Taehyun olhou a melhor amiga. Ela sorria de leve. O que não seria estranho, se não estivessem naquela situação. Ele estava apavorado há dois segundos, achando que ela usaria aquele crush estranho como desculpa para recusar – de novo – a namora-lo... Mas, ao ver o rapaz, ela sorriu... E Yura não era chegada em sorrir.

“Não pode ser...” – fez contato visual com a amiga.

E sorriu também.

Não acreditava nisso... Ela havia gostado do ômega?! Isso era incrível!

Yura sempre fora ‘chata’ – nas palavras dele, ‘criteriosa’, nas palavras dela – com cheiros ômegas. Os muito doces não lhe agradavam tanto, os muito ‘suaves’ também não, os considerados mais ligados à natureza eram mais agradáveis a ela... Contudo, não podia ser algo muito ‘selvagem’ ou ela pulava fora.

Não havia reparado que o pequeno albino a sua frente, realmente, se encaixava em todos os critérios. O cheiro dele não era doce demais, mas, também não tão suave...

— Hã... Vocês desejam alguma coisa? – perguntou timidamente o garoto.

Taehyun sorriu safadamente: — Você não tem ideia... – respondeu em tom malicioso.

Levou um chute por debaixo da mesa em seguida. Mirou a garota e os olhos dela expressavam claramente a frase ‘Não tão direto!’.

“Isso dói...!” – pensou, alisando a perna atingida.

— Foi uma brincadeira... – disse gentilmente Yura, mirando o garoto que corara com a investida de Taehyun: — Eu gostaria de mais um soju... Obrigada. – a loira sorriu aberta e gentilmente, fazendo o pequeno corar ainda mais.

O garçom ficou calado, com os lábios levemente separados, parecia fascinado pela beleza da garota, mas, logo olhou para a comanda, como se saísse de um transe: — Certo. – respondeu, anotando rapidamente: — Já trago. – e saiu.

— Ele gostou de você... – disse Taehyun, olhando o pequeno se afastar e depois se voltando para Yura: — Bom, mas, é você... Se sem querer causar uma boa impressão, todos já te olham por causa da sua beleza, imagina querendo causar uma boa impressão... – ele sorriu, percebendo que conseguira fazer o belo rosto da jovem avermelhar-se.

Amava aquilo.

A garota colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha e o fitou seriamente: — Bom, só para sua informação, eu aceito.

Taehyun piscou: — Quê?

Novo chute por debaixo da mesa.

— Ai! Isso dói... – o ruivo disse alisando a perna.

— É que você faz cada pergunta... Eu disse que aceito namorar com você. – ela respondeu calmamente, o fitando.

Taehyun sorriu, só que logo coçou a cabeça, e se estivesse interpretando a garota errado? Em relação ao ômega? Ele era meio porra louca, mas, Yura sempre fora mais... Tradicional... Em relacionamentos: — E o garoto? – apontou com a cabeça em direção ao local que o pequeno entrara.

—... – Yura o fitou um pouco surpresa: — Achei que você já estava pensando em um modo de encaixá-lo... – disse espantada.

Ótimo. Não a havia interpretado errado... Encaixá-lo...

“Hm... Vai ser complicado...” – olhou novamente para o restaurante, onde podia ver o pequeno pegando dois copos limpos para levar junto com o soju.

No dia que o viu pela primeira vez, depois da academia, sabia que o garoto sentira a mesma tensão entre eles... Não tem como disfarçar essas coisas, foi química. O mesmo ocorrera entre ele e Yura há poucos minutos. Possivelmente significava que ele era, no mínimo, bissexual, portanto, sexualidade não seria um problema.

A questão ficava no fato dele ter uma namorada.

“Possessiva e abusiva...” – refletiu.

Por que ômegas eram sempre tão passivos em relacionamentos abusivos? Detestava isso.

Mas, além disso, também tinham outros problemas, como o fato de que mal o conheciam, ele não pertencer ao círculo social que estavam acostumados – se aquele garoto tivesse ido a alguma festa ou evento, com certeza teria reparado, impossível não notar uma beleza tão distinta, e se ele amava a namorada.

“Namorar é uma coisa... Amar é outra...”.

O primeiro – mal conhecê-lo – poderia ser resolvido facilmente, bastava descobrir o nome dele e pesquisar na internet.

O segundo – ele não pertencer ao mesmo círculo social e, portanto, eles terem pouco contato – não era exatamente um problema. Sabiam onde ele trabalhava. Isso já era um começo, apesar de ser pouco, pois se tratava de um shopping, e os turnos em shoppings sempre eram meio loucos, contudo, com um pouco de esforço, talvez descobrissem outros trabalhos ou se ele estudava...

