Destinados à Payre

27 Deow, o Salvador


Notas iniciais
Oiiii depois de TANTO tempo! *saudades* Sem muita enrolação, segue o mapa prometido: MAPA DE PAYRE!!!! http://uploaddeimagens.com.br/imagens/mapa_de_payre-jpg--2 Boa leitura!

Ren observou a irmã sentada do outro lado da mesa. Eram os únicos ali e, ainda assim, Mona havia escolhido o lugar mais afastado dele. Ela não lhe dirigia a palavra desde que chegaram àquele mundo. Mona o ignorava e mesmo quando ele tentara, no início, convencê-la a ajudá-lo a pensar em uma forma de escaparem dos alienígenas, ela simplesmente o deixava falando sozinho. Então com o passar do tempo, cada vez mais frustrado, Ren desistira de qualquer aproximação.

O rapaz começou a tamborilar os dedos sobre a mesa com impaciência. Estavam ali já há algum tempo, pois foram avisados que haveria uma reunião importante. Mas ninguém mais além deles havia aparecido. Que coisa irritante, poderia estar pelo palácio, fazendo o que tinha se tornado seu hábito, conhecer o lugar, descobrir mais sobre onde estava e as pessoas dali. Isso certamente o ajudaria quando chegasse a hora de escapar.

Depois que passara seu pânico inicial, Ren tinha colocado a cabeça no lugar e refletido sobre qual seria a melhor estratégia. Não sabia onde estava, como tinha chegado ali, o que aquelas pessoas queriam dele, além do monte de bobagens que falavam sobre Deuses e Profecias, então precisava descobrir tudo. Sua cabeça estava cheia de informações sobre Payre, sabia as línguas faladas ali, os costumes, os reinos, as raças, toda a historia de como aquele mundo tinha se formado, mas não confiava em nada disso.

Eles tinham mexido na sua cabeça, certamente poderiam implantar falsas histórias como forma de controlá-los. Choi ria dele, pois achava que se fosse apenas para matá-los, não se dariam ao trabalho de fazer todas essas coisas. Mas Ren sabia que as motivações das pessoas nem sempre faziam sentido e seguiam uma determinada lógica. Eles poderiam estar apenas buscando, com essa coisa toda de treinos, torná-los mais fortes, e deixá-los, teoricamente, conhecer mais sobre Payre, avaliar melhor o funcionamento da mente e do corpo dos humanos para a posterior dominação da Terra.

Ren não acreditava na tal guerra contra as forças do mal, ou sobre a existência do sujeito chamado Khor. Nada do que ele vira até então apontava para a verdade disso. Todos pareciam tão tranquilos, o lugar era sempre tãocalmo e organizado. Ah, claro, as batalhas estavam acontecendo nas fronteiras de outros reinos, mas, ainda assim, onde estavam os guardas daquele palácio? O Rei e a Rainha não pareciam se preocupar com essas coisas quando andavam cercados apenas por Curadores, ou seja, por um bando de médicos.

Sabia que não tinha tido acesso à maior parte do Palácio, pois, apesar da dita “liberdade” deles, havia um limite para onde podiam ir. Quando tentara ultrapassar esses limites, fora barrado pelos Curadores, sob a alegação de ser para sua própria proteção. As portas eram totalmente fechadas e, através das janelas bloqueadas por cristais extremamente resistentes — ele já tinha testado essa resistência -, via-se apenas o mar e a cidade ao longe. E sinceramente não confiava totalmente no que seus olhos mostravam. Sabendo como as simulações eram perfeitas, que garantia tinha de que tudo lá fora não passava de uma falsa vista? Ele era até capaz de apostar que ainda estavam na Terra, em um local escondido pelos extraterrestres. Tinha apenas que achar um jeito de passar por aquelas portas bloqueadas ou pelas janelas, assim que conseguisse isso, seria capaz de comunicar-se com seu pai para receber a ajuda necessária para escapar dali.

