A manhã estava enevoada, contudo, um pouco mais quente que as duas últimas semanas. A neve rala que caíra durante a madrugada já derretia diante da presença do sol.

O Hospital Universitário sempre fora uma referência em tratamentos médicos. Revolucionário quando o assunto era medicina especializada em gênero. Composto por três prédios, sendo o maior, melhor equipado e mais novo, o central. Além do hospital, a universidade também possuía uma rede de enfermarias que serviam de apoio, evitando a superlotação e ajudando a comunidade.

O sistema inteiro já passara por diversas reformas, no entanto, Noh nunca vira a entrada do principal prédio hospitalar, ser fechada, obrigando os funcionários e pacientes a utilizar a porta dos fundos. Aliás, nos mais de cem anos de fundação da instituição, ela não sabia se houvera qualquer caso semelhante registrado.

Entretanto, era exatamente o que seus velhos olhos captavam naquele exato instante. Seguranças impediam a entrada de pessoas e instruíam todos a darem a volta. Tudo causado, pelo o que entendera, por uma única manada.

"Ou seria por um único líder?" – refletiu a médica.

A senhora bebericou um pouco de seu café puro e amargo, caminhando até o local. Foi acordada há pouco tempo pelo reitor, que não tinha ideia do que fazer. Kwak era um bom homem, mas, não sabia lidar com essas situações, acabou apelando para ela, que era experiente em tratamentos a alpha e situações complicadas. Não que gostasse de ser lembrada disso.

— Que bom que veio! – disse o reitor, nervoso: — Não quero invadir o local ou chamar a polícia, mas, se você não conseguir resolver, terei de fazer isso... – lamentou o senhor.

— Tão ruim assim?

— Eles não machucaram ninguém, mas, assustaram e foram agressivos... Ninguém consegue se aproximar e estão liberando feromônios de forma alarmante.

— Hm... Bom, se não feriram ninguém, já é um começo. – ela deu de ombros, começando a ir em direção aos seguranças.

— Espere! Você não prefere falar daqui? Tem um alto falante! – ele mostrou o objeto.

— Não é assim que funciona, o líder precisa me ver... Ele está transtornado... Você ao menos sabe o que houve?

— Hm... Isso aconteceu após o registro de um acidente grave com um ômega... – ele coçou a cabeça: — Um dos alphas estava acompanhando ele...

— Preciso de detalhes do caso... De qualquer forma, irei entrar. – ela arrumou a roupa com a mão e bebeu um pouco mais de seu café.

— Não prefere esperar que eu consiga os dados? Não deve demorar muito.

— Não. Só caso eu não consiga conversar com ele. Já imagino o que aconteceu. – ela suspirou, parando diante dos seguranças.

— Senhora Noh, não sei se eles estão em condições... – começou o jovem segurança, preocupado com o bem estar físico da médica.

Noh apenas indicou com a cabeça o reitor, que fez um sinal para ele a deixar passar.

O rapaz olhou para os colegas que o fitaram, negando com a cabeça, se eram ordens do reitor, não havia o que ser feito. Ele saiu da frente, resignado.

A senhora tocou em seu ombro antes de passar completamente: — Não se preocupe rapaz, eu sei o que estou fazendo. – ela lhe sorriu, tranquilizando-o.

Quando a porta se abriu, a médica ficou levemente chocada com o tamanho do estrago. Parte dos bancos, que eram presos ao chão, foram arrancados e atirados contra as paredes. Para isso fora necessária uma força absurda.

"Provavelmente foram rompantes de ira alpha. Nada é mais absurdamente temeroso que um alpha furioso e sem controle." – pensou a senhora, chutando de leve o pedaço de um banco despedaçado.

Calada, observou a cena. No centro do caos, estava o líder agachado, encolhido. Ficou surpresa ao constatar quem era...

"Sangwoo...".

