Destinados à Payre

9 O Guarda-costas real


Louis Derring, o Diretor Financeiro do GEA, abriu a porta da sala de Alexis e quase gemeu ao ver o Príncipe sentado à mesa, com a cabeça baixa, absorto com algo a sua frente. Não era sua intenção atrapalhar o príncipe Alexis. De maneira alguma. Havia planejado entrar, colocar seus relatórios sobre a mesa e cair fora. Como todos estavam dizendo que Alexis não tinha sido visto desde o incidente com a tal Angel Lancaster, imaginou que a sala dele estaria vazia e assim poderia entregar o documento atrasado o mais rápido possível. Mas ali estava ele.

O garoto já ia fechar a porta quando Alexis ergueu a cabeça e o fitou diretamente. Louis arregalou os olhos. O Príncipe estava só com uma regata meio amassada, com os cabelos despenteados e exibia um enorme hematoma no queixo. Desorientado, o rapaz acabou cometendo a besteira de praticamente correr até a mesa para entregar o que precisava ansiando sair logo dali. Só quando estendeu, com mãos trêmulas, a pasta que continha os documentos foi que percebeu o seu erro. Alexis não deu a menor atenção para o que ele entregava. Seus frios olhos azuis estavam cravados nos assustados olhos castanhos de Louis.

Sem saber como agir e evitando ao máximo encarar o queixo lesionado do Príncipe, Louis recolheu o braço que estendia a pasta e virou-se para sair, mas ao olhar sem querer para o sofá, ficou paralisado. Tinha uma garota dormindo ali! E era a Angel Lancaster!

Mesmo naquela situação delicada, não pode deixar de notar a beleza da garota. Ela estava de lado, voltada para ele, e seus cabelos caiam em ondas quase tocando o chão. A camisa azul que servia de lençol estava aninhada junto ao rosto deixando a mostra boa parte da renda preta da lingerie e dos seios alvos e fartos. Quando caiu em si sobre o que estava observando tão atentamente, sentiu frias gotas de suor lhe correrem pela espinha. Virando-se lentamente na direção do príncipe Alexis, ao ver sua expressão, instintivamente deu quatro passos para trás. E agora não eram apenas as suas mãos que tremiam.

Sem pensar, temendo pelo que poderia lhe acontecer, saiu correndo da sala como se estivesse fugindo do demônio em pessoa.

***

Assim que o maldito garoto intrometido saiu da sala, Alexis passou a mão pelos fartos cabelos negros e suspirou. Tinha esquecido de trancar a droga da porta. Assim que levantou para resolver o problema, percebeu como a sala havia ficado escura nos últimos minutos. Para não atrapalhar o sono de Angel ele manteve as luzes apagadas, contando apenas com a iluminação proporcionada pelas janelas, mas, naquele momento, olhando por uma delas notou que, embora fosse apenas o meio da tarde, estava escurecendo lá fora. Provavelmente cairia um temporal.

Deixando de lado essa questão, foi em direção a porta quando os primeiros trovões se fizeram ouvir. O barulho foi tão alto que abafou qualquer outro som, por isso só percebeu algo estranho quando um raio iluminou tudo de repente e viu os braços de Angel se erguerem como se ela estivesse se afogando.

Voltou para perto do sofá, Angel estava em prantos, ainda dormindo, com um dos braços erguidos para o ar e o outro, furiosamente tapando os ouvidos a cada trovejar. Ao se aproximar dela Alexis pode ouvir o que ela murmurava, descontroladamente:

–- Eu quero ir com vocês... Eu estou assustada... Mamãe estou com medo!... Hye Kyooo! Hye Kyoooo!... Desculpa! Desculpa! Desculpa!...Desculpaaa!...

Preocupado, Alexis ajoelhou-se ao lado dela e passando a mão pelos cabelos sedosos, tentou acalmá-la, mas de nada adiantava. Ela continuava chorando e repetindo palavras que pareciam lhe causar muita dor. Quando usou as próprias mãos para tapar os ouvidos da garota notou uma melhora no sofrimento dela, por isso, sem pensar duas vezes, deitou ao lado de Angel no sofá, usando os braços para envolver a cabeça prateada e bloquear o som que vinha lá de fora. Também começou a dizer palavras de conforto com o rosto colado ao dela, a envolvendo totalmente com seu próprio corpo. Finalmente começou a senti-la relaxar em seus braços e a voltar a dormir tranquilamente.

