Despertar De Um Pesadelo

2 Quando eu tento te ligar.


Não. Definitivamente não. Kouyou se recusaria acreditar até perder as forças naquela ligação estranha que Takanori acabara de dar, afinal, se o Yuu estivesse em Tóquio ele já teria entrado em contato, não é? Ele provavelmente teria ido procurá-lo há muito tempo. Isso era certo.

—Foi a pior mentira que me contaram! –Kouyou gritou enquanto derrubava alguns porta-retratos de cima do móvel. Tampou os ouvidos e se encolheu no assoalho gelado, respirava fundo para não começar uma crise de choro.

Seu raciocínio estava bagunçado e seu coração reclamava. Ele permaneceu deitado ali por várias horas, não sentia vontade de se levantar e provavelmente não iria. Respirava fundo e sentia o cheiro da madeira se fundir ao cheiro da solidão, cheiro que reconhecia com bastante freqüência.

Entretanto, uma parte protestou contra o ato de ficar deitado ali. Essa mesma parte o fazia pensar que era errado ficar se remoendo, se condenando por ficar parado enquanto uma única oportunidade de rever Yuu aparecera. Esses pensamentos o fizeram sentar, ajeitando o cabelo castanho escuro e secar as insistentes lágrimas.

Se aquilo fosse mesmo comprovado, se Yuu estivesse em Tóquio e estivesse por perto, Kouyou iria achá-lo. O encontraria e estaria disposto a escutá-lo, Yuu devia uma explicação para ele e não ia passar em branco. Sem querer pensar duas vezes e antes que desistisse da ideia, pegou o telefone e tentou buscar no fundo de sua memória aqueles números que um dia soube de cabeça. Os números de Takanori.

No primeiro, toque seu coração parecia que explodiria. No segundo toque, uma angústia começava a apertar ainda mais aquele coração frio. No terceiro, a impaciência e a vontade de desligar começavam a falar mais alto. No quarto toque...

—Uruha!! – A voz do outro lado saiu quase desesperada.-Finalmente consegui falar com você!

—Takanori-san... –A voz saiu com um leve tom choroso – Vocês estão mentindo, não é? Não viram o Yuu.

—O assunto é sério, eu não mentiria. É verdade!! Eu tentei segui-lo, mas não consegui depois que ele entrou em um táxi. Tenho quase certeza que é ele, eu o vi sair de uma empresa, passei por lá depois de ter o perdido de vista.

—Quase certeza não quer dizer que seja. – O tom que Kouyou usava era frio. Porque tudo parecia tão gelado quando se tratava dele?

—Posso passar ai para conversarmos? Têm mais uma coisa que precisa saber do Aoi.

Silêncio. Takanori nunca usava aquele tom de voz. Um tom sério demais para o próprio, mesmo que ele fosse estressado demais.

—Claro. –Foi tudo que conseguiu falar.

Após Takanori dizer que só passaria lá na manhã seguinte, Kouyou desligou o telefone. Estava mentalmente exausto. As lembranças invadiam cada parte do apartamento, centímetro por centímetro.

Não eram as melhores lembranças, ao contrário. As lembranças eram dolorosas e amargas, machucavam, o matavam a cada instante que se lembrava dela. As vozes, as coisas que havia passado antigamente por causa das pessoas que conheceu. Chegou até a se perguntar como o próprio Yuu o aguentara durante os cinco anos em que se conheciam.

Olhou para as escadas que levavam ao segundo andar da casa, não queria acordar o irmão mais velho. Ele não tem que se incomodar com os problemas alheios.

Porque Kouyou está discando o número do telefone de Yuu se sabe que ninguém atenderá? Ninguém nunca atendeu, certo? Pare Kouyou, você está se deixando morrer aos poucos, se afundando ainda mais.


Não disque esses números, pare!


Não espere a ligação cair novamente, você está se torturando com isso. Ele nunca atenderá. Terceiro toque, a sensação de vazio que está dentro de Kouyou continua o mesmo. Sexto toque, a ligação logo vai cair mais uma vez, como milhões de tentativas.

—Moshi moshi? – Uma voz soou do outro lado da linha.

Kouyou, porque não desligou enquanto havia tempo? Foi como se o mundo tivesse parado naquele instante, foi como se a temperatura ambiente tivesse caído com brusquidão novamente. Você ainda tinha dignidade, Kouyou. Agora, por decidir dar um telefonema, ela se acabou.

Notas finais
Eu queria primeiramente explicar que todos os capítulos serão curtos. Eu tomei gosto por capítulos curtos. É o que alguns dizem: A qualidade está no conteúdo, não no tamanho (u_u)