Destinados à Payre

48 Payre, lar doce lar


Notas iniciais
Olás! Sim, eu sei, faz um tempinho já. Mas olha eu aqui, ainda não morri e nem desisti. Acho que isso conta pra algo, né? :D Então, sem enrolação gostaria de agradecer as almas que permanecem assombrando essa fic (sim, vcs fantasminhas que moram no meu coração e só conheço por números nas minhas estatísticas kkkkk) e, claro, também a minha incrível e absoluta Beta Gabi! Love pra ti ♥ Espero que gostem do capítulo, já aviso que ele esta bem gordinho pq já sabem, né, nessa minha realidade só posso prometer que ainda postarei antes do final do ano mais alguma coisa (além da filhote de um ano, agora também estou enrolada com uma pós...). Desculpem por isso. Boa Leitura!!

― Como ela está?

Não era do feitio de Lali agir sem o seu habitual jeito cortês e delicado, que parecia tão natural quanto respirar em virtude de sua criação de princesa. Porém sua preocupação com Angel e Mona não lhe permitiu manter a compostura real. Por isso, ali estava ela, quase gritando ao praticamente invadir a sala onde soube que estaria Mona em recuperação.

Choi não afastou os olhos da garota deitada dentro de uma cápsula de cristal, mas respondeu com aparente tranquilidade:

― Mona está se curando bem, mas ninguém sabe quanto tempo irá levar para acordar de novo.

Lali se aproximou da cápsula coberta com a água de Payre, que ajudaria no processo de cura dos ferimentos de Mona. A garota parecia, apesar de sua situação, uma linda princesa adormecida. Os cabelos negros flutuavam suavemente em contraste com sua pele pálida e dos tecidos brancos em torno dos seios e dos quadris, que cobriam apenas o essencial para manter sua modéstia. Era como a Branca de Neve dos contos que lia quando criança, mas sem os lábios cor de sangue, pois os dela estavam azulados.

― E Angel?

A Princesa Indiana sabia que não era o melhor momento para encher Choi com suas perguntas inconvenientes, mas não tinha escolha. Desde que Alexis, Choi e os outros haviam partido atrás de Angel, Mona e da Princesa Oberoh, ela e os que a acompanhavam, como o irritantemente despreocupado Ren, não receberam qualquer informação sobre o resgate em curso. Até que chegou uma mensagem para Zaffar informando que Choi e Mona estavam a caminho com a garota gravemente ferida e que uma guerra estava para acontecer. E mais nada.

Choi finalmente voltou sua atenção para Lali. Tanta tristeza havia naquele olhar cor de chocolate, que nem parecia o mesmo rapaz de poucas horas antes. Tinha a impressão que transcorreram anos desde a última vez em que o viu, e não apenas alguns momentos.

Aquele, Lali pensou, era o “efeito Payre”. Um mundo repleto de magia e tecnologias das mais avançadas, com seres imunes a doenças e com vidas centenárias deveria ser a essência do paraíso perseguido por todos na Terra. Mas não era. Faltava um componente que jamais tiveram contato e que parecia quase inalcançável: Paz.

― Não sabemos como a Angel está. — Choi disse com voz cansada.- Tudo que descobrimos é que ela possivelmente está com Khor. Ou muito perto dele.

Lali levou as mãos aos lábios ao sentir seus olhos arderem, mas conteve suas lágrimas, assim como o som estrangulado do medo em sua garganta.

Não deveria chorar. Angel não era uma garotinha indefesa. Era uma sobrevivente.

Após respirar fundo, perguntou:

― Foi Alexis quem começou essa guerra?

Choi balançou a cabeça de forma afirmativa, acrescentando:

― Não havia escolha.

Lali o encarou com firmeza, ainda que seus olhos verdes mantivessem a mesma doçura de sempre.

― Nunca haverá uma escolha para nós. No momento em que acordamos nesse mundo nosso destino foi traçado.

Choi passou a mão suavemente pelo cristal, como se acariciasse o rosto da Mona adormecida.

― Penso que nos iludimos por muito tempo. — Lali continuou diante do silêncio do rapaz. — Treinamos como eles queriam, aprendemos como eles queriam, mas no fundo sempre tivemos uma visão limitada da situação e nos seguramos firme na ideia de que um belo dia, tão de repente como chegamos aqui, iriamos embora. — Ela estalou os dedos, provocando um eco em meio ao silêncio na sala. — Assim, dentro de um raio de luz.

― Acho que Ren foi o único de nós que já perdeu essa ilusão. — Choi disse, atipicamente sério. — Ele mudou quando foi quase sequestrado pelos inimigos e nunca mais tentou fugir. E não apenas por causa da constante vigilância de Vishal, mas sim pelo que presenciou fora da nossa “gaiola”. A realidade de tudo.

A garota balançou a cabeça concordando.

― Estamos em Payre e vamos ficar aqui até o fim. Seja lá qual for.

― E lutaremos em uma guerra — Choi completou. — Ou várias.

A primeira, eles sabiam, estava a minutos de acontecer. E embora não estivessem diretamente nela, os resultados teriam impacto fundamental em seus destinos.

Porque agora, não havia mais mentiras ou utopias, eles pertenciam a Payre.

Talvez para sempre.

Mesmo que o para sempre fosse apenas mais alguns breves momentos de existência.

***

― A floresta está vazia, exceto por duas essências, ou talvez uma. — Zafy avisou as pessoas a sua volta, assim que a nave se aproximou da Floresta de Cristal.