Com a chuva caindo e batendo na janela, a respiração ritmada da garota macia e quente ao seu lado, Alexis se sentiu tão aconchegado que nem ao menos percebeu quando acabou por segui-la no sono.

***

“E lá vou eu arriscar meu belo pescoço novamente!” Choi pensou, ao cumprimentar sorridente mais um colega que passava por ele, enquanto percorria a passos rápidos os corredores do Prédio Central. Estava com pressa para avisar Alexis sobre as novas fofocas que rolavam sobre ele pela Alpha. Sabia que o Príncipe não ligava para essas coisas, mas o boato tinha relação com a nova aluna, e pelo que Choi pode perceber, ali havia razão suficiente para cabeças rolarem com as notícias que estavam circulando pela escola como fogo em mato seco.

Não sabia quem tinha iniciado a coisa toda, mas o que chegou a seus bem relacionados ouvidos foi que Alexis tinha provavelmente tomado um soco no olho, dado pela novata, e por isso ela estava agora desmaiada na sala dele, vitima de sua fúria vingativa. Bem, essa era uma das versões que ele tomou conhecimento. As outras eram ainda mais inacreditáveis. E divertidas.

A campeã em criatividade, na opinião de Choi, era aquela em que Alexis teria amarrado e amordaçado Angel em seu sofá, depois que ela lhe abriu um corte no rosto, do olho ao queixo, com o canivete que carregava escondido no bolso do moletom, e aproveitava a vulnerabilidade dela para a espancar e assediar sexualmente. Um aluno jurava que conhecia alguém, que ouviu diretamente do melhor amigo do namorado da garota que tinha entrado na sala e visto Angel e Alexis seminus na sala escura. Outra fonte “confiável” dizia que eles estavam nus.

O rapaz riu, Alexis batendo em uma garota era algo muito além de sua imaginação e a assediando então era tão absurdo quanto dizerem que o viram levando, sei lá, unicórnios azuis em lindos buques para a garota. Claro, Alexis era frio e do mal o suficiente para amarrar alguém e bater até o sujeito virar purê, sem nem sequer piscar. Mas não faria isso com uma garota. Mesmo que fosse uma encrenqueira do calibre de Angel. Choi tinha certeza. Quer dizer, quase...

Enquanto esperava pelo elevador que o levaria até o oitavo andar, Choi não se conteve e deixou a imaginação rolar. Também queria criar uma versão dos fatos, não era justo ficar só ouvindo as abobrinhas alheias. Então...

“Alexis com o rosto todo ensanguentado, cheio de fúria, observava a doce Angel (a história era dele, então foda-se a falta de credibilidade) amarrada pelos pulsos em correntes presas no teto da sala (também foda-se a logística da coisa toda) implorando por perdão pelo que tinha feito. Alexis não queria saber de desculpas, com um chicote (ninguém mencionou um chicote! ele considerou isso uma tremenda falta de criatividade dos seus colegas fofoqueiros), bateu nas pernas da garota...Choi fez uma careta de desgosto, ela era tão pequena e frágil, não, não estava bom. Alexis ergueu o braço para o primeiro golpe, mas parou ao ver a expressão de dor no lindo rosto angelical (ele não tinha dado nenhum golpe, mas poxa, ela estava presa só pelos braços!). Ele jogou no chão o chicote trançado de couro preto (os detalhes são sempre importantes!) e foi até a garota, arrancando o moletom e expondo os seio...

–- Putaquepariu! – Choi resmungou, assustando os colegas que desciam do elevador a sua frente. Ele sorriu se desculpando.

Que droga! Quando estava na melhor parte da história foi interrompido! Ele e mais dois alunos entraram no elevador que começou a subida. Cruzando os braços ergueu a cabeça para o teto, não percebendo o olhar de admiração de uma das meninas ao seu lado.

Ele era famoso na Alpha, mas ao contrário do que Choi imaginava não era somente por ser um bom amigo. As meninas tinham até mesmo um acordo. Nenhuma delas podia namorar a sério com ele, pois o rapaz era de todas. Algumas que tentaram foram ameaçadas e repudiadas pelas demais por isso desistiram, afinal, em um lugar como a Alpha, ser tratada como pária era pior do que a morte.

