Notas iniciais
Olá, pessoal! Mais um capítulo, espero que gostem! Boa leitura ^^

Khor analisou a pessoa a sua frente, entre divertido e curioso.

— O que espera receber em troca de nossa... Amizade?

— O mesmo que meu pai.

Khor riu.

— A morte?

— Se esse for o preço a pagar.

Havia tanta seriedade naquelas palavras, que Khor lembrou-se do guerreiro que há alguns anos havia lhe oferecido o reino de Sylesth em troca da independência de sua raça ao final da guerra. Mas as coisas tinham tomado um rumo inesperado.

— Assim como a vida de seu pai não era do meu interesse, a sua também não me importa.

— Imaginei que não. Mas os meus conhecimentos são, com certeza, do seu interesse.

Khor achou interessante a demonstração de arrogância, mas não estava inclinado a ter qualquer outra aliança com aquela família. Sabia que eles já não tinham mais tanta influência entre os seus, e seria um desperdício de tempo ter que lidar novamente com eles.

— Deixe-me esclarecer algo: você poderia me entregar a cabeça do Rei Erak nesse instante?

— Não, mas eu...

— Então não tem nada que possa ser negociado.

Dizendo isso, Khor finalizou a comunicação e voltou sua atenção para a Deiroon e a Meiruu, que estavam nuas na cama, transando enquanto ele estava ocupado. Achando a imagem muito interessante, ficou parado ao lado da cama com os braços cruzados, encostado contra um pilar, apenas observando.

Além da sensualidade da cena, o contraste entre as mulheres era excitante. A Deiroon, com sua pele dourada, quase negra, brilhante e úmida, possuía um corpo de musculatura firme e ao mesmo tempo curvilíneo, deixando clara sua força e vigor, enquanto a Meiruu, de longos cabelos ondulados em tons de rosa e verde, com pele macia em um delicado tom rosado, era a personificação da fragilidade.

Para deixar ainda mais óbvia essa distinção, a Deiroon ergueu a companheira com extrema facilidade da cama, prendendo-a contra a parede, com apenas uma mão, brincando com seu sexo com a outra, enquanto ela se contorcia e batia os pés no ar, os braços erguidos sobre a cabeça em total abandono. Com fascínio ele observou a Deiroon envolver os seios alvos com a boca, sugando vorazmente, até que lindas linhas vermelhas escarlate escorressem daquele ponto e percorressem o corpo esguio, passando pela, barriga, pelo ventre, coxas e caíssem da ponta dos pés, que ainda se remexiam em prazer.

A Deiroon inclinou a cabeça levemente para o lado e seus olhos negros o observaram. Khor sorriu, aproximando-se mais delas para ver de perto a mulher que dominava a situação enfiar com força, em movimentos cada vez mais acelerados, a mão entre as pernas da Meiruu, e esta passou a gritar em êxtase, enquanto seus cabelos, parecendo algo vivo, mudavam de cor, alternando entre o verde e o rosa. Quando ela levou os braços para envolver a cabeça lisa e cheia de símbolos intricados da Deiroon, esta afundou ainda mais forte a boca sobre a carne macia da qual saia cada vez mais sangue.

Mantendo os olhos negros cravados nos dourados de Khor, a Deiroon puxou a mulher que ainda tremia e a posicionou contra si, virada para ele. Lentamente passou a língua sobre o ombro da Meiruu, sem deixar de fitá-lo, exibindo para ele o corpo lindo de sua presa, com um dos seios vertendo o sangue deliciosamente salgado, típico daquela raça. Ela apertou o outro seio e então cravou seus dentes na carne branca do pescoço da delicada mulher, fazendo com que muito mais daquele líquido vermelho escorresse. Finalmente a mulher reagiu, provavelmente a dor tinha superado o prazer provocado pela exuberante companheira.

Sem perder tempo, Khor ficou na frente da Meiruu que se contorcia, agora tentando escapar das mãos que antes a tinham deixado gemendo em deleite, e com a fome estimulada pela visão provocante do sexo feito entre elas, e de toda aquela carne macia, ele puxou a Meiruu pelo quadril e cravou seus dentes na altura do ventre dela, sugando com tanta força, como uma fera extremamente faminta, rompendo a pele suave e a carne apetitosamente tenra, sentindo um leve sabor de mar.