― Como assim? Não é o momento para informações imprecisas, Eiff. — O Duque de Horn exibiu uma carranca tentando entender as mensagens e imagens que a garota parecia ter tanta facilidade para interpretar, ainda que não com a exatidão que ele exigia.

Zafy, acostumada com as intransigências daquele Oberoh atipicamente grandalhão, não se abalou com seu tom. Tinha sido por escolha própria que ficou na missão de seguir com o grupo para uma possível guerra. Teria sido mais fácil, e até lógico, ter voltado para o palácio com Mona e Choi, afinal, sendo a Curadora dos Guardiões, faria sentido acompanhar Mona. Mas sabia que seria mais necessária ali. Mona estava estável e teria todas as condições para sua melhoria, contudo, como estaria Angel quando fosse encontrada?

― As informações só estão imprecisas porque as essências também estão. — Ela respondeu, sem desviar a atenção do painel de controle. — Não consigo distinguir entre uma ou duas, pois é quase como se fosse a mesma essência sendo duplicada. Mas garanto que não há mais nada lá além delas.

E era para lá que a mensagem de Angel havia os guiado.

― Ou nem elas — Esan murmurou quase para si.

Sim, aquela era uma forte possibilidade, pois o que captara poderia ser apenas o eco de algo que existia até pouco tempo. Essências eram complexas demais mesmo com todos os aparatos tecnológicos para tentar interpretá-las..

― Me passe as coordenadas exatas — Alexis disse, já se encaminhando para a esfera de luz que o levaria para fora da nave.

― Eu o acompanharei. — Erak o seguiu.

Exibindo uma expressão cheia de resignação, mas sem se manifestar, Esan também se dirigiu para a esfera.

Zafy arqueou uma sobrancelha para o Duque de Horn, o único que sobrara ao seu lado.

― Alguém precisa continuar a comandar a Guerra que está por vir — ele comentou, mantendo-se firme em seu lugar.

― Sabe, eu também posso fazer isso. — Zafy não era de discutir, mas aquele desprezo por ela, que sabia estar relacionado a sua raça, a incomodou.

― Vocês Eiffs não tem um histórico muito animador quanto as guerras.

Zafy ergueu a cabeça e o encarou friamente, não podendo ignorar as implicações daquelas palavras.

― Pelo contrário. O fato de nossa raça ter sido quase dizimada, de ter todo nosso território destruído, e ainda assim, depois de alguns anos, termos reconstruído tudo, literalmente das cinzas, e nos tornado os mais poderosos em tecnologia de Payre apenas reflete que sabemos, sim, lidar com Guerras, Duque. — Ela ergueu ainda mais o queixo, o orgulho de seu povo refletido no brilho roxo de seus olhos. — Qual o grande feito de vocês, Oberohs? Se isolarem em seu reino de gelo a espera dos Deuses?

― É isso que os seus mais velhos contam para os jovenzinhos impressionáveis? — O Duque soltou uma leve fungada de escárnio. — Pois saiba que antes dos Nerinis se aliarem aos Alicanos, sua raça não passava de ferramenta de guerra descartável para os Alicanos. — Dando uma olhada a sua volta, completou — A única diferença que vejo agora é que vocês produzem essas ferramentas para eles.

Zafy jamais em sua vida sentiu tamanha ira. Naquele momento foi capaz de entender porque muitos Eiffs, mesmo passados séculos, ainda tinham dificuldade em aceitar a relação com os Oberohs.

Como uma raça que se dizia evoluída, tão mais preocupada em se aproximar dos Deuses, seres que segundo eles, foram os responsáveis pela criação de Payre, poderiam ter pensamentos claramente indignos sobre outros?

Sabia que não era o momento de brigar, ainda mais estando ali sozinha com um sujeito poderoso como aquele. Contudo, memórias muito preciosas para Zafy foram atingidas com aquelas palavras. Seus pais morreram lutando pelos mesmos ideais defendidos pelos Oberohs, milhares de Eiffs lutaram e morreram da mesma maneira, e ainda assim, aquele homem tratava a todos eles como inferiores aos seus, baseado-se apenas em um passado de conflitos entre eles. Um passado.

― E o que vocês velhos contam aos seus jovenzinhos? Quando falam de Deuses e a salvação de Payre. Sobre paz. — Ela notou o franzir de cenho do Duque. — Os meus falam de coragem e da força da nossa raça. E do quanto elas serão necessárias para as mudanças fundamentais para chegarmos a uma Payre pacífica. Nós honramos nossa história e nossas tradições, mas não permitimos que elas fiquem no caminho da nossa evolução como pessoas. — Zafy virou-se para a mesa de comando, deixando clara sua posição como líder ali. — É lamentável que ter mais tempo de vida não nos torna automaticamente mais sábios, não é mesmo? Payre não estaria nesse estado se assim fosse.

O silêncio do Duque foi a resposta.

Sim, Payre não estaria em franca destruição se o tempo desse mais sabedoria a seus centenários ocupantes. Eles ficavam mais fortes. Apenas.

***

Erak não estava acostumado a seguir ordens. Como tinha se tornado Rei ainda muito jovem, mal se lembrava como era viver sua vida sob as vontades de outras pessoas. Percebia que era imensamente frustrante.