Assim que o elevador parou no oitavo andar, Choi desceu apressadamente e continuou no mesmo ritmo até a sala do presidente do GEA, onde esperava encontrar Alexis, sentado à mesa, com sua costumeira cara fechada, trabalhando, fossem em coisas do GEA, das aulas ou em documentos enviados de Quidar para que ele analisasse. Mas ao abrir a porta viu tudo escuro e vazio. Já ia sair dali para continuar sua busca quando uma leve curiosidade o tomou. Sabia que era loucura, mas e se...? Foi caminhado lentamente até o sofá e parou.

Seus olhos se arregalaram, e foi por pouco que conteve as palavras de surpresa que lhe subiram pela garganta. Ali estava Alexis, não espancando ou abusando de Angel, mas a abraçando enquanto ambos dormiam. A cena era tão inusitada quanto suas fantasias envolvendo correntes e chicotes, que Choi levou alguns segundos para perceber que realmente os dois não pareciam muito vestidos, tal como os boatos diziam. Mas nada perto de seminus, ou nus. E também foi possível perceber, quando um raio iluminou o ambiente, que havia um machucado no queixo de Alexis. Choi sorriu, as pessoas, ao criar suas versões, deviam ter levado em conta o fator altura. O golpe tinha sido mais abaixo no rosto de Alexis. Um local mais acessível para uma tampinha como a garota que fizera a prodigiosa tarefa de acertar um belo golpe no severo Príncipe.

Saindo silenciosamente dali, o rapaz foi até o longo e aconchegante sofá na recepção do GEA e se deitou, cruzando os braços sob a cabeça. Sério, estava morrendo de curiosidade para saber o que tinha acontecido entre aqueles dois. Tinha sido mesmo um golpe dela que provocou aquele estrago no rosto do Príncipe? O que os levou a tirar suas roupas, certo, parte delas? Por que eles estavam abraçadinhos daquele jeito, tirando um cochilo naquela linda tarde chuvosa?

“Meu Deus” Choi pensou “se alguém ver o que eu nem acredito que vi, vai com certeza aparecer no jornal da Alpha! E depois será notícia na mídia mundial!” Ele já imaginava as manchetes e as fotos sensacionalistas. E Alexis realmente pendurando vítimas apavoradas na sua sala. Puxando seu Smartphone do bolso procurou algum joguinho divertido para passar o tempo. Ele ia ficar ali até os pombinhos acordarem, impedindo qualquer curioso de descobrir o que estava acontecendo lá dentro. E assim evitaria mortes desnecessárias. Ele era realmente um bom sujeito afinal.

Uma hora depois, se tanto, ouviu a porta do corredor abrir. Ao virar a cabeça sorriu cheio de charme para a pessoa que o encarava, exibindo uma expressão de profundo desgosto. Mona era a única garota que o encarava daquela forma. E mesmo assim continuava linda.

–- Monalisa, minha querida colega, o que a traz aqui nessa tarde chuvosa? – Choi foi perguntando enquanto se erguia do sofá e ia em direção a ela. Não ía arriscar, Mona era bem capaz de ignorá-lo, sua especialidade, e entrar feito um trator, um trator muito sexy por sinal, na sala de Alexis. E do que ela seria capaz, Choi preferia nem pensar. Mas a sua imaginação era muito fértil e logo ele visualizou Mona arrastando a pequena garota loira pelos cabelos, como uma esposa ciumenta faria. Mas Angel, que não era fácil, reagiria e também a pegaria pelos cabelos, então as duas...

–- Onde está o Alexis? – Interrompendo suas divagações, e sem esperar por resposta, agindo como ele havia previsto, Mona foi em direção a porta proibida.

Choi colocou-se no caminho, respondendo:

–- Nosso estimado Príncipe foi para o quarto dele. – Com uma expressão muito séria aproximou o rosto do da garota, criado um ar de quem ia fazer uma confidência muito chocante. – Acho que ele não quis expor o rosto arruinado. – Exibindo um profundo pesar, continuou em voz baixa, fazendo com que Mona, sem perceber também se aproximasse mais. — Eu vi. Um olho roxo, boca cortada, acho até que um dente estava meio solto, e o queixo praticamente quebrado. O pobrezinho não conseguia nem falar direito!

Mona afastou-se um pouco e o analisou com os olhos dourados cheios de desconfiança.

–- E como estava a garota? Ela também estava ferida?

–- Meu Deus, Monalisa! – Choi parecia perplexo. – Acha mesmo que o cavalheirismo do Príncipe permitiria que ele tocasse com violência uma garota?

–- Vinte alunos testemunharam quando ele a jogou sobre o ombro e saiu da sala. Isso também não é algo que um cavalheiro faria. Aliás, que Alexis faria.

