Despertar da Primavera

1 O novato de cabelo branco


Por alguma razão, o outono conseguia extrair o máximo de beleza possível da cidade luz da França. Talvez fosse pelas folhas das árvores nuas, que cobriam o chão das praças como a tinta num quadro branco. Uma mistura laranja-amarelada que parecia ser o próprio pôr do sol arrancado do céu e fixado na terra. Ou talvez fosse pelo clima frio, porém agradável, que forçava os cidadãos da cidade a usarem roupas mais espessas enquanto bebericavam uma xícara de chocolate quente, em algum dos vários cafés locais.

Essa era uma questão que Érick nunca soubera responder. Havia nascido e crescido naquela cidade, mas no auge dos seus dezessete anos não conseguia responder o porquê do outono lhe chamar tanta atenção. Mais que qualquer outro período, mais que qualquer outra estação. Era uma época praticamente mágica, que sempre resgatavas boas lembranças de sua memória. Então... por qual motivo estava tão triste em um dia que poderia ser um dos mais lindos que já vira? Ah, sim. A maldita workaholic que tinha o dever de chamar de mãe.

“Você irá para a faculdade de direito e futuramente herdará o negócio da família” – Insistira a mais velha durante o café da manhã, antes de iniciar um discurso sobre responsabilidade e comprometimento. Poucos minutos depois, Érick levantara da mesa e a deixara falando sozinha, quando decidiu ir caminhando até a escola.

Erick parou de caminhar em frente a um pequeno café, algumas quadras de distância de sua escola. O vidro estava um pouco embaçado pelo frio, dificultando ver o interior do lugar, e na porta de madeira velha e gasta algumas letras amarelo-mostarda davam nome ao estabelecimento. “Laurent’s coffee”. Pensou em seguir seu caminho, como sempre fazia, mas o cheiro leve que vinha de dentro fez seu estômago revirar de fome e quando se deu conta já estava abrindo a porta, com um pequeno sino anunciando sua entrada.

O interior do lugar era igualmente velho e simples. Ao lado de uma bancada, repleta de pequenos doces, havia uma pequena vitrine com alguns pães e croissants que pareciam ter acabado de sair do forno. Algumas mesas de madeira estavam espalhadas pelo pouco espaço, junto a cadeiras do mesmo material com pequenas almofadas coloridas em cima. O papel de parede amarelado descascava das paredes, apesar de tudo parecer absurdamente limpo.

— Tem certeza de que pegou tudo? – Uma voz feminina e levemente aguda chamou a atenção de Érick, que voltou sua vista para a estreita passagem atrás da vitrine de vidro. Quase que completamente escondida por um refrigerador, provavelmente levava até a cozinha.

— Sim, mãe. Pode ficar tranquila. – A resposta veio baixa, provavelmente de algum garoto.

Um momento depois, duas figuras cruzaram a passagem. Primeiro uma mulher baixa, usava um vestido florido recoberto pelo avental de cozinha, um pouco sujo de farinha. Seu cabelo escuro havia sido preso num coque alto e apertado. Ela não parava de gesticular com os braços, falando com alguém que Érick ainda não conseguia ver devido ao refrigerador.

— Eu não sei. Acho que devia ir com você, sabe que me preocupo com...

— Acho que você tem um cliente. – A mulher foi cortada pela outra figura que devia ser seu filho. Um garoto, apenas um pouco maior que ela própria, com roupas surradas que pareciam ser grandes demais para o seu tamanho. Érick acenou enquanto tentava enxergar melhor o rosto do outro, mas o capuz do casaco cinza que usava era grande o suficiente para cobri-lo quase que completamente, deixando escapar apenas as armações de seus óculos exageradamente grandes.

— Oh, sim! – A mulher virou-se, percebendo só naquele momento o adolescente de pé em frente a vitrine de pães. – Perdão meu querido, você vai querer alguma coisa? – Ela apoiou as mãos na bancada e abriu um largo sorriso, os olhos castanhos brilhavam.

— Estou indo. – Disse o outro, antes de disparar para fora do café como uma bala.

— Adrien! Espere aí garoto! – A mulher se exaltou e quase correu atrás dele, mas parou ao ver Érick com os lábios abertos, prestes a fazer seu pedido. Ela fez uma careta desgostosa, mas logo estava sorrindo novamente, embora os dedos tamborilassem nervosamente na bancada. – Peço desculpas mais uma vez, meu querido. Esse meu filho... um dia ainda me mata! Pode dizer o que vai querer.