Desde que partira do Palácio de Nagtar com o grupo de resgate, vinha meramente acatando as decisões de Alexis. Mesmo quando a situação da Guerra surgiu, seu papel foi apenas secundário. Todos aqueles soldados rumavam para a batalha, colocando suas próprias vidas em risco, oficialmente por um comando seu, no entanto, Erak não ignorava que a motivação verdadeira estava na liderança de outra pessoa. O Predestinado. O Salvador de Payre.

O futuro Rei de Payre. Alexis.

Erak observou o homem que carregava consigo tal legado. Ele caminhava rápido a frente do grupo, sem sequer olhar para os lados em busca de qualquer sinal inimigo. Ou de aliados. Sua expressão era indecifrável, ainda que todos ali soubessem a aflição que fervilhava sob a postura de fortaleza. O Rei Alicano entendia sobre dominar as próprias emoções a fim de preservar-se diante dos que estavam sob seu comando. E dos seus inimigos. Aliás, considerava que a atitude do Humano era mais o segundo caso. Todos em Payre eram seus inimigos. Cada um que fosse um empecilho para voltar a Terra não passava de uma inconveniência que ele trataria de tirar do caminho assim que tivesse a oportunidade.

Alexis jamais arriscaria a própria vida por qualquer um de Payre. Por qualquer um das centenas de milhares de soldados que iriam ao encontro da própria morte dentro de algumas horas. Por um chamado dele.

Sabia que seu julgamento inicial do “irmão” não era totalmente imparcial. Não era hipócrita a ponto de desconsiderar seus sentimentos de rancor e certa inveja. Ver uma pessoa que passou sua vida longe de todas aquelas marcas de dor, causadas por batalhas sem fim, ser aclamada como um herói, como a maior promessa de futuro do povo, sem ter feito absolutamente nada, era revoltante. E perceber o total descaso de Alexis com o que esperavam dele, era ainda mais indignante.

Seus pais falavam desse irmão ausente com saudade e com esperança. As pessoas que o cercavam contavam os dias para que ele finalmente chegasse. Não foram poucas as vezes em quem Erak ouviu o termo “Rei Temporário” relacionado a si mesmo. Como se estivesse apenas guardando um lugar até que seu verdadeiro dono voltasse. E o que mais o enfurecia era reconhecer a verdade indigesta e inquestionável daquela ideia.

Mas jamais passou por sua cabeça duas coisas: que o Predestinado não quisesse cumprir seu papel. E ela.

Angel nublava sua capacidade de julgar as atitudes de Alexis de forma neutra, como era sua intenção inicial, baseando-se apenas em sua preocupação pelo futuro de Payre. As coisas misturavam-se dentro de si, já não sabia até que ponto o rancor era pelo posicionamento de Alexis diante do que era seu dever, e o que era simplesmente por ciúmes. Por Alexis ter Angel.

Quando aceitou ir resgatá-la, uma ideia louca passou por sua cabeça. Aproveitar aquela oportunidade para provar a si mesmo que era melhor do que Alexis, não apenas como Rei mas também como um companheiro para Angel. Sim, era absurdo, até mesmo imaturo. Além de extremamente arriscado por tudo que poderia vir a perder por agir precipitadamente. Ao pensar sobre isso, fechou o punho direito, sentindo certa resistência, resultado de sua recente recuperação do golpe de Alexis. Aquele braço inteiro tinha sido amputado pela Morte Cinzenta, que, a princípio, nem permitia regeneração dos ferimentos que causava, fato que o Príncipe Humano havia mudado. De alguma forma ele modificou a essência da própria arma a ponto de controlar algo que nem mesmo o Rei Melkor havia conseguido, apesar das centenas de anos em que a empunhou.

Mais uma mostra de sua superioridade.

Mais um motivo para Erak detestá-lo.

Tudo era tão fácil para aquele irmão desconhecido. O poder. O coração das pessoas. Era capaz de imaginar que nem sequer Khor seria um desafio a ele e seu inabalável status de “superior”.

Por Payre desejava que assim fosse. Já por si mesmo…

― Tem algo ali na frente.

As palavras de Esan chamaram a sua atenção. Os três se aproximaram de uma espécie de toca de gelo formada sob as raízes de uma das árvores de cristal da floresta. O buraco era muito largo e seu ângulo de abertura confundia quem o via de longe, parecia apenas uma fissura, mas ao se aproximar era fácil reparar no seu notável tamanho, o que indicava que costumava ser usado por criaturas de grande porte.

― Ela está ali dentro — Alexis murmurou para ninguém em particular, parecia mais uma maneira de afirmar aquilo a si mesmo. — Sinto o cheiro dela.