Contudo, sua visão foi obstruída por uma jovem de cabelos negros e pontas azuis, que se pôs na frente, evitando que conseguisse ver o rapaz. A garota tinha as presas e garras a mostra, seu olhar era nebuloso, mas se podia ouvir um rosnado baixo e contínuo, quase como um alerta para a senhora não se aproximar.

Além disso, o ambiente se encontrava completamente infestado de feromônios alphas, algo como 'lute ou saia'.

Noh suspirou, mantendo seus próprios instintos sob controle, percebeu que não era apenas a garota a sua frente que se encontrava naquele estado, havia outros ao redor, observando-a. Um passo a mais e eles não hesitariam em mata-la.

A médica não sabia se temia o jovem líder ou o admirava. Talvez os dois. Obviamente aquelas crianças não estavam no controle, ele estava.

"Melhor dizendo... O desespero dele está...".

Noh suspirou. Observou a cena atentamente, e em movimentos lentos, contudo, contínuos, sentou-se no chão. Terminou seu café e observou todos se afastarem, inclusive a alpha a sua frente. Fizera apenas um movimento simples de rendição alpha, entretanto, que poucos se lembravam nesse tipo de situação – por medo ou orgulho. Todavia, isso lhe permitiu voltar a fitar o jovem no centro do caos.

Sempre soubera que Sangwoo era forte, contudo, nunca pensara que fosse tanto assim...

Muitos gostavam de pôr alphas em uma mesma categoria, como se fossem todos iguais, mas, não funcionava dessa maneira. Existiam líderes mais fortes que outros e isso não era ditado apenas pelo nível físico... Criar barreiras mentais era uma prova de força, muitos líderes não conseguiam silenciar as vozes em sua mente, o que os levava a loucura. Quebrar essas barreiras, decidir quem da manada o ouvia ou não – ela sabia que ele era capaz disso pelo relacionamento dele com Seung — eram fatores incríveis.

Sem contar que – ela observou o moreno de óculos que rosnava em um canto, junto com os outros — Seung, preocupado com o líder, uma vez a questionou sobre a criação de barreiras no vínculo perpétuo. Ele não tinha como ter certeza, mas, achava que Sangwoo o estava fazendo e tinha medo que isso prejudicasse sua saúde mental. Apesar de não prejudicar a saúde, podia prejudicar o relacionamento, fora o que Noh comentou no dia.

Manteve para si o fato de ser necessária uma força absurda para conseguir tal feito.

"Ele realmente é capaz disso... Assim como pode derrubar todas as barreiras e fazer todos os membros de sua manada mergulharem no mais profundo de seus instintos, deixando-os todos em alerta e defesa. É outro nível. Esse garoto é perigoso."

Noh só vira aquilo uma vez em sua vida, quando um jovem líder da ramificação coreana da Yakuza perdera sua companheira. E mesmo assim, não fora toda a manada dele, apenas três de seus principais homens.

Respirou fundo.

Sabia que o jovem não o fazia de propósito, sabia que não era sua intenção estar daquela forma ou tratar seus amigos como marionetes. Sabia de tudo isso.

"Provavelmente ele nem percebeu o que está fazendo...".

O que faria? Não podia ir até ele. Se levantasse, seria morta. Era um fato. Se jogasse algo nele para chamar sua atenção, seria morta. Teria de chama-lo... Mas, não podia usar um tom alto demais, ou achariam que o estava provocando e iriam querer lutar.

Suspirou.

Aquilo demoraria. Teria de esperar até ele ouvi-la e responde-la... Tentaria por uma hora, se não conseguisse, sua escolha seria sair e pensar em algo diferente, contudo, não deixaria aqueles jovens serem presos.

— Sangwoo... – chamou de forma clara. Não tão alto para ser interpretado como ameaça, contudo, não tão baixo a ponto de não ser ouvida.

O alpha estava de olhos fechados, buscava dentro de si o menor vestígio do vínculo do ômega, do Bum... Seu Bum. Tremia e se balançava sutilmente. Precisava senti-lo. Não conseguiria viver se não o sentisse... Ouviu alguém chama-lo... Ignorou... Não era Bum, não queria saber.... Mas a voz era insistente... Droga... O estava desconcentrando.