Esse objetivo de fuga era a única coisa que o fazia participar dos treinos. A força que estava adquirindo seria muito bem utilizada nesse caso. Era uma pena que nãohavia nenhuma maneira de evitar a invasão em sua mente. Já tinha tentado se manter acordado, mas era impossível. Também não era capaz de evitar a água. Principalmente quando acordara a sede havia sido avassaladora e, mesmo agora, a única necessidade que seu corpo parecia ter era por água, pois, até mesmo o sono se tornava cada vez mais raro. Nunca havia precisado se alimentar.

Recostou-se na cadeira e ergueu a cabeça quando a porta se abriu. Um homem e uma mulher entraram. Os dois eram quase da mesma altura, cerca de um e oitenta, ambos com cabelos vermelhos, os dele muito curtos e arrepiados, os dela também curtos, mas com uma fina trança azul até a altura do ombro, sobre a orelha esquerda. Os olhos deles eram roxos, assim como as sardas sobre a pele, concentradas na área da testa. Eram, sem dúvida alguma, Eiffs, mas não pareciam Curadores. Não usavam as conhecidas vestes brancas e sim roupas escuras, calças e botas pretas e um longo casaco verde folha, de tecido muito leve.

Os Eiffs nem olharam para ele ou para Mona, continuaram a tagarelar em tom baixo um com o outro, como se estivessem entrado em uma sala vazia. Pareciam chocados com algo. Ren apurou os ouvidos e, com suas novas habilidades, foi capaz de escutar claramente cada palavra sussurrada. A mulher estava irritada com a atitude do homem, que parecia ironizar uma certa briga presenciada por eles. Pelo que Ren pôde entender, o Rei Erak havia se indisposto com Alexis, seu adorável irmãozinho Humano.

Ren fez uma careta, mais uma bizarrice daquela situação em estavam. Alexis, disseram aeles logo que acordaram, era o Predestinado. Filho da Rainha e umPayreano enviado a Terra para cumprir uma missão profética. Era hilário. Não bastava o cara ser o fodão da escola, agora era o fodão de um mundo todo. E uma versão de quinta categoria de um Superman, mandado para a Terra em uma nave para salvar a sua espécie e muitas outras de supervilões canibais. Ren realmente não podia acreditar que aquilo fosse tudo verdade, não era possível que sua vida pudesse ficar ainda mais fodida por culpa daquele babaca real.

E era muito irritante como, mesmo estando teoricamente em um outro mundo, Alexis tinha uma cambada de gente praticamente limpando a poeira dos seus sapatos com a língua! Todos o veneravam e faziam exatamente o que ele queria. Como, por exemplo, mantê-lo longe do Príncipe Alien e da sua miniatura de psicopata, pois fora devidamente alertado que não poderia se aproximar de nenhum dos dois até que fosse necessário. Certo, como se ele se importasse. Era, de fato, a única coisa que alegrava os seus dias: saber que não veria aquelas duas caras patéticas por um tempo.

Sentindo-se cansado de esperar, Ren se levantou para sair. Nem Mona, nem o casal de Eiffs olharam para ele quando avançou em direção à porta. Quando ela se abriu de forma automática para sua passagem, Ren não conteve a surpresa. Olhos violetas muito irritados estavam bem na sua frente Talvez um pouco abaixo. A última coisa que pensou foi que ela não tinha crescido um centímetro sequer naqueles anos, então sentiu uma dor absurda entre as pernas, percebeu que sufocava, encolheu-se e no mesmo instante lágrimas correram por seus olhos. Em seguida só foi capaz de ouvir um zumbindo alto e sua cabeça pareceu rachar ao meio a partir do queixo. Depois disso veio a escuridão. A deliciosa escuridão.

***

— Acho que bateu muito forte nele.

— Está me zoando? – ela soltou um “tsc” irritado – Me controlei para não fazê-lo quebrar a porra da mesa com essa carcaça ridícula.

— Angel, — tentou novamente Lali — logo a Rainha e o Rei estarão aqui. Eles queriam falar sobre algo importante, não creio que ficarão felizes em sedeparar com Ren sendo tratado por um dos Curadores por ter apanhado de você, o que provavelmente vai atrasar a reunião por algumas horas.

