Destinados
2 Bem Vinda ao Texas!
Notas iniciais
Beatrice ouviu o celular despertar e o desligou. Não queria ir sair da cama, muito menos para ir ao colégio.
—Trice, levante, você tem que ir para aula. — Sua avó começou a bater na porta.
—Eu não vou. — A garota cobriu o rosto com o cobertor assim que a avó abriu a porta.
—Querida, você precisa ir. — Mary Ann sentou na cama da neta.
—Vó, quando minha mãe vai vir pra casa?
—Assim que ela terminar de resolver os assuntos do divórcio. Calma querida, logo ela estará em casa e a tempo para o seu aniversário. Agora vá se arrumar, se não demorar muito seu avô pode te dar uma carona. — Mary Ann saiu e Beatrice começou a se arrumar. Colocou uma calça jeans, botas, uma blusa preta de manga comprida e jaqueta marrom. Pegou a carona com o avô e encontrou sua amiga Cristy na porta da escola.
—Eu preciso da sua ajuda. — Cristy se dirigiu a amiga assim que ela chegou.
—Fala. — Mas Trice não ouviu o que ela disse. Sua atenção voltou-se para um garoto que colou um cartas em uma das parede sobre aulas de equitação que aconteceriam no hipódromo da escola, a primeira aula demonstrativa aconteceria depois da aula e então, Trice percebeu que o cara que colava o cartas olhava para ela. Envergonhada, voltou sua atenção para Cristy.
—Então, você topa?
—Desculpe, o que disse?
—Trice, você prestou atenção em algo que falei? — Sem esperar a resposta, a garota continuou. — Eu vou para o casa do Bradly hoje, mas direi para a minha mãe que vou para a sua, se ela ligar você pode me acobertar?
—Claro. — Trice olhou de novo para o garoto do cartaz, mas ele não esta mais lá.
As aulas foram normais. Ao terminarem Trice foi para o hipódromo assistir a aula demonstrativa, mas não participou, ficou apenas sentada na arquibancada admirando os cavalos e ligou para a avó avisando que ficaria na escola para fazer um trabalho.
—Porque você não está lá? — Um garoto sentou ao lado dela. Era o garoto do cartaz.
—Minha avó não deixa.
—Não deixa? Avós geralmente não deixam os netos beber ou fumar, mas andar a cavalo? — Os dois riram.
—Meu avô era campeão de equitação, mas em uma das competições ele caiu do cavalo, teve uma hemorragia cerebral e não sobreviveu. E o atual marido dela, meu outro avô caiu do cavalo uma vez e teve que para de competir e minha mãe uma vez quebrou o braço porque caiu de um cavalo. Acho que ela ficou traumatizada.
—Nossa... — O garoto falou parecendo surpreso
—E você, porque não está lá?
—Ah, eu só cuido dos cavalos. Meu pai é veterinário e eu trabalho com ele na clínica dele. Estou aqui para ganhar um dinheiro extra. A propósito, sou Tyler. — Ele estendeu a mão para ela.
—Beatrice, mas pode me chamar de Trice.
—Trice. Sabe, eu acho que você deveria participar das aulas, mesmo sua avó não gostando, sabe, quem tem que gostar é você. Bem, eu tenho que ir. — Tyler levantou. — Espero te ver mais vezes. — E saiu. Trice continuou sentada, tentando conter um pequeno riso. Passou o resto da aula demonstrativa pensando se devia ou não fazer as aulas.
Voltou para casa, mas não falou com os avós sobre o assunto, pensou em conversar com seu avô Rod, mas achou melhor esperar. Pensou também em ligar para sua mãe e conversar com ela, as duas sempre foram muito amigas, mas agora com toda a história do divórcio ela deveria estar estressada. Trice foi para o quarto e ficou lá até adormecer sendo interrompida apenas pela mãe de Cristy que ligou para saber da filha, mas a garota disse que a amiga já estava dormindo.