Erak franziu o cenho e forçou seu olfato — por ser um Alicano tinha esse sentido extremamente desenvolvido — mas ainda assim não sentiu qualquer coisa que pudesse associar à garota. Guardava em sua mente com muita clareza o odor adocicado da Humana, que a primeira vez já tinha chamado a sua atenção pelo contraste com a personalidade dela. Geralmente os cheiros eram ligados a índole e a essência, servindo como uma espécie de marca do seu dono. Angel tinha um odor doce, muito delicado com nuances de algo que ele não conseguia definir, mas que transmitia uma sensação de conforto quase hipnótico. Como se braços invisíveis saíssem dela e se lançassem sobre as pessoas a sua volta, aproximando-as mesmo contra a sua vontade. Apenas mais um dos pontos estranhos sobre a garota, pois efeitos como aquele eram tipicamente associados a criaturas míticas, como os Dragões de Oyst. Não que ele houvesse alguma vez se deparado com um deles, mas sua mãe havia comentado sobre o fato, assim como seu pai. Por algum motivo, Erak não havia falado sobre aquela sensação com a Rainha quando as questões envolvendo o papel de Angel em Payre surgiram. Já que não confiava plenamente nas próprias reações a ela, preferiu averiguar por mais tempo, pois o significado poderia ser apenas resultado de seu interesse pela Humana. Quando Alexis se aproximou da borda do buraco, nem Erak, nem Esan manifestaram qualquer intenção de impedi-lo, sabiam que seria inútil, apenas ficaram em alerta para qualquer perigo que porventura os aguardasse ali. Por isso foi com extrema rapidez que suas armas surgiram e apontaram para a criatura que deslizou para fora da escuridão. Ela tinha olhos redondos e profundamente vermelhos, sua pele lisa e tão branca quanto a neve, exceto por duas faixas de pelos dourados que começavam na altura do nariz, largo e também branco, e seguiam por sua cabeça enorme. Enquanto ela se erguia lentamente, expondo seu corpo com mais de dois metros de altura, pelo menos, suas orelhas cobertas por uma leve penugem branca como algodão, arrastavam-se pelo chão.

Fó só quando a criatura estava totalmente fora do buraco, apoiada sobre as quatro patas, com o corpo levemente inclinado para frente, que Erak notou a imobilidade de Alexis. Ele não tinha empunhado a Morte Cinzenta, nem sequer havia se afastado de seu lugar, exatamente na frente daquele animal decididamente perigoso.

― Angel está com você, não é mesmo? — Alexis perguntou calmamente para a fera albina. — Eu sinto o cheiro dela em você. E sinto seu poder a protegendo e se esgotando ao fazer isso. — O Príncipe aproximou sua mão do focinho da fera. — Descanse agora, eu vou cuidar da Angel. Obrigada.

Erak sentiu os músculos de seu corpo se agitarem quando o monstro abriu a enorme boca, de forma estranhamente elástica, mostrando que seria fácil engolir Alexis com uma única bocada. Mas ao invés de avançar contra o homem à sua frente, lançou para fora sua longa língua pontuda e rosada, que desceu desenrolando como um tapete até o chão. E lá, encolhida e coberta pela saliva da fera, estava Angel.

Alexis não hesitou, se aproximou mais ainda, ajoelhando-se sobre a gosma leitosa que se espalhava lentamente sobre o gelo, e envolveu Angel com uma das Bolhas Protetoras da nave. Aquele dispositivo protegeria a garota do frio letal e já auxiliaria no início do processo de cura caso fosse percebido por seus sensores essa necessidade. Após verificar que Angel estava segura, para surpresa de Erak e Esan, Alexis tocou a lateral da própria cabeça, onde ficava o controle geral do uniforme e conjurou mais uma Bolha Protetora. Para a besta. Assim que foi envolvida por aquela espécie de escudo de gel, seu corpanzil desabou para frente, caindo sobre a língua que permanecia para fora.

Alguns segundos depois, diante dos olhos espantados de todos, a figura monstruosa foi encolhendo até a forma de uma pequena e indefesa… criança.

― É apenas um menino — observou Esan.

― Um menino Meiruu — completou Erak.

O Rei olhou mais uma vez para Angel que permanecia desacordada. Por que um Meiruu, inimigo dos inimigos dos Deiroons, havia arriscado a própria vida para salvar uma Humana? E mais, como um simples garoto podia ser tão forte a ponto de manter alguém, além de si mesmo, vivo no frio mortal de Nagtar?

Quem era ele?

***

Um par de olhos azul turquesa foi a primeira coisa que ela viu. Novamente. E, assim, mais uma vez Angel agradeceu por estar viva. Por voltar para ele.

Como impulsionada por uma mola, sentou-se na cama pequena e redonda, único mobiliário do lugar, que reconheceu ser uma das salas da nave em que viajaram para Nagtar. Antes que ela pudesse fazer qualquer outra coisa, foi envolvida fortemente por braços quentes e familiares. Tão dolorosamente familiares que lágrimas escaparam dos seus olhos. Como era ele que estava ali, não se incomodou por sua imagem de “garota durona”. Para Alexis, Angel era apenas ela mesma. Sempre.

Assim como Alexis. Ele podia ser o Príncipe frio e indiferente, assustadoramente poderoso a cada dia, mas ela sabia quem ele era de verdade. Por isso, ao erguer a cabeça e segurar o rosto do amado para lhe dar um beijo com gosto de desespero, não se surpreendeu por suas mãos percorrerem faces úmidas. Não a impressionou notar que as mãos que percorriam seus braços, seus cabelos, estavam tão trêmulas quanto às suas próprias.

O beijo que trocaram era inevitavelmente salgado, mas ao mesmo tempo tão doce que mais lágrimas caíram. Talvez as dela. Talvez as dele. Mas como o sentimento sempre foi o de serem apenas um, tratava-se de uma precisão irrelevante.

Quando as bocas se afastaram, as mãos continuaram a se tocar. As dela percorriam o rosto de ângulos fortes. Sem marcas de sorrisos ao redor dos lábios bem feitos, pois havia pouco que Alexis aprendera a de fato rir. Mas a testa larga, com cabelos macios e profundamente negros caindo rebeldemente sobre ela, tinha algumas linhas que Angel associava as suas carrancas constantes. Suavemente os dedos delicados alisaram a pele entre as sobrancelhas arqueadas, tão adequadas as expressões de desprezo e arrogância que ele tanto fazia questão de mostrar. Os olhos da cor do mar, que guardavam tão bem seus pensamentos de qualquer pessoa, e para sua imensa frustração às vezes até dela mesma, continham minúsculas linhas prateadas que não existiam antes de Payre. Mais do que a beleza indiscutível daquele homem, eram aqueles pequenos detalhes que sempre a faziam não se cansar de olhar para o seu rosto. Porque neles estavam Alexis.

