Destinados à Payre

11 Anjo... Não, Demônio!


Choi levou um susto quando a porta da sala de Alexis abriu. Já tinha espantado dois curiosos além da Mona e estava ficando meio sonolento. Mas, acordou totalmente quando viu Angel Lancaster saindo, parecendo meio estranha enquanto vestia o moletom, às pressas. Quando ela olhou distraída para o lado o viu e seus impressionantes olhos violetas ficaram irritados.

–- O que foi? Está guardando a porta do príncipe? É o cachorro real por acaso?

Choi era muito bom em perceber o humor das pessoas por isso notou que ela estava transtornada com algo e ele era apenas alguém disponível para descarregar sua frustração. Então, o rapaz respondeu da forma que considerou a mais adequada ao momento.

–- Au-au. – E sorriu.

Angel arregalou os olhos espantada. Mas quem ficou mais surpreso foi Choi, quando a garota também sorriu, enquanto duas grossas lágrimas escorreriam pela face de porcelana.

–- Desculpe. Choi.

E ela saiu.

O coreano tagarela ficou alguns minutos parado tentando assimilar o que tinha acontecido. Até que finalmente conseguiu se mexer e entrou na sala de Alexis.

Assim que conseguiu ajustar sua visão a pouca claridade, notou o carrinho de comida bagunçado e os pratos sobre a mesinha de vidro. Isso era bem esquisito, nunca tinha visto aquela sala mesmo que levemente desorganizada. Agora tinha até mesmo um garfo jogado pelo chão! Cara, o tapete tinha manchas de molho! Alguém ia ser pendurado com certeza. Mas, ao dar mais alguns passos encontrou Alexis sentado no chão, em frente a mesa, com as costas apoiadas no sofá olhando para um ponto qualquer do tapete. OK, agora Choi estava se sentindo a Alice no País das Maravilhas, onde nada mais fazia sentido e a Rainha de Copas, não cortava cabeças, pendurava pessoas pelos braços com correntes. Sim, ele estava novamente divagando loucamente.

Aproximou-se um pouco mais, contudo Alexis continuava a ignorar sua presença. Choi já estava repensando esse seu plano idiota de atrapalhar o príncipe, que já não era lá muito paciente normalmente, para dar más noticias, quando Alexis disse em tom muito baixo:

–- Choi, pode fechar a porta quando sair?

Nada como a boa e velha frieza do “amigo” para ele se sentir novamente em casa e não em um universo paralelo.

–- Pode deixar que já estou caindo fora! Vai ser rapidinho! Só queria dizer que estão circulando histórias bem bizarras pela escola. Umas coisas realmente dignas da seção de ficção, por isso vim para avisá-lo. Mas, quando entrei encontrei, hãm... Bem, achei melhor evitar que outros viessem até aqui, porque as coisas já estão fora de controle o suficiente. Tipo, que você apanhou da Lancaster e que- Choi não pode evitar uma risadinha – você bateu nela.

–- Eu caí. – Alexis não se mexeu, continuou observado o tapete.

–- Certo, posso dar um jeito da galera saber sobre isso. Mas ainda vão falar. E muito. Afinal foi uma cena e tanto, aquela que rolou durante a prova.

–- Angel me disse que estava passando mal novamente, por isso a carreguei.

–- Hãm... Ela estava gritando, sabe.

–- Ela não gosta de receber ajuda.

Choi coçou a cabeça indeciso. Alexis não era de ficar inventando desculpas. Ele estava certo quando supôs que o Príncipe ficaria incomodado com o falatório, por ele envolver a aluna nova. Mas havia outra coisa que o rapaz queria comentar. Só tinha receio por sua vida.

–- Eu vi que ela saiu a pouco daqui. – ele começou hesitante – parecia bem... Exaltada.

–- Choi, boa noite.

Havia tanta frieza nas palavras de Alexis que o garoto chegou a dar alguns passos para trás, antes de acrescentar rapidamente:

–- Angel estava chorando.

Pela primeira vez Alexis olhou para ele e Choi ficou admirado com a variedade de emoções que havia naqueles olhos, os mesmos que sempre pareceram tão glaciais. O Príncipe disse quase sussurrando:

–- Acho que fiz uma grande besteira. E sei que é realmente grande porque mesmo sabendo disso, não consigo me arrepender.

Choi não soube o que dizer. Alexis fazendo algo idiota? E ele voltava a ser a desorientada Alice correndo atrás do maldito coelho!

O Príncipe se levantou e, passando as mãos pelos cabelos, pegou sua camisa amassada no sofá e a vestiu. Parecendo totalmente imerso em seus pensamentos, saiu sem lhe dirigir uma palavra ou um olhar sequer.