—Sabe, eu estava pensando em fazer a aula de equitação. — Trice comentou com Cristy no intervalo do dia seguinte.
—Trice, sua avó não precisa saber, fala que vai fazer aula extra ou qualquer coisa do tipo. Olha, eu sempre falo pra minha mãe que vou fazer algo da escola ou dormir na sua casa e ela nem desconfia que eu saio com o Bradly.
—Porque ela não pode saber?
—Porque o Bradly não tem uma boa reputação e seria péssimo se a filha do pastor saísse com ele.
—Ahh. — Trice sempre esquecia que a família de Cristy era religiosa.
—Ah, droga, vamos voltar ao inferno. — Cristy falou ao ouvir o sinal.
No final da aula ela foi até o hipódromo da escola se inscrever.
—Walsh-Kepler? — Trice ouviu a voz de um garoto atrás dela enquanto se inscrevia. Virou e deu de cara com Tyler. — Você é filha do Joe Kepler?
—E da Liza Walsh.
—Eu adoro o seu pai, é um dos meus guitarristas favoritos. E, bem, meu pai tem uma obsessão pela sua mãe, compra todas as revistas que ela sai na capa e gravou todos os comerciais que ela fez.
—Que homem nesse país não faz isso? — Trice respondeu rindo, porém com certa ironia. Tyler riu de volta.
—Então, sua avó deixou você participar?
—Eu não falei pra ela, nem pra minha mãe. Só pra minha amiga.
—Vai esconder então?
—Até onde eu conseguir.
—Boa sorte então. — Tyler se virou para sair, mas voltou para Trice novamente. — Sabe Trice, eu estava pensando. Se você é da família Walsh eu acho que a sua fazendo é ao lado da minha.
—Sério?
—Existe um lago entre nossa casas...
—Aquela é sua fazenda?
—Sim. Moro lá com meu pai. — Os dois ficaram se encarando por breves e constrangedores segundos. — Quer ver os cavalos? Eu posso deixar você escolher um, mas isso fica entre nós.
—Eu quero. — Tyler a levou até o estábulo, lá havia pelo menos uns dez cavalos, todos grandes e fortes. Trice os observava detalhadamente, era apaixonada por cavalos desde sempre.
—Qual o nome desse? — Ela perguntou ao se deparar com um puro sangue marrom.
—Esse ai? É o Cupido, acho que é o mais novo daqui. — Tyler observou a garota passar a mão pelo cavalo que não recuou por um instante sequer. — Ele gostou de você.
—Sabe, em Los Angeles os únicos animais que eu tinha contato eram cachorrinhos pequenos e irritantes. Eu sentia muita falta disso. — Trice olhou com carinho para o cavalo.
—Na hora de escolherem os cavalo você fica no final da fila, vou pegar o Cupido por último, combinado? — Ele estendeu a mãe para ela.
—Combinado — Ela retribuiu. Os dois se encararam por mais alguns segundos ainda com as mãos dadas, olharam para as mãos, se olharam novamente e as soltaram. Trice se voltou para o cavalo e ficou quieta por pouco tempo. -Então... Eh, sábado é meu aniversário, não vai ter nada demais, só um bolo e meu tio contando piadas ruins, mas se você quiser aparecer por lá a noite, agora que nós descobrimos que moramos perto. — Ela podia sentir seu rosto corar.
—Claro. — Tyler sorriu. — Acho melhor nós irmos, não deveríamos estar aqui. — Ele falou ao ouvir alguns passos distantes. — Te vejo por ai Trice. — E saiu. Trice sentia-se uma garotinha. Já tinha saído com alguns garotos em Los Angeles, mas todos metidos filhos de celebridades famosas.
Saiu antes que alguém a visse e ligou para o avô ir buscá-la. No carro durante o percurso até sua casa teve que conter o sorriso. Sentia-se boba, mas de um jeito bom.
A semana foi passando, Trice sempre via Tyler pelos corredores durante as trocas de aula e ele sempre sorria e acenava fazendo-a corar.