Abriu os olhos.

— O quê? – respondeu com a voz rouca e completamente irritado.

Sangwoo se surpreendeu ao encarar os olhos de Noh que o fitava séria.

— Olhe ao redor... – respondeu a senhora.

O alpha piscou e então olhou...

Haviam muitas coisas destruídas... Mas, o que o chocou, foi sua manada.

"Por que estão tão agressivos?".

Fechou os olhos.

Dessa vez, não houve um que veio primeiro, todos surgiram em sua mente.

Silenciosos.

Adormecidos.

Nunca os teve tanto sob seu controle.

O que era aquilo?

Ficou em completo silêncio, tentando entender toda a sua situação.

Sua manada... Estava seguindo suas ordens... Não as diretas, mas, as que a sua mente mandava...

Queria ser deixado em paz e não ser incomodado, de forma alguma, até achar o vínculo com Bum. Literalmente, estava disposto a matar para ficar sozinho.

"Eles não estão agressivos... Eu estou. E os estou obrigando a ficar assim em minha defesa...".

Sua cabeça doía. Há quanto tempo os estava mantendo naquele estado?

Há quanto tempo estava naquele estado?

...

Há quanto tempo, não sentia Bum?

O coração do alpha pareceu parar por um instante.

Um cansaço profundo e extremo começou a atingi-lo.

— Sinto muito... – murmurou, acordando-os do transe que involuntariamente os colocara.

Sangwoo sentiu suas forças esvaírem-se com esse último esforço mental. O esgotamento o fez desmaiar.

A manada inteira voltou a si quase ao mesmo tempo. Todos se sentiam cansados e confusos, Chung Ho caiu de joelhos, mas, não perdeu a consciência. O alpha era o mais fraco quando o assunto se referia a instintos, apesar de ser muito forte fisicamente.

Yangmi observou ao redor e surpreendeu-se ao notar tudo. Sua mente focou imediatamente em Myung-Hee... Ela estava bem, preocupada, triste e um pouco assustada. Foi atrás da ômega, a encontrou na sala ao lado da recepção, uma porta de ferro a separava dela. Antes de bater, a porta se abriu, Myung-Hee a observou, dentro do local apenas outros ômegas, não havia nem betas nem alphas.

Yangmi tinha a leve sensação que expulsara todos os betas e alphas daquele local, junto com os outros da manada...

"Espero não ter machucado ninguém..." – refletiu.

As duas se observaram. Não precisaram dizer nenhuma palavra para se entenderem. Yangmi sabia que a baixinha quisera ir ajudar, mas, enquanto os alphas da manada foram postos em defesa, ela, como ômega, se sentiu obrigada a se esconder e esperar, por mais que não fosse sua vontade, por mais que quisesse ajudar, seus instintos a dominaram e ela pegou Cho-Hee e fugiu.

— Parecia que vocês iam enfrentar uma guerra... – murmurou a baixinha.

Yangmi coçou a cabeça, meio sem saber o que responder, sinceramente, não tinha ideia do que ocorrera. Olhou para a pequenina nos braços da mãe. Depois de morder Myung-Hee, a ômega permitiu, através do vínculo que compartilhavam, que sentisse Cho-Hee, tornando-a sua filha também. Cho-Hee se sentia segura ao sentir seu cheiro. O que fora bom... Ou o cheiro do local infestado de feromônios a teria aterrorizado, contudo, como criança alpha pertencente ao cheiro dominante, se sentiu tranquila, por isso, estava calmamente lhe observando.

— Venham cá. – disse a morena de cabelos com pontas azuis, abrindo os braços para sua família.

Myung-Hee, com Cho-Hee, se aproximaram e abraçaram a alpha.

Contudo, pararam no momento que a alpha sentiu um cheiro doce no ar.