Percorreu com o dedo indicador a linha formada por uma lágrima na face de pele dourada, e era como se cortasse o próprio coração, lenta e dolorosamente.

― Desculpe — a voz feminina soou abafada pela proximidade entre os dois.

Ele não disse nada, continuou acariciando os cabelos prateados como se ela fosse algo muito precioso e delicado.

― Desculpe por mais uma vez não ser capaz de me proteger. Desculpe por deixá-lo tão preocupado que provavelmente fez coisas que não gostaria. Desculpe por…

Alexis a interrompeu com um beijo rápido e então voltou a acariciá-la, aparentando a necessidade de se certificar que ela estava de fato ali, ao alcance do seu toque.

― Eu não a protegi como deveria e nada do que fiz para encontrá-la me trouxe qualquer arrependimento.

Angel o observou por um instante antes de murmurar:

― Você começou uma guerra. — Ela notou a leve surpresa em sua expressão, então explicou — Eu soube enquanto estava presa, foi, de certa forma, o que me ajudou a escapar. — Angel acolheu o rosto querido em suas mãos, também necessitada do contato. — Mas, Alexis, iniciar algo tão extremo em um Mundo instável como esse não estava em seus planos. Eu sei das consequências disso.

Aquele silêncio adquiriu um sentido muito particular.

― Vidas irão se perder. — A culpa não a impediu de dizer o que estava a afligindo. — E não é algo que foge a nossa responsabilidade. Não assim. E nem se trata de Profecias, Escolhidos ou seja lá o que for. Você começou uma guerra. — Não era uma acusação, se tratava da constatação de um fato. — Nós começamos.

― Eu teria feito muito mais do que isso.

Ela sabia. Assim como tinha convicção de que, por ele, também faria bem mais do que isso.

Erguendo a cabeça, Angel tocou a testa na dele, respirando seu aroma. O hálito morno em seu rosto deu a intimidade que ela precisava para criar coragem e confessar outra angústia.

― Eu matei uma pessoa. — Antes que perdesse o momento, continuou rápido, as palavras saindo aos tropeços. — Eu matei a Princesa Oberoh. A que estava no palácio era falsa, a verdadeira estava como refém de Khor para tentar conseguir favores do Rei. O Rei Tack, apesar de tudo, não foi um traidor completo, pois não se envolveu no nosso sequestro e nem deu qualquer informação sobre a Profecia. E foi por isso que…- o pânico do episódio voltou a sua mente. — Khor estava matando ela, Alexis, bebendo o seu sangue. Ela tinha sido muito machucada antes. Muito. E ele estava rindo de tudo. Então eu senti o Rei Oberoh em minha mente, ele me ajudou a escapar do poder que me mantinha imobilizada e me guiou para matar a Princesa.

Angel se afastou subitamente, puxando as mãos que afagavam Alexis e torceu-as em seu colo, quase com horror. Aquelas mãos… Como podia tocá-lo com aquelas mãos?

Ele pareceu entender o que acontecia em seu íntimo. Assim, não a forçou, apenas disse.

― Eu quase matei Zaffar. E Erak. E agi como um cretino com Choi, pois embora não soubesse naquele momento, agora eu sei, eu estava com raiva, com inveja dele, porque a Mona havia retornado… e você não. Eu perdi o controle, Angel. — Ele também olhou para as próprias mãos. — Eu sempre tive poder. O poder que a riqueza traz. Ter nascido um nobre na Terra me tornou superior aos demais, não vou ser hipócrita, eu usava muito dessa posição privilegiada. Agora eu tenho infinitamente mais poder. De maneiras que não sou capaz sequer de compreender totalmente ainda. E isso me assusta. Mais do que o que sou ou de onde vim, me assombra saber o que vou me tornar.

Angel já havia imaginado que haviam fragilidades em Alexis que ele jamais deixaria notarem, mas nada a preparou para aquela confissão. Então percebeu o próprio egoísmo desde que chegaram àquele mundo. Tudo que a movia era conseguir ser mais forte para se equiparar a ele e não ser uma carga. Mas para Alexis, o que tamanha força significava? Ela não tinha aprendido nada com a clássica frase do Homem-aranha? “Grandes poderes trazem grandes responsabilidades”.

― Eu não vou deixar você virar um babaca.

Poderia ter discursado por horas sobre o quão honrado e o quanto ele era sensível a despeito de seu comportamento frio e reservado. Que o fato de carregar tantas dúvidas a respeito de si, sabia ela que muito por influência de sua infância na Terra, eram pistas significativas de seu senso de justiça. Mas ao ver sua reação, soube que havia escolhido as palavras certas.

Pela primeira vez, Alexis sorriu. Aquele sorriso raro era outra coisa que amava nele. Vê-lo daquela forma foi como receber a cura para todas as feridas que não haviam sido tratadas pelas máquinas payreanas, pois eram as que a machucavam por dentro.

― Eu sei.

Uma resposta igualmente simples, mas assim como as palavras dela, carregadas de significados.

