Despertar de uma sub
59 Capítulo XLII
Notas iniciais
EDWARD CULLEN
Eu precisei de longos minutos até digerir o que tinha acabado de ouvir, para reconhecer a derrota, repleta de culpa, que eu vi nos olhos vermelhos de Bella. E eu precisaria de muito mais tempo para conseguir aceitar o fato de que a minha esposa tinha chegado tão longe ao ponto de me dopar na nossa noite de núpcias para que pudesse se entregar a um filho da puta psicótico sem que eu pudesse evitar.
Sentindo meu sangue borbulhar, eu ainda tive frieza o suficiente para fazê-la se afastar de mim, antes que eu explodisse... Porque eu explodiria, não existiam dúvidas sobre isso.
— Edward... – Eu a ouvi chamar, a voz carregada de preocupação, quando eu cambaleei para fora da cama, o mais longe possível dela. Mas eu simplesmente não conseguiria ficar tão próximo, não sem acabar por dizer coisas que depois talvez me arrependesse.
Precisei me apoiar no corrimão da escada para tentar recuperar o equilíbrio, desanuviar a mente ainda embaralhada pelo maldito sonífero que ela tinha me feito tomar e, principalmente, para tentar, sem sucesso, sufocar a traição de Bella.
Quando registrei a ardência em meus olhos, um segundo antes de uma vergonhosa lágrima escorrer, desejei que meus pais não tivessem deixado a casa logo após o encerramento da festa de casamento no dia anterior. Naquele momento, eu estava mais próximo de um menino assustado do que de um Dominador adulto, independente e capaz de resolver seus próprios problemas. Tudo o que eu conseguia pensar era deitar a minha cabeça no colo da minha mãe, ouvir conselhos do meu pai e, quem sabe, conseguir matar o rancor que estava começando a se formar em meu peito.
Apertando o corrimão tão forte quanto meu estado debilitado permitia, eu me questionei se ter Isabella em minha vida era o certo. E pela primeira vez, a resposta imediata não foi positiva.
— Foda-se! – Praguejei baixo e, com passos mais lentos do que gostaria, desci as escadas para encontrar Collin recostado a uma parede, me observando.
Eu podia ver, pela forma como ele estava em alerta, que ele sabia o que tinha acontecido e quando ele desviou o olhar por um segundo, eu soube que ele não apenas sabia como tinha participado.
Eu teria rido da minha estupidez se raiva não tivesse explodido dentro de mim. Lembrar que eu praticamente obriguei Bella a tolerar a presença do único segurança em quem eu confiaria a minha vida, apenas para vê-los se tornar amigos, cúmplices o suficiente para tramarem às minhas costas, fez a letargia me deixar e, movido pela necessidade de extravasar o rancor antes que ele me consumisse, venci a distância até o meu chefe de segurança e o acertei em cheio no queixo, forte o suficiente para fazê-lo tombar a cabeça para trás, atingindo a parede em que estava recostado.
— Porra! – Foi a vez de ele praguejar, mas diferente do que eu esperava, ele não revidou, nem mesmo reagiu com mais do que um passo para o lado.
— Filho da puta! – Eu gritei e voltei a acertá-lo algumas vezes até que estivéssemos os dois jogados ao chão, eu por cima dele. Só então, ele mostrou alguma reação, tentando bloquear os meus golpes. – Revide, seu filho da puta!
— Edward, para! – O grito veio do topo da escada. Eu registrei o principio de pânico na voz dela, assim como passos apressados vencendo os degraus. Por um segundo, quis me virar e mandá-la parar de correr, antes que caísse da maldita escada, mas o ódio borbulhando dentro de mim, me fez acertar o rosto de Collin mais uma vez.
— Dois fodidos traidores, é o que vocês são.
— Para com isso! – Bella gritou mais alto, próximo o suficiente para que eu ouvisse a respiração entrecortada.
Eu teria acertado o segurança uma vez mais, se não tivesse meus braços contidos por trás.
— Que merda, Edward! – O aperto se tornou mais forte e meu corpo foi puxado para longe de Collin. Eu levei menos de um segundo para reconhecer Jasper, embora ainda não conseguisse entender o que ele ainda estava fazendo na casa, e ainda menos tempo para me desvencilhar dos braços dele, pronto para voltar para cima de Collin, apenas para encontrar Bella abaixada ao lado dele, ajudando-a a se levantar.
— Para com isso! – Ela se virou em minha direção quando me aproximei. – É minha culpa, não dele!
Eu tentei rir em escárnio.
— O que não é sua culpa nessa história fodida em que me enfiei?
Ela não respondeu até que estivesse novamente de pé, me olhando como se nunca tivesse me visto antes.
