Notas iniciais
Boa leitura!

Capítulo 08

Eu queria ir atrás dele. Cada célula do meu corpo queria correr atrás de Edward e pedir, não, implorar para que ele devolvesse a coleira, que a colocasse de volta em meu pescoço, para que ele, nunca mais me olhasse daquela forma; Mas eu não conseguia me mexer, não importa o quanto desejasse, simplesmente não conseguia me mover.

Só percebi que chorava quando um soluço me trouxe de volta do transe em que estava presa.

De volta a realidade não fui capaz de reprimir as dúvidas que se alojavam em minha mente: Como o que acabou de acontecer aqui vai nos afetar? Quando ele disse “vermelho” se referia apenas ao restante do final de semana? Em algum momento eu voltaria a usar a sua coleira? Ainda teríamos um relacionamento?

Senti meu estomago se contraindo e antes que conseguisse me conter, corri em direção ao banheiro e deixei que meu corpo se livrasse de todo o lanche que Edward tinha me feito comer.

Exausta, me afundei no chão gelado e permiti que mais uma onda de lágrimas me atingisse.

Fechei os olhos por um instante e lembrei-me do lindo sorriso que avistei quando acordei, da forma como ele, gentilmente, me alimentou e me perguntei como o homem gentil que se preocupa com o fato de eu ter dormido demais e perdido a hora do almoço pôde ignorar o pânico evidente em meu olhar ao insinuar que estava disposto me fazer servir outro Dom. Simplesmente não se encaixava. Não era compatível com o Edward que conhecia, por quem era apaixonada.

Relutantemente abri os olhos e, sem ter a intenção, os posei sobre um discreto, porém, lindíssimo vestido preto. Lentamente me coloquei de pé e deslizei a mão pelo tecido macio. Era o que Edward desejava que eu vestisse hoje à noite.

Um aperto se formou em meio peito ao perceber que o traje a minha frente não se parecia, em nada, com que eu esperava. De alguma forma, que eu não saberia explicar, eu esperava encontrar algo parecia com o que Jacob me obrigava a usar. De alguma forma, eu esperava que Edward desejasse fazer dessa noite uma cópia das muitas que precisei compartilhar com Jacob e seus amigos. A constatação me obrigou a se curvar novamente sobre o vaso sanitário até que não existia mais nada em meu estomago que pudesse ser colocado para fora.

Até então, não tinha percebido que estava constantemente à espera de Edward começar a agir como Jacob. Que tinha tanto medo de ter que reviver aquelas experiências que qualquer indício de estar me aproximando de algo parecido me faria recuar, duvidar, tentar encontrar uma forma de me proteger, mesmo que no fundo do meu coração, eu sou soubesse que não existia, realmente, nada que eu precisasse temer.

Edward não era como Jacob. Ele já tinha deixado claro, com a forma como cuidava de mim, que nunca agiria da mesma forma, que nunca me machucaria propositalmente.

Sem me importar com o gosto amargo em minha boca ou com o fato de ainda estar enrolada em um amarrotado lençol, sai correndo.

Eu só precisava encontrar Edward e então dizer tudo o que sentia – de verdade. Ele ia entender, eu sabia que sim, porque ele conhecia a extensão do meu medo, porque ele sabia que eu simplesmente, ainda, não tinha sido capaz de superar tudo, digerir tudo.

Mas eu não o encontrei, nem no quarto que dividimos ou em seu escritório, em lugar algum. Ele não estava em casa.

Voltei a subir as escadas desejando que ele tivesse me deixado explicar ou que eu tivesse sido capaz de confiar.

Me enrosquei em nossa cama, agarrando seu travesseiro o mais forte que podia. E esperei. Esperei porque sabia que em algum momento ele voltaria e então eu poderia fazê-lo me ouvir.

...

Não dormi bem. Se é que posso chamar os poucos minutos em que estive adormecida de dormir. Edward não apareceu e eu passei boa parte da noite tentando ligar para o seu celular que, aparentemente, estava desligado. Sabia que ele estava chateado, que precisava de um pouco de tempo para si próprio, mas não conseguia evitar me sentir magoada. E preocupada.

E se algo tivesse acontecido?

Tentei, muito duramente, me concentrar em qualquer outra coisa mas era impossível. Mesmo enquanto me encarregava de arrumar o playroom e guardar as peças de roupa que deveria ter usado na noite anterior, ainda tinha ele em minha mente.

Uma noite inteira e boa parte da manhã tinha passado desde que o vi e meu coração estava tão apertado com a possibilidade de que ele não quisesse mais me ver... Que o “vermelho” significasse muito mais do que, apenas, o fim de semana.

Estava tentando, mais uma vez, ligar para o seu telefone quando ouvi a porta da sala sendo aberta e antes que eu pudesse me conter estava correndo em sua direção.

Ele não olhou em minha direção. Apenas seguiu em direção a bar e se serviu de um copo de wisky.