Após alguns minutos a mulher não se mexeu mais, mas isso não os incomodou, e quando o sabor dela perdeu o encanto, jogaram seu corpo, ou o que sobrou dele, para o lado e, na cama coberta de sangue, Khor refez com a Deiroon o que ela tinha feito com a outra, só que sem a necessidade dos dedos e da morte. Pelo menos dessa vez.

***

— Eu sei que você é um sujeito durão, e agora tem uns poderes bem interessantes, que estão me matando de inveja, aliás, mas, Alexis, não pode fingir que está tudo OK. Aquela exibição toda que fez te deixou fraco, precisamos saber se foi por ter sido tão repentinamente, ou se vai ser o efeito colateral do uso desses poderes. – Angel praticamente saltitava em torno do Príncipe, que mantinha a expressão neutra, olhando pela janela, com os braços cruzados em posição claramente defensiva. – Só os Curadores poderão dizer algo!

Irritada, ela parou na frente dele e, vendo que era sumariamente ignorada, algo fácil, pois ela nem alcançava os seus ombros, lhe deu um chute forte na canela. Sim, era uma atitude realmente infantil, mas surtiu o efeito desejado. Alexis lhe dirigiu um olhar cansado, mas permaneceu em silêncio.

— Em qualquer outro momento, eu preferiria morder a minha língua antes de dizer isso, mas é sério, Alexis. Você precisa chamar um Curador! – ela fez um gesto exasperado indicando ele. – Olha só para você, está lindo como sempre, mas parece um trapo!

— Não estou tão mal quanto imagina, Ange.

— Não está? Só pode estar brincando! Que inferno! Eu vi como quase precisou de ajuda para levantar quando Choi foi beber o seu sangue!

— Foi algo momentâneo. Confesso que senti um cansaço fora do normal, logo depois de usar aqueles poderes, mas agora já me recuperei. Não existe motivo algum para alardearmos essa possibilidade de fraqueza à eles.

Angel o encarou firmemente. Os olhos azuis dele estavam sérios e decididos, sua expressão não mostrava nenhum tipo de sofrimento e sua postura, desde que tinham saído da sala de reuniões e entrado naquela, para terem privacidade, colaboravam com as suas palavras. Mas ela sabia que ele não estava cem por cento. A prova disso foi o quanto demorou para se dignar a responder. Ela não era tola para acreditar que tinha sido por causa do chute — que ele provavelmente nem tinha sentido. Não, Alexis estava poupando esforços, pois ainda se sentia esgotado. Ou o dano tinha sido maior do que ele queria admitir, por isso estava tentando ganhar tempo.

A garota mordeu os lábios indecisa, não podia traí-lo chamando um Curador sem o conhecimento do Príncipe. Ele estava sendo teimoso, como ela própria sempre era, mas os motivos que o faziam agir dessa forma não eram arrogantes ou egoístas. Alexis estava tentando proteger todos eles daqueles seres e de suas motivações nebulosas. Frustrada, ela levou as mãos à cabeça e sacudiu com força os cabelos prateados, deixando o topo completamente bagunçado. Ela ouviu a risada de Alexis e o olhou com cara feia. Como aquele cretino ousava rir quando ela estava tão indignada com tudo?!

Ainda sorrindo, Alexis a pegou pela cintura e colocou-a sentada sobre uma mesa. Após apoiar uma mão de cada lado dela, encostou a testa na de Angel, mantendo seus olhos azuis fixos nos da garota, que permanecia com a expressão fechada.

— Eu sei que está preocupada. Acredite, me tornei um especialista nesse assunto desde que a conheci, portanto reconheço o sentimento e seus efeitos. Então vou ser honesto. Estava cansado sim, também fui surpreendido por isso, mas tenho certeza de que o efeito maior já passou e certamente monitorarei isso para entender melhor os efeitos desse novo poder em meu corpo.