O terceiro e pior – ele amar a namorada – era o mais complicado. Principalmente por se tratar de um relacionamento, aparentemente, abusivo. Se ela já era abusiva há algum tempo, ou ele a amava muito – o que complicava tudo – ou não tinha escolha e precisava permanecer ao lado dela.

— De qualquer forma... – ele olhou para Yura: — Acredito que encontramos nosso novo restaurante favorito. – o ruivo sorriu e foi correspondido pela loira enquanto faziam um high five.

~*~*~*~*~*~

Sangwoo estava com raiva, muita raiva. Abriu o porta-malas do carro retirando a mochila e pegando o celular de dentro, o ligou. Precisava se livrar daquela irritação, ou não conseguiria pensar.

Sei que faz tempo, mas, posso ir hoje?

Enquanto esperava a resposta, entrou no carro e deu partida. Não queria ficar ali. Dirigiu sem rumo até o celular vibrar. Estacionou o automóvel e pegou o aparelho, lendo a mensagem.

Xristmas

Nossa Kailan, faz um bom tempo, achei até que tinha saído dessa vida.

Só que tô com um problema man, hoje não vai dar não.

Estamos lotados, você não pode lutar amanhã?

Sangwoo suspirou. Merda. Escreveu uma mensagem rápida.

Desculpe, não garanto amanhã.

Mas valeu.

Enviou e se encolheu no banco, tentando manter suas garras e presas sob controle. Estava com tanto ódio... Se pudesse, mataria alguém...

“Merda.”.

Ao mesmo tempo em que estava com raiva de Bum, não queria que ele sentisse aquilo... Fez o melhor possível para erguer novamente as barreiras, mas, não tinha certeza se funcionaria. Ligou o carro e deu partida, tinha de ir para algum lugar extravasar...

“Qualquer lugar...”.

Sua mente lhe levou direto para a academia que treinava quando criança – suspirou. O cúmulo da ironia. Iria para o único lugar do planeta onde seu pai não agia como um babaca colossal.

Na verdade, não queria ir para lá. Não fora para aquele lugar desde o dia em que... O matou.

Resolveu não pensar nisso, apenas continuou dirigindo, sua mente estava totalmente fora de controle. Quando chegou, um senhor muito enrugado, com cara de poucos amigos o fitou seriamente, analisando-o por alguns segundos.

— Sangwoo? Caralho... Como você tá grande... – disse o olhando um tanto pasmo.

— Quero usar por umas horas, pode ser?

O velho concordou com a cabeça, apontando para trás – onde havia uma lista de preços.

— Como dizem, quem tá vivo sempre aparece. E o seu pai? – falou o senhor vendo o loiro pegar a carteira.

— Morreu. – disse sério, entregando o dinheiro.

— Bom, por isso não apareceu. – concluiu o velho, sem muito rodeio ou tato.

Sangwoo concordou com a cabeça e entrou no local. Havia um pequeno ringue no centro, sacos com areia que variavam de tamanho e cor, pesos, esteiras, bicicletas, o ambiente era uma mistura de várias coisas diferentes. Mas, o aspecto era velho e um pouco sujo.

“Porra, não mudou nada.” – pensou rapidamente o alpha, olhando para um dos sacos com areia.

Tirou o casaco, que deixou em um canto, e sem pensar, começou a socar e chutar descontroladamente àquele saco de pancada. Não fez aquecimento e nem colocou protetores, só queria que tudo fosse para o inferno.

Tinha certeza que, diretamente do inferno, seu pai deveria estar gargalhando de sua cara.

“É, definitivamente, seu filho.” – pensou socando mais forte ao pensar que sua vida seguia, exatamente, o mesmo rumo...

~*~*~*~*~

Bum olhou para a porta. Sangwoo saíra e ele não conseguiu impedir. Por que nunca conseguia falar o que estava em sua mente? Por que sempre hesitava, recuava... – sentou-se no sofá.

“Só que o que ele disse... Aquelas palavras... Doeram.”.

Sabia que fizera errado em esconder, mas, não foi falta de confiança em Sangwoo...

“Ele está magoado por que tomei a decisão sem ele? Ou por que não conversamos a respeito? Não é como se a criança já tivesse nascido, ainda podemos conversar...” – pensava o pequeno, respirando fundo.

Conseguia sentir a ira emanando pelo vínculo...

Sangwoo estava furioso, triste, confuso... Aquelas sensações o estavam deixando enjoado, contudo, aos poucos, amenizaram.

Estava sendo bloqueado, de novo... Contudo, diferente da primeira vez, sentiu alívio pelo alpha ter feito isso...

“Ele está furioso, mas, bloqueou o vínculo pelo meu bem...” – observou o teto.

O enjoo estava passando...

Lágrimas se formando...

Fechou os olhos e respirou fundo. Não adiantava chorar. Lágrimas não resolveriam o seu problema.

