Despertos
1 Capítulo Um
Notas iniciais
Capítulo um.
Me lembro de chorar por duas semanas, quando meu dom foi bloqueado. Era terrível, como perder um órgão vital subitamente. Tudo saiu de seu lugar, minha percepção de tempo mudou. A vida se tornou lenta e difícil. E juro que boa parte da minha inteligência também.
E o poder, isso foi o pior. Minha soberania sobre tudo. Não era arrogância minha, apenas uma posição natural: Meu dom tinha me colocado acima de todos os outros despertos que conhecia. Se havia alguém maior que eu, não tínhamos sido apresentados. Era chato que meus amigos não me encarassem diretamente, mas me acostumei com isso.
Mas isso durou poucos anos. Veio tudo a baixo com o sumiço de minha mãe. Como se não bastasse a tristeza de estar sem ela, meu pai resolveu que o melhor para nós era que bloqueassemos nossos dons e fossemos embora. Pra longe, viver outra vida. Não entendi direito o que era o bloqueio, até que estivesse bloqueado definitivamente.
Me tornei impossível de rastrear por outro desperto. Perdi o dom e boa parte da força física e coragem. Me tornei um mero humano. Até meus olhos, passaram de prateados para um cinza facilmente confundivel com azul.
Um menino comum.
Minha nova vida foi dolorosa, as vezes além do que meu novo eu podia suportar. Passei os primeiros seis meses tendo pena de mim mesmo, choramingando pela casa e tentando desesperadamente quebrar o bloqueio. Eu entendia que era pra nossa própria segurança, mas de que adiantava estar vivo, e vegetando?
Meu pai entendia minha depressao, mas as vezes perdia um pouco a paciência e gritava comigo. Eu não me ressentia com ele. Eu perdi minha mãe, ele o amor de sua vida. Mesmo que eu estivesse quebrado em mil, entendia que era terrível para ele, muito e muito pior. E ele também perdeu os dons. Não eram grande coisa, mas faziam parte dele, como é em todos os despertos.
Foi assim que, mesmo que muito devagar, comecei a me levantar. Se meu pai podia sobreviver de cabeça erguida, eu também podia. Eu jamais seria algo comparado a criança que tinha sido, mas parar de vegetar já era alguma coisa.
Juro que tive que aprender a ler e contar de novo, já que agora minha mente fazia isso muito devagar. Voltei a comer direito, mesmo que a comida não tivesse muito gosto mais. E em alguns meses meu pai parecia realmente orgulhoso de mim, um filho burro mas esforçado. Então voltei pra escola.
Como antes estive em uma série adiantada e fiquei parado um ano, pode ir para uma turma normal. Mas, naturalmente, me enturmar com os outros meninos era quase impossível. Passava quase o tempo todo sozinho, desenhando relógios e ampulhetas. E as vezes, bem as vezes, uma menina me chamava pra brincar. Eu era um ótimo poste de elástico para elas brincarem. E como eu era bonito, elas dividiam os lanches comigo.
Com o tempo aprendi a usar muito bem minha beleza, que era a única coisa dos velhos tempos que me restou. Conforme fiquei mais velho, meu cabelo escureceu e eu passei de um menino fofo pra um pré-adolescente charmoso. Era quase bom.
Mas ainda assim, minha beleza não impedia os idiotas da escola de implicar comigo. Tive que aprender a contornar eles, em vez de me irritar. Se alguém me provocava, eu retribuia com a mesma moeda. A assim alguns idiotas se tornaram meus amigos, após uns meses de implicância mútua. E eu vi que eram idiotas muito legais.
Depois disso, me tornei popular na escola. Cheguei aos doze anos derretendo os corações das meninas, divertindo todos os meninos e até mesmo me dando bem com os professores. Eu era só um humano que se destacava, por esforço próprio, não tinha nada a ver com o meu dom perdido. Mas eu me senti um pouco como antigamente. Meu lugar ao sol era o brilhante e ensolarado demais, o lugar de um líder, alguém poderoso.
Eu poderia viver com aquilo. As risadas, a atenção e os beijos quase tampavam o buraco deixado pela falta de meu dom. Resolvi esquecer o passado e me tornar apenas um humano incrível, definitivamente.
Minha mãe sempre me disse que o passado é importante porque nos ensina algo. Que a vida é como um ciclo, que quando não aprendemos algo, sofremos tudo de novo e de novo, até aprender. Mas isso não fazia sentido pra mim. E deixou de ter importância, na minha vidinha de garoto popular. Eu queria esquecer minha mãe e aquele passado ruim. Queria esquecer o que eu era, deixar pra tras. Fingir que despertos não eram caçados dia após dia, por humanos ambiciosos.