Imaginei que ela estivesse pronta para estalar a mão no meu rosto quando chegou perto o suficiente para obrigar Jasper a voltar a tentar me segurar, assim como Alice se aproximar para afastá-la.
— Você está certo... – Eu preferiria que ela gritasse, talvez assim a raiva tivesse sido alimentada. Eu gritaria de volta, talvez a deixasse falando sozinha, ganhasse um tapa estalado no rosto e mais tarde, quando eu conseguisse pensar racionalmente novamente, nos entendesse. Mas ela falou baixo, pausadamente, com apenas os olhos demonstrando que o que eu tinha acabado de dizer a tinha atingido mais forte do que os socos que Collin se recusou a revidar. – Não tem nada nessa história que não seja minha culpa. Eu te pouparia do trabalho de lidar com a minha bagunça, seu eu pudesse. Não posso. Então, desconte a sua raiva em mim, não em quem só tentou me ajudar.
Tenho certeza que poderia ter pensado em algo para dizer ou me livrado do aperto de Jasper quando Bella apenas me deu as costas, empurrou Collin até a sala de estar e o obrigando a se acomodar sobre o sofá, se abaixou e passou a examinar o rosto masculino, mas além da raiva, passei a lidar com o ciúme.
Estávamos casados há menos de 24 horas e ela já havia pensado em se entregar de bandeja a um psicopata, me dopado e agora se ocupava em examinar os ferimentos que eu tinha causado no segurança que deveria impedi-la de se meter em problemas, mas a ajudava a causá-los.
Quando Alice voltou à sala, trazendo gelo e pano limpo, a pedido da minha mulher e ela, sem voltar a me olhar, passou a limpar o sangue que escorria do nariz de Collin, eu finalmente despertei do torpor que as palavras dela tinha me causado.
— Me solta, porra! – Vociferei, quando Jasper não me deixou livre, apesar de minhas tentativas.
— Não! – Ele respondeu calmamente e tentou me arrastar para longe. Mas eu não iria a lugar nenhum e se ele pretendia me obrigar, teria que lutar comigo. – Edward, já chega! Seja qual for o problema, você não vai resolvê-lo com socos e pontas-pé.
— Deixa ele! – Bella disse baixo, ainda de costas para mim, talvez incapaz de me olhar ou apenas ocupada demais tentando consertar o nariz que aparentemente eu tinha conseguido quebrar. – Deixa ele fazer o que quiser, talvez socos e pontas-pé o faça bem...
Jasper me soltou, como um cachorrinho obediente e eu quis socá-lo também, talvez quebrar algumas coisas, mas tudo o que fiz foi continuar parado onde eu estava, tentando reconhecer a mulher com quem tinha me casado.
— Olha para mim, Isabella. – Tentei controlar o tom de voz sem sucesso. – Olha pra mim, porra! – Repeti quando ela não me obedeceu.
Antes que eu percebesse o que estava fazendo, eu tinha meus dedos presos no braço dela e, com mais força do que pretendia, a tinha de pé, de frente pra mim.
As mãos de Jasper voltaram a tentar me conter.
— Deixa ele... – Ela repetiu e, finalmente, voltou seus olhos em minha direção. Estavam vermelhos, repletos de lágrimas e, assustadoramente, magoados.
Eu quis gritar um pouco mais e quis puxá-la para um abraço doloroso que me fizesse perceber que ela estava mesmo ali na minha frente, inteira, viva... bem longe de um homem sem escrúpulos que a machucaria, talvez até a matasse, se ela realmente tivesse sido ingênua o suficiente para se entregar a ele.
— Você me dopou... – Escolhi a primeira opção porque era a única forma que eu consegui pensar em sufocar o medo que estava me engolindo naquele momento. – Você teve coragem o suficiente para me dopar, então tenha a mesma coragem de olhar nos meus olhos e dizer porquê se juntou com o filho da puta traidor do seu segurança e me apagou.
— Eu já disse... – Ela respondeu, dessa vez a voz esganiçada, as lágrimas transbordando. – E não o culpo por não entender ou por estar com raiva demais para me perdoar, mas não posso mudar o que fiz. E ainda que eu pudesse voltar no tempo, não sei se faria diferente... Ele tinha Tanya, Edward! – Ela engasgou por um momento e a agonia no rosto dela me fez soltá-la. – Agora tem Angela... Talvez amanhã tenha outra pessoa que eu ame, talvez você, talvez a nossa filha... E isso nunca vai acabar, não até que ele tenha o que quer. E ele quer a mim.