Observou a mesa, ali estavam os pratos que mais gostava... Depois olhou o embrulho...

Sangwoo uma vez se desculpou por ter uma ‘memória emocional seletiva’ e, portanto, não se lembrar dos – praticamente – dois anos que estudaram juntos... Mas, agora, se lembrara da data exata em que o pedira em namoro.

Se a memória emocional dele era seletiva, ela escolhera não só guardar aquela data, como também todas suas comidas favoritas.

O pequeno pegou o presente e o abriu...

Uma jaqueta longa...

“Por que esse inverno está realmente rigoroso e ele deve ter notado que não possuo tantas...” – suspirou, observando que o presente também se encaixava perfeitamente em seu gosto.

Quando Sangwoo percebera que preferia cobrir a bunda? Ou que as cores que costumava usar eram discretas e não berrantes? Não sabia... Contudo, ele estava deixando claro que o observara e reparara naqueles detalhes.

Se seu relacionamento com Sangwoo terminasse, não seria porque tomou a decisão de ter aquela criança sem consulta-lo, e sim, porque fora incapaz de se expressar e falar seu ponto de vista. Abraçou forte a jaqueta.

Também o conhecia, talvez não tão bem quanto imaginava conhecer, todavia, sabia que ele fazia bobagens quando irritado...

Encostou o rosto na jaqueta. Deveria tê-lo parado. Deveria ter falado...

“Por que sou assim?”.

Tinha de encontra-lo.

Contudo, não fazia a menor ideia de onde ele poderia ter ido...

“Mas, conheço quem faz...” – pegou o celular, mandando uma mensagem para Yangmi.

Eu e o Sangwoo brigamos, ele saiu.

Você saberia para onde ele foi?

O telefone tocou, era a garota... Suspirou. Odiava atender... Só que como era sobre o alpha, atendeu.

— Ele saiu furioso? – perguntou a voz preocupada de Yangmi.

— Sim... – murmurou como resposta Bum.

— Hm. Provavelmente ele foi lutar... Mas, não recebi nenhum alerta, que estranho... Espera que vou te passar o site...

Em pouco tempo, Bum já estava diante do laptop do alpha, olhando um site de luta – ao vivo. Pesquisou os participantes daquela noite, e não viu Sangwoo nela... Ou melhor, Kailan.

“Ele não vai lutar...”.

Yangmi fora clara, se ele estava muito furioso, com certeza lutaria... Era a única forma dele se acalmar, normalmente era para os donos daquele site, contudo, se não fosse, ele estaria lutando em outro lugar...

Bum não sabia se ficava triste ou feliz por Sangwoo não estar lutando ali... Se estivesse, saberia onde ele estava, mas – observou à luta que acontecia naquele instante, uma garota pulava no pescoço de um cara e começava a sufoca-lo.

Morreria de preocupação, imaginando se alguém o machucaria ou morderia – como a garota estava fazendo na orelha do cara que sufocava, como um animal.

Tirou aquela luta da tela, aquilo... Era muito violento.

Começou a vasculhar o site, havia vários pacotes especiais, Yangmi comprara um VIP pelo o que podia notar – a garota lhe passara sua conta e senha. Em sua playlist só podia rever lutas em que ela fizera alguma aposta, e pelo que notou, a jovem apostara sempre em Kailan – e colocara um alerta nele, então, toda a vez que ‘Kailan’ fosse lutar, ela seria informada para poder apostar, se assim desejasse.

“Ela realmente confia no Sangwoo... Em absolutamente todas as lutas, ela aposta um valor absurdo nele...” – refletiu o ômega.

Não havia nenhum alerta para aquela noite... O último fora a mais de um mês...

“Quando estávamos separados...” – pensou o pequeno.

Antes disso... Havia um... Estava com Sangwoo naquela época...

Puxou a memória...

Fora o dia em que ele chegara ensanguentado e machucado em casa...

Lembrava-se daquele dia porque ficara preocupado com o alpha e o esperara. E também... Fizera um boquete nele... Corou com a lembrança.

E antes... Era da época em que não estavam juntos de nenhuma forma. Era praticamente uma vez por semana... Não... Uma vez a cada quinze dias... Exatamente.

“Não pode ser só raiva...” – pensou.

Contudo, algumas vezes, ele lutava mais... Teve uma semana que lutou três vezes...

“Que loucura...”.

Ele podia ter morrido fazendo aquilo... Alphas se recuperavam mais rápido, fato, mas, três lutas em uma semana?

Selecionou uma delas, aleatoriamente, e começou a assistir. Começava com a preparação dos lutadores. Sangwoo parecia pouco a vontade, não comeu nada e na hora de ficar diante das câmeras, ignorou-as solenemente... Diferente do seu adversário, que ficou fazendo diversas poses e mandando beijos...