E eu esqueci, antes de tudo, que meu pai e eu mudamos de vida para ser discretos. Nos manter seguros e bem longe dos caçadores que levaram minha mãe.
Foi um erro ignorar isso.
Eles nos acharam.
(i)E o rei caiu novamente de seu trono.(/i)
Meu pai não pode evitar que eles entrassem em casa. Eles estavam armados e nos éramos só um menino e um homem magros, contra uns cinco caçadores. Meu pai tentou quebrar o bloqueio, mas ele não tinha poder pra tanto. Ele nos algemaram facilmente.
Um caçador estava com uma prancheta. Conferiu as fotos nossas em duas fichas e confirmou quem éramos. Foi uma operação rápida, logo nos enfiaram na traseira de sua van e nos levaram.
Me lembro do meu pai chorando em silêncio, com o rosto virado pro lado, para que eu não visse. Não era medo do que podiam fazer com ele, mas por mim. Eu sabia disso, o conhecia bem demais. Naquele momento quis desesperadamente abraçar meu pai. Não que eu fosse o tipo afetuoso, mas nossas vidas estavam terminando ali. Queria dizer a ele que o amava, que eu ficaria bem e que se morressemos nos encontraríamos com mamãe em algum paraíso. Mas tudo que eu cobsegui fazer foi chutar sua canela suavemente e o encarar. Ele sabia o que eu queria dizer, apenas me encarando. Ele assentiu com a cabeça e sorriu de leve, como fazia quando eu era pequeno e chorava por achar que existiam monstros no armário. Um sorriso tranquilizador, protetor e amoroso. Um sorriso de "Tudo vai ficar bem, tenha coragem".
Meu pai tinha olhos amarelos bondosos.
A van parou e a porta se abriu. Pude ver pela porta, não estávamos em um laboratório ou prisão, mas um lugar próximo a uma floresta.
Os caçadores nos colocaram pra fora da van. Havia uma espécie de camburão do lado, junto com mais alguns homens. Os caçadores estavam nos vendendo para um laboratório. Um dos homens usava uma coleira e tinha uma expressão nojenta, que nunca mais esqueci. Aquele momento ficou gravado em minha cabeça, como se tivesse acontecido em câmera lenta.
O homem da coleira me encarou. Lembro perfeitamente de cada sensação. Meu primeiro impulso foi abaixar os olhos e me curvar. Mas eu resisti a isso, talvez tamanha minha surpresa. O que um desperto estava fazendo com aqueles homens? Seus olhos eram roxos e eu podia sentir o poder vindo dele. Era poderoso. Não tanto quanto eu tinha sido, mas poderoso.
Me enchi de esperança, por alguns momentos. Talvez não fossem pessoas ruins, afinal. Olhei pro meu pai. Ele parecia tão desolado que toda a minha esperança fugiu. Eu tentava entender porque um desperto trabalharia para o inimigo, porque entregaria seus irmãos dessa forma. Olhei de novo para o desperto de olhos roxos. Consegui entender a natureza de seu dom, era um rastreador.
"Por favor." Meu pai pediu, implorou. Oh, meu mundo acabou de ruir. Meu pai, meu grandioso pai, estava implorando. "Estamos bloqueados. Não somos nada. Por favor."
O olhar do rastreador era tão frio. Não ia adiantar.
"É verdade." O rastreador confirmou, para seus companheiros. "Mas o garoto é poderoso. Vale muito. O homem é só um pombo."
Olhei para meu pai. Ele chorava de novo, mas sorriu para mim. O mesmo sorriso de antes. (i)Tenha coragem. (/i)
"Pai..." Senti minhas próprias lágrimas molhando meu rosto.
"Então dêem fim na escória e levem o menino." Alguém disse. E alguém estava comemorando a boa caça do dia. Eu comecei a ser puxado pro camburão, mas lutei pra me soltar das mãos.
"Pai!"
Ele respondeu alguma coisa, mas eu não ouvi. Mais mãos me seguraram, enquanto eu tentava chegar ao meu pai. Meu coração batia rápido demais, bombeava meu sangue e... Poder. Eu podia o sentir. Estava novamente em minhas veias. Eu ia conseguir, eu estava quase alcançando meu pai. Estava quase alcançando o dom. O tempo, o tempo!
Então... Um tiro.
Foi o pior momento, o pior de todos. Eu não explodi em poder, como estava prestes a fazer. Mas em dor. O poder se diluiu devagar, até evaporar.
Levei um momento para entender que minha dor não era física. O tiro não tinha me acertado. E mesmo assim, muito de mim morreu naquele momento.
Acho que gritei ou caí de joelhos, não me lembro. Os homens me puxaram para o camburão com facilidade. Eu estava quebrado novamente. E sozinho.
(i) Meu pai tinham olhos amarelos bondosos.(/i)
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