— Cio... – murmurou, fitando melhor dentro do local.

Chansoo e Min-Cheng estavam ali. O garoto se encontrava ofegante, encolhido. A garota se abraçava, envergonhada da situação. Além deles, que pareciam já estar a um passo do cio, outros ômegas respiravam com dificuldade...

Aquilo não atraia Yangmi sexualmente, sempre fora controlada, morder Myung-Hee só tornou oficial que cios não a seduziam mais... Contudo... Um terrível pressentimento tomou conta da morena... E um tanto aflita, olhou para trás...

Yura corria em sua direção, e Yangmi sabia, se lutasse com Yura... Não tinha certeza se ganharia.

Empurrou Myung-Hee e Cho-Hee para dentro da sala e fechou a porta o mais rápido possível, segurando-a com firmeza.

Yura deu um soco tão forte na porta, que a mesma amassou.

— VAI SER FORTE ASSIM NO RAIO DO CARALHO YURA! – gritou Yangmi, um tanto assustada. A porta era de ferro, cacete!

"Ela deve estar fora de si..." – respirou fundo a morena, fitando a companheira e depois a pequena.

Preocupou-se que Cho-Hee fosse afetada pelo cheiro de cio, mas, pelo visto, o fato de estar nos braços da mãe, sentindo seus feromônios, a estava protegendo... Pelo menos, por enquanto...

— A gente precisa de reforço aqui... – murmurou a alpha, segurando a porta que recebia mais um golpe.

— Nós ligamos para os seguranças quando tudo começou... Mas, você só se acalmou agora...

— O Dongyu, precisamos dele... Você disse que telefonou?

~*~*~*~*~*~*~

Dongyu observou o líder caído e o pegou no colo, Noh indicou um quarto para coloca-lo.

— Ele vai ficar bem? – perguntou o gordinho, ainda se recuperando da dor de cabeça.

— Depende... – disse com sinceridade a médica: — Do que fez a vocês, provavelmente... É só recuperar a energia, mas, do resto... – ela suspirou.

— Isso que ele fez... Como é possível? – o garoto observava o líder. Incrivelmente, não se sentia usado. Não era esse seu sentimento... Sabia que talvez fosse o natural, mas, tudo que conseguia sentir eram admiração e respeito. Algo que já tinha por Sangwoo, contudo, se aprofundara de forma única naquela situação.

— A explicação biológica é complexa... – começou a médica, quando o rapaz sentiu seu celular vibrar.

Ele a interrompeu por um minuto e pegou o aparelho. Ficou feliz em notar que ele não quebrara no meio de toda aquela confusão.

Yangmi

SOS. Sala do lado da recepção!

Cuidado com os feromônios ômegas!

Yura descontrolada.

Dongyu ergueu a sobrancelha.

— Preciso ir... – comunicou a médica, saindo do quarto e indo até a recepção, onde percebeu que Jihoon e Jieun seguravam Chung-Ho, que apesar de atordoado, parecia um tanto fora de si.

— Você também não! – disse o baixinho, segurando o loiro com a ajuda de Jieun.

Young abraçava o próprio braço, chorosa.

— O que aconteceu? – perguntou o gordinho fitando a situação.

— Respira fundo e você vai notar... – murmurou a garota: — Cheiro de cio... Não tá forte aqui, mas, deixou eles malucos... Eu tentei segurar ao menos o Seung, só que ele me machucou... – ela fez beicinho.

Dongyu correu em direção ao cheiro, estava forte... Verdade... Mas, conseguia se controlar. Por que eles não? Só Chung-Ho era fraco nesse quesito... Eles deveriam poder suportar...

Ao chegar, avistou os três alphas batendo na porta de ferro, em total descontrole. Deu uma chave de braço no pescoço de Seung, o que fez o moreno desmaiar, depois chutou Taehyun no estômago, fazendo-o cair. Isso chamou a atenção de Yura, que se voltou imediatamente para ele.