— Como pode garantir que isso será o suficiente? – Angel sentia certa surpresa diante da admissão dele sobre o assunto, mas isso não era o suficiente para acalmar sua ansiedade. – E se não for capaz de prever o que poderá enfrentar ao beber o sangue de mais uma cambada de reis por ai? Você está arriscando muito!

Ela viu aquele brilho de afeto que sempre a deixava pasma, pois ainda era difícil acreditar, tanto que era tão amada, quanto que aquele sujeito tão frio fosse capaz disso.

— Eu não estou arriscando. Se não tivesse certeza das minhas escolhas, não estaria fazendo dessa forma. – Ele beijou-a lentamente nos lábios, o suficiente para que ela sentisse um estranho e delicioso formigamento pelo corpo. – Eu jamais arriscaria a sua segurança, Ange.

— Como assim? Estamos falando de você!

— Não, estamos falando de nós. Se algo acontecer a mim, como irei protegê-la?

— Eu não sou a droga de uma menininha inútil!

— Jamais pensei de outra forma. Sei que é capaz de cuidar de si mesma, ainda que de maneira um tanto imprudente às vezes, mas aqui, nesse mundo, com essas pessoas, não é tão simples. – Uma sombra de preocupação surgiu na profundeza das íris azuis. – Eles são muito fortes. O meu ataque só foi bem sucedido graças ao elemento surpresa, já que eles nunca imaginariam que eu agiria daquela forma, não depois de tanto tempo sendo tão passivo. E, mesmo que quisessem me deter, eles não poderiam me machucar.

— Porque eles precisam da gente. Vivos.

— Sim, pois acreditam que somente nós poderemos acabar com o inimigo deles.

Angel ergueu a mão e passou-a de leve sobre os cabelos negros e macios de Alexis.

— Você não pode fazer tudo sozinho, Alexis. Como posso ficar parada enquanto se sacrifica desse jeito? Eu não vou ser um fardo, também quero protegê-lo. – Os olhos violetas procuraram os dele, entre desesperados e ternos. – Eu te amo tanto, droga!

Ela percebeu o leve arregalar de olhos dele, surpresos. Sim, ela sabia, não era de ficar falando essas coisas, mas queria de alguma forma, deixar claro quais eram seus sentimentos naquele momento.

Angel sentiu todo seu corpo se aquecer quando Alexis apertou-a contra si. Com o queixo sobre a sua cabeça, falou em voz baixa:

— Você não tem ideia do quanto tem me ajudado, Ange. Como acha que eu estaria nesse momento se não estivesse aqui, ao meu lado? – com o coração apertado Angel notou que a voz dele ficou mais abafada. – Vim parar em um mundo no qual tenho uma mãe, que está viva e é uma Rainha respeitada e gentil, profundamente devotada a memória de seu marido morto. Em Payre, meu pai foi um homem que uniu raças, lutou pela justiça e morreu como um herói, salvando milhares de pessoas. Diferentemente do que tinha na Terra, um assassino egoísta e preocupado apenas em manter seu poder.

Ela passou os braços pela cintura dele, refletindo sobre aquelas palavras. Não tinha pensado sobre o quão confuso era tudo aquilo para Alexis. Era até possível imaginar que para ele, viver em Payre, seria melhor. Uma nova vida, uma família melhor, viveria por centenas de anos com incríveis habilidades em um lugar cheio de recursos e possibilidades.

— Não pense assim.

As palavras de Alexis a trouxeram de volta de suas considerações.

— Do que está falando?

Ela foi afastada o suficiente para poder ver o rosto muito sério dele, ao responder:

— Eles não são minha família. A própria Rainha disse, eu renasci na Terra, como um Humano. Minha mãe está morta e meu pai é o cretino que é, e pronto. E você é a única coisa boa que tenho, seja lá ou aqui. Não vou deixar que te levem sem mim, nem vou arriscar que fique aqui para ser morta depois que se tornar descartável a eles.

— Eu não acho que eles sejam cruéis. – Angel sabia que era uma tolice, mas no fundo, por algum motivo, realmente acreditava nisso. Acreditava na bondade que via nos olhos da Rainha Syka, e ela nunca havia sido uma crédula cheia de ilusões a respeito das pessoas.