A luta começou e não demorou tanto, Sangwoo derrotou, pelo que pareceu, com certa facilidade, seu adversário. Mesmo assim, não mandou beijos e nem fez poses, apenas esperou uma garota bonita subir no palco e dar a ‘volta da vitória’ com ele. Depois a garota fez uma dança sensual – pelo o que notara, Yangmi comprara o ‘strip’ dela, pós luta, que ele também podia ver se quisesse.

Além disso, ele podia ver a ‘punição’ aplicada a garota do lutador que perdeu. Entrou nesse por pura curiosidade e viu a garota ‘do vencedor’ – que estava com uma lingerie sexy, rodar uma roleta.

Caiu em ‘boquete’ e a 'garota do perdedor' teve de fazer um boquete no lutador que perdera, mesmo esse dizendo que não queria... Pelo que percebeu, ela usou seus feromônios e o excitou de qualquer forma, mesmo com ele sentindo dor e preso em uma cama.

“Uma ômega... Estuprando um alpha?” – nunca pensou que veria aquilo na vida.

Não entendeu o objetivo e acabou ligando, um pouco atordoado para Yangmi. Que mundo era aquele que Sangwoo frequentava?

— Ah, isso... – disse calmamente a alpha: — É uma forma de manter os lutadores sempre lutando...

— Como assim? — questionou atônito o ômega.

— Esses ômegas são caros, os lutadores podem transar com eles antes da luta, mas, normalmente, eles não fazem isso... Exatamente porque não vale a pena, a questão é que, se eles perdem, eles são obrigados a isso e esse ‘favor sexual’ é colocado na conta deles, formando uma dívida... Há lutadores como o Sangwoo, que lutam porque querem, já há outros que lutam para tentar pagar essa dívida...

— Isso é... – Bum não tinha palavras.

— Loucura, eu sei. Mas, ninguém consegue parar eles... Quer dizer, quem vai enfrentar uma organização dessas...

— Porque ele se meteu nisso... – murmurou o ômega antes de conseguir se controlar.

— Eu acho que o pai dele tinha uma dívida... E depois, ele queria estudar medicina, ele não admite, diz que é porque é a profissão que melhor paga, mas... – Yangmi hesitou no telefone: — Sangwoo gosta, sabe? De cuidar e tornar a vida das pessoas melhor...

Bum se calou. Nunca vira Sangwoo no trabalho, mas, a forma com a qual ele se dedicava aos estudos, não era algo que alguém faria apenas por dinheiro... Ele amava aquilo, dava para notar em seus olhos, exatamente por isso, ficara chocado quando Yangmi lhe contara que ele lutava... Era um risco muito alto... Podia ganhar um ferimento irremediável e nunca mais se tornar cirurgião...

— Obrigado Yangmi, se... Você encontra-lo... Poderia dizer que quero conversar? Por favor...

— Está bem, não se preocupe. – a garota tentou tranquiliza-lo antes de desligar.

Suspirou.

Sentia-se péssimo... O que Sangwoo faria? Será que realmente pensava que fora falta de confiança? E se ele pensava isso... O que poderia fazer?

Ouviu o toque de seu celular.

Piscou algumas vezes, era uma mensagem de Myung-Hee.

Lee Myung-Hee

Bum, não esquece que amanhã você tem de ir como testemunha no meu processo ♥

Fotinho da Cho como incentivo moral kkkkkkkkkkkkkk

Anexada, estava uma foto de Cho-Hee vestida de supergirl.

Piscou algumas vezes, sua afilhada era uma gracinha.

“Quase me esqueci do julgamento...”.

O último estupro que Myung-Hee sofrera fora no ataque na universidade. O homem que fizera isso fora preso e agora iria ser julgado. Obviamente, ele estava alegando ‘insanidade temporária devido ao cio’, mas, o testemunho dele, Jieun e Young, seria baseado no fato de que o cio de Myung-Hee fora induzido. Com isso, dificilmente ele escaparia de uma punição.

Não apenas a pena dele seria agravada, como a de todos os seus companheiros também... Sentir insanidade temporariamente e cometer um estupro era repulsivo, mas, possuía uma pena baixa, se comparado a um estupro sem cio.

Agora... Induzir o cio em um ômega era considerado um crime terrível e as penas aplicadas eram extremamente severas.

“Ele vai pagar por isso, nós somos a prova...”.

O pensamento de Bum parou.

Prova.

“É isso!” – o garoto teve uma ideia, levantou, pegou o necessário e saiu.

~*~*~*~*~

Jihoon olhava seu planejamento detalhadamente, enquanto estava esparramado no sofá de seu ateliê. Almoçara com suas amigas, e depois fora para ali, trabalhar em alguns projetos individuais. O lugar era grande, tinha diversos manequins, tecidos, máquinas, réguas, uma zona. Mas, a sua zona. Seu canto. E ninguém ousava interferir.