"Droga... Queria tirá-los daqui antes de enfrentar ela...".

A loira o fitou seriamente, e sem hesitar, foi em sua direção raivosamente, conseguiu evitar o soco que ela desferiu erguendo o braço em defesa...

"O problema é que além de forte, a Yura também é..." – só sentiu seu corpo se contrair com o golpe que levou na lateral, fazendo-o encolher-se.

"Ágil...".

Aquela luta seria longa e complicada, Dongyu pensava em uma forma rápida de vencer sem ferir, realmente, sua amiga, quando a mesma caiu em seus braços, desmaiada, e ele pode ver Yangmi que a golpeara por trás.

— Quê? – o rapaz estava surpreso e chocado.

— Ela vai me agradecer. – deu de ombros a morena: — Mesmo tendo sido bastante injusto, melhor do que ela estuprar alguém. – a garota fitou o gordinho: — Precisamos de injeções. Pra ontem. – disse com urgência.

~*~*~*~*~*~*~

Sangwoo acordou em um quarto branco, o barulho do monitor cardíaco o avisava que seu coração estava com batimentos regulares, em seu braço, uma agulha que lhe passava alguma medicação que não conseguia ver com clareza, talvez um calmante ou soro.

Olhou para o lado, Seungbae o observava em completo silêncio. Sua mente se encontrava um pouco anestesiada devido aos eventos recentes... Mas, o que o professor fazia ali? Por que era tão difícil pensar? Piscou algumas vezes e sacudiu a cabeça de leve, tentando voltar ao normal.

Sentou na cama, começando a retirar a agulha de seu braço.

— Melhor não fazer isso. – advertiu Noh, que até então o loiro não percebera que também se encontrava no quarto: — Isso está ajudando seu corpo a se recuperar após o grande estresse mental e físico.

— Físico...? – Sangwoo se sentia um tanto chapado.

— Sim. Seus hematomas nas mãos provaram que em algum momento, você ajudou a criar o caos que está a entrada deste hospital... – comentou Seungbae, ainda sério, o observando.

Sangwoo não se lembrava de ter feito algo no hospital, apenas de não sentir o vínculo e...

Seus olhos se arregalaram.

Bum.

Tinha de saber como estava Bum.

Abriu a boca para falar, mas, o professor o interrompeu.

— Ele está vivo. – disse o docente sério.

Sangwoo sentiu algo em seu interior revirar... Se ele estava vivo... Por que não o sentia? Contudo a felicidade de saber que ele estava vivo... Fora muito maior... Parecia conseguir respirar melhor depois da informação.

— Mas, você não pode vê-lo. – continuou Seungbae, suspirando.

— O quê? Como assim? Por quê? É claro que eu vou ver ele! – o alpha arrancou a porcaria que estava em seu braço e começou a levantar.

Seungbae o segurou contra a cama: — Você não pode. – disse sério e um tanto irritado: — Realmente, você não prestava atenção nenhuma nas minhas aulas, não é?

— Do que você tá falando? – o alpha queria matar aquele filho da puta que sempre estava em seu caminho.

— Se liga na porra da vida, Sangwoo! – esbravejou o professor, perdendo a paciência: — Você tem noção que em menos de seis meses, esse rapaz sofreu três atentados? Você acha que NINGUÉM questiona algo assim?

Sangwoo parou...

"Espera... Do que ele tá falando?".

— Como assim? – se sentiu ainda mais atordoado.

— O que você acha? O primo de uma integrante de sua manada, mercenários contratados pelo mesmo primo, e algum desconhecido em um carro... Sangwoo... Pensa, criatura. Quem você acha que o Conselho Ômega começou a achar ser o mandante de tudo isso?

—... Você só pode tá me zoando...

Isso não era possível, era? Acharem que ele...

Que ele...

— EU NUNCA MACHUCARIA O BUM! – gritou raivoso.