Angel desviou os olhos do rapaz desmaiadoe doCurador que estava ao seu lado, tentando reanimá-lo, e olhou para a bela garota indiana que parecia um tanto nervosa.

— Eu fui atacada por uma ave gigante, também por seus filhotes, cai em um rio com temperatura baixíssima e estou aqui depois de duas horas de recuperação. Só se esse filho da puta for feito de vidro vai levar mais do que alguns minutos para se recuperar. O que é uma pena.

— Ela tem razão, ele já está quase pronto para acordar. – O Curador disse.

— Ei, não pode fazer com um pouco da dor fique com ele por algum tempo?

O Curador a fitou com expressão confusa e hesitante, desviando em seguida o olhar para Alexis, que estava encostado na parede em completo silêncio. O Príncipe apenas deu de ombros, fazendo com que um lindo sorriso surgisse na face da namorada.

— Posso dar uma dica? – Choi, que estava ao lado de Alexis, se meteu. – Deixe a dor no saco.

— Boa, Choi! – Angel riu.

Ainda confuso com a situação, o Curador virou-se para Ren para continuar seu trabalho, tentando adaptar-se ao que lhe era solicitado.

— Tenho que admitir, ver a técnica ser usada é muito mais instrutivo do que quando a descreveu pela primeira vez.

Choi lembrou Angel da conversa deles, quando ainda estavam na Alpha, sobre como ela bateria em alguém alto, quando sua altura poderia dificultar isso. Então ela recordou-se de quem havia sido o alvo deles naquele tempo. Leonard.

Suas mãos se fecharam em punhos. Frustração e raiva a tomaram, pois embora tivesse feito um belo estrago no primo, jamais poderia superar a dor que ele havia lhe causado. Bater em Ren havia sido mais pelo que Leonard havia feito do que pelos atos idiotas do rapaz. Na verdade ele havia lhe ajudado, pois foi graças a sua vingança cretina que ela foi capaz de lembrar-se do que tinha acontecido com Hye Kyo.

Sentiu uma mão fechar-se sobre a sua. Não precisou se virar para saber que era Alexis, ele provavelmente tinha reparado que algo a estava incomodando. Era fascinante, e um tanto irritante, ter alguém que percebia as mais simples nuances de suas emoções. Nunca tinha tido algo assim em sua vida, mesmo Hye Kyo não era capaz de ler o que passava por sua cabeça tão bem quanto ele, tinha se acostumado a esconder dela determinados sentimentos para não preocupá-la, mas com Alexis isso não funcionava. Ficava sempre muito impressionada com o quão rápido tinham se tornado próximos um do outro. Não conseguia imaginar sua vida sem Alexis e não pretendia deixar que isso acontecesse, independentemente do resultado daquela loucura toda em que haviam se metido.

Ela respirou fundo e encostou o corpo ao dele, que tinha se afastado da parede e estava as suas costas, mas logo endireitou-se novamente, pois a porta se abriu e entraram na sala a Rainha Syka, o Rei Erak, Esan, Noor, o Curador Falki e mais três pessoas, um Eiff, um Oberoh e uma Nerini. Todos pararam quando viram Ren caído no chão.

— O que aconteceu?

Angel notou a preocupação na voz da Rainha, mas daquele grupo que a acompanhava, ela parecia a única a demonstrar isso, pois os demais olharam para a cena com total indiferença. Angel havia notado naqueles meses o quanto os Humanos eram considerados criaturas inferiores a eles. Mesmo estando mais fortes, ainda eram vistos como seres muito frágeis, eaquilo só servia para aumentar sua disposição em superar todos os seus limites. Tinha que ser forte. Ela virou e olhou para Alexis, ele correspondeu ao seu olhar com sua tranquilidade costumeira. Se ela não fosse poderosa o suficiente, como poderia lutar para permanecer ao lado dele?

— Houve um acidente... – Lali começou a responder.

— É. O pé da Angel acertou, sem querer, as partes íntimas do Ren, e sua mão, também de forma totalmente involuntária, chocou-se contra o rosto dele. – Choi completou, muito sério.