Choi procurou manter a cara de espanto, mas era hilário o quanto ela parecia contrariada com os fatos. Praticamente mordia cada palavra que saia da linda boca rosada.

–- Amor, eu sou um dos vinte alunos que estavam naquela sala. – A garota ergueu uma das delicadas sobrancelhas negras, interessada. – E posso garantir que embora tenha sido bastante chocante, não houve qualquer tipo de dano físico a nossa colega. Ela parecia superbem e cheia de energia. Era fácil reparar pela força dos gritos e dos socos que desferia nas costas do nosso cavalheiro, levemente decaído. Sério, ela estava ótima! – Choi colocou as mãos na cintura enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro, desanimado. – Ela estava tão bem que veja só o que fez com o pobre Alexis depois! Acho que ele vai precisar levar uns pontos na boca. Uma pena. Deve doer. Quanto tempo Ren ficou sem poder dar as caras na escola quanto levou aquela surra, mesmo?

Mona cruzou os braços sobre o peito, dizendo friamente:

–- Certo. Já fez o seu teatrinho. Agora saia da frente. Ninguém viu Alexis e na última versão que ouvi ele estava na sala dele.

–- Seduzindo a novata enquanto ela estava presa por correntes no teto? – Choi não pode perder a chance de trazer um pouco da sua própria versão dos fatos.

Mona bateu o pé irritada, o fazendo rir. Ela era tão adorável. Como os rapazes podiam achar interessante a fachada de moça delicada e gentil que ela exibia? A sua verdadeira natureza, temperamental, mordaz e apaixonada era muito mais atraente. Choi até ficava feliz por ela deixar suas falsidades de lado apenas com ele. Sentia-se, de uma forma meio masoquista, especial.

–- Monalisa, nossos colegas estão cheios de tédio, afinal a Alpha anda meio sem graça ultimamente. Seu irmão, que fazia coisas tão criativas e divertidas e nos distrai um pouco dos nossos pequenos e entediantes problemas diários, já não é mais o mesmo. Desde que apanhou daquele jeito vergonhoso mal é visto por ai. Então é compreensível que o fato do nosso príncipe fazer uma que outra coisinha meio amalucada seja digno de ir para os Top Trends de fofocas da Alpha.

Choi viu que finalmente a estava convencendo a ir embora. Mas um brilho teimoso surgiu nos olhos dourados. Ok, provavelmente teria que partir para medidas extremas, pois a garota disparou furiosa:

–- Eu não confio em você. Não sei o que pode estar tentando esconder ai dentro, por isso vou entrar e conferir com os meus próprios olhos se existe alguma verdade nesse monte de besteiras que esta tentando jogar pra cima de mim.

Mona ameaçou passar ao lado do rapaz, mas Choi foi mais rápido e segurou pelos ombros, ficando com o rosto bem próximo e com os olhos colados nos dela.

–- Ok, Alexis está na sala dele. Mas está realmente ferido. Todo errado como eu já descrevi e por isso não quer ser incomodado. Ah! – Ele colocou um dedo sobre a boca adorável de Mona quando ela tentou dizer algo. – E se você insistir em entrar eu vou ser o cara que vai ficar pendurado pelos braços para tomar umas porradas do príncipe raivoso, sem a parte do assédio sexual, espero. Então, se é para ser torturado por não ter cumprido meu papel de guarda costas real, preciso ganhar algo com isso. – Choi sorriu sedutoramente, notando satisfeito os olhos dourados fitarem sua boca, ela nunca era tão indiferente em relação a ele quanto gostaria. – Eu a deixo passar se me der um beijo. Na boca. Com nossas línguas se enroscando enlouquecidamente. Se rolar uma mão boba, até abro a porta pessoalmente.

Choi sentiu as mãos que a seguravam formigarem, e lutou contra a vontade de realmente beijá-la, quando viu o lindo rosto adquirir lentamente um delicado tom rosado. Mona, a fria Monalisa, estava envergonhada ao pensar em lhe beijar. Ela não era um doce?

Sem dizer nada, Mona puxou os braços de forma brusca, e saiu batendo a porta a trás de si.

Choi encostou-se à parede e deslizou até o chão encarpetado, ficando ali sentado entre aliviado, frustrado e satisfeito. Não ia ser pendurado por Alexis. Mona não tinha aceitado beijá-lo. Mas, ele abriu um sorriso triunfante, tampouco ela tinha respondido "não".