Eu vou estar sempre ao seu lado e ajudá-lo. Jamais enfrentará esses medos sozinho.

Nunca duvidei disso, pois conheço seus sentimentos e confio que cumprirá essa promessa.

Com as mãos que haviam empunhado a espada assassina de outro alguém, Angel retribuiu o sorriso e segurou carinhosamente as mãos que temiam o futuro.

Mas logo voltou a ficar preocupada novamente. Afinal, havia alguém que de fato tinha possibilitado que ela estivesse ali, viva.

― O que aconteceu com o cara que me salvou? — franzindo o cenho, tentou lembrar algo durante a fuga que pudesse lhe dar alguma pista. — Ele deve ser um Meiruu, pois mudou a forma de Deiroon zangado para um outro Deiroon ainda mais mau humorado, talvez para despistar quem passava por nós. Ah, e era forte o bastante para modificar até a minha forma!

― Sim, ele é um Meiruu — Alexis respondeu. — E aparentemente bastante poderoso, de fato. Além de ter feito isso que descreveu, ele também tinha essência o suficiente para manter vocês dois vivos em Nagtar, sem proteção, por um tempo considerado até então impossível para alguém que não fosse um Oberoh.

― Ele está bem?

― Fisicamente sim. Mas… — Alexis se ergueu e estendeu a mão. — Acho que é melhor ver pessoalmente para entender a situação.

Angel hesitou. Tinha outra coisa extremamente importante para conversar com Alexis. Assim como ele, suas dúvidas existenciais tinham ido para um outro patamar depois do encontro com Khor e gostaria muito de compartilhar as possibilidades drásticas, para se dizer no mínimo, sobre o assunto. Por isso sentiu-se uma covarde por aceitar a mão e sair com ele para o corredor. Em silêncio.

Sabia que no fundo tal atitude era apenas uma forma de adiar as questões referentes a sabores de sangue, cheiros e, claro, uma inquietante chance de ser aparentada com o vilão mor de Payre. Definitivamente não era algo que estava pronta para confrontar logo depois de sua quase morte. Melhor deixar para depois, assim que as coisas estivessem melhor organizadas em sua cabeça.

Maldito planeta que não tinha uma gota de álcool para uma hora daquelas.

Os pensamentos de Angel foram cortados por gritos horripilantes que vinham de uma das portas fechadas do corredor da nave em que apenas ela e Alexis circulavam. Para sua surpresa, Alexis foi justamente até a tal porta e a abriu tornando os gritos ensurdecedores. Automaticamente levou as mãos aos ouvidos, o que não adiantou em nada, aquele barulho parecia penetrar diretamente em seu cérebro.

Já ia abrir a boca para perguntar o que estava acontecendo, quando seus olhos se depararam com uma confusão no fundo da sala. Não havia outra maneira de descrever o que via. Em questão de segundos surgia um Deiroon, então, Meiruu, então, Oberoh, todos diferentes, e todos a mesma pessoa. A única semelhança entre as figuras diversas era a posição, ajoelhada com o corpo jogado para trás e braços largados ao lado do corpo. A cabeça inclinada para cima mudava a forma, mas mantinha intacta a expressão profundo de sofrimento, que parecia ser a fonte dos gritos incessantes.

― Alteza. — Zafy, que estava na sala sem que Angel sequer houvesse notado, se aproximou. — Ainda estamos tentando descobrir o que fazer com ele, sem que isso aumente seu sofrimento.

― Esse é o Meiruu que a salvou, Angel. — Alexis explicou enquanto mantinha os olhos atentos a figura que se metamorfoseava repetidamente. — Assim como você, ele foi colocado em um Bolha de Proteção e também passou por um processo de cura. Mas logo que a essência dele começou a se manifestar, seu corpo apresentou esse descontrole. Foi preciso prendê-lo aqui, para a própria proteção dele.

Angel finalmente reparou em uma leve linha de luz que descia pelas paredes e pelo chão escuro, formando um cubo ao redor do Meiruu bem ao fundo do lugar mal iluminado. Ao voltar a atenção para a criatura em sofrimento, seus pés começaram a se movimentar na direção dela. Sentiu por puro instinto a presença de Alexis sempre perto de si, pois todos os seus sentidos estavam voltados para a pessoa responsável por ela estar ali. Ergueu as mãos e tocou o cristal que formava a prisão inquebrável. No mesmo instante a cabeça do Meiruu se mexeu, os olhos coloridos, um lilás e outro azul, focaram-se nela. Sua forma mudou novamente. Era a Princesa Oberoh. Sem os olhos, nua e machucada. Lágrimas correram pelos olhos muito abertos de Angel e um gemido escapou de sua garganta, que se fechava dolorosamente, quando viu a si mesma, ajoelhada e coberta de sangue. Quando ele mudou novamente foi para um menino com os mesmos olhos coloridos da primeira vez, seus cabelos dourados curtos despontando para todos os lados em cachos rebeldes, entremeados por fios lilases na franja mais longa do que o restante do cabelo, davam-lhe um ar infantil que deixava difícil precisar sua idade. O rosto pequeno carregava tamanha dor que Angel se ouviu dizendo:

― Zafy, libere a minha entrada.

― Não é seguro, Angel. — Alexis a alertou.

― Ele está revivendo o que aconteceu. Deixe-me ajudá-lo como ele me ajudou, Alexis.