— Talvez não sejam, mas sabemos como o preconceito faz com que até as pessoas boas tomem atitudes condenáveis, e você já percebeu, aqui, embora os Humanos sejam essências para seus planos, são vistos apenas como ferramentas. O que fazemos com ferramentas que já não servem para nada, exceto atrapalhar novos projetos?

— Descartamos.

Angel suspirou. Alexis era um pé no saco com sua lógica irrepreensível.

— Então, aparentemente, Ren não é tão doido quanto parece. – Ela achava aquilo surpreendente.

— Não totalmente. Essa parte de quererem invadir a Terra é sem dúvida ridícula, mas que estamos sendo usados não há dúvida.

Ela o fitou, um tanto divertida.

— Exceto você, Predestinado.

— Apenas porque, tecnicamente, sou meio payreano. O que só serve para enfatizar o preconceito contra os Humanos.

— Ser da realeza também ajuda.

Alexis expressou tamanho desgosto em seu lindo rosto, que a fez rir. Para castigá-la ele a ergueu no ar, só que o efeito foi contrário, as risadas aumentaram ainda mais.

No momento em que ela percebeu a mudança no brilho dos olhos azuis, seu próprio corpo já mostrava sinais de ter outras ideias, por isso, sem hesitação, ela inclinou-se para frente e segurando a cabeça do Príncipe pelos cabelos, beijo-o profundamente.

Quando percebeu que ele voltava a colocá-la sobre a mesa, só que desta vez deitada, enquanto ficava sobre ela, Angel rapidamente começou a abrir a camisa preta que ele vestia.

— Já mencionei o quanto adoro essas roupas maravilhosamente práticas. – Ela comentou entre beijos, enquanto terminava de despi-lo.

— Algumas vezes. – Alexis também não tinha perdido tempo, ela já não sabia onde andava a própria camisa, o que significava seios totalmente à mostra e a disposição dos lábios masculinos e vorazes. – Acho que também já falei sobre minha grande apreciação a cultura desse povo no que diz respeito às roupas intimas. Ou melhor, a falta delas.

Agora que Angel sabia sobre os segredos de beleza das mulheres de Payre, a coisa da longevidade sem preocupações com a porcaria da gravidade, entendia que sutiãs eram realmente desnecessários.

Seus pensamentos com esses detalhes inúteis foram cortados, quando Alexis passou a percorrer seu estômago com a língua, sugando seus pontos sensíveis. Ela já se preparava para agarrar o máximo de carne possível daquela pele dourada e firme, quando a porta se abriu.

— Mas que mer...

Ah. A vaquinha azul de porcelana.

***

Noor sabia que não ia gostar do que encontraria naquela sala, tinha ouvido os gemidos e suspiros, mas não pode controlar sua raiva.

E estava certa.

Com suas habilidades, foi capaz de registrar tudo a sua frente em uma única olhada rápida. A garota deitada sobre a mesa, sem a parte de cima das roupas, o cabelo prateado e solto sobre o tampo de vidro, os seios alvos que subiam e desciam em movimentos ritmados, revelando sua respiração rápida. Os olhos violetas cheios de fúria e, certa dose de zombaria.

Ignorando a Humana, sua atenção focou-se no Príncipe. Ele era realmente lindo. Forte e dourado, seus cabelos negros despenteados, os olhos azuis sem expressão alguma, tentando não revelar o que sentia naquele momento em que foi pego de surpresa, mas era indisfarçável o volume na frente de suas calças pretas e que aderiam a musculatura bem formada da coxa.

Enquanto Noor analisava o Príncipe, Angel se ergueu, ficando sentada sobre a mesa. Com movimentos calculados Alexis logo ficou a frente de Angel, bloqueando a visão de Noor da garota seminua. Aquilo a deixou ainda mais furiosa. A proteção, e o desejo que o belo corpo não conseguia conter pela Humana a deixava louca. Ele era o Predestinado! Um Príncipe de Payre! E ainda mantinha-se preso a frágil criatura que, Noor esperava, logo seria mandada de volta para casa. Se não morresse antes.