— Eu sei! – disse convicto o professor: — Mas a pena do primo de Jieun ter sido amenizada, não ajudou! Você chama a atenção, sabia? – ele deu um longo suspiro: — Você É um dos alunos mais brilhantes dessa escola, Jieun também.

— E o que merda isso tem a ver? – se sentia cada vez mais perdido.

— O fato de terem boatos de que vocês estavam em um relacionamento, onde, por acaso, você se envolvia com um número significativo de ômegas...

— Eu não me envolvi com mais ninguém desde que estou com o Bum!

— Você dormiu com um ômega no dia do primeiro ataque dele!

Sangwoo se calou. Como Seungbae sabia daquele ataque...

— Você realmente pensou que NINGUÉM se daria o trabalho de me contar? Ômegas, essencialmente, cuidam de si... Como uma rede... E não confiam em alphas. Você estava em uma festa, onde seu ômega saiu da casa e você, literalmente, saiu correndo atrás, voltando com ele nos braços e em choque. Você pensou, de verdade, que NINGUÉM iria querer saber o que ocorreu?

O loiro permaneceu calado.

— Me contaram tudo Sangwoo... Também tem o fato de não se ter ideia de quem atropelou o Bum e fugiu, sendo que a sua manada é muito influente dentro e fora da universidade, tudo isso, foi meio que o limite para o representante do Conselho Ômega que veio averiguar o caso... . – o alpha coçou a cabeça: — Além disso...

— Além disso...? – Sangwoo ainda estava processando as informações que recebera.

— Bum... – ele fitou Noh, que suspirou: — Acho melhor ela explicar.

— Seu ômega entrou em Estado de Casulo. – a alpha sentou: — E ele fora claro em sua ficha médica. Caso entrasse nesse estado inconsciente, a prioridade é o bebê.

Sangwoo piscou diversas vezes. Sua mente tentando recordar tudo que aprendera na universidade sobre gestações. Muitos diziam que, apesar de todos os gêneros poderem gerar uma criança, nenhuma se comparava aos ômegas.

Ômegas podiam entrar em um estado que o médico russo Yuri Plisetsky nomeou de 'Estado de Casulo', após uma série de estudos que realizou na África. O jovem médico ômega russo constatara que a famosa 'hibernação' que alguns ômegas entravam durante a gestação de uma criança, se devia a problemas físicos com inúmeras causas prováveis. Durante essa hibernação, o corpo do ômega abdicava de tudo que necessitava para priorizar o bebê, isso resultava em um enfraquecimento contínuo do gestante. Por causa disso, o médico afirmava que, quanto mais recente a gestação, maiores as chances do ômega não sobreviver ao processo.

A descoberta do médico fora um grande marco recente, pois desencadeou uma série de perguntas, até então nunca feitas, como por exemplo, um ômega que entrava nesse estado inconscientemente, gostaria de dar a própria vida em nome de um feto? Sabendo que, na sociedade atual, muitos ômegas eram contratados a gerar filhos que não seriam seus? O Conselho Ômega Da Coreia do Sul, em unanimidade decretou que, a decisão sempre caberia ao gestante, por isso, no momento que ômegas completavam a maioridade e iam ao médico, a pergunta sempre era feita, e isso era registrado dentro do Sistema de Saúde Interligado da Coreia, os médicos seguiam esse desejo, independente de qualquer coisa.

Sangwoo gelou...

Não era possível...

— Contudo há um problema... – a médica suspirou: — No caso de Bum... Nenhum dos dois sobreviverá. – ela fitou o alpha que correspondeu seu olhar em completo choque: — Bum está em estado grave, ele não tem muito a oferecer ao feto, que também se encontra em estado terminal... Os dois morrerão se o corpo de Bum continuar a priorizar a criança, não é uma questão de escolha, um aborto é necessário.

— Mas, se ele decidiu... – Sangwoo fechou a mão em punho, se estava escrito na ficha de Bum que ele priorizava a criança, não havia nada que os médicos pudessem fazer, qualquer medida poderia ser considerada uma quebra da lei...