Todos se viraram para Angel, mesmo os dois Eiffs que estavam na sala quando tudo aconteceu, parecendo muito curiosos. Angel permaneceu impassível, olhando para um ponto qualquer da parede branca.

— Ele está bem? – Syka questionou o Curador que cuidava do rapaz ferido.

— Sim, Majestade. – Ele hesitou. – Como estamos com pressa, vou acordá-lo agora.

Claro que ele não disse que isso resultaria em uma cura incompleta, achou mais prudente manter essa informação para si.

Angel deu um leve sorriso de satisfação ao ver Ren acordar e logo se encolher como uma bola, gemendo baixinho. Assim que ele ergueu a cabeça, seus olhos, ainda meio turvos, se fixaram nos dela, cheios de raiva. A garota simplesmente ergueu as duas sobrancelhas, desafiando-o a reagir, mas Ren apenas deu uma rápida olhada para os lados, analisando a situação, por fim fez uma carranca e começou a se erguer, com muito cuidado. Com passos lentos e incertos, foi até a mesa e sentou-se em uma das cadeiras, bem longe dela.

— Se sente melhor Ren? – A Rainha parecia muito surpresa com a forma de agir de Ren, assim como os outros que a acompanhavam.

Ren limitou-se em balançar a cabeça de forma positiva. Ele não iria fazer um escândalo sobre isso. Na Terra ele já havia aprendido que divulgar o fato de ter apanhado para uma garota, e uma tão pequena como Angel, não fazia nenhum bem ao seu ego. E ela não estava preocupada com retaliações da parte dele, pois Ren, Angel soube, estava obcecado com a ideia de fugir daquele lugar, logo não perderia tempo em bolar planos de vingança. O que era até meio chato. Queria ter um outro bom motivo para acertá-lo no saco.

— Já que estamos todos aqui, vamos nos acomodar, por favor. Precisamos explicar como procederemos agora que estão todos em níveis semelhantes de recuperação.

Os Eiffs que chegaram na sala antes foram os primeiros a se acomodarem na longa mesa de cristal, logo foram seguidos pelos demais, apenas a Rainha permaneceu em pé.

Angel pode observar melhor como a Rainha Syka era bonita. Estranha, como todos aqueles seres, mas, ainda assim, linda. Seus longos cabelos lilases estavam presos em um elaborado coque no alto da cabeça, lhe dando um ar ainda mais elegante. Ela era baixinha como a própria Angel, talvez alguns centímetros maior, mas era tão imponente que esse detalhe passava despercebido. Seus traços delicados estavam sempre exibindo uma expressão calma e doce, parecia até uma princesa de contos de fadas. Angel não era capaz de assimilar muita coisa daquele mundo, mas aceitar que aquela mulher, que poderia ser sua irmã, era mãe do Rei Erak, e mais, de Alexis, era além de seus esforços. Esperava o momento em que ela diria: “Sério? Vocês realmente acreditaram nessa piada idiota?”, bem se não fosse isso, tinha que admitir que as plásticas realizadas em Payre eram de causar inveja a qualquer cirurgião da Terra.

— Sei que estão com muitas dúvidas e inseguranças sobre a situação de vocês. Mas todos nós estamos inseguros. – A Rainha começou, a língua Nerini parecendo ainda mais musical com sua voz tão suave. – Quando despertaram, receberam muitas informações sobre Payre, esse método, quero que saibam, é o mesmo que usamos em todos os payreanos para aprenderem novos conhecimentos. Noor nos informou que de onde vêm, existem lugares chamados escolas e universidades, lá aprendem as coisas que devem saber para poderem viver na Terra, dentro das escolhas que fizerem. Aqui essas instituições não existem. Nossas crianças, e não somente elas, quando querem saber ou aprender sobre algo, usam as Câmaras do Conhecimento, que são aqueles equipamentos nos quais vocês foram colocados para dormir. – Syka fez uma pausa, parecia preocupada que todos estivessem acompanhando sem problemas suas explicações. – Algumas informações ainda serão passadas, mas sem o uso dessas máquinas, pois queremos que possam interagir mais com as pessoas que estarão, a partir de hoje, ao lado de vocês, protegendo-os e orientando-os. Eles são chamados de Guardiões e foram treinados para essa missão.