Isso lembrou-a da ameaça feita por Alexis na reunião, mas logo descartou o pensamento, pois não creditava que a Rainha Skya permitiria que seu filho mais velho fosse mandado novamente para aquele planeta distante, para morrer em alguns míseros anos, longe de sua verdadeira casa. Noor tinha certeza que aquela relação absurda não tinha futuro. Então, como era paciente, e tinha centenas de anos pela frente pra estar com ele, deixaria que a criaturinha irritante aproveitasse o quanto podia. Apenas não era obrigada a tornar isso fácil.

— Vim para avisá-los que devem dormir agora. Os Curadores estarão passando em seus quartos para garantir tenham o descanso necessário para o dia de manhã.

Noor observou a garota Humana lançar a cabeça para o lado, para poder vê-la pela lateral de Alexis. Não foi difícil reparar que, ao fazer o movimento, ela não fez muita questão de esconder o seio nu.

— Muito legal de a sua parte vir só para nos dizer isso, afinal, os comunicadores são bem eficientes e tal. Mas aprecio a gentileza.

Noor sorriu. Como gostaria de torcer o pescoço daquela pequena coisinha pálida, só precisaria de uma única mão no pescoço fino.

— Desculpem se os interrompi, mas o sistema apontou que estavam aqui e como estava passando, resolvi dar o recado. Como não encontrei a porta trancada... – de forma propositadamente provocativa olhou novamente para o corpo de Alexis, muito lentamente.

Viu a fúria tingir os olhos violetas, o que a satisfez profundamente, mas seu sorriso logo se apagou quando a coisinha Humana enroscou-se no braço de Alexis, pressionando os seios contra a pele morena. Pior do que o gesto da garota foi a reação do Príncipe a isso. Ele virou a cabeça para Angel, seu corpo todo ficando visivelmente tenso. Quando ele ergueu a cabeça novamente, seus olhos estavam meio escondidos sob a sombra dos longos cílios negros, o maxilar forte mantinha-se rígido e sua boca levemente comprimida. Não havia dúvidas, Alexis estava tentando controlar-se, o que revelava muito sobre as reações que a Humana provocava nele, pois o Príncipe, desde que chegara em Payre, era conhecido por sua postura fria e indecifrável. Agora estava tão afetado que sequer conseguia esconder isso, mesmo se esforçando.

Antes que cometesse alguma besteira, como matar a garota, Noor virou-se, afastando seus olhos da cena, e caminhou para a saída, falando sobre os ombros:

— Os deixarei agora.

Quando chegou ao corredor, abriu lentamente os punhos que mantivera firmemente cerrados. Reparou com indiferença que as longas unhas haviam ferido profundamente a palma de suas mãos.

Virou a cabeça para trás, quando um breve som agudo indicou que a porta pela qual sairá havia sido trancada. Sem poder mais controlar sua raiva, e não conseguindo refletir com coerência sobre as consequências que seus próximos atos trariam, deu a volta e tocou a porta com as pontas dos dedos. Então, com os olhos iluminados em um tom de branco brilhante, tentou penetrar na mente de Angel. Queria privá-la dos momentos que estava passando com o Príncipe, tomando o seu lugar. Usurparia seu corpo e seria ela, Noor, quem estaria nos braços de Alexis naquele momento e ele nem sequer se daria conta disso. Angel apenas sentiria uma confusão depois que libertasse sua mente, sem saber exatamente o por que. Era perfeito e deliciosamente excitante.

Mas algo não deu certo. Mesmo tentando com muita força, Noor encontrou uma barreira que, para sua surpresa, parecia impenetrável. Chocada percebeu que não era capaz de acessar a mente de uma reles Humana. Seria aquilo possível graças a sua condição de Humana? Ou teria sido consequência de ter bebido o sangue da Rainha algumas horas antes? Também havia a possibilidade de ser o contato com o Príncipe naquele momento.

