Destemidos
1 Capítulo 1
Notas iniciais
A escuridão doce, plena e tão perigosa. Eu estava no campo observando as estrelas quando ouvi um barulho suspeito atrás dos arbustos, me aproximei devagar perguntando “Quem está ai?” nada respondia, quando cheguei perto não havia nada e então voltei para o meu posto. Não demorou muito apareceu Himito para entrar em meu lugar, meu horário acabou, estávamos vigiando o vilarejo, boatos assustavam nosso povo de que o clã Tsuruta estava querendo nos atacar, pelas lindas terras cheias de fruto que possuíamos.
– Posso continuar aqui com você? – perguntei.
– Não está cansada?
– Não, quero ficar aqui.
– Certo, então fique – disse Himito sentando ao meu lado e colocando seu arco no chão.
– É lindo, não acha?
– O que? – perguntou me encarando.
– O brilho das estrelas no céu, esta noite parece estar mais forte.
– É lindo sim – disse deslocando seu olhar para o céu.
– Isso significa que a guerra está se aproximando.
– Você ainda acredita em guerra?
– Não é o fato de acreditar Himito, estamos prestes a começa-la – respondi.
– O clã não vai conseguir invadir nosso vilarejo, vamos protegê-lo como nossa vida.
– Não estou me referindo apenas ao vilarejo, é o reino inteiro.
– Por que pensa assim? — perguntou
– Não pagamos impostos ao rei a meses, e é claro que por consequência ele vai destruir nossa fonte de sobrevivência. Nosso líder não quer trabalhar para o rei, não podemos tornar o nosso vilarejo um reino, por isso estamos entrando em guerra – disse ajuntando o meu arco e mirando para um arbusto – Não se mexa, eu vi alguma coisa entrando ali.
Devagar Himito ajuntou o seu arco, pegou uma flecha e também mirou no arbusto, ficava observando tudo pronto para atirar, sussurrou “Vou dar uma olhada em volta, me dê cobertura”, foi se aproximando e eu estava prestes a dar uma flechada em sua cabeça por tamanha idiotice, mas obedeci cuidando de cada movimento diferente. Quando Himito chegou perto do arbusto um coelho saiu às pressas de lá, ele sem abaixar o arco veio correndo na minha direção e chegando sussurrou “É uma armadilha, vamos para o vilarejo”, saímos correndo de lá com os arcos armados, avisamos os guardas dos portões do vilarejo e todos se colocaram em ação, Himito ficou por lá e eu corri para a casa do líder.
– Como ousa me acordar...
– Senhor, caímos em uma armadilha, o clã está prestes a atacar – disse rapidamente abaixando o arco.
– O que? Como que caíram em uma armadilha? – perguntou se vestindo.
– Eu e Himito estávamos na vigia e vimos uma movimentação estranha então corremos para cá...
Nesse instante algo invade a casa do líder, são dois homens vestidos de preto, com suas faces cobertas e com finas espadas nas mãos, trancam a porta e começam a falar.
– Gilbert, você deve nos entregar sua terra ou a destruiremos!
– Eu não entregarei a minha terra, vocês são escravos daquele rei orgulhoso e fica enchendo o meu saco. Vão embora antes que eu os mate! – disse segurando em meu ombro.
– Não vamos embora, só vamos sair daqui depois que conseguirmos o que procuramos – disse um dos homens.
Coloquei a mão na minha espada e antes mesmo que vissem, cortei seus pescoços em um só golpe derrubando-os no chão e espirrando sangue pelas paredes da casa do líder.
– Venha comigo Gilbert, cuidado lá fora – gritei para o líder chutando a porta para sairmos.
Não foi de se esperar, em redor da casa estava cheio de homens vestidos de preto, vi Himito escondido em um canto pronto para atirar com mais alguns arqueiros escondidos, quando todos nos viram levantaram suas espadas e um deles gritou:
– Parados ai, entreguem suas terras ou a destruiremos.
– Se conseguirem passar por cima de mim, poderá matar o líder e levar tudo o que quiserem – disse relaxando a espada do chão.
– O que? Você esta louca? – disse o líder me puxando.
– Eu sei o que estou fazendo – sussurrei.
