Despedindo-se de Peter Pan
12 XII - Um dia especial
– Hoje é um dia especial. — Eu sussurrei para mim mesma enquanto me olhava no espelho. Meu reflexo me agradava. Eu usava uma camisa regata, branca, folgada, com um short jeans. Nos pés, um tênis de cano alto, dobrado e num tom claro de verde. Meus cabelos presos num rabo de cavalo alto, e uma série de colares pendurados ao pescoço. Os pulsos com algumas pulseiras, e os brincos com com algumas orelhas. Ops... É, hoje é um dia especial, eu estava ansiosa.
Saí do banheiro com cautela para não acordar Peter, e logo fui para a cozinha.
Na mesa, uma bandeja com frutas, torradas, suco de laranja e um pedaço de bolo estava em cima da mesa, junto com um bilhete de Pan. Sua letra era firme, o papel devia sentir dor ao ter a caneta de Peter escrevendo sobre si.
"Hoje é um dia especial"
Dizia no bilhete. Eu sorri instintivamente e passei os dedos por cima da caligrafia de Pan. Após o desjejum, eu tomei um banho quente. Era inverno na Inglaterra, e meus casacos pareciam mais quentes agora que era eu quem os escolhia. Minhas meias mais confortáveis, e aquela terça-feira, estranhamente mais agradável.
Quando Peter acordou, eu estava perto de sair. Hoje era o último dia de aula das minhas turmas antes das férias de inverno, o que significava que não daria aulas de verdade. Seria um dia mais divertido para as minhas crianças.
Ele foi ao banheiro, se demorou o suficiente para um banho, e logo encontrou-se comigo na cozinha, terminando de preparar o café-da-manhã dele. Eu já tinha lavado tudo o que ele havia deixado para mim, e guardado o bilhete num dos meus cadernos.
– Bom dia. — Ele cumprimentou, e beijou-me a testa antes de se sentar diante do balcão.
A nossa cozinha era pequena e confortável, com um estilo até bastante moderno, diferente do resto do apartamento. Tudo em inox e vidro, havia um balcão comprido onde comíamos, preparávamos as refeições e deixávamos os pratos para secar. Apenas nós dois, não havia razão para precisar de algo mais.
– Bom dia. — Cumprimentei de volta.
– Já tomou café? — Ele perguntou, quase serio. Havia um tom de brincadeira no olhar.
– Vagamente. — Respondi continuando a encenação. Era como se fosse um dia comum, mas era um dia especial.
Depois de deixar o café dele, beijei-lhe os lábios suavemente e parti.
Meu dia foi interessantemente divertido, com aquele toque inevitável de ansiedade. Hoje era um dia especial, e eu mal podia esperar para ver o que me aguardava em casa.
Passei em algumas lojas e logo corri para o apartamento. Estava todo apagado, o que me interessou.
– Peter? — Chamei cantarolando seu nome, como se o caçasse.
Caminhei pela sala, lentamente, tentando enxergar. Já era noite há quase uma hora, e a casa estava um completo breu. Me aproximei do sofá e o tateei, em busca de qualquer coisa que pudesse me dar algum sinal dele. Um sorriso não queria sumir do meu rosto. Peter fizera alguma surpresa para mim.
Não havia nada no sofá, então eu olhei atrás dele. Nada também.
Fui para o nosso quarto com cautela, e abri a porta devagar. Não conseguia enxergar, então fui tateando pelo colchão, mas não havia nenhum objeto em cima dela. E definitivamente não havia nenhum Peter. Eu sentei na cama, imaginando onde estaria. Não consegui ouvir nada, nenhuma pista. Estava procurando errado.