O alpha era um estilista, contudo, não procurava por fama. Tinha talento, era o que todos diziam, entretanto, não sabia até quando conseguiria manter a jornada dupla.

Apesar de sempre afirmar que entrara em administração para conseguir lidar melhor com os próprios negócios – o que, parcialmente, era verdade, o fato é que fora obrigado a cursar aquilo, para conseguir administrar os negócios de sua família e cumprir o estágio obrigatório com seu pai, na empresa principal. O que era um porre, mas, necessário.

Podia ir a seu ateliê o quanto quisesse... Desde que mantivesse tudo em ordem. Ou seja, se trabalhasse direito na empresa, podia fazer o que preferia em seus horários vagos.

Respirou fundo.

“Meus poucos horários vagos... Como hoje...” – refletiu por um instante.

Normalmente estaria trabalhando no escritório naquele horário, contudo, conseguira tirar o dia de folga, pois andara fazendo muitas horas extras.

“Exaustivas horas extras...” – fechou os olhos.

Entretanto, naquele final de ano, foi agraciado com o fato de que tudo – absolutamente tudo – que planejara, dera certo. O trabalho extra compensara, em todos os sentidos.

Graças a isso, poderia fazer uma festa de Natal inesquecível, e dessa vez, levaria toda a sua manada. Sem desculpas.

Seung sempre inventava alguma coisa para não sair do país, contudo, nem que ele tivesse de pagar pelas passagens da família inteira do rapaz, mais um plus para a namorada, o levaria também! Todo mundo iria. Fazia questão.

Sua manada, seu namorado e seu irmão. As pessoas que queria ao seu lado em um feriado.

Abriu os olhos e observou uma foto da mansão de sua família, em Osaka, ao lado dela, todos os detalhes que pensara – até o momento – para a festa. Sorriu.

Normalmente aquela mansão era reservada por seu pai, para as festas empresariais de final de ano, que ele sempre proporcionava aos acionistas, juntamente com sua mãe. Entretanto, finalmente o convencera que o melhor lugar para sua festa diplomática e boring – ou seja, chata pra caramba – era em Tóquio. Eles tinham um hotel de luxo por lá, haveria espaço e logística suficiente para seus convidados.

Trocou a foto da mansão em Osaka, que estava em seu smartphone, para a do hotel em Tóquio – ao lado dela, toda a logística da festa de seu pai, que supervisionava com olhos de águia para que não ocorresse nada errado.

Na realidade, ia preferir fazer sua festa em Tóquio. O salão do hotel de sua família era incrível e a decoração impecável, mas, seu irmão detestava o lugar, e queria passar o Natal ao lado dele.

Min-Ho era seu único irmão, por serem gêmeos, eram muito unidos quando crianças, todavia, com o passar dos anos, se separaram. Queria tentar se reaproximar, nem que fosse um pouco. Já fazia alguns anos que não passavam o Natal juntos.

Jihoon nunca celebrou àquela data com toda a sua família. Seus pais sempre foram a festas diplomáticas. Eles sempre preferiram trabalhar e fazer negócios nessa data, do que passa-la com seus filhos. Em verdade, eram raras as ocasiões que seus pais paravam para dar o mínimo de atenção a ele e seu irmão.

Eles eram o motivo dele e o irmão serem tão unidos quando pequenos – a distância dos pais os tornou inseparáveis, mas, também sentia que eram – igualmente – o motivo de estarem tão distantes nos dias atuais.

Quando criança, ele e Min-Ho ficavam sozinhos em datas festivas e aproveitavam sempre da melhor forma possível, ou seja, destruíam a casa e tudo que os empregados haviam organizado antes de irem aproveitar o momento com suas famílias... Era divertido... – o alpha sorriu com as lembranças.

Contudo...

Cresceram, as pressões sociais começaram, o fato de ele ser um alpha e Min-Ho um ômega, passou a valer muito mais...

Ele, Jihoon, era o sucessor, o herdeiro, àquele que comandaria o império e legado de sua família, era, conforme todos os parentes que só apareciam para repetir isso, ‘o mais capacitado para a função’.

Não importava que ele tivesse um irmão gêmeo que, cronologicamente, nascera antes, e seguindo a ‘tradição’ que eles tanto gostavam de dar ênfase quando lhes convinha, era para ser o sucessor.

Que o mesmo realmente tivesse tino empresarial – e fizera as melhores negociações dos últimos anos.

Que Min-Ho amasse àquelas seções de tortura com acionistas, muito mais do que ele jamais gostaria.

Que aquele ômega fosse o melhor empresário que já conhecera na vida.

Absolutamente nada disso importava.