—Você nunca namorou? — Cristy perguntou rindo.
—Ah, namoro sério não.
—Então você nunca... — A amiga baixou a voz.
—O que?
—Você sabe!
—Não, não sei.
—Aquilo...
—Ah! — Trice sentiu suas bochechas corarem de vergonha. — Não, nunquinha.
—Nunca teve vontade.
—Ah, já, mas nunca conheci ninguém que valê-se a pena.
—Trice, você é tão fofa. — Cristy falou em tom de deboche e deu um gole em seu suco.
No fim da aula Trice foi para casa. Viu um Porshe grande e preto estacionado em frente a casa e não se conteve. Assim que seu avô estacionou ela saiu do carro e correu para dentro de casa. No sofá estava sentada uma mulher alta de longos cabelos negros, olhos verdes e pele clara.
—Trice! — A mulher levantou e abriu os braços.
—Mãe! — As duas se abraçaram e permaneceram assim por um longo tempo. Há dois meses Beatrice não via a mãe. Seu ano letivo já estava começando e ela não podia mais ficar em Los Angeles, o motivo ela não entendera direito.
—Eu trouxe várias roupas pra você escolher para amanha. — Liza sorria falando com a filha.
—Meu pai vai vir? — A expressão de Liza mudou.
—Ah filha, você sabe como seu pai é. Cheio de coisas da banda. E se não me engano ele está envolvido com o Hall da Fama. — Liza sentiu-se mal ao mentir para a filha. Elas nunca guardaram segredos uma da outra, mas aquilo era necessário. — Não fique assim querida. Ele queria muito poder estar aqui.
—Tudo bem, eu sei... — As duas sentaram no sofá e conversaram o faltou conversar nos últimos dois meses. Trice não falou de Tyler, achou que ainda era muito cedo e que era melhor esperar para ver se ele apareceria na festa.
Trice provou pelo menos uns seis vestidos diferentes e decidiu usar um cor-de-rosa florido com sapatilhas vermelhas e um cardigan branco. Liza passou a sexta e o sábado preparando doces, salgados e bebidas sem álcool.
—Filha, você não acha teria sido melhor contratar um buffet? – Mary Ann perguntou para a filha que recheava o bolo.
—Mãe, eu não deixei Los Angeles à toa. Sem buffet, sem garçom. Quero tudo muito simples, Trice gosta disso.
—Simplicidade. Sei. Então porque comprou uma BMW para dar de presente a ela?
—Não fala alto, ela não pode saber.
—Ela não pode saber do carro, não pode saber do Joe, do que mais ela não pode saber? – Liza mudou suas feições.
—Mãe, Joe se recusa a ir para a reabilitação, então concordamos que ele ficaria afastado dela por um tempo. Ela não precisa saber a verdade sobre o pai, já basta o que lê nas revistas.
—Cadê a minha sobrinha favorita? – Elas ouviram uma voz grossa vindo da sala. Beatrice desceu as escadas e abraçou o tio que estava acompanhado da esposa Chloe e do filho Oliver de sete anos. Liza terminou de decorar o bolo, ela e Mary Ann decoraram a sala para receber os convidados e foram se arrumar. Elizabeth colocou um vestido azul marinho e um par de peep toe preto. Escovou os longos fios castanhos e os deixou atrás dos ombros.
Os convidados foram chegando. Basicamente toda a família, alguns da família de Joe, alguns amigos de Los Angeles e Cristy com Bradley. Beatrice olhava para o relógio e para a porta de cinco em cinco minutos esperando por Tyler. A cada vez que a campainha tocava seu coração disparava, mas sempre se decepcionava.
—Cadê o príncipe encantado? – Cristy perguntou olhando ao redor.
—Deixou de ser encantado. – Trice respondeu desanimada.