Então Choi colocou as mãos nos bolsos e foi em direção à saída também. Estava muito curioso quanto ao que aconteceria nos próximos dias na Alpha. Nunca tinha sido tão interessante estudar naquela escola!

***

Alexis estava na aula de História quando seu telefone vibrou. Ele leu a mensagem “Angel foi vista nadando nua na piscina olímpica”.

–- Droga!

Sem reparar no assombro dos outros oito colegas, Alexis saiu da sala, ignorando até mesmo o professor, enquanto levava o celular aos ouvidos.

–- Diga para desligarem todas as câmeras e destruírem tudo que foi filmado até agora! Também bloqueiem as entradas, estou a caminho!

Como fora ingênuo! Aquela garota era um demônio! Fazia apenas uma semana desde que fizeram o acordo e ela já havia sido responsável pelas coisas mais absurdas que ele já vira. Ren, que sempre fora o maior incomodo na Alpha, parecia até uma criança fazendo travessuras perto do que Angel era capaz.

Para ficar a par de tudo o que ela iria aprontar, Alexis havia solicitado que tudo o que Angel fizesse fosse relatado primeiramente a ele. Então, ele tentava minimizar a situação indo pessoalmente ver no que ela estava metida, solicitava o envio de um comunicado do que havia acontecido para George Lancaster e dava o caso por encerrado. Parecia algo simples. Mas ela era insana!

Enquanto aguardava o elevador, Alexis começou a enumerar os feitos da garota ao longo daqueles últimos dias.

Ela havia escalado a parede do Prédio Central. Às 2h da manhã! Como isso feria claramente o acordo de não se colocar em risco, Alexis a questionou e como resposta foi apresentado para o professor de Escalada que ela havia chamado. No nome de Alexis. Ninguém a questionou sobre isso por que, todos pensaram, quem seria idiotia o suficiente para solicitar algo em nome do príncipe, se não fosse realmente verdade? Claro, quem autorizou, não conhecia a Angel!

Depois ela fez algo bom, se é que poderia considerar uma boa ação, cobrir um dos melhores jogadores de futebol da Alpha com tinta e marcá-lo na testa com a palavra “otário”, usando caneta permanente, que provavelmente só sairia, com sorte, dali um mês. Sem falar que o sujeito, com quase dois metros de altura, estava bastante machucado. Ele afirmou ter rolado pelas escadas por causa da tinta. Ninguém acreditou. Não tinha nenhuma escada naquela sala. Em sua defesa, Angel alegou que estava dormindo na sala de Artes quando viu uma garota tentando se livrar do rapaz. A garota em questão admitiu que estava sendo assediada sem permissão e que Angel a havia ajudado. O garoto recebeu uma advertência, e Angel também, claro.

Alexis foi acordado às cinco da manhã, em outra situação. Angel estava bêbada e cantando, a plenos pulmões, musicas em coreano, ou algo parecido, pelos corredores do dormitório feminino. As meninas haviam feito alguns vídeos que acabaram se tornando um grande sucesso na internet, pois a voz da garota, mesmo arrastada pela bebida, era impressionantemente bela. Choi adorava dizer que era o fã número um dela e ficou bastante admirado com a pronúncia perfeita de Angel na sua língua natal. Para irritação de Alexis, ele estava sempre cantarolando algumas das canções que fizeram parte do repertório alcoolizado da garota.

E, como se isso não fosse o suficiente, Angel também tivera a criativa ideia de fazer apostas de luta. Havia desafiado algum corajoso a enfrentar num combate que terminaria quando o primeiro sangrasse. Era a desculpa dela para isso não ser considerado “de risco”. Três garotos haviam tentado sem sucesso. Ela já havia derrotado um jogador de futebol (amigo do que havia sido pintado), um faixa preta do clube de caratê e um campeão do clube de boxe. Depois disso ninguém mais a desafiou e ela acabou se tornando uma espécie de Deusa da Luta para os admiradores dessa modalidade esportiva. Sem falar na enorme quantidade de dinheiro que havia conseguido com as apostas. Quem poderia imaginar que uma tampinha como Angel seria capaz de derrotar aqueles caras? Agora a escola toda sabia que Ren não tinha sido um caso se sorte. O coitado não teria chance mesmo.