Eu a vi se sentar no sofá, ao lado de Collin, levar uma mão trêmula até o ventre e soluçar. Nenhuma palavra conseguiria expressar o quanto eu ainda estava decepcionado e o quanto a raiva ainda estava borbulhando dentro de mim, mas nunca suportei vê-la chorar, não sem desejar arrancar as lágrimas dela e protegê-la de tudo, não sem confortá-la.
Eu cai de joelhos a frente dela.
— Ele nunca vai tê-la. – Prometi.
— Você não pode evitar isso... Queria que pudesse, mas não pode. – Ela levou os dedos até o meu rosto, secando lágrimas que eu não percebi que derramava. – Escolhi você hoje, Edward. Fiz isso porque te amo, faria a mesma escolha novamente, embora a culpa esteja me matando por dentro, mas um dia não vou poder escolher mais. Me mantenha na sua redoma o quanto quiser, rogo a Deus que seja até que a Sophia esteja aqui e, então, rogo ainda mais para que ela seja capaz de te fazer desejar continuar quando ele enfim conseguir o que quer... Porque ele vai, Edward, um dia ele vai conseguir.
*****
— Consegui convencê-la a dormir um pouco... – Alice adentrou o escritório da casa do lago cautelosamente e depois de me observar por um segundo, se juntou a Jasper de frente para janela, de onde ainda podíamos ver resquícios da decoração do casamento. – Mas duvido que ela realmente durma... Está nervosa demais. Talvez fosse o caso de ligarmos para a médica dela e pedir algum remédio, algo que a faça descansar.
Tombei a minha cabeça contra a mesa, ainda sentido os efeitos do sonífero que tinha ingerido na noite passada. A amargura quase me fez dizer, com desdém, que Bella poderia pedir a ajuda de Collin para fazê-la dormir, mas a possibilidade me assustou tanto quando imaginá-la com Jacob Black naquele momento.
— Deveríamos voltar para casa... e informar a policia sobre Angela. – Me obriguei a dizer. – Mas não consigo dirigir agora. Puta que pariu! Não consigo nem mesmo fazer a minha cabeça parar de rodar.
— Eu posso dirigir, ou Alice... – Jasper se virou para mim, uma sobrancelha arqueada. – Ou Collin.
— Deveria ter me deixado quebrar a cara dele.
— Mais? – Ele se recostou a parede e me encarou. – No que isso vai te ajudar?
— Em nada... – Admiti. — Mas tiraria essa raiva de dentro de mim.
— Ele só fez o que Bella pediu... – Alice me lançou um olhar cauteloso. – Estava sendo leal a ela.
— Mas foi leal a você também... – Jasper continuou antes que eu pudesse responder a declaração de Alice como eu realmente queria. – Não entendi na hora e, confesso, estava um pouco bêbado demais para realmente estranhar, mas agora faz sentido que ele tenha nos pedido para ficar e, ainda mais sentido, que não tenha nos feito dormir também. Ele queria que estivéssemos aqui, para você, quando acordasse... caso não conseguisse fazer Bella mudar de idéia.
— Lealdade seria ter me contado, imediatamente, o que estava acontecendo. Lealdade seria tê-la impedido.
— Você a conhece bem o suficiente para saber que ela encontraria uma forma de fazer o que achava que deveria fazer, sozinha, se fosse necessário. – Alice se aproximou e pousou uma mão no meu ombro, em um gesto de conforto que internamente agradeci e odiei na mesma medida. – Não sei você, mas se ela estivesse longe agora, preferiria que fosse protegida por Collin do que sozinha.
— Preferiria que ela estivesse onde está, ao alcance das minhas mãos, a salvo... Longe de um maluco obcecado pela idéia de torturá-la.
— Você... – Alice olhou para o marido por um momento e apertou a mão contra o meu ombro. – Você acha que Angela...
— Provavelmente morta... – A resposta veio de Collin, que adentrou o cômodo sem se importar em pedir licença ou intimidado pelo olhar enviesado que o lancei. – Talvez desde antes de sabermos que Jacob está com ela.
— Meu Deus! – Minha amiga aumentou o aperto contra a minha pele. – Bella nunca vai se perdoar se isso for verdade.
A verdade da declaração de Alice me calou. Algo assim corroeria Isabella por dentro.
— Não é culpa dela! – Jasper se aproximou para puxar a esposa para um abraço.
— Diga isso a ela... – Collin voltou a falar. – Te parabenizarei, caso consiga fazê-la acreditar.
— Alguma novidade? – Jasper apertou Alice em seus braços e desejei fazer o mesmo com Bella, embora ainda não a tivesse perdoado pelo sono induzido.