Os olhos violetas marejados encontraram os azuis preocupados. Sabia que novamente era a causadora de suas inquietações. Não tinha se passado nem uma hora do momento dramático de desculpas, e ali estava ela se colocando em risco com a naturalidade egoísta de sempre. Quase podia ver a si mesma como a porra de uma versão medíocre do Gato de Botas, olhos brilhantes e enormes, não deixando qualquer opção a ele.

― Eu vou entrar com você.

Sim, ela já sabia disso também.

Após o acerto entre os dois, Zafy liberou a passagem deles. O casal transpôs o cristal como se ele não existisse, embora soubessem que o material era um dos mais resistentes de Payre.

Angel não perdeu tempo, aproximou-se devagar da criatura imóvel, que mais uma vez alterou sua forma. Era uma linda mulher Meiruu, com os mesmos olhos coloridos do menino e o mesmo tipo de cabelos, encaracolados e dourados, longos o bastante para se espalharem pelo chão, formando um manto a figura delicada coberta por um vestido transparente feito de minúsculas pedras brilhantes azuis e brancas. O tecido estranhamente leve e esvoaçante parecia se fundir onde tocava a pele rosada, tornando a desconhecida o mais próximo do que Angel poderia considerar uma sereia.

A estranha soltou um grito estridente, só então levando Angel a perceber que desde que tocara no vidro, os berros haviam cessado. Mas a calmaria havia passado. Além dos gritos, a mulher tentou segurar a cabeça entre as mãos, para então começar a se dar tapas na altura das orelhas com fúria e desespero. Angel deu alguns passos rápidos e se ajoelhou na frente dela. Sem hesitar segurou as mãos tão pequenas quanto as suas, e igualmente frias. Os gritos foram substituídos por soluços. E diante de Angel a mulher foi perdendo a pele, tal qual papel descolando em pedaços queimados que viram nada além de fuligem. O que restava era apenas carne, para essa também começar a deslizar pelos ossos ainda mais brancos do que a pele que havia se desfeito.

A beleza brilhante havia deixado apenas a cadavérica morte em seu lugar. A única vida naquela imagem pavorosa estava nos olhos intactos, cheios de dor, medo e desespero. Angel sentiu as mãos entre as suas estremecerem, e tal toque trêmulo acendeu alguma coisa em suas memórias.

Você não vai morrer, esta bem?”

Ela não era capaz de responder àquela estranha voz masculina. Mas que diabos, aquilo já indicava a grande bobagem que ele dizia!

“Eu sei que está com medo. Que é solitário pensar que se trata do fim. Que doi...!”

Angel percebeu em sua quase inconsciência que a tal pessoa com quem conversava, embora sem qualquer ideia de quem era, estava compartilhando coisas sobre si mais do que afirmando coisas sobre ela. Aquilo a motivou a tentar, de alguma forma, confortá-lo.

Sem saber como, pegou as mãos trêmulas do seu interlocutor. Para sua surpresa, eram tão pequenas e frias que não conteve a vontade de aquecê-las entre as suas.

“Não é solitário, estamos nós dois aqui, não é?”

Angel não tinha noção de onde era o “aqui”. Havia apenas escuridão, nem sequer tinha certeza de ter dito qualquer coisa.

Então a escuridão se transformou em silêncio. E, estranhamente, em um acolhedor calor molhado. Seria irracional associar tal conforto ao útero de sua mãe, já que teoricamente não deveria lembrar desse momento da sua vida, mas era uma associação difícil de ignorar. O “tum, tum, tum” ritmado que lembrava o bater de um coração, mais uma sensação tão familiar, a levou a um sono profundo.

― Você não está sozinho. — Angel apertou mais aquelas mãos feitas apenas de ossos. — Tinha razão, eu não morri. Você me salvou, então me deixe ajudá-lo também. — Ela abraçou a figura agonizante que passou a gemer baixinho enquanto chorava. — Não precisa ter medo e nem dor. Não está sozinho.

Ela sentiu a forma diminuir entre seus braços, mas não o soltou. Quando pequenos braços de criança apertaram-se contra ela, a garota simplesmente começou a acariciar os cachos rebeldes, seu coração se apertando em pensar que tamanho sofrimento havia sido afligido a alguém que não passava de um menino.

― Eu sou Angel, aliás — ela disse baixinho, sem parar de tocar o cabelo macio com cheiro de mar.

Angel sorriu para o rosto que surgiu entre os dois, quando ele se afastou um pouco dela. Ele não retribuiu o sorriso, mas naquele rosto infantil e sério, a garota percebeu a confiança. Sentiu algo dentro de si manifestar o desejo de corresponder aquela fé, pois sabia mais do que a maioria das pessoas o quanto era importante crer em alguém, ter alguém como apoio nos momentos em que a própria força já não era o bastante. Hye Kyo lhe mostrou isso na infância, e Alexis mais recentemente.

Pensando nisso, Angel ergueu a cabeça e encarou Alexis. Ele havia permanecido o tempo todo ao lado dela, atento, mas sem jamais intervir. Confiança.

***

Depois de deixarem o garoto, que havia se apresentado como Tiaf, aos cuidados de Zafy para concluir sua cura, Angel pediu para voltarem ao quarto em que ela havia acordado antes. Assim, Alexis e Angel caminharam em silêncio pelo corredor da nave. Quer dizer, ele caminhava em silêncio, pois ela parecia extremamente envolvida em uma conversa, mas não com ele. Angel gesticulava com as mãos, fazia cara de pensativa, concordava com a cabeça, para logo em seguida revirar os olhos com impaciência. Ocasionalmente soltava algumas palavras, mais parecidas com resmungos, até frases inteiras eram ditas, ainda que sem o menor sentido para Alexis, claro, pois ele estava sendo deixado de fora de toda a discussão.