Tirando a falta de Tyler, a festa havia sido perfeita. As musicas eram as favoritas de Trice, as piadas sem graça do tio Dylan animaram a todos e o naked cake com recheio de frutas vermelhas feito pela mãe estava maravilhoso.
Cristy e Bradley foram os últimos a irem embora. Liza estava lavando a louça enquanto via pela janela a filha acompanhar os amigos até o carro. Trice observava o carro ir embora quando viu Tyler se aproximando com um sorriso sem graça.
—Você está um pouco atrasado, os últimos convidados acabaram de ir embora.
—Eu sei, me desculpe. Uma das éguas do meu pai estava mal e eu tive que ajudá-lo
—Ela está melhor?
—Vai ficar. – Os dois se encararam. – Eu, eh, comprei uma coisa pra você, não é nada demais. – Ele entregou uma caixinha. Trice tirou o embrulho colorido e abriu a caixinha de veludo preto. Era uma corrente de prata com um pingente de ferradura também de prata.
—Tyler, é lindo! – Os olhos dela brilharam. – Quer entrar? Ainda tem bolo?
—Obrigado, eu adoraria, mas vou passar a noite cuidando da égua. Feliz aniversário Trice. – Ele deu um beijo na bochecha da menina que as sentiu corar.
—Mãe! – Liza chamou Mary Ann para ver a cena. – Trice está saindo com alguém?
—Não que eu saiba. – Ela olhava a neta e o garoto.
—Você sabe quem é?
—Liza, esse é o Tyler.
—Tyler?
—Tyler Chambers. – Liza sentiu seus ombros pesarem.
Trice entrou em casa, fechou a porta de madeira e se encostou. Tocou o colar preso em seu pescoço e sorriu.
Após ler um livro pra Oliver dormir, Beatrice foi para o quarto da mãe que ainda estava acordada vendo tv.
—Mãe, posso falar com você?
—Claro querida. – Liza deu espaço para a menina deitar com ela esperando que ela falasse algo de Tyler.
—Eu acho que a vovó não vai gostar, mas eu me inscrevi nas aulas de equitação da escola.
—Pode deixar que eu falo com ela. É só isso?
—Sim. Eu vou dormir. Li tanto para Oliver que até eu fiquei com sono.
—Boa noite querida. – Liza beijou a testa da filha que sorriu e saiu.
Elizabeth esperou até ter certeza de que todos estavam dormindo. Tirou o pijama e colocou uma calça, uma blusa de lã fina, um casaco e uma bota. Saiu de casa sem fazer barulho. Caminhou em direção ao lago e atravessou a pequena ponte que passava por cima dele. Logo avistou uma casa grande e branca e tocou a campainha. O dono da casa abriu a porta.
—Você pode falar para o seu filho se manter afastado da minha filha. Ele não precisa ficar dando presentinhos pra ela de aniversário, afinal, desde quando eles se conhecem?
—Oi para você também, Liz. – Ela sentiu seu coração pesar em seu peito.
—Não quero o seu filho namorando a minha filha, John.
—Para de frescura, eles são jovens. E Tyler é um bom garoto.
—Você também era.
—Eu nunca fui um bom garoto. E você não o conhece. O viu uma vez recém nascido após a morte de Lauren. – Eles se encararam. John não havia mudado muito, ele estava mais forte e mais barbudo e também com uns “pés de galinha” nos olhos. – Porque você não entra? Eu posso fazer um chá de maçã com canela, é seu favorito ainda, não é?
—Vá se ferrar, John!
—Você vem na minha casa, me acorda de madrugada e ainda manda eu me ferrar! Bem vinda de volta, Liz!
—Mantenha Tyler longe de Beatrice!
—Vou ensiná-lo como é fácil conquistar uma Walsh!
Liza pensou em gritar um “eu te odeio”, mas John já sabia disso. Apenas voltou para casa, colocou de volta seu pijama e ficou pensando como afastaria Trice de Tyler. Tirou-a de Los Angeles para protegê-la e agora tinha mais uma coisa para se preocupar.
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