Despertar - Livro 1
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Caso prefira deixar a imaginação voar, então apenas siga reto e tenha uma ótima leitura. Mas caso queira dar uma espiada no que imaginei para cada personagem, clica aqui: https://poetearss.tumblr.com/
PLAYLISTS:
Hyun - https://open.spotify.com/playlist/1J1W2K23qnC7zgus7MFf0s?si=72ca928dfc7b4c4c
Daisy - https://open.spotify.com/playlist/6LgMCSZbQ3REBQ3NS9ULKG?si=bf6d03f35dc241d7
Uma ótima leitura a todos!
"Há mais coisas no céu e terra, Horácio, do que foram sonhadas na sua filosofia."
Hamlet, William Shakespeare.
CAPÍTULO 1
Quando eu a vi pela primeira vez, o dia estava atipicamente sorridente; um daqueles dias em que o sol brilha tanto que ofusca os olhos e nos obriga a sorrir, seja por felicidade, pelo clima agradável, ou por te obrigar a torcer o rosto para enxergar algo. Eu, particularmente, não me incomodei em tecer algum tipo de estado mental relacionado a isso, visto que o clima apenas não me afetava. Aliás, nada me afetava e isso fazia parte do que eu era (ou do que devia ser), afinal, ceifadores não devem sentir. Essa condição me soava como uma bênção, afinal, como poderíamos realizar um trabalho tão desgastante como coletar almas e presenciar cenas de morte se ainda sentíssemos algo?
Eu observava o céu do fim de tarde em Seoul, ainda claro demais e provavelmente o meu favorito, apesar de já ter presenciado milhares de fins de tarde em incontáveis lugares do mundo. Mas havia algo brilhante demais nos pedaços de céu entre os imensos arranha-céus da cidade que eu adorava.
Havia acabado de comprar um chá gelado, pois o dia estava abafado e úmido, o que sempre me causava vontade de bebidas geladas e suaves, ainda que eu não tivesse a necessidade de me hidratar. Bebericando meu chá, tracei meu caminho até uma escola, onde minha coleta estaria. Gostaria muito de lembrar o nome da tal escola, mas aquela seria a primeira e a última vez na qual eu daria atenção àquele prédio.
O que me recordo é de pensar que para uma escola no distrito de Gangnam, aquela ali não parecia grande coisa. Uma estrutura alta de alvenaria, cheia de janelas das salas de aula e nada além disso. A parte mais chamativa era uma única parede de madeira envernizada que cobria todo um lado do prédio em formato de L. Nesta parede constava o símbolo da escola e seu nome, em um letreiro dourado em alto relevo, brilhante e imponente contra o sol. E mesmo coletando tantos detalhes estilísticos a seu respeito, não fui capaz de gravar seu nome.
Olhei para meu relógio de pulso buscando a confirmação de que estava no lugar certo, na hora certa, e lá estava: no visor do objeto, um círculo dourado piscava sete vezes, indicando que havia uma alma prestes a desencarnar há sete passos de mim. Depois do relógio, ainda existem mais algumas estratégias para reconhecermos nossa ceifa. Primeiro, recebemos uma lista diária de novas coletas, na qual constam nomes, locais e horários de morte. Ao chegar no local correto, passamos a ouvir um chiado agudo e crescente nos ouvidos conforme a aproximação da alma. Aí é só aguardar o sinal no relógio piscar de acordo com o número sagrado — 7 -, e procurar pela pela pessoa marcada e aqui é importante ressaltar a utilidade dessa marca para nós, ceifadores: quando se está em meio a uma multidão, saber que sua ceifa está há sete passos de você pode não bastar. Para facilitar essa identificação imediata, há um símbolo que inequivocamente surge entre as sobrancelhas, um pouco acima do nariz da pessoa. O círculo cíclico não é das marcas mais criativas já pensadas pelo pessoal lá de cima, mas ao menos possui um sentido claro: a morte é o ponto final do ciclo da vida e a volta à vida espiritual, é o fim e o começo, e por isso é representada primeiramente por um círculo, para que reconheçamos a coleta. Sessenta segundos antes da morte ocorrer, um ponto dourado e brilhante — chamado de ponto final — surge no centro da figura, então sabemos que é hora de trabalhar. É tudo muito simples, para ser sincero.
Ainda que fosse um dia perfeitamente normal dentro dos meus padrões, era um dos que eu não gostava. Eu odiava ceifar vidas jovens demais e a coleta daquela tarde era uma menina de 15 anos. Com o tempo eu iria me acostumar e entender os planos superiores, era o que eu me dizia sempre que situações desse tipo se apresentavam a mim, mas cá entre nós, eu estive nas duas grandes guerras, na Guerra da Coréia e em diversos outros grandes conflitos no sudoeste da Ásia ocorridos no século XX (e foram muitos). Eu vi mais pessoas frágeis e indefesas morrendo do que jamais poderia contar. Vilarejos inteiros e por vezes até cidades inteiras reduzidas a cinzas, sem que sobrasse ninguém para apontar culpados e inocentes, por mais que sempre existam as pessoas certas para ocupar ambos papéis. E mesmo com essa experiência de mais de um século como agente da morte, eu ainda não tinha me acostumado.