Profundamente frustrada, e incapaz de fazer qualquer coisa a respeito, Noor saiu quase fumegante pelo corredor. Sabia que Erak estaria no quarto dele e, tanto quanto ela, precisando relaxar naquela noite. Ele seria, ainda por mais algum tempo, um lindo e sensual consolo para seus desejos não realizados.

Como lembrou a si mesma há apenas alguns minutos, teria centenas de anos pela frente para ter Alexis em seus braços. Foi até capaz de sorrir ao imaginar que aquela altura, Angel não seria nem mesmo uma mera lembrança na vida dele.

***

A Rainha Syka olhou para as luas no céu completamente limpo. Os tons de prata e azul de uma pareciam se sobrepor aos tons de prata e verde da outra. Ela gostava de admirar os céus, Melkor quando estava vivo, também apreciava esses momentos. Ambos sabiam qual era o motivo de tanto tempo gasto olhando para algo tão silencioso e infinito. O filho que Melkor nunca chegou a conhecer e que ela viu apenas por alguns minutos, e que estava em algum lugar, longe e sozinho. Alexis.

Syka observou o braço, as marcas de dentes ainda estavam visíveis, embora muito suavemente. Um Curador quisera tratar o ferimento e ela permitira, mas apenas aquele que ela própria havia causado. O de Alexis preferira deixar. Não sabia bem o motivo de algo tão singular, mas sentia que era uma espécie de apego desesperado a um vinculo com alguém que a considerava apenas uma estranha, uma criatura vil que tentava usá-lo para proveito próprio. Um monstro.

Com tristeza, tocou com a outra mão as marcas que seu filho havia deixado em seu corpo. Apesar de tudo, era capaz de entender suas desconfianças e temores. Como esperar que ele aceitasse facilmente ela, Erak e Payre? Alexis se via como um Humano, e embora realmente o fosse, ele não era apenas isso, era um payreano, mas essa outra parte dele não seria reconhecida sem muito sofrimento e dor.

A Rainha sentia que seu amado filho tivesse que passar por tudo isso, mas como soberana, e como mãe, o que poderia fazer? Era o destino de Alexis enfrentar esses dilemas e desafios. Seriam as escolhas dele que determinariam o destino de tantas outras pessoas, ele apenas não havia se dado conta da enormidade de sua missão. Para o rapaz, sua maior ambição naquele momento, era manter vivos os seus amigos, inconsciente de que isso não era nem perto de ser o suficiente.

Syka voltou a olhar para o céu. Seu filho não sabia ainda, aquilo que o pai dele havia descoberto muito duramente. Para haver uma vitória que significasse algo, ela deveria ser alcançada com desprendimento. Sem receios, dúvidas ou ódio. Alexis teria que aprender a amar seu povo como amava sua irrequieta namorada. A Rainha sorriu levemente ao pensar nisso, pois, ao contrário do que os outros pensavam, ela via na garota a melhor chance deles em alcançar esse objetivo. Syka via nos olhos violetas, apesar das atitudes, um amor tão profundo e tanta coragem como só vira uma vez em sua vida. E para ela, que tinha passado todos os seus séculos de vida seguindo as palavras dos Deuses, era um sinal.

Estava curiosa sobre Angel, afinal tinha uma certeza em seu coração. Aquela garota Humana não era uma das Escolhidas da Deusa Ashy.

Quem era ela, então?

***

Mona tinha tentado descansar, mas não conseguira por tanto tempo quanto gostaria, embora se sentisse completamente bem mesmo assim. O que mais sentia falta era de dormir para esquecer, saber que, por algumas horas, estaria livre da dor, das cobranças, das descobertas. Suspirando olhou para a enorme porta que um dos Curadores disse ser a Sala de Armas da Rainha. Foram orientados a estarem ali pela manhã, para descobrirem que rumo seguiriam depois da reunião.

Ainda era muito cedo, mas Mona não se importou. Parou em frente a porta e aguardou. Sabia que todas as portas daquele lugar só abriam caso a pessoa a sua frente tivesse autorização para entrar. Se não pudesse fazer isso naquela hora, voltaria para seu quarto. Mas a porta se abriu, ou melhor, como todas as demais, foi desaparecendo a partir do centro.