Eu estava a ponto de dizer algo, qualquer coisa, quando olhei ao redor e vi que não estávamos sozinhos.

Meu coração falhou duas batidas quando o senti tão... Decepcionado. Me doía profundamente não ser a submissa que ele merecia ter, mas ao mesmo tempo era absurdamente difícil deixar todas aquelas experiências ruins para trás.

Sua voz soou cansada aos meus ouvidos quando Edward se jogou no sofá, enquanto o casal a minha frente se acomodava.

– Bella, esses são Rosalie e Emmett... O casal que queria que conhecesse ontem... — Suspirou levemente — Rosalie é uma rainha... Emmett seu submisso... E eles são casados há dois anos.

Não tinha ideia de como estava meu rosto naquele momento, mas tinha certeza que meu choque não passou despercebido ao casal, já que o grandalhão sentado displicentemente a minha frente começou a gargalhar.

A loira escultural deu um leve tapa no braço dele.

– Isso não tem graça Emmett!

– Me desculpe, Baby! – Ele respondeu, sufocando a risada que não queria morrer.

– Nunca... — Senti minhas bochechas ficando quentes de vergonha, afinal, Edward era um Dom conhecido em todo o meio, e eu, sua submissa, reagia assim diante de um casal amigo — Desculpe...

– Bella não começou no D/s de modo convencional, Rose — Edward começou a falar, me cortando naquele momento — Um maldito sádico se passando por Dom não soube respeitar seus limites... E por isso propus que nos encontrássemos ontem... Para conversarmos.

A forma como ele enfatizou a palavra “conversarmos” não me passou despercebido e eu me senti encolher diante das pessoas a minha frente.

– Claro. – A belíssima loira a minha frente cruzou as pernas e tomou a mão do grandalhão entre as suas. — E agora, ela espera o momento que você será como ele...

Era estranho ouvir aquilo por outros lábios... Na verdade, parecia ainda pior ouvir em voz alta a realidade de meus medos estúpidos.

– Edward não é como ele! – Não era realmente a minha intenção alterar o tom de voz ou parecer petulante, especialmente quando o que ela disse era, nada menos, do que a verdade. Mas, eu, definitivamente, não aceitaria que alguém comparasse Edward a Jacob, quando claramente eles eram o oposto... Mesmo que inconscientemente eu mesma fizesse essa comparação.

Ela sorriu levemente para mim.

– Eu sei, querida... Se fosse não estaria tão interessado assim em te familiarizar com o BDSM de verdade... Isso é uma parte de nós, não temos como negar nossa essência... Mas temos que trabalhá-la para melhorar... Evoluir... Ser melhor para nossos parceiros...

Aquilo tudo fazia sentido para mim, afinal, o que mais queria era ser melhor para Edward. Superar meus medos e realmente me entregar a tudo o que ele poderia me oferecer... Mas ao mesmo tempo era tão difícil ignorar os fantasmas que me rodeavam.

Suspirei levemente.

– Isso é tão difícil! – Permiti que meu corpo afundasse na única poltrona vaga, realmente me sentindo cansada, emocional e fisicamente.

– O D/s é em resumo uma relação de confiança, Bella — E desta vez, foi Edward quem se manifestou — Não necessariamente de amor...

Não posso dizer que ouvir isso, de certa forma, não fez com que meu coração se tornasse menor. Afinal, eu já estava inegavelmente apaixonada por ele e ele estava a minha frente dizendo, com palavras suaves, é claro, que não sentia o mesmo... Para ele eu era, apenas, mais uma submissa. Alguém a quem ele iria, pacientemente, disciplinar, apresentar a arte da sedução, do prazer... Alguém que quando ele, finalmente, conseguisse transformar na submissa perfeita, talvez, perdesse o encanto, o que o prendia a mim.

Era exatamente essas coisas: atração, sedução, prazer, submissão, disciplina... que eu estava procurando quando decidi que o universo BDSM era o meu caminho. Eu não estava procurando por um conto de fadas. Não sou tão ingênua. Sabia que não encontraria o príncipe encantado, mas também não esperava encontrar nenhum vilão. Meus desejos eram simples: alguém em que eu pudesse confiar e me entregar, alguém com que eu tivesse um relacionamento capaz de proporcionar tanta luxuria que eu simplesmente não conseguisse pensar em nada mais do que ser dele.

Bom, as coisas não saíram como eu planejei. Nem de longe. E quando Edward apareceu e, exatamente como em um conto de fadas, me salvou de Jacob, eu passei a desejar algo mais... Nesse momento, eu também queria o coração dele.

– Mas de confiança... – Edward continuou, suspirou levemente, parecendo alheio a tudo que se passava em minha mente. — E eu preciso de sua confiança Bella... Preciso que confie em mim para saber o que é melhor para você.

– Eu confio... – Sussurrei porque, mesmo que não pudesse ter tudo o que desejava, não estava pronta para abrir mão do que poderia ter.