Foi durante meus devaneios que vi o sinal em seu rosto; uma menina tão completamente comum que passaria despercebida a qualquer um, mas não aos olhos da morte. Uma menina que caminhava distraidamente, com um sorriso radiante, um sorriso grande demais para seu pequeno corpo, se encaminhando rapidamente para a faixa de segurança. Ela falava enfaticamente e ouvia com muita atenção os comentários feitos pelos amigos ao seu redor. Para ela era um dia qualquer: ela e seus colegas fariam um lanche na cafeteria mais próxima, que ficava do outro lado da rua, e provavelmente voltariam para a escola onde ficariam até finalizarem suas lições extracurriculares, como era de costume para jovens coreanos. A tal garota jamais poderia imaginar que faltavam exatos sessenta segundos para sua inevitável morte e que a parte mais trágica era o fato de que ela seria a única a morrer, pois ao pisar no meio-fio, de costas para a estrada por estar focada demais em seus amigos, ela perderia o equilíbrio e daria alguns passos acidentais em direção ao meio da rua no exato momento em que um motorista — no meio de uma ligação — estaria passando há mais de 90 quilômetros por hora. Seria uma cena traumatizante para os observadores e uma morte dolorosa para a vítima. Na passagem daqueles segundos, pude ver toda essa história se desenrolando e, ao voltar a mim, faltavam apenas quinze segundos.
É agora, eu pensei. E ao pensar, algo incrivelmente incomum ocorreu naquele cenário comum: eu senti. Não saberia dizer o quê ou como, mas senti, e no momento não foi apenas a compreensão de que eu não deveria sentir nada que me atingiu fortemente, mas sim a excruciante dor que me jogou de joelhos no chão. Uma dor em todo lugar e em lugar nenhum; me doía o peito assim como me doía existir, ali, naqueles quinze segundos. O simples movimento de puxar ar se tornou impossível como se algo dentro de mim estivesse se contorcendo e quebrando em micro-pedaços. Não me entenda mal! Antes disso eu nunca havia experienciado a dor e portanto não sabia como curar essa sensação, mas aqueles poucos segundos se tornaram eternos para mim e tudo pareceu acontecer muito lentamente. Ajoelhado ali, comecei a me lembrar de quando assisti em um noticiário humano que, em situações de muito estresse, as pessoas recebiam altas cargas de adrenalina e podiam adquirir força e resistência sobre-humanas, principalmente se alguém com quem elas se importavam estava em perigo. Bem, por alguma razão, eu me importei com aquela garota e o simples pensamento de vê-la morrer quase me matou, ainda que eu nem ao menos pudesse me considerar vivo.
Foi nesse instante que eu tomei o tipo de decisão que apenas humanos adrenalizados tomam: com apenas cinco segundos sobrando, saltei aqueles sete passos até a garota, posicionando-me ligeiramente atrás dela e, assim, conseguindo segurá-la pela cintura, ajudando-a a recuperar o equilíbrio e voltar para a calçada. Enquanto ela girava seu pequeno corpo para ver o que havia a tocado, o carro que deveria atropelá-la passou como um rabisco no asfalto sem fazer vítima alguma. Mas eu, chocado demais com a improvável situação, continuei parado ali, atrás dela, por tempo o suficiente para que ela conseguisse me mirar exatamente nos olhos. Só ao perceber os olhos arregalados de quem viu algo muito assustador no rosto da garota que minha consciência pareceu voltar e eu consegui retornar a minha forma invisível, sumindo bem na frente dela. Fiquei ali apenas por tempo suficiente para vê-la adquirindo um tom extremamente pálido em sua pele e tentando dizer, entre suspiros de extremo pavor, que achava que tinha visto um fantasma.
Eu nem precisaria informar-lhe de que um ceifador jamais, em hipótese alguma, deve aparecer ou desaparecer debaixo dos olhos de um humano. Nós poderíamos interagir até certo nível; ir a restaurantes e supermercados, dar passeios e ir ao cinema. Afinal, uma eternidade pode se tornar tediosa de viver quando se está sozinho, e portanto nada disso era proibido desde que conseguíssemos parecer suficientemente humanos e não os deixássemos desconfiar de alguma origem sobrenatural. E o mais importante de tudo: nunca criar laços com humanos. A minha incrível façanha foi conseguir quebrar todas essas regras em questão de segundos e não apenas criar um laço com aquela humana, como também amarrá-lo em volta do meu pescoço. Com toda a falta de sentido que eu estava experienciando pela primeira vez em 152 anos, meu primeiro pensamento foi ir para bem longe, o mais longe possível dali e daquela garota que sem nem imaginar tinha acabado de causar minha possível condenação eterna.
Com apenas um pensamento me teletransportei para a Coleta, o lar dos ceifadores. Era bom estar em solo seguro, conhecido e estável; um lugar no qual não existiam perigos para mim ou para minha condição como ser. Eu nunca me senti tão em casa na Coleta como naquele dia. Atravessei a campina, finalmente conseguindo respirar. Absorvi ao máximo cada detalhe daquele cenário que eu já conhecia de cor; o vasto campo sem árvores, com bastante espaço para as milhares de cabanas perfeitamente alinhadas que abrigavam os ceifadores, e a floresta densa e fechada que cercava todos os cantos do horizonte da campina. À primeira vista podia-se pensar que nada mais havia depois das árvores, porém era lá que ficava o local mais sagrado para nós: a passagem. O imenso lago de águas transparentes que refletiam as cores do céu — sempre alaranjadas, como num pôr do sul eterno — sem ondas, sem peixes, sem movimentação. Era totalmente estático porque não era um lago de verdade, mas sim um tipo de espelho que nos levava ao mundo humano todos os dias. Para atravessar bastava mergulhar.
Sempre gostei de sentar às margens da passagem e me permitir não pensar em nada por algum tempo antes de descer para o trabalho, porém, ironicamente, aquele era o último lugar que eu queria ver naquele dia. Tudo que eu queria era ver Azir e Kahli, meus amigos. E talvez com eles encontrar uma solução para a situação que provavelmente me condenaria a danação eterna.
Notas finais
Até logo!
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