Min-Ho estava ali para ser seu apoio, não ser o sucessor dos importantes negócios da família.

O jovem olhou a iluminação que entrava pela janela... A luz do sol criava um efeito bonito em alguns tecidos espalhados pelo balcão central...

Às vezes se questionava... Se tivesse enfrentado seu pai, se tivesse dito o que era óbvio e ninguém queria admitir, se tivesse mudado o rumo da conversa no dia em que disseram qual curso deveria frequentar... As coisas seriam diferentes? Min-Ho continuaria agindo friamente atualmente? Ou, eles continuariam como antes? Ou tudo seria ainda pior, porque, se havia algo que o ômega odiava, era ser ‘protegido’, ou que sentissem ‘pena’ dele...

Suspirou.

Não sabia. Não tinha ideia... Tudo que compreendia era que ele aceitara – depois de muita insistência, ir à festa de Natal, e não desperdiçaria aquela oportunidade.

Olhou para o celular, como plano de fundo, uma foto sua e de seu namorado... Estavam juntos há pouco tempo, mas, gostava dele.

Tinha um crush por ele desde que lhe dera aulas particulares. Foi complicado, no início pensou que não tinha chance, porque, alphas – sem ser por acordos entre famílias – não se envolviam com outros alphas, principalmente, se ambos fossem homens.

Mas, com tempo e esforço, acabou conquistando-o. Estava feliz.

Levantou, saiu do ateliê, indo direto para seu Rolls-Royce preto e deu partida.

Iria para casa, ligaria para seu namorado... Talvez o convidasse para jantar...

Estava tão cansado... Queria só encontra-lo e ficar em seus braços.

Mesmo sem estar no escritório, ainda tinha de atender todas as ligações e resolver todos os problemas à distância. Sua mente se sentia esgotada.

Será que Min-Ho estaria em casa? Ele andava tão ocupado... Algumas vezes pensava que o irmão havia se mudado, ou algo assim, mas não, sempre descobria que ele apenas trabalhara até mais tarde...

Poderia apresentar os dois, caso o irmão estivesse em casa e o namorado aceitasse jantar com eles...

Passou pelos portões da mansão com calma, entregando as chaves de seu carro ao motorista da família assim que desceu – na frente da porta. Estranhou sua são bernardo, Chanel, não vir cumprimenta-lo.

“Ela está presa? Por quê? Será que meus pais estão em casa?”.

O rapaz entrou, vendo uma de suas empregadas, Lee Hana, recolhendo o que parecia ser um casaco.

— Hana! – disse com um sorriso: — Como você tá?

A garota se virou imediatamente, parecendo chocada e então sorriu fracamente: — S-Senhor Jihoon... Olá. – respondeu sem jeito.

Jihoon se calou. Tinha algo muito errado, Hana, normalmente, era super animada... Olhou para o que a garota segurava, eram roupas. Mas... Não qualquer roupa... Observou a sala... Havia peças de roupas pela sala inteira...

—... Quanto tempo subiram? – perguntou com um sorriso para a empregada.

Iria matar.

Ambos.

A moça baixou o olhar: — Uns cinco minutos... Senhor...

— A chave mestra. – esticou a mão para a garota, que sem escolha, entregou a seu patrão.

Jihoon se virou, pegando um dos vasos caríssimos que um decorador babaca fez sua mãe comprar, subiu a escada, abriu a porta do quarto de seu irmão e tacou o vaso na parede, fazendo-o parar de transar com seu namorado.

— Ah, me desculpe atrapalhar, só vim dar um oi. – disse, colocando uma das mãos na cintura.

— J-Jihoon! – o moreno saiu de cima do ômega: -... Hã... Isso...

— Se você disser, ‘eu posso explicar’, juro que te mato. – respondeu: — Cai fora.

— Jihoon, não faz assim, tenta entender o meu lado... – o rapaz levantou.

Tentar entender o lado dele? Tentar... Entender... O lado dele...

...

O filho da puta tinha sorte dele não ter passado na cozinha antes! Ou teria um facão ali!

— Eu.Disse.Fora! – falou entre dentes.

— Você tem que entender... Ele é igual a você... E é um ômega...

Jihoon nunca sentiu tanta ânsia de vômito na vida. Era tipo ‘você é ótimo, mas, achei um igual com plus’... Talvez assassinato não fosse um crime tão hediondo assim...

— Vai. – disse novamente, sendo dessa vez, obedecido pelo alpha.

Respirou fundo: — HANA! – gritou: — Não entrega nenhuma das roupas dele! Chama os seguranças se necessário.

— Quê? Você quer que eu saia pelado daqui? – ficou indignado o filho da puta.

— Ora, você não quis ficar pelado? Agora, fica pelado!

— Eu não vou sair daqui assim!

Jihoon pensou em chamar os seguranças, mas, Hana fora mais rápida e os homens já retiravam o peladão da casa.

Ouviu risadas vindas do quarto e se virou.

Min-Ho o observava enquanto ria: — Não acredito que o expulsou nu...

— Há quanto tempo? – perguntou, sem achar a mínima graça.

— Hm... Tecnicamente, ele me deu aulas antes... Ele até queria oficializar comigo, mas, eu não aceitei... Sorte dele que você se interessou, né? Só que... – ele se levantou, aproximando-se: — Pelo visto, eu descobri algo em que sou melhor que você... E que ninguém poderia discordar por causa do meu gênero, afinal, ômegas são conhecidos por serem bons nisso mesmo...

Jihoon estava com tanta raiva, que sentia a ameaça que seus feromônios passavam... Sabia que Min-Ho podia sentir também... Até mesmo outros alphas, se assustariam com isso... Mas, seu irmão apenas o fitava, sem mover um músculo...

Poderia mata-lo, se quisesse, tinha força suficiente para isso. Se lhe desse um tapa, provavelmente deslocaria sua mandíbula... Contudo, não o fez.

Virou de costas e desceu a escada, indo diretamente para o motorista pegar a chave de seu carro... Sairia dali o mais rápido possível.

~*~*~*~*~

Sangwoo continuava batendo no saco com areia, não tinha ideia de quanto tempo passara.

Sua mente refletia sobre o que acontecera, todos os momentos com Bum, tudo que sentia... E tudo parecia quebrar diante de seus olhos.

Suas mãos e seu corpo latejavam de dor, mas, não parava os movimentos.

Não conseguia entender porque o garoto lhe escondera aquilo... O que ele pensara que faria? Sentia-se traído... E ao mesmo tempo, exposto de alguma maneira...

Era como se Bum também conhecesse seu lado cruel, e com base nisso, tirara suas próprias conclusões...

Contudo...

De alguma forma, imaginara que o ômega soubesse, que conseguia sentir, que o entendia...

“Fui um imbecil...” – pensou, socando mais o saco de pancada.

Se ele tivesse lhe contado, claro, ficaria chocado... Entretanto, conversaria... Contaria suas razões para não querer aquilo e por fim, o deixaria tomar a decisão... E se ele escolhesse ter, bom, enfrentariam isso juntos... Ele nunca o abandonaria...

Mas agora...

Quanto tempo ele pretendia esconder? Um mês? Dois? Ficaria afastado o fazendo ter ideias estranhas? Quanto tempo ele o faria de idiota?

Socou mais uma vez o saco de areia.

— Ei! Garoto!

Ouviu o velho senhor chama-lo, e se virou, parando o saco de pancada quando o mesmo veio em sua direção.

— Eu vou fechar daqui a pouco, melhor tomar um banho, se não quer ir para casa fedendo.

Sangwoo baixou o olhar...

Casa...

Não queria ir para casa.

~*~*~*~*~

Jieun se observava no espelho. Estava perfeita. Fazia um tempo que não ia ao cabeleireiro, andava meio... Chateada.

A garota saiu do quarto ajeitando o robe que usava por cima da camisola de seda, se sentia sexy, linda, cheirosa... Enfim... Como há algum tempo não conseguia se sentir...

Foi até a cozinha e observou a torta de amora – sua favorita, colocada sobre o balcão. Sabia quem havia feito, mas, ainda não acreditava nisso...

Depois que Sangwoo tornara Taeyang fahise, ela e Yangmi decidiram punir o rapaz.

Obviamente, não poderiam puni-lo como realmente desejavam – no seu caso, envolvia tortura e quem sabe, mutilação, no caso de Yangmi, estupro.

Optaram então por uma punição mais leve, contudo, constante... Algo que não as levaria para cadeia.

O rapaz foi colocado no trabalho doméstico – literalmente. Ele era obrigado a limpar tudo... Toda a casa de Jieun, todo o ateliê de Yangmi, tinha de fazer refeições, e obedecer todas as ordens que as duas garotas lhe mandavam...

Contudo... Surpreendentemente... Ele gostou.

— Chocante... Quem diria... – falou baixinho a garota, observando a torta.

E o mais bizarro de tudo, ele era bom nisso.

Ela cortou uma fatia da torta. Óbvio que havia outras punições indiretas, como o fato da manada dele tê-lo abandonado e ele ter perdido todo o respeito que possuía.

E mais punições diretas, como as fotos estranhas que Yangmi o mandou fazer, ou o fato dele sempre ter de fazer a limpeza vestido de empregada, ou o dia em que ela o fez posar para um grupo de garotas – e as poses eram realmente... Diferentes...

Contudo, era engraçado como ele gostara da ‘punição’ constante que prepararam.

“Se bem que não sei se ele gostou de cara, ou se foi uma auto descoberta feita aos poucos...”.

Lembrava que no dia das fotos, acabaram conversando e ele lhe confessou que, por orgulho, não havia admitido... Mas, não mandara matar Bum... Suas ordens foram dar um susto nele, não esperava que fossem tão longe.

Obviamente, ele seria julgado por isso...

“Mas, os pais dele são advogados, assim como os meus, dificilmente será preso...” – pensou a garota.

Sangwoo também não parecia interessado em ampliar a punição. Ele apenas observava e nunca perguntava o que estavam fazendo com Taeyang. Como se aquele assunto estivesse morto.

Contudo, o líder alpha sempre fora um mistério... Nunca entendia o que se passava em sua cabeça...

Olhou para a torta...

— Droga... – murmurou, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha.

Não queria pensar nele. Desde que ele decidira criar um vínculo perpétuo com um ômega, decidiu esquecê-lo. Afinal, de qualquer forma, seja lá o que tiveram, nunca ia para lugar nenhum...

Lembrou-se de uma conversa que teve com Yangmi – estranhamente estavam mais próximas desde o episódio com Taeyang. Não era como se fossem melhores amigas, mas, já não soavam como inimigas...

Claro, a morena ainda pegava no seu pé, contudo, antes sempre havia uma tensão entre elas, como se fossem brigar a qualquer instante, e não uma briguinha de amigas, algo realmente sério... Entretanto, agora, lhe soava mais como se elas fossem jogar coisas uma na outra, como duas crianças...

Naquela conversa, Yangmi disse que não lhe odiava... E não era como se desejasse, realmente, que ela e Sangwoo não ficassem juntos... Era só que, do ponto de vista dela, o relacionamento deles lhe soava muito tóxico, para ambos.

“Vocês dois, como um casal, machucam um ao outro... Você o afunda, tanto quanto ele te afunda... Com certeza, seriam ótimos amigos, mas, não servem como um casal... É diferente dele com o Bum... E isso que penso...”.

Nunca esqueceria aquelas palavras, porque nunca vira a garota tão séria.

Todavia, não tinha a menor ideia do motivo de Sangwoo ter escolhido Bum e não a ela. Quer dizer, o garoto parecia fofo, contudo, não podia ser apenas isso, né? Ainda achava que ele poderia ter perdido o controle...

Mas, do que adiantava pensar nisso agora?

Comeu um pouco da torta.

Sangwoo parecia feliz... Andava evitando paqueras... E assumira um namoro publicamente.

Só isso, já era o suficiente para lhe dar certeza que ele estava sério com o garoto, contudo... Nos últimos dias... Ele parecia disperso, e de certa forma, triste... Parou de comer a torta.

Odiava se sentir daquela maneira. Não queria pensar nele... – encostou ambas as mãos na bancada e se apoiou, dando um imenso suspiro.

Seus olhos acabaram indo para sua marca de manada... No pulso... Estava fraca e começava a desaparecer, se não renovasse, não faria mais parte...

Entretanto, amava sua manada. Sua melhor amiga estava nela. Seu melhor amigo estava nela. Suas amizades mais intensas estavam todas ali. Não queria sair.

Contudo, a forma como ele e ela sempre renovavam sua marca...

Estava pronta para que aquilo se tornasse apenas uma mordida, sem mais nada? Fechou os olhos até ouvir o toque de seu celular, vinha da sala... Largou o pedaço de torta e fez uma corridinha até lá, pulando no sofá para pegá-lo.

Abriu as mensagens.

Yangmi

Gente, se alguém ver o Sangwoo, dá um grito.

Young

Hein? Ele desapareceu? Que bizarro. Mas, não vi ele não.

Chung-Ho

O que aconteceu? De qualquer forma, não o vi o.o’.

Yangmi

Hm, ele e o Bum se desentenderam, mas, não é nada grave.

Liguem pra mim, pra eu falar com ele, ok?

“Ora, ora, problemas no paraíso?” – pensou ironicamente a garota, enquanto ouvia a campainha tocar e fechava o robe para atender.

“Se fosse nada, você não pediria pra te avisar Yangmi...” – refletiu abrindo a porta.

— Oi. – disse Sangwoo, fitando-a.

Jieun gelou. Ele estava ali? Ele... Fora até a casa dela?

— Posso entrar? – perguntou o rapaz.

Jieun queria dizer que não. E fazer um verdadeiro interrogatório sobre os motivos, razões e circunstâncias que o levaram a ir até a sua casa, durante a noite, em plena quarta-feira. Mas, não conseguiu.

— Claro... – disse se afastando e dando passagem.

Olhou para o celular escrevendo uma rápida mensagem antes de desliga-lo.

Também não o vi.