O choque a fez parar no primeiro passo. A sala era tão gigantesca quanto as de simulação, mas esta era abarrotada de coisas, possivelmente armas, que ela nem era capaz de identificar. Algumas sabia do que se tratavam, pois tinham sido inseridas informações básicas sobre armamento em sua mente. Outras eram um grande mistério.

Passada a surpresa inicial, aproximou-se de uma das paredes e notou que todas estavam protegidas por cristais tão discretos que só era possível nota-los ao tocar na sua superfície. Nem sequer um mero reflexo denunciava sua existência. Era como estar no mais incrível museu de armas do mundo. E todas eram, além de letais, belíssimas, incrustadas de pedras coloridas e feitas dos mais variados metais e cores.

Encontrava-se tão absorta no que via que demorou a perceber que não era a única naquele lugar. Mais à frente, também muito concentrada nos armamentos, estava Angel. Procurou ignorar a presença da garota, não tinha paciência para o humor estranho dela, nem para suas zombarias.

Refletindo bem, era esquisito pensar que, embora tivessem passado por tanta coisa juntas, mesmo na Terra, haviam trocado apenas algumas palavras e uma única vez. Mona franziu a testa ao lembrar-se dela na cama, morrendo.

Quando voltou sua atenção a outra garota, reparou que também estava sendo analisada. Com desanimo viu Angel se aproximar e parar a uma certa distância, o suficiente para ser considerado perto de mais por Mona.

— A idade lhe fez bem, Monalisa.

Saco. O que fazer?

— A você também, embora não perceba muita diferença. Principalmente no tamanho.

Mona reconheceu, foi um comentário meio cretino, mas não pode conter, afinal, ela havia começado ao chamá-la de “Monalisa”.

Mas para sua surpresa a outra apenas riu, fazendo uma careta.

— É, todo mundo ganhou pelo menos uns cinco centímetros e eu, nada. Nem meio. – Angel desviou sua atenção novamente para as armas seguras atrás dos vidros. – Imagino que vá escolher um arco.

Agora estava muito surpresa. A Rainha havia dito que eles teriam a liberdade de escolher as armas que quisessem para lutar. Como não estavam acostumados a usar seus poderes, aquelas armas mágicas serviriam como uma espécie de catalisador do poder que conseguissem reunir e assim lhes dariam melhores chances em uma luta contra outros seres acostumados a lidar com suas essências magicas desde o nascimento. Mas como Angel sabia de sua relação com o arco?

Deve ter deixado transparecer a sua dúvida no silêncio prolongado, pois mantendo os olhos sobre uma linda espada dourada, Angel disse:

— Choi me contou, ainda na Alpha, que você certamente tinha lançado uma de suas flechas em seu coração, por isso ele era tão patético.

Aquilo mexeu com ela. Choi tinha falado de seus sentimentos para aquela garota? Não que fosse algum segredo, todos meio que sabiam da paixonite dele por Mona, mas nunca soube de nenhum comentário tão aberto sobre o que ele sentia por ela. Aquilo foi doce e doloroso ao mesmo tempo. Quando Angel virou na sua direção, Mona baixou a cabeça rapidamente, escondendo suas emoções sob os cabelos negros, que agora chegavam ao meio das costas, lisos e brilhantes.

— Mas sempre pensei que ele estava errado.

Curiosa diante daquelas palavras e do silêncio que as seguiu, voltou a olhar para Angel. A garota estava muito séria. Sem qualquer traço de simpatia nas palavras que seguiram:

— A patética era você. – Antes que Mona pudesse reagir, Angel continuou no mesmo tom: — Tão desesperada para agarrar Alexis que não foi capaz de perceber um sujeito como o Choi. Bem, fico satisfeita em notar que ele finalmente caiu em si.

A surpresa foi logo substituída pela raiva.

— Quem pensa que é para me julgar? – tão cheia de mágoa estava que não mediu suas palavras ferinas. – Uma órfã não é capaz de compreender minhas motivações! Você nunca se preocupou em causar vergonha para sua família, era obviamente detestada por todos, seu avô, seu primo... E ainda foi capaz de matar sua empregada!