Eu poderia manter meus sentimentos sobre controle e ser, para Edward, apenas o que ele quisesse que eu fosse e aceitar, de bom grado, o que ele estivesse disposto a me dar.

Eu poderia, não é?

– Não o suficiente... – Ele se voltou em minha direção. — Quando falei em conhecer um casal, você nem ao menos cogitou a possibilidade de que a estivesse levando para simplesmente conhecer...

Isso era verdade. Eu não poderia negar, mas será que não era possível que ele entendesse como me sentia, como vivia, constantemente, amedrontada?

– Você não confiou em mim também... – Assim que as palavras deixaram a minha boca, eu desejei ter sido capaz de me manter calada.

Edward manteve seu olhar preso ao meu, sua expressão deixando claro que não conseguia entender o que eu quis dizer e para ser bem sincera, nem eu conseguia entender muito bem. Mas, agora que tinha começado não podia, simplesmente, voltar atrás.

– Eu disse “amarelo”... – Continuei, desviando meu olhar e o fixando em qualquer outro lugar que não fosse nele. – Porque estávamos indo além do que eu... – Parei por um instante, tentando encontrar uma palavra que expressasse o que eu queria dizer. – Me sentia confortável. – Balancei negativamente a cabeça, insatisfeita com a minha escolha. Isso nem chegava perto do que senti naquele momento. – O que eu quero dizer é que... Bom, você não confiou em mim para saber quando estávamos próximos de ultrapassar os meus limites... Você achou que apenas você saberia quando isso acontecesse...

Droga! Isso estava ficando ainda pior.

– E você realmente sabia melhor do que eu... – Me apressei em continuar, não querendo que ele pensasse que eu estava questionando a sua capacidade de saber o quando devemos parar ou não. Eu nunca faria isso, especialmente na frente de outras pessoas. – Mas, é que eu... eu estava com tanto medo. – Confessei, por fim.

– E do que exatamente você estava com medo? – Rosalie interferiu, impedindo que Edward respondesse e pela expressão no rosto dele, tenho certeza de que não seria exatamente uma resposta agradável. – O que você temia que acontecesse?

Me remexi inquieta, me sentindo, extremamente, desconfortável em ter essa conversa.

– Nós só queremos ajudar... – Emmett se manifestou. – é um pouco estranho, não é? Nós não nos conhecemos e você não tem motivo algum para ter essa conversa conosco. – Ele continuou, sem dar a menor importância para a forma como Rosalie e Edward o encarava. – Mas, eu imagino que, no fundo, seja exatamente o que você quer... — Ele fixou seu olhar em mim e o que viu o desanimou. – Bom, talvez eu esteja errado.

– Não me leve a mal... – Comecei sentindo que não me faria mal alguma ser honesta. – É só que... Eu nunca falei sobre isso com ninguém... Eu nunca cheguei a conhecer outras pessoas que...

– Outras pessoas como você? – Ele me interrompeu. – Que gostassem das mesmas coisas que você? Que não a julgassem como uma pervertida porque você aprecia um pouco de dor e submissão?

Eu apenas assenti porque ele estava absolutamente certo.

– Eu sei, exatamente, como é...

– O que você está tentando dizer? – Rosalie se virou em direção a ele, apertou a sua mão e o fez olhar diretamente nos olhos dela.

– Baby... – Emmett disse, antes que ela fosse capaz de continuar. – Você sabe que não há motivo algum para se preocupar. Eu não estou, nem de longe, com os mesmos problemas que Bella... – Ele desviou seu olhar para mim e sorriu. – Não me leve a mal Bella... – Então ele voltou sua atenção a Rose, sem dar importância ao aceno de cabeça que eu lhe dei. – Eu tenho você e Bella tem Edward... Isso é ótimo! Mas, existem coisas, sentimentos... Que, provavelmente, apenas outro submisso pode entender...

– Foi exatamente por isso que eu pensei que seria uma boa ideia... – Edward voltou a se pronunciar. – Eu pensei que seria uma boa ideia, apresentá-la a pessoas que vivem no mesmo meio, alguém com quem pudesse conversar, além de mim...

– Eu agradeço. – Respondi. – Isso é muito atencioso, como tudo o que você faz... De verdade, Edward. Eu não quis que as coisas acontecessem daquela forma, mas quando você disse que encontraríamos um casal, eu simplesmente não conseguisse evitar pensar que talvez... Que talvez você quisesse uma cena em conjunto ou que...

– Eu não compartilho! – Ele me interrompeu, a voz uma oitava mais alta. – Eu disse isso... Na verdade, foi uma das primeiras coisas que eu disse.

– Eu sei. – Devolvi. – Por favor, entenda que... Isso foi tudo o que eu vi e vivi até aqui... Edward, eu nunca socializei com outros casais como nós... Pode parecer absurdo o que eu vou dizer, mas na realidade em que eu vivi, isso simplesmente não existia.

Notas finais
Por favor me deixem saber o que acharam.