– Isso vai ser fácil de mais – disse um dos homens rindo.
Dei o sinal para Himito com um balançar de espada e fui para cima dos homens, tão rápida quanto um raio, os arqueiros pegaram os outros homens acertando todas as flechas, Gilbert ficou logo atrás de mim furando qualquer um que ousasse me atacar. Ao terminar e ver todos aqueles homens caídos no chão ensanguentados percebo que uma figura apareceu no meio deles, era seu líder:
– Vejam, a justiceira e seu bastardo líder. Eu já disse para você sair do meu caminho garotinha – disse o líder do clã
– Esse é o destino que você pregou para mim Kurata, naquele dia em que destruiu nossa vila percebi que terei que persegui-lo até ver seu sangue derramar.
– Tão preocupada com uma vila pequena e sem cor, destruí-la por vingança te deixa assim tão nervosa? – disse Kurata rindo – Você deve pagar os impostos, vive para o rei agora.
– Eu vivo para o meu povo e não para aquele rei preguiçoso que só fica bebendo e sentado o dia inteiro naquele trono feito de lixo – disse relaxando a espada.
– Veja só como usa sua linguagem mocinha, você sabe que não pode fazer nada contra mim e nem contra o reino, está amaldiçoada.
– Enganado, nunca estive amaldiçoada, sou filha de Destemidos, irmão.
– Nunca vou me esquecer, tenho sorte de nascer antes que você, mas pena que tive que compartilhar o mesmo ventre e a mesma casa – disse virando-se.
Sem querer conversar, dou um sinal para Himito e pulo para atacar Kurata, mas ele é mais rápido e pula para os telhados das casas do vilarejo deixando para trás uma fumaça negra, os arqueiros tentam pegá-lo, mas ele consegue fugir para a floresta.
– Filha de um Destemido? O que é um Destemido? – pergunta Gilbert assustado.
– Destemidos são homens nascidos de um deus ou de um demônio – respondi limpando minha espada.
– Seu pai é filho de um demônio? – perguntou.
– Não, meu pai era filho de um deus e minha mãe era um demônio – respondi.
– Não compreendo – disse Gilbert.
– O pai dela caiu na terra dos homens por causa das guerras entre deuses e demônios, com isso uma mulher o acolheu e levou para casa para cuidar de seus ferimentos, ela era por incrível que pareça bondosa e ele se apaixonou por ela – disse Himito.
– A qual foi um erro – retruquei.
– Então nasceu a Kagane e o Kurata, irmãos da mesma mãe – disse Himito.
– Kurata é filho de dois demônios e eu sou filha de um deus e de um demônio – completei.
– Vocês então são irmãos? – disse Gilbert.
– Infelizmente sim – respondi.
– Mas Kurata não pode matar Kagane e vice versa, apesar dos dois terem poderes diferentes, eles são do mesmo sangue – disse Himito.
– E o que ele quis dizer com a maldição? – perguntou Gilbert
– Quando eu e Kurata ainda éramos pequenos, nossa mão morreu e com isso eu absorvi o seu poder, eu sendo filha de um deus puro fui amaldiçoada com o poder de um demônio então meu pai selou em mim o poder dos Destemidos – respondi.
– Ou seja, Kagane tem o poder de um deus puro e de um demônio e Kurata apenas de demônios, ela é mais forte que ele – disse Himito.
– Mas isso não adianta nada, meus poderes estão selados e eu não sei usá-los – complementei – Mas sei que não é difícil abri-los, preciso subir a montanha e conversar com o monge Xitsu Hai, ele é o único que consegue comunicar-se com os deuses e demônios.
– E o que acontece agora? O clã foi destruído? – pergunta Gilbert preocupado.
– Não, Kurata vai conseguir encontrar homens que sirvam e ele. Estamos entrando em guerra líder, se prepare – disse Himito.
– Amanha bem cedo estarei partindo para a montanha, preciso preparar meus poderes e derrotar meu irmão antes que seja tarde de mais – disse.
– Eu irei junto com a Kagane, não existe outra pessoa que sabe cuidar tão bem dela quanto eu, você fique aqui com a minha tropa e seus guerreiros, proteja sua terra líder – disse Himito.
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