Assim que ela disse isso, Noor, Esan e os dois Eiffs, de longos casacos verdes, se levantaram.

— Essa, como vocês já sabem é Noor, a Especialista. – A Rainha apontou para a mulher de cabelos azuis que apenas abriu um leve sorriso, não exatamente acolhedor, mas muito provocativo.

Angel não tinha dúvidas, Noor não era a pessoa mais simpática de Payre, com seu jeito arrogante e, o que mais a irritava, toda sensual, com muitas olhadelas para cima de Alexis, mesmo que seus olhos sinistros tornassem a tarefa de notar isso mais difícil. Mas ela não era boba nem cega, tinha percebido que a vaquinha azul de porcelana estava sempre tentando se aproximar dele. Angel já cogitava quando teria a bem vinda oportunidade de testar se aquele corpo voluptuoso era de vidro como parecia, ou não. Rezava para que fosse.

— Ela foi treinada desde criança para saber o máximo possível de informações sobre os Humanos. Foi a única pyreana, até hoje, que viu a Terra, através de um equipamento criado por seu pai. Seu papel é nos ajudar a compreendê-los e, assim, possibilitar melhor intercâmbio de dados entre nossas raças. – Syka olhou para o homem loiro que estava sempre acompanhando o Rei Erak. – Esse é Esan, o Protetor.

Ela não tinha uma opinião formada sobre o loiro alto, coberto de tatuagens azuis muito legais. Ele era sempre caladão, para falar a verdade nem sequer lembrava-se de já ter ouvido a voz dele.

— Esan é um Príncipe de Sylesth, mas foi criado também para ser um Guardião. Foi treinado nos mais diversos tipos de combates e armas, sua prioridade é manter todos vocês vivos, para que possam cumprir a missão.

Como sempre, o grandalhão tímido apenas manteve seus tranquilos olhos verdes focados a sua frente, firmes, assim como sua posição de soldado.

— Esse é Zaffar, o Guia. Ele tem um conhecimento profundo sobre Payre: sua história, seus reinos, suas raças, além de informações sobre as diferentes regiões e inúmeras formas de sobrevivência nas mais complexas situações. Ele será o responsável por levá-los e trazê-los de volta dos lugares que irão, para atender a Profecia.

Angel observou o sujeito ruivo, que continuou com sua posição displicente, um braço apoiado sobre os ombros da ruiva ao seu lado e mão na cintura, deixando o casaco entreaberto, revelando parte da barriga musculosa e com algumas sardas no centro. Quando seus olhos se cruzaram, ficou surpresa com a piscadela que ele lhe lançou. Coitado, esse era o tipo de sujeito inconsequente que certamente não teria uma vida muito longa.

— E por fim, temos Zafy, a Curadora, irmã de Zaffar. Como a própria denominação sugere, ela tem grandes habilidades de cura e conhecimentos sobre variadas tecnologias relacionadas a recuperação dos mais diversos tipos de danos físicos e mentais. Será responsável por curá-los e mantê-los saudáveis ao longo da jornada.

A mulher alta e ruiva, exibiu um largo sorriso e ergueu a mão até a altura da orelha, como Angel sabia que era a forma de cumprimento deles. Ninguém correspondeu, mas isso não tirou o brilho entusiasmado dos olhos roxos dela. Ótimo, uma animadinha.

Todos permaneceram em absoluto silêncio, Angel achou meio engraçado, pareciam aqueles momentos constrangedores em que os professores apresentavam os alunos novos para uma turma e todos analisavam os novatos entre entediados e curiosos. Ela bem sabia como era isso. Só que ali, os “antigos” é que estavam sendo apresentados e os novatos, no caso, os Humanos, estavam sendo analisados, dava para perceber isso pelo olhar dos tais Guardiões percorrendo cada um deles. E, pelo visto, também não estavam muito impressionados.