— Cale essa boca maldita!

Mona e Angel se viraram ao mesmo tempo na direção da porta. Um Choi pálido e furioso estava lá. Com os olhos brilhantes de ira, ele foi diretamente na direção de Mona. Ela sentiu tanto desespero sob aquele olhar que não foi capaz de reagir.

— Angel, Alexis estava a sua procura. Ele está vindo para cá. Vá encontrá-lo, por favor.

Mona, pelo canto do olho, observou surpresa uma silenciosa Angel ir em direção a saída. Não havia passado despercebido a ela o olhar perdido e sombrio da garota. O mesmo que ela via em si mesma todo dia diante do espelho, ao pensar em sua família distante, talvez para sempre perdida. E em Choi.

— Você é mesmo uma garota cruel e mesquinha. Como pode dizer essas coisas, quando viu naquela filmagem pelo que Angel passou?!

Então Mona perdeu a paciência. Então era assim?! Seu pai defendia Ren, mas não a ela, Alexis tinha preferido Angel, mas não dera a mínima para suas tentativas de aproximação durante anos. E agora Choi a desprezava a ignorava há meses, mas não hesitara em se aproximar para defender aquela garota. Além de estar o tempo todo com uma completa desconhecida, a tal Lali. E ela? E ela, inferno?!

— E o que eu passei aqui?! E o que eu passei a droga da minha vida toda na Terra?! Você sabe sobre tudo! Você, mais do que ninguém, sabe! Meu pai me odeia! Meu irmão é um cretino que não liga para ninguém além dele mesmo!

Para seu maior desespero, Choi riu.

— E você liga? Você que acabou de jogar na cara de uma garota, que está vivenciando o mesmo pesadelo que nós, que ela basicamente não tem nenhum motivo para voltar para casa?

— Não foi isso que eu disse! Não distorça minhas palavras, Choi! – Mona se recusava a deixar que os argumentos dele fizessem sentido na sua cabeça. Precisava manter aquele ódio, ou enlouqueceria.

— Sim, minta para si mesma. Se iluda como sempre faz para se sentir melhor. Mas eu aviso, não fira outras pessoas para satisfazer a sua necessidade de ser a vítima no seu lindo melodrama!

Perdendo a cabeça de vez, ela gritou:

— Por que se importa tanto com essa assassina?! Resolveu mendigar a atenção dela também, já que isso nunca funcionou comigo?

Choi a fitou com uma expressão mais calma, o que só serviu para enfezá-la ainda mais. Contudo as palavras dele a desmontaram de vez.

— Eu nunca mendiguei nada a você. Eu a amei.

Ele se preparou-se para sair, mas Mona não foi capaz de se virar, pois já não enxergava nada a sua frente, seus olhos estavam completamente embaçados. Uma lágrima solitária escapou, apesar de sua intenção de contê-la.

— E, antes que fale mais besteiras, principalmente na frente de Alexis, pois ele certamente não aceitaria tão pacificamente quanto a Angel, saiba que ela nunca matou ninguém. Quem matou Hye Kyo, que Angel considerava não uma mera empregada, mas como se fosse sua própria mãe, foi seu querido Leonard. Ele confessou tudo. Isso ele não lhe falou, não é, Mona?

Chocada Mona arregalou os olhos, mais lágrimas caíram.

Sim, Choi tinha razão. Ela era fria, egoísta e cruel.

Quando ela havia se tornado aquele monstro?

Notas finais
E lá vou eu fazer a Mona sofrer feito uma condenada de novo eheueheheheh Uma hora dessas consigo a simpatia dos leitores pela coitada kkkkk Espero que tenham gostado, e fiquem no aguardo porque vem mais pela frente da Mona e do Choi. Pelo visto Payre não está sendo fácil para esses dois.... Agradeço pelos comentários que tenho recebido e pelos novos leitores. Obrigada, mesmo!! ~emocionada~ Ah, e desculpem pelo tamanho do capítulo, foi uma exceção, pois não consegui cortar nada dessa vez. Nos próximos prometo manter dentro das 4 mil palavras eheheh Bjs e até o próximo o/