— Nada! – O segurança me olhou cauteloso. – Nenhum dos meus contatos conseguiu descobrir nada. E Tanya não vai falar... Embora eu ache que ela realmente não saiba onde ele está agora. Quando voltarmos para Chicago, talvez eu possa procurar alguma pista pessoalmente...
— Quando voltarmos para casa... – Eu disse, me colocando de pé, decidido a deixar aquele escritório e poder colocar meus olhos sobre minha esposa novamente, só para me certificar que ela ainda estava em segurança. – O quero longe da minha mulher, longe do meu clube, fora da minha equipe de segurança.
— Sinto muito, Sr. Cullen. – Collin manteve a cabeça erguida. – Aceitei a minha demissão eminente no momento em que entreguei aquele sonífero para Bella. A vantagem é que trabalho para a sua esposa agora. Só ela pode me demitir.
*****
Bella estava calada demais, encolhida contra o banco do carro, chorando em silêncio, quando o seu celular voltou a emitir o alerta de uma nova mensagem de texto, um pouco antes de pararmos em frente ao portão da casa nova.
Imaginei a nossa chegada ao nosso novo lar de muitas formas, nenhuma delas era com Isabella aos prantos, culpando-se pelo o que Black fazia.
Ela não se deu ao trabalho de verificar o aparelho, ainda assim Alice apanhou o aparelho e sem olhá-lo o estendeu em minha direção. Jasper apertou as mãos contra o volante e acelerou, vencendo a distância até a garagem. Eu respirei fundo antes de voltar minha atenção para o aparelho celular em minhas mãos. Todos os quatro ocupantes daquele carro sabiam o que aquela mensagem significava e ainda assim, eu cliquei sobre o ícone de mensagem não lida assim que o carro foi desligado.
Esperava por uma nova foto de Angela, em meio as torturas doentias de Jacob, afinal era isso que ele tinha nos feito ver desde que ficou claro que Bella não iria ao seu encontro como ele desejava, mas a imagem que preencheu a tela me deixou confuso por um momento.
— Não é ela... – Eu disse baixo, o que fez Bella calar o choro e curvar o corpo em direção ao assento do carona, onde eu estava.
— O que é? – Ela sussurrou, a voz rouca, olhando por cima do meu ombro.
Eu reconheci a casa de boneca, em meio a um grande jardim, ao mesmo tempo que minha esposa. Soube disso pela forma como ela arfou.
Antes que eu pudesse mandar Jasper voltar a ligar o carro e nos tirar dali, Isabella já estava fora do carro.
— Bella... – Eu gritei por ela, perdendo preciosos segundos tentando me livrar do cinto de segurança, antes de finalmente deixar o carro e correr atrás dela.
Collin deixou seu próprio carro mais rápido do que eu, Jasper correu mais rápido do que eu... E ainda assim, nenhum de nós conseguiu alcançá-la antes que Bella estivesse de frente para a casinha de boneca que eu havia instalado em nosso jardim para a nossa filha, mas eu consegui ampará-la antes que ela alcançasse o chão, depois de seus joelhos cederem, após se deparar com o que quer que Jacob pudesse ter deixado lá.
— Não, não, não... – Eu a ouvi repetir, se agarrando a mim como se estivesse afundando em um mar revolto e eu pudesse impedi-la de se afogar. – Não...
Eu não precisei olhar para saber o que ela tinha visto, ainda assim puxei Bella para os meus braços, prendendo seu rosto contra o meu peito e lancei um olhar para o lugar que só deveria nos trazer risos, quando Sophia pudesse passar por aquelas portinhas e criar um mundo imaginário completamente diferente do que tínhamos lá dentro naquele momento.
Meus braços criaram vida e apertaram Isabella mais forte, enquanto ela continuava a repetir “não” como se fosse um mantra, como se isso pudesse mudar o fato de que não precisaríamos mais procurar por Angela. Ela estava ali, bem a nossa frente, coberta de sangue e hematomas, os olhos abertos como se tivesse nos encarando, sem vida. Mais uma prova do que Jacob Black seria capaz de fazer para ferir Bella.
Naquele momento todo o rancor pelo que Bella fez, motivada pela vontade de salvar uma amiga que já estava condenada, desapareceu e ficou apenas o desespero, o medo paralisante, a impotência... assim como um desproporcional e egoísta alivio.
Eu morreria, literalmente, morreria se fosse Isabella em vez de Angela, ao junto dela.
Tentando consolá-la, cheguei a conclusão de que mantê-la em uma redoma não adiantaria, não seria o bastante para impedir que nosso mundo fosse destruído um dia. Mas eu encontraria uma forma de parar essa loucura antes que fosse tarde demais para nós dois, não importa o que eu tivesse que fazer.
CONTINUA...
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