Destinada a viver
1 Observada
Minha vida inteira me senti observada.
Vocês já sentiram essa sensação, ser observada por alguém? Pois bem, sempre me senti assim, como se tudo que eu fizesse fosse obra de alguém, que pode estar na espreita a todo momento. Mas enfim, vou me apresentar primeiro: Olá, meu nome é Bruna. Nasci no dia 30 de agosto de 1997 e tenho 19 aninhos. Sou uma menina comum (eu acho), mas minha vida é um tanto conturbada e minha mãe não tem boas recordações da minha infância. Primeiro porque meu pai me abandonou quando eu nasci e segundo porque sou estranha.
Digamos que a minha vida escolar foi um tanto complicada, eu não me adaptava muito bem aos colegas e facilmente me envolvia em brigas. Eu nunca tive amigos de verdade e por esse mesmo motivo se tornava indiferente aos outros, mas minha mãe me dizia que os melhores amigos, vem com o tempo. Por mais que eu tentasse me envolver, não dava certo e no final eu me sentia "a diferente".
Preocupada com meu desenvolvimento, minha mãe me levou a um psiquiatra uma vez, para saber se havia algo de errado comigo. Não foi uma boa ideia, pois a única resposta que ela recebeu dele foi um "Sinto muito, essa aí não tem jeito!"
Mas enfim né, o tempo passa, as coisas mudam e algumas vezes mudam para melhor.
Ah, antes que eu me esqueça, eu tenho um irmão, um chato, idiota, reclamão e preguiçoso irmão mais velho: Jory.
Então, um dia eu estava em casa, com a minha mãe e era férias. Eu devia ter uns 14 anos e o Jory uns 16. Apesar de ser recluso, quando queria, o Jory saía de casa cedo e só voltava no fim da tarde, sempre do mesmo jeito: mal humorado e resmungão. Mas naquela tarde, aparentemente comum, ele não voltou sozinho.
Havia um garoto com ele. Um garoto lindo: tinha olhos azuis claros, um cabelo castanho claro e um sorriso fofo. Assim que entrou, ele foi pedindo licença, enquanto Jory já subia as escadas, sem cumprimentar ninguém.
Foi quando minha mãe veio:
—Oi, muito prazer! Meu nome é Sarah, sou a mãe do Jory; você é amigo dele?
—Sou sim, senhora! Meu nome é Rick e o prazer é todo meu!
—Ai que bom! o Jory fez um amigo, Bruna- disse minha mãe, batendo palmas enquanto olhava para mim.
Eu estava tão maravilhada com o garoto, que só respondi um: "É né, muito legal"
Foi quando eu percebi que ele estava olhando para mim, com aquele lindos olhos azuis hipnotizantes. Ele era tão especial, tão fofo, não era igual aos outros garotos que eu havia conhecido, ele era tão...diferente!
O tempo foi passando, cada vez mais o Rick foi ficando amigo de Jory e isso era bom, pois o próprio Jory estava mudando: estava mais legal, de vez em quando ele até fazia brincadeiras. E o melhor de tudo era que Rick também estava se aproximando de mim e aos poucos fui percebendo o quanto éramos parecidos.
Um dia, minha mãe havia saído com o Jory, para fazer compras, eu acho e eu fiquei sozinha. Foi quando a campainha tocou e era o Rick:
—Ah! Oi Bruna! O Jory está?
—Não está não, ele saiu com a minha mãe. Mas eles voltam logo.
—Entendi...será que eu incomodo se eu ficar por aqui?
—Claro que não...-Nossa, eu estava vermelha ou era impressão minha? E porque do nada ficou tão quente?!
Ele entrou e sentou no sofá, eu sentei na poltrona ao lado e continuei assistindo ao filme que eu estava assistindo e me esforçando para não olhar para aqueles olhos lindos. Mas aí ele puxou assunto:
—Bruna, você já se sentiu observada?
—Sendo sincera, o tempo todo!-Não resisti, tive que olhar para aqueles lindos olhos.
—E o que você faz para espantar esse sentimento?
—Não espanto! Eu transformo ele. Fico imaginando que tem realmente alguém me observando, mas alguém legal, que vai fazer coisas boas na minha vida.
—E alguma vez, já aconteceu algo bom?
—Sim.
—O quê?
—Você...ter aparecido na vida do Jory!-Putz, o que eu estava falando??-Tipo, ele era muito recluso e aí você apareceu e mudou a vida dele...
—Agradeço Bruna, mas eu não fiz nada, acredite! kk
—Kkk tudo bem, se você acha!
Eu ia voltar a ver meu filme, quando ele falou:
—Bruna, eu te admiro muito sabia?
—Me admira?!-Senti meu rosto corar
—Sim! Admiro esse seu jeito de não ligar para o que os outros pensam de você, de ver o lado bom das coisas e transformar uma sensação estranha, como a observação, em algo divertido.
—Obrigado, você é a primeira pessoa que me diz isso, além da minha mãe kk a maioria das pessoas me acham estranha.
—Pois que achem! Porque para mim, estranho é bom...eu mesmo sou estranho kk-e finalizou com um sorriso.
Eu retribui o sorriso e continuamos assistindo ao filme até minha mãe chegar com o Jory e convidar o Rick para jantar. E nesse jantar o clima ficou tenso:
—Rick, conte-me mais sobre você...-Falou minha mãe.
—Ah, não tem muito o que saber de mim Sra. Dennison.
—Ah, Rick, você pode me chamar de Sarah e sei lá, fale sobre sua vida, sua escola, seus pais...a quanto tempo você mora aqui?
Foi quando vi que Rick e Jory trocaram olhares.
—Bom Sarah, meus pais morreram em um acidente, quando eu era pequeno. Então eu moro com minha vó. Me mudei para cá há uns 2 anos e meu lugar favorito era a pista de skate, foi lá que conheci o Jory.
E aí minha mãe fez uma cara estranha.
—Entendi. Bom, sinto muito pelos seus pais.-disse minha mãe abaixando a cabeça.
E o jantar seguiu-se em um profundo silêncio.
Naquela noite, antes hora de ir embora, Rick olhou para mim, deu um breve sorriso e falou "Até mais, Bruh".
Foi a última vez que o vi.
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