar vitalia, quer dizer que nada mais que ele faça pode feri-lo. Não no estado em que se encontra, suas energias estão claramente no fim.
Vitalia era o nome dado à constante liberação de fôlego espiritual que impedia que os guerreiros elementais fossem facilmente feridos e evitava lesões severas. A carapaça de energia servia como uma segunda pele incrivelmente resistente, poderia ser vencida por magias que penetrassem a quantidade de F.E. usada para construí-las ou com as próprias armas forjadas com o fôlego dos guerreiros. No geral era uma técnica bastante eficaz, mas de alto custo, pois poderia esgotar as energias de alguém com facilidade se usada indiscriminadamente.
— Diga-me, Roy. Por quanto tempo ainda pode aguentar isso?
A cabeça do garoto zuniu, as pernas estremeceram e a visão começou a embaçar. O estresse pela constante liberação de energia deixou o auror em dúvida se aguentaria uma próxima bateria de ataques. Provavelmente não, já que ficar de pé era por si só um tremendo esforço. A verdade é que a última investida só havia sido possível graças a intensificação dos treinamentos de controle do seu F.E. Em outra época, teria se cansado apenas com os exercícios de tiro ao alvo.
— Se está procurando a resposta, eu lhe digo: nem um minuto a mais. Quero que conheça a Perfuradora da Tempestade. — Sammuel rugiu e a energia vivaz lhe franziu o cenho. O fôlego apareceu na forma de uma nova arma, dessa vez a ponta imitava as poderosas alabardas, longas lanças com as pontas afiadas em formato de meia lua.
— Acabou, Lizzie, pare a luta agora — solicitou o Primeiro Mestre, dando-se por satisfeito pelas surpresas presenciadas.
— Ele ainda não mostrou do que é capaz — respondeu a Sábia, segura.
— Será que você enlouqueceu? Eu posso sentir a vontade do Cavaleiro em matá-lo daqui de cima. Se não parar a luta agora perderá a Aposta que tanto defendeu. — Roamn se aproximou do parapeito, ansioso para ver o desfecho da luta. Samuel correu enfurecidamente na direção de Roy, que estava parado apenas esperando seu oponente.
O Cavaleiro Feroz mirou na cabeça de seu inimigo, procurando acabar de vez com o garoto que insistia em não perder. Desferiu o golpe vertical com toda sua potência.
— Ele desistiu?
— Olhe de novo, Roamn.
“Eu não posso perder. Eu tenho que tentar.” Em um ato de puro reflexo, Roy estendeu as mãos e segurou a lâmina.
— Isso é…? — perguntou abismado ao sentir tamanha demonstração de energia. O garoto que aparentava estar esgotado incendiou a última centelha de seu fôlego, sendo capaz de reprimir o último golpe.
— Impossível! — exclamou Roamn, assustando aqueles que estavam à sua volta.
— Desmaterialização da Alma. — Roy proferiu as palavras e Sammuel sentiu seu poder extinguir-se momentaneamente. A energia que exalava de forma contínua cessou e a própria materialização desapareceu. Sentiu-se indefeso por um breve instante, mas a sensação logo desapareceu. Roy havia caído à seus pés, completamente desacordado. O árbitro se aproximou e verificou o estado do Auror, em seguida deu sinal para os médicos de plantão entrarem e legitimou a vitória do Cavaleiro Feroz.
— Fim de Combate. O vencedor é Samuel Kchouc.
A torcida enalteceu a vitória de Samuel, embora vários estivessem torcendo pelo surpreendente Auror. Roamn se aproximou de Lizzie, que aplaudia de pé o representante de sua cidade.
— Há quanto tempo você percebeu? — sussurrou Roamn em tom sério.
— Finalmente você pode ver? Agora entende o porquê da minha insistência? Eu sou aquela que tudo enxerga, Roamn. Jamais duvide de meu julgamento. — O Primeiro Mestre sentiu uma mão tocar seu ombro, o capitão os Sentinelas Baraquiel estava a sua procura.
— Temos um problema que necessita de sua atenção nesse momento, Senhor.
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