Alexis desceu do elevador e seguiu as pressas para o corredor que o levaria para a passagem do Complexo Esportivo. Nunca teria imaginado o quanto Angel poderia ser maluca. Tudo bem, o histórico dela era uma pista, mas as informações eram sempre muito vagas ou não tão impactantes, do tipo “expulsa por agressão”, “expulsa por soltar os animais do laboratório. Pela quinta vez”. O Príncipe acelerou os passos. Exceto pela penúltima escola. Havia sido o “expulsa por porte de drogas e arma de fogo. Envolvimento em incidente criminoso” que o haviam preocupado. Mas a reação de Angel quando ele tocou no assunto o assustou e o fez questionar o que realmente havia acontecido. Mas, graças ao que tinha prometido, ele não podia perguntar a ela. Inferno!

Angel lhe causava muita dor de cabeça, tendo que correr de lá para cá para evitar maiores danos, solicitando pessoalmente as cartas de advertência que seriam enviadas para George e recebendo os olhares confusos de todos. Os professores e colegas percebiam a óbvia proteção que ele fazia e a diretora parecia absolutamente curiosa com a situação, embora não o questionasse. Mas, o mais assombrado com tudo era ele próprio, pois não se via arrependido da decisão tomada. Sabia, como tinha dito a Choi em outro momento, que estava fazendo uma enorme besteira. Estava certo de que essa situação o deixava cada vez mais distante do seu objetivo inicial, de ser alguém imune a sentimentalismos e emoções fugazes e baratas. Contudo, de certa forma, nunca tinha se divertindo tanto.

Quando a pegou escalando a parede naquela madrugada, de alguma maneira, ela o convenceu a participar e foi uma experiência memorável. Angel tinha a capacidade de fazer isso com ele. Fazê-lo repensar sobre o que considerava o mais adequado. E ele mergulhava de cabeça nesse mundo colorido que ela lhe mostrava.

Já com o jogador de futebol que foi pintado, Alexis ciente de outros casos em que ele havia se portado de forma semelhante, aproveitou para expulsá-lo do time e, tinha que admitir, não foi totalmente sem querer que o guiou para o corredor em que os colegas curiosos estavam reunidos e não para o que estava vazio e permitiria que ele saísse sem ser fotografado, filmado e zombado por todos, como acabou acontecendo. Certamente aquele sujeito nunca mais teria cara de fazer algo semelhante novamente.

Ao vê-la embriagada e cantando daquela forma, na outra aventura amalucada dela, Alexis havia rido como nunca. Tinha solicitado que uma das responsáveis pelo dormitório a levasse para o quarto. Queria ter feito isso ele próprio, mas não queria que fossem feitos comentários sobre Angel ser levada bêbada para o quarto por um cara. Mesmo que fosse ele. Havia prometido a ajudar arruinar o nome dos Lancasters, mas não à custa do nome dela, ainda que Angel tivesse dito que não se importava. Em uma reunião que comparecerá recentemente tinha calculado muito bem o que passar para os ricos empresários. Quando mencionou os incidentes com a nova aluna da Alpha, fez questão de censurar a falta de apoio do avô e da família para com um membro tão fragilizado.

Angel poderia querer sua cabeça se soubesse que ele a chamou de “frágil”, mas Alexis sabia que no fundo ela era mesmo muito delicada, algo para se lidar com jeito, caso contrário quebraria em muitos pedaços. Por isso entendia a necessidade que ela tinha em demonstrar a sua força física. Como foi o caso das apostas de luta. Ele havia assistido as três disputas e não tinha interferido até o momento da sua fatídica vitória sobre os oponentes. Nunca admitiria a ela a força de vontade que tivera que ter para ficar impassível vendo-a enfrentar aqueles sujeitos enormes. Nem que estivera o momento todo calculando o tempo, caso a luta demorasse mais do que dez minutos ele interromperia. Não permitiria que Angel passasse mal como havia acontecido das outras vezes. Também jamais admitiria a ela, e a qualquer outra pessoa, que acabara baixando no seu celular todos os vídeos que tinham sido feitos naquela noite em que ela havia cantado de porre. E que assistia o tempo todo.

Sim, ela era o maior problema que ele já tivera na vida. Mas era também... – Alexis fez sinal para o segurança e ele abriu a porta que levava às piscinas para o príncipe passar, a fechando em seguida.

Lá estava Angel, o fitando da borda com seus encantadores olhos violetas e sorrindo como só ela era capaz de fazer.

Angel era a coisa mais incrível que já tinha acontecido na sua vida.

Notas finais
Olha só galera, até agora eu fui legal, eu fui bacana, não pedi comentários, postei tão bonitinho um capítulo por semana, então dava para dizer pelo menos um "oi, gostei, pode parar com o chororô!" ?? Heinnn? Heinnnnnn?? Eu não mordo! Sério! *olinhos de Gato de botas mode on*