Quando chegaram em frente a porta que se abriu automaticamente, ele apenas a guiou gentilmente para dentro do quarto, apoiando a mão em suas costas, pois sabia que naqueles momentos Angel nem sequer enxergava as coisas fora de sua cabeça tumultuada. Após deixá-la quase no centro do pequeno aposento, recostou-se em uma parede e fez o que normalmente achava mais interessante em situações como aquela. Ficou olhando para Angel.

Ela estava em algum dilema do qual não sabia como sair, ou tinha algo para explicar e não sabia como. Alexis já havia presenciado cenas como aquela uma quantidade considerável de vezes. E era sempre um prazer acompanhar.

Normalmente Angel não ficava à vontade em ser observada, apesar do seu estilo despojado, era muito forte o sentimento de autopreservação e distanciamento. Estar sob o olhar de alguém era, para ela, o equivalente a ser julgada. Ele entendia isso, e por esse motivo evitava impor a ela sua atenção, assim tornava-se especialmente agradável ter a oportunidade de analisar cada pequeno detalhe dela sem precisar sentir-se um pouco como um intruso.

Era difícil esquecer o impacto da primeira vez em que viu o rosto feminino escondido sob o capuz de um moletom muito largo. Pensou naquele momento que era a criatura mais bela que já tinha visto. Após tudo o que passou, sabia que Angel seria invariavelmente a coisa mais impressionante em sua vida. E não apenas por sua beleza irreal. Por exemplo, vê-la agir com tamanha compaixão com a criança Meiruu deixou-o ainda mais tocado por quem de fato era aquela pessoa. Uma mulher admirável, que o inspirava a ser melhor. Cada vez mais.

Alexis percebeu o exato momento em que Angel encerrou o assunto que estava tendo com ela mesma. Os olhos violetas piscaram repetidamente e se voltaram para ele.

― Então, sabe a coisa toda das piadas com “Alexis ET”, terapia de família, etecetera e tal? — Angel perguntou em tom absolutamente natural, indicando a normalidade de seus “transes” e como era abrupto o retorno para o real. — Gostaria que esquecesse tudo isso.

Ele arqueou uma sobrancelha, não se deixando abalar por aquele início de conversa tão fora de propósito.

― Não se preocupe. Sou bastante ciente que não teve infância e por isso faz essas piadas que provocam vergonha alheia até mesmo em crianças da quinta série.

Ele quase riu da zangada expressão feminina, mas se controlou.

― Tudo bem, tudo bem — Angel fez um gesto de pouco caso com as mãos. — Entendo que ainda está sob efeito do trauma de quase ter me perdido, por isso agirei como a pessoa compreensiva que sou e fingirei não ter ouvido essas bobagens. Até porque, e só vou esclarecer isso para que perceba a dimensão da minha bondade, você também não teve infância, mon pauvre petit. — Após a alfinetada que só mesmo entre eles poderia ter qualquer conotação de humor, Angel continuou com rapidez. — Descobri outra pessoa com o cheiro que você diz que sente em mim, algo como jasmim, certo? — antes que Alexis pudesse responder ela completou: — Khor.

Alexis piscou. Se desencostou da parede e voltou a piscar. Ele estaria desenvolvendo algum tipo de transtorno cognitivo? Pela primeira vez sentiu dificuldade em entender uma frase que parecia tecnicamente simples. Sacudindo a cabeça, tentou esclarecer:

― Khor tem um cheiro de jasmim? O seu jasmim?

― Sim — Angel respondeu.

Antes que ele pudesse assimilar aquela informação e suas possibilidades, ela continuou:

― E isso não é tudo. Aparentemente eu tenho o sabor de uma Serine, aliás, morta pelo próprio Khor, chamada Raine.

Angel tinha o mesmo cheiro de Khor e o sabor de uma Serine? Na Terra uma notícia como aquela não teria qualquer significado, a não ser talvez, que eles compartilhavam um gosto semelhante para marcas de perfume e creme corporal. Mas em Payre havia uma importância bem diferente. Cheiros e sabores não eram coisas fabricadas e modificadas a partir de elementos artificiais criados em laboratórios. Eles faziam parte da essência das pessoas, como uma espécie de “marca pessoal”. Todos tinham a sua própria “mistura”, produzida de uma única forma: herança. O equivalente a uma carga genética passada de geração para geração.

Alexis fez um enorme esforço para controlar o choque diante das implicações daquilo enquanto observava Angel movendo-se impaciente a sua frente. A garota parou, e sorriu em resposta, embora os olhos não demonstrassem o mínimo divertimento. Ela então comentou casualmente:

― Eu sei, juro que também estou tentando evitar as palavras “Angel ET”.

Alexis finalmente reagiu em palavras, seu usual tom neutro deixado para trás:

― Mas que porra é essa!

Angel balançou a cabeça concordando:

― Muito eloqüente essa observação. E eu diria mais. Estou ferrada.

E estavam.



Notas finais
E ai, o que acharam? Não vou ficar forçando a deixarem comentários, cheguei numa fase em que a escrita é realmente um prazer, e caso queiram comentar algo, certamente darei retorno, mas acho bacana quando isso acontece por espontaneidade, então até o próximo capítulo ou até algum comentário respondido!! Bjs!! ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.