A elegante Rainha, fez um gesto para que os Guardiões voltassem aos seus lugares, então continuou:

— Como sabem, estamos em guerra desde sempre. No principio todas as raças lutavam entre si, algumas para dominar as demais, outras pela liberdade de todos. Acreditavam em vencer pela força, pela razão, ou pela vontade dos Deuses. Com o passar dos tempos, algumas alianças foram feitas entre os que possuíam filosofias semelhantes, ou os que tinham interesses em comum. Como os Nerinis e os Oberohs, que acreditavam que para honrar o sacrifício dos Deuses Erow e Ashy, deveríamos viver pacificamente. Os Alicanos e os Eiffs eramdescrentes da vontade divina, achavam que as raças mais poderosas tinham o direito de governar Payre. Os Meiruus defendiam apenas seu próprio território, não aceitavam a dominação de ninguém, mas cometiam atrocidades apenas para satisfazer desejos fúteis e egoístas. Os Darkanos, tendo como crença que o Deus Deow foi o nosso verdadeiro salvador, viam todos que não aceitavam essas ideias como profanos e, por tanto, que não deveriam existir em Payre. E os Deiroons, que acreditavam serem criaturas originadas a partir do próprio Deus Deow como armas de sua vingança pela traição cometida pelos outros Deuses, lutavam para submeter os demais à soberania que consideravam seu direito.

— Espere um pouco.

A mesa inteira e Syka, olharam na direção de Choi, que fez a pergunta. Ele estava com a testa franzida, parecendo bem confuso. Na verdade, Angel se sentia da mesma forma, pois não tinha conhecimento de outra versão da história dos Três Deuses a não ser aquela colocada em sua cabeça.

— Então os Deiroons, além dos Darkanos, acreditam que o tal Deow, que vocês nos passaram ser o supervilão, é o cara bonzinho?

— De certa forma. – o Rei Erak respondeu a pergunta de Choi. – Para eles, Deow tentou dar poderes aos payreanos, mas foi impedido pelo irmão, Erow, pois ele não queria dividir seus dons com os seres fracos do mundo em que passou a viver. Deow ignorou o irmão e isso resultou em uma guerra. Seus irmãos então acabaram por traí-lo, a Deusa Ashy levou os Humanos, seus favoritos, para outro mundo, abandonando ele e Erow. E o Deus Erow o matou por tê-lo desobedecido. Como forma de vingança Deow, segundo a versão original dos Darkanos, antes de morrer reviveu todas as raças que tinham perecido durante a guerra, por culpa do irmão, e distribuiu dons a elas e Erow simplesmente foi embora, para algum outro planeta provavelmente.

— E como vocês podem ter certeza de que não são eles que estão com a razão? – Angel não pôde deixar de questionar.

— É muito fácil, minha querida – a Rainha pousou seus olhos cinzentos sobre ela. – Acredita que o bem seria representado por seres que comem seus semelhantes apenas por poder? Que escravizam os demais por mera diversão, por assumirem que esse é seu direito legítimo?

— Me parece que os Alicanos e os Eiffs não eram muito diferentes dessa descrição. Antes eles não se achavam no direito de fazer isso também? – Ela sentiu os frios olhos do Rei, que era um Alicano, e mais quatro pares de olhos Eiffs sobre ela, mas manteve seu foco na Rainha que, sem qualquer alteração em sua expressão, respondeu:

— Sim, eles eram cruéis, talvez não da mesma forma que os Deiroons, e nem pelas mesmas motivações de crenças, mas eram. Só que eles foram capazes deaceitar que o poder não torna as pessoas superiores às demais, mas, sim, responsáveis por protegê-las e garantir a paz. Tal como os Serines fizeram por milhares de anos em Payre, o que sempre nos fez acreditar na palavra deles sobre a verdadeira história dos Três Deuses.

— Mesmo? E como pode garantir tamanha mudança de pensamentos por parte dos Eiffs e dos Alicanos?

A Rainha sorriu, e agora, além da beleza, havia uma certa tristeza em suas feições.

— Por que meu marido, um Alicano puro, o filho do mais cruel Rei Alicano que já pisou em Payre, amou uma Nerini, a maior inimiga de sua raça, lutou para ficar com ela, uniu seu reino ao de seus inimigos e morreu para proteger a todos, mesmo aqueles que não acreditavam no seu amor por mim, pela nossa causa, e por Payre.