— Eh... sim! Quero um desses croissants, por favor. Pode embrulhar pra viagem? – Ele questionou assim que se deu conta de que iria se atrasar caso demorasse muito.

— Claro, claro. Vai custar dois euros. – Informou ao colocar delicadamente o alimento numa embalagem de papel marrom. Recebendo o valor logo em seguida.

Érick despediu-se da mulher com um “bom dia”. Ela pareceu não lhe escutar, ocupada demais tentando retirar o avental que acabou ficando preso em sua cabeça. Parecia estar prestes a ir atrás do garoto que fugira dela, mas duas pessoas entraram no estabelecimento assim que ela abriu a porta. Érick ainda conseguiu ver sua careta seguida do sorriso mais uma vez, assim como seus braços balançando para cima e para baixo enquanto falava. Um sorriso pequeno formou-se em seu rosto quando virou uma esquina, e a senhora e seu café sumiram de sua vista.

Não demorou muito para que Érick chegasse à escola. Ou melhor, ao Colégio de Notre-Dame. Uma renomada instituição de ensino francesa, na qual estudava desde que se entendia por gente. A instituição era gigantesca, completamente cercada por muros, além de se dividir em três enormes blocos, cada um referente ao grau de ensino no qual o estudante se encontrava. Érick atravessou os portões de metal junto com alguns outros estudantes, acenando rapidamente para o porteiro, que segundo algumas lendas locais era tão velho quanto a própria escola.

O percurso até o prédio no qual estudava era um pouco longo, mas Érick não se importava muito. Não quando o caminho lhe proporcionava uma das mais belas visões que já tinha tido o prazer de ver. A entrada do colégio dava de frente para um longo corredor verde, no qual os galhos das árvores haviam se entrelaçado, originando um largo túnel. Especialmente nessa época do ano, um tapete natural de folhas alaranjadas acompanhava o trajeto até uma pequena fonte, rodeada de delicadas flores áster, num tom arroxeado. A partir daí, o percurso único se ramificava em três estradas curtas, como um tridente, que se dirigiam aos três blocos que comportavam os alunos.

Érick seguiu pelo caminho da direita, cumprimentando alguns conhecidos no momento em que acenavam para ele.

— Sabe... se você deixar sua cara só um pouco mais feia, vai conseguir derrubar o restante das folhas que ainda não caíram dos galhos das árvores.

A afirmação veio seguida de um soco leve no braço, fazendo Érick girar a cabeça por cima do ombro para poder ver quem havia se aproximado. Era pouco mais baixo que ele, de cabelo castanho escuro e olhos de mesma cor. Usava roupas grossas, devido ao frio, e um gorro espesso na cabeça.

— Está falando daquelas que não conseguiu derrubar quando passou? Obrigado pelo aviso. – Devolveu enquanto revirava os olhos.

— Babaca.

— Idiota. – Ambos sorriram.

— Problemas com a sua velha? – Louis questionou e Érick sorriu fraco. O amigo de infância realmente lhe conhecia muito bem.

— O mesmo de sempre. – Agora ambos caminhavam juntos, ultrapassando a entrada do bloco, rumo a sala de aulas. Atravessaram os longos e antigos corredores do colégio. Érick ponderou se valeria a pena iniciar uma discussão sobre o quanto detestava o modo que a mais velha controlava sua vida, mas decidiu que não valeria a pena. Por que piorar ainda mais seu humor em plena sexta? Ele realmente não sabia. Louis pareceu entender que ele não queria falar sobre o acontecido e se pôs a tentar mudar de assunto, tentando melhorar o humor do amigo.

Assim que dobraram um corredor que dava diretamente para um vasto aglomerado de armários metálicos, pintados num tom de dourado escuro, em contraste com o piso branco do local, Louis pediu um momento para pegar algo que havia esquecido.

— Fiquei sabendo que a Elaine vai dar uma festa na casa dela, amanhã à noite. – Louis comentou enquanto destrancava o seu armário e puxava de lá algumas folhas, com algumas anotações de literatura.

— Ficou sabendo? – Érick questionou, erguendo a sobrancelha enquanto um pequeno sorriso se formava em seus lábios. Louis riu baixo, fechando a porta do armário logo em seguida.

— Bom... talvez ela tenha me pedido para te convidar. – Ambos voltaram a caminhar. – Sabe. Na verdade, não consigo entender por que você não dá uma chance a ela. Não acha ela bonita? – Érick grunhiu antes de responder.

— Na realidade, acho que chamá-la de bonita é uma ofensa. Pessoas bonitas que são Elaine. – Louis gargalhou alto. Algumas pessoas próximas encararam ambos, apesar de eles não parecerem dar muita importância se estavam chamando atenção ou não.

