Destemido
2 Ogígia
Notas iniciais
LEO ACORDOU COM AQUELA SENSAÇÃO HORROROSA de não saber onde estava ou que horas eram, estava deitado em uma cama tão confortável que não teria levantado se não estivesse tão curioso para saber mais sobre o lugar.
As únicas coisas que impediam a escuridão total eram uma lareira embutida na parede e um pouco de luz que entrava por uma abertura suficientemente grande para ser uma porta, porém disforme como se esculpida em pedra. A percepção daquele fato, juntamente com o agradável frio do lugar o fez perceber que estava em uma gruta. A pouca luz era refletida em cristais coloridos presos ao teto. O lugar parecia ter muitas coisas para se observar, mas Leo decidiu que o faria mais tarde caso tivesse oportunidade, precisava sair dali e descobrir onde estava e o que havia acontecido com ele. Decidiu que não estava morto, por mais que não soubesse ao certo como a morte era, tudo aquilo parecia vivo demais.
Andou na direção da luz e a seguiu até o lado de fora, o primeiro pensamento que lhe ocorreu foi: Se de fato existisse um paraíso com nuvens e anjos voando, eles sentiriam inveja de Leo Valdez por estar naquele lugar, onde quer que fosse. Na saída da gruta havia uma campina verde com um bosque de cedros à esquerda e um jardim florido à direita. As fontes que gorgolejavam na campina o fizeram se perguntar há quanto tempo não ia ao banheiro, mas esse pensamento logo foi lavado de sua mente pela beleza do lugar e pelo cheiro de flores e magia que estava por toda a parte.
Caminhou entre os cedros até o fim do bosque onde duas cadeiras estavam viradas na direção das ondas proporcionando uma vista de tirar o fôlego. Em uma delas, a mesma menina que o socorrera estava sentada à luz da lua, trançando o cabelo que lhe caía sobre o ombro esquerdo. A existência da garota o surpreendeu, pois acreditava tratar-se de uma alucinação. Ele arranhou a garganta para pronunciar sua presença, uma vez que não conseguiu pensar em nada para dizer. Ela se levantou tirando as mãos do cabelo, deixando a trança inacabada.
–Vejo que está de pé, — disse com o sorriso mais lindo que ele já vira até então. -Finalmente.
–Eu não podia dormir para sempre. — disse ele, arrependendo-se logo depois, pois temia ter parecido grosseiro. Mas ela sorriu.
–Fico feliz em ver que está se sentindo melhor.
–Na verdade, ainda me sinto um pouco fraco.
–É de se esperar, foi uma queda feia. Você estava tão atordoado quando chegou que nem ao menos percebeu que tinha alguns ossos quebrados.
–Ossos quebrados? -perguntou ele olhando para si mesmo.
Pela primeira vez, reparou que estava vestindo roupas que não eram suas, calça e blusa brancos de algodão, mas estava curado. Seu cinto de ferramentas havia desaparecido, ao ver o terror nos olhos dele a garota disse:
–Não se preocupe, tirei de você enquanto dormia para limpá-lo, está lá dentro. — apontou para a gruta de onde ele havia saído. — Está com fome?
–Sem dúvidas! — e como estava, não lembrava quando havia sido sua ultima refeição.
Andaram lado a lado até uma mesa posta, Leo avançou na frente e puxou a cadeira para que ela se sentasse, o fato de não ter jeito com garotas não significava que ele não podia ao menos tentar. Sentou-se a frente dela e foi servido por mãos invisíveis, o que o assustou no começo.
–Então, — ele disse. — Onde estou e quem é você?
–Você está em Ogígia, herói. E eu sou Calipso. Você está a salvo aqui.
Por mais incrível que isso parecesse, o nome lhe era familiar.
–A garota do mito? — perguntou.
–A mesma. — respondeu com um sorriso triste.
Depois de alguns minutos apenas apreciando o gosto da comida (quando não estava muito ocupado olhando o belo rosto da garota, com seus olhos amendoados e cabelos cor de caramelo a luz de velas, ainda mais bonitos do que se lembrava), ele disse:
–Acho que sei porquê você fica presa aqui, você é bonita demais para estar livre. — ele disse sem acreditar no que estava dizendo, ele estava mesmo flertando?
Ela corou.
–Não diga isso, destemido. Pode provocar a ira de Afrodite para si.
–Você disse que eu estaria a salvo aqui.
–Você não ficará para sempre. — ela disse tristemente.
–Talvez eu fique.
Os olhos da garota se ascenderam por um momento, mas se apagaram logo depois.
–Não brinque comigo. — ela soou chorosa. -E Afrodite já veio aqui antes, ela pode voltar.
–Afrodite, aqui?
–Sim, ela veio para me contar sobre um visitante um dia antes de você chegar.
–Por que ela faria isso? — Leo se perguntou que importência ele poderia ter para merecer uma visita especial da deusa.
Ela desviou o olhar.
–Para me alertar.
Ele levou um tempo para entender o que aquilo queria dizer.
–Não se preocupe. Não sou bonito, nem o tipo de garoto pelo qual se apaixonar.
Talvez, apenas talvez ele tenha soado mais amargurado do que pretendia.
–Você parece muito bom para mim. — ela disse baixinho.
–Isso porque sou o único aqui, não preciso competir constantemente com Percy Jackson, Jason Grace ou Frank Zhang pela atenção de uma garota.
Ás vezes era cansativo, ele era o único naquele navio sem uma namorada, e Argo II estava repleto de casais.
–Percy Jackson... — ela repetiu.
–Você o conhece? — ele perguntou, quase cuspindo seu suco de amoras.
–Ele esteve aqui...uma vez.
–E ele nunca voltou?
–Nenhum homem encontra Ogígia duas vezes. — Ela disse solenemente.
–Nunca? — ele perguntou.
–Nunca.
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