Angel teria adorado a possibilidade de abrir um buraco bem fundo no chão naquele exato momento, para poder se enfiar dentro dele por longas horas enquanto chutava o próprio traseiro idiota. Olhou com cara feia para Choi, se ele tivesse ficado de bico fechado isso não teria acontecido. O rapaz apenas encolheu os ombros, tentando entender do que era acusado.

— Bem, a situação em Payre começou a ficar realmente tensa quando Khor surgiu – para alivio de Angel, a soberana continuou suas explicações. — Nessa época o reino de Sylesth estava em formação e já havia a aliança entre os Oberohs, os Eiffs, os Alicanos e os Nerinis. Os Darkanos, os Meiruus e os Deiroons, ainda lutavam entre si, mas Khor mudou isso. Seu poder levou os Darkanos para o seu lado, pois eles passaram ver os Deiroons como seres realmente criados por Deow, e Khor, como sua reencarnação. Já os Meiruus recearam perecer diante de tanta força, além disso, sendo tão obcecados pelo belo e o exótico, ficaram entusiasmados em servir alguém como ele, o único Deiroon mestiço existente, e mais, filho de um Rei Deiroon com uma Princesa Serine. Um ser sem igual.

A Rainha Syka tocou na mesa, fazendo com que uma imagem surgisse nela, então a pegou, como se fosse algo sólido e largou no chão ao seu lado. A imagem foi subindo, criando forma, até terminar em um homem que mais parecia um gigante ao lado da pequena mulher, ela batia na altura do peito amplo e nu.

— Esse é Khor.

Angel analisou o tal Khor com mais atenção, afinal aquele era o culpado por todos eles estarem metidos naquela situação. E por ela estar viva, tinha que reconhecer.

Ele certamente tinha mais de dois metros de altura, e assim como o Rei Erak, parecia um daqueles guerreiros medievais, cheios de músculos e testosterona, o que deixava a beleza do seu rosto ainda mais evidente, seus traços eram definitivamente masculinos, mas sua boca de lábios cheios e seus cílios negros contra o claríssimo dourado dos olhos, lhe conferiam uma delicadeza inusitada. Os cabelos dourados na altura da cintura, soltos e muito lisos, eram tão belos que chegavam a ser fora de propósito em um homem. E para deixá-lo ainda mais impressionante, as partes do seu corpo expostas, que eram muitas, pois ele vestia apenas uma calça branca, amarrada na cintura por um tecido vermelho, era da cor de areia, coberta por várias tatuagens pretas com estranhos símbolos, mesmo em sua testa havia um deles.

Angel olhou em volta para ver se tinha sido a única a ficar boquiaberta com a figura, mas percebeu que não, mesmo os payreanos não desgrudavam os olhos da imagem projetada pela Rainha. Voltando a observar o tal Rei Deiroon ela refletiu, se uma mera reprodução do cara era capaz de provocar aquele efeito nas pessoas, como seria vê-lo em pessoa? Em um mundo de seres tão fantásticos, alguém que conseguia ser ainda mais do que isso, poderia mesmo ser vencido? E por eles? Porque uma profecia, passada por seres que já estavam mortos, dizia isso?

Angel lembrou-se das últimas palavras da profecia que vieram a sua mente: “Ou perecerão no fim, em Payre. Assim como os Três Deuses.” . Não, não havia garantias de vitória naquelas palavras. Elas falavam do caminho, mas não se chegariam de fato ao seu destino. Talvez não fossem capazes de salvar nem a si mesmos.

Então, pela primeira vez desde que acordou em Payre, Angel sentiu medo.

Notas finais
Então, o que acharam? *ansiosa* Eo mapa, ficou claro? Deu para entender como é Payre? Desculpem se acharam tosco, mas meus talentos com programas são nulos, então fiz em ppt mesmo eheheh Bem, obrigado por acompanharem a história e se puderem deixar um comentário ficarei muuuuuuuuuito feliz e certamente responderei com todo carinho! Beijos e até!