— E então? Por que não sai com ela?

Érick refletiu um pouco antes de responder. Já tinha noção do interesse que a colega de classe possuía em si a alguns meses, mas nunca dera importância para esse fato. Além do mais, ela nunca viera falar sobre o assunto diretamente com ele, logo também nunca precisara se preocupar com uma possível resposta.

— Acho que nunca pensei sobre isso. – Respondeu com sinceridade. Acabaram parando em frente à porta da sala de aula. Na qual já havia um número considerável de pessoas dentro, apesar de o professor de literatura ainda não ter chegado. O que de certa forma era estranho, já que o homem sempre fazia questão de chegar vários minutos antes da aula começar.

Érick entrou primeiro, avistando o assunto da conversa anterior logo em seguida. Elaine era alta, tinha o cabelo castanho longo e encaracolado nas pontas, além de belos olhos na cor de âmbar. Conversava com algumas amigas e sorriu tímida quando seus olhares se encontraram, acenando rapidamente com uma das mãos. Érick sorriu e acenou de volta, antes de sentar-se numa cadeira ao lado da parede, atrás apenas de uma que já havia sido aparentemente ocupada, uma mochila um tanto desgastada marcava o lugar.

— Talvez esteja na hora de começar a pensar. – Louis sussurrou após sentar atrás do amigo, ao mesmo passo em que o rosto da garota se tornou vermelho como uma beterraba. – Espero que você vá amanhã. Na verdade, eu já disse que você iria, então é bom não me fazer passar por mentiroso. Vou te levar nem que tenha que invadir sua casa e te sequestrar.

A resposta de Érick foi cortada pelo som estridente do sinal tocando, indicando o início das aulas. Que logo foi seguido pela entrada do professor de literatura, um senhor de idade e bem-humorado, John Michel.

— Silêncio, meus jovens! Acalmem-se. Desculpem pelo atraso, mas estava ajudando o jovem... – Ele se interrompeu no meio da própria fala, olhando para os lados e parecendo confuso por um instante. Até que voltou seu olhar para a porta de entrada. – Oh! Aí está você. Não seja tímido, pode entrar.

Por um momento o sr. John permaneceu encarando a passagem, mesmo que ninguém passasse por ela. Até que ele ergueu uma das sobrancelhas e uma figura entrou, fechando a porta logo em seguida.

— B-Bom dia. – Érick franziu o cenho, intrigado. Reconhecia aquelas roupas de pouco mais cedo. Velhas e largas demais para o corpo do garoto. Agora, no entanto conseguia ver um pouco mais de seu rosto, ainda recoberto pelo enorme capuz do casaco que usava. Ele era branco como uma folha limpa de papel, ou como a neve que caia no inverno. Além disso, usava uma espécie de óculos, escuros o suficiente para que não conseguisse distinguir a coloração de seus olhos. Seus lábios eram finos e pouco rosados.

— Bom, meus jovens. Apresento-lhes o seu novo colega de turma. – O professor pôs uma das mãos no ombro do garoto, como se quisesse lhe passar um pouco de confiança. – Ele acabou de ser transferido de outra instituição e eu espero que o recebam muito bem. Vamos lá, meu jovem. Pode começar dizendo o seu nome?

— Ah, sim. – Ele respirou fundo, antes de continuar. – Eu me chamo Adrien. Adrien Laurent.

— Muito bem, jovem Adrien. Pedirei que alguém lhe apresente melhor o colégio, logo após o termino das aulas. Já pode ir sentar.

— Claro. – Ele deu de ombros e se apressou em sentar, no lugar vago em frente à Érick. Louis resmungou alguma coisa, mas foi ignorado pelo amigo, que tocou o ombro do novo colega de turma, tentando chamar sua atenção.

— Seja bem-vindo, Adrien. – Ele se virou. Érick demorou um pouco para perceber que uma de suas sobrancelhas estavam erguidas, pois até elas eram tão brancas quanto a sua pele. – Oh, desculpe. Meu nome é Érick. – Falou, erguendo uma de suas mãos.

O garoto inclinou a cabeça, fazendo alguns fios de cabelo escaparem para fora do capuz. Ele encarou a mão do outro por um instante, mas Érick não se deu conta, ocupado demais admirando o fato de até o cabelo do novato ser branco. Então Adrien apertou sua mão rapidamente, antes de voltar seu olhar para frente.

— Obrigado, Erick. – A resposta não passou de um sussurro.

Notas finais
E então?
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