Despertar

1 Despertar


Na vida só temos uma certeza, a morte.

Ditado Popular

Toda regra tem sua exceção.

Ditado Popular

Cada passo que dou em direção a verdade, são dois em direção a loucura. E a cada passo que dou em direção ao poder, ele dá um em direção a fraqueza. A questão é; Vou chegar até a verdade antes de enlouquecer?

Há 30 anos vivo nessa cidade enegrecida pela fuligem que os carros jogam no ar. Há 30 anos vejo homens céticos se revezarem no poder. Alguns carecas, outros cabeludos, muitos brancos e poucos negros. Nunca a mesma pessoa, sempre a mesma alma encardida.

Foi em um bar, desses imundos que descobri quem eu sou. Foi tudo por acaso que quebraram-me um feitiço. Entrei ao acaso naquele bar, minhas pernas não agüentavam mais vagar pela noite. Aquele sangue preto impregnado na minha calça jeans já não me aborrecia.

Ultimamente eu estava constantemente nervoso. Minha mente me dizia que algo macabro estava para acontecer.

Muitos olhos me observavam, mas não senti nem reparei em nenhum. Pedi apenas uma dose dupla de whisky para o barman velho e fedorento. Em outro dia teria notado naquelas unhas podres e pretas de sujeira, mas não hoje, hoje eu não ligaria para nada.

Um sujeito alto e negro esbarrou em mim bruscamente, derrubei boa parte da minha bebida no chão. Me virei furioso, mas minha ira esbarrou naqueles olhos infernais. Pude ver as trevas dentro de seus olhos negros como a noite.

Ele apenas me apontou a porta, como se me ordenasse para sair. Disse que aquele não era um lugar para o meu tipinho. Mesmo me “borrando” de medo eu não pude aceitar. Já que minha alma não tinha forças para revidar aqueles olhos, eu apenas me virei e ignorei o negro.

A sua maldade crescente tocava minha alma, eu sentia ela a corromper pouco a pouco,até a enegrecer por completo. Até eu me sentir um demônio poderoso e mal.

Ele me tocou firme nos ombros. Esse foi seu erro e provavelmente o meu. Não pensei, apenas deixei minha alma enegrecida me levar. Virei-me de supetão acertando-o um soco no rosto. Minha força foi multiplicada por mil homens. O homem voou com a força do meu soco, e bateu na parede aposta.

Minha fúria misturava-se com o medo de tê-lo matado e a incredulidade de minha força descomunal. Sentia porém que foi só um momento de força, que mesmo furioso eu voltei a ser o ser humano comum que sempre fui.

Ele permaneceu ali deitado, todos no bar vagavam os olhos entre mim e ele. Não pareciam me temer, mas surpresos. Durante segundos que me pareceram eras ele nem respirou. Eu já não sentia sua aura perversa, suas pernas retorcidas em um ângulo estranho me davam arrepios. E meus arrepios me davam náuseas.

Aos poucos minhas pernas foram congelando, e junto delas meu corpo. Eu não conseguia mexer meu corpo. A maligna alma se estendia mais uma vez até mim. Mas dessa vez não corrompia-me, mas me devorava, se alimentava no meu desespero.Escutei um estralar vindo do negro no chão e aos poucos ele foi se recuperando. Primeiro moveu o pescoço lentamente e depois as pernas.

Quando ele finalmente ficou de pé eu já tinha sujado as calças. Não pude sentir o que acontecia comigo, minha atenção era atraída pelo demônio que vinha em minha direção.

Pensei que ia ser golpeado, espancado até a morte. Mas ele não era tão bonzinho assim. Quando chegou perto de mim, me imobilizou com aqueles olhos de trevas. Ele tocou com a mão esquerda minha testa.

Foi como cair em um abismo. Primeiro tudo ao meu redor ficou negro. Ouvi vozes me chamarem para escuridão e eu fui. Fui cada vez mais profundo e cada vez mais doloroso era. Olhos me esperavam no fundo, olhos vermelhos e brilhantes, sedentos por mim e pela aquilo que eu representava.

Eu já não via o que acontecia no bar, estava olhando para dentro de mim mesmo e o que vi m machucou. O negro estava em algum lugar dentro da minha mente. E minha mente sabia de coisas que meu consciente ignorava. Minha mente pedia para ser libertada, e eu me negava por algum motivo. Entramos em conflito, mas o estranho ainda estava na espreita para me fazer sofrer. Para me puxar pra baixo.

Não pude agüentaraquele sentimento de desesperança, não pude lutar com dois adversários ao mesmo tempo. Desisti e lembrei. Minha mente foi solta e meus antigos instintos também. Como um animal feroz ela livre da mágica que a repreendia atacou o estranho que nos fazia mal.

Eu adormeci para realmente acordar. Voltei a me sentir na escuridão, mas desta vez eu era a escuridão. Ele também sentia que perdia o controle sobre mim.

Enquanto meus lábios se contorciam em palavras desconhecidas o homem sentiu-se agarrado por uma maldade maior que a sua. Sentiu o sangue gelar o coração ser esmagado pouco a pouco.

Gritou como um porco. Um ultimo pedido de socorro. Largou de minha testa e caiu tremendo no chão. Ainda cambaleando correu em direção a porta. Eu poderia ter pego mas o deixei ir. Afinal eu devia minha liberdade a ele. Ele correu, fugiu tremendo por sua vida que acabaria em dali alguns dias.

Quando o mago me tocou e me infligiu uma dor na alma, a magia de meu irmão se quebrou. Eu finalmente lembrei. Que como ele eu sou um imortal. Os dois únicos verdadeiros imortais. Vampiros podem ser queimados pelo sol. Feitiços de imortalidades podem ser quebrados, cabeças cortadas. Mas nós? Nós somos os verdadeiros imortais. A origem da nossa imortalidade a muito se perdeu. Mas nós temos todo o tempo do mundo para descobrir como isso aconteceu.

Lembrei que tenho muito mais que 30 anos, e que na verdade não sou um homem, mas um ser assexuado. Lembrei que tenho cede por maldades. E que meu irmão me aprisionou em mim mesmo. Lembrei que posso mudar de forma e que ele também pode.

Hoje sei que cada mais forte um, mais fraco o outro. Por isso ainda não o posso aprisionar. Mas hoje começa minha caçada.

Juntos controlamos essa cidade por incontáveis dias, mas ele me traiu e merece o cárcere que me pregou. Cheio de tristezas e futilidades.

Nosso plano era assumir o poder eternamente. Enquanto um liderava a cidade o outro falsamente fazia sua oposição. E quando um caia para o outro ascender ao poder, o outro mudava de forma para assumir uma nova revolução, uma nova oposição.

Assim poderíamos eternamente ascender ao poder, sem nunca se preocupar realmente como os inimigos. É sempre mais difícil manter-se no topo do que chegar ao topo, mas quando não há ninguém pra lhe ameaçar, isso se torna tarefa fácil.

Essa é minha historia. Ou melhor dizendo esse é só o começo de mais uma historia. Pois minha historia remonta de tempos incomtaveis.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!