— Há uma exceção que se encaixa no seu caso. – Seungbae fitou o loiro: — Em casos onde há um grave risco de vida para ambos, não apenas para o ômega, onde o sacrifício do gestante poderia ser inutilizado, se o mesmo possuir um parceiro com vínculo ativo, este pode decidir pela sobrevivência do ômega.

Sangwoo abriu levemente a boca. Ele... Poderia decidir?

— Mas, Sangwoo, é apenas para parceiros com o vínculo ativo. Bum sofreu uma parada cardíaca durante o procedimento, em alguns casos, isso quebra o vínculo, principalmente, se de alguma forma, ele está enfraquecido... Me diga, seu vínculo com Bum continua ativo?

Sangwoo respirou fundo, sem responder.

— Se o vínculo não estiver ativo, você não poderá tomar essa decisão, ou Bum poderá processá-lo e prendê-lo... Fui claro?

O alpha sentia seu coração a cada segundo mais disparado. Sua intuição dizia que, tanto Noh quanto Seungbae, tinham completa noção que seu vínculo havia rompido...

Eles estavam lhe dando uma escolha...

— Sim. Foi claro. Meu vínculo com ele está em perfeitas condições. – disse sem hesitação.

Não importava se Bum o processasse, se ele fosse preso e perdesse tudo pelo qual lutou na vida, nada disso era minimamente importante... O que desejava, era que Bum sobrevivesse a tudo aquilo...

Noh lhe entregou o papel que deveria assinar. Pareceu algo óbvio. Só assinar e estava resolvido. A médica mesmo dissera que não era uma questão de escolha...

Não tinha como o bebê sobreviver... Mesmo que Bum desse a vida por isso...

Não havia...

Como...

...

Sangwoo continuou olhando o papel.

Respirou fundo novamente.

— Ele irá morrer imediatamente, se eu não assinar agora? – perguntou receoso.

— Não... Ele está estável por enquanto... Ele acabara de hibernar, então, ainda não há nenhum efeito... Contudo, quanto mais você demorar... – começou Noh.

— Só... Uns minutos... – ele fechou os olhos, se controlando: — Eu, realmente, não posso vê-lo? – o alpha odiava isso, mas, sua voz saiu mais tremula do que gostaria.

— Sinto muito Sangwoo... A ordem de restrição já é válida, mesmo com vocês ainda possuindo um vínculo ativo... Somente quando ele acordar... – respondeu ameno o professor.

Até aquele dia, Seungbae ainda possuía em seu íntimo, certas dúvidas sobre os sentimentos de Sangwoo. Contudo, todas as reações do alpha até aquele momento, lhe deixavam mais do que evidente o que ele sentia...

"Realmente sinto..." – pensou o docente, lamentando o fato de ter sido extremamente correto e relatado tudo que ocorrera com Bum nas informações que era obrigado a passar ao Conselho. Não que fizera algo errado, mas, não esperava que eles mandassem alguém, pessoalmente, verificar o caso. Suspirou resignado.

Sangwoo fechou os olhos.

"É só assinar...".

Abriu os olhos, encarando novamente o papel...

Olhou para sua mão...

"- Nem faz volume ainda...".

A voz terna e baixa de Bum ecoava em sua mente, quando ele lhe dissera aquilo, seus dedos tremiam enquanto o segurava...

"- Sabe, nosso filho pode ser muitas coisas...".

Mas, quando seus olhos negros o fitaram, estavam cheios de coragem...

Uma coragem que Sangwoo talvez nunca tivesse ou compreendesse por completo...

"- Talvez... Fruto de um descuido...".

Sim... O filho deles fora um descuido, um descuido de ambos.

"- Mas, ele nunca vai ser um erro. Não pra mim. Você entende?".

É... Entendia...

Sangwoo se encolheu...

— Posso ficar um momento sozinho? – disse baixo.

Noh e Seungbae se encararam, e então concordaram, saindo em silêncio e fechando a porta, deixando o alpha completamente só.

Sangwoo apertou a caneta...

Entendia... Bum amava aquela criança... E não se importava em demonstrar isso.

Enquanto ele permanecia andando em círculos.

O coração de Sangwoo doía intensamente.

Não quis admitir que observava o desenvolvimento dela, tanto quanto o ômega.

O corpo do alpha estremeceu, lágrimas insistentes se formavam em seus olhos, mas, ele as secava antes de caírem.

Não quis admitir que olhava os exames para verificar a saúde dos dois. Por isso sempre acabava os vendo duas vezes.

Não quis admitir nada.

Rejeitou seu próprio filho até o fim.

E até o fim, Bum lutava pela vida dele.

Como poderia assinar aqueles papéis?

Amava Bum como nunca amara alguém em toda a sua vida. Amava o sorriso dele, a forma como ele lhe abraçava, o cheiro dele, o fato dele sempre entendê-lo e surpreendê-lo. Amava absolutamente tudo a respeito dele, incluindo seus defeitos, que sinceramente, eram muito pequenos comparados à pessoa que ele era.

Nunca o mereceu.

Mas ainda assim, o amava mais do que a si mesmo.

O queria vivo... Mesmo que soubesse, que seu íntimo gritasse, que Bum preferiria morrer a perder aquela criança...

"Ele não vai suportar isso...".

Bum já sofrera muito, e o vínculo fizera Sangwoo perceber o quão frágil ele era... Por mais que escondesse toda a sua dor e fosse gentil com todos ao seu redor.

Não sabia o efeito de perder aquela criança teria nele...

Não queria vê-lo passar por isso...

Além disso...

O coração do alpha apertou ainda mais...

Também não queria perder seu filho...

Sangwoo se encolheu mais sobre os lençóis brancos.

Por que tinha o dom de só perceber o valor de algo, quando já era tarde demais para fazer qualquer coisa a respeito?

"Eu não quero assinar isso...".

Mas, como sempre, não era uma questão de escolha. Se não assinasse, perderia os dois.

Respirou fundo, limpando o rosto.

Sua mão tremia.

Queria ver Bum...

Uma lágrima fugitiva manchou o papel.

Assinou.

Levantou, retirando o resto da aparelhagem hospitalar que ainda estava em seu corpo.

Limpou o rosto, respirou fundo e saiu do quarto.

No corredor, todos da manada o aguardavam. Não lhes falou nada, apenas fez um sinal de que não queria que se aproximassem no momento, todos respeitaram.

Entregou o papel a Noh e saiu andando.

Foi para o lado de fora do hospital, o dia estava frio, mas, o sol se encontrava no céu entre nuvens.

Sentou em um dos bancos. Não se importou que ele se encontrava um pouco molhado...

Estava feito.

Nunca se sentira daquela forma em toda a sua vida.

Sorriu ironicamente. E já matara seu próprio pai.

Mesmo assim, nunca sentira aquilo... Era sufocante... Doloroso... Agoniante...

Não importava que seu lado racional gritasse dizendo que fizera aquilo pela sobrevivência de Bum...

Tudo que conseguia pensar, é que acabara de assinar os papeis que o fariam perder seu filho... E que Bum nunca o perdoaria por isso.

Sentiu algo quente sobre sua mão. Olhou para o lado e percebeu que Yejin, silenciosamente, sentara ao seu lado e colocara sua pequena mãozinha sobre a sua.

A pequena, provavelmente, estava em seu horário de passeio... Quando perambulava um pouco pelo hospital... Sangwoo conseguira esse privilégio para ela...

O loiro a fitou por um longo tempo e então, virando o rosto e observando o chão, não conseguiu mais conter as lágrimas que desciam por seu rosto.

Seu choro era silencioso, mas, angustiante, parecia sufocar aos poucos com os soluços presos em sua garganta.

A menina apenas apertou sua mão, e sem nenhuma palavra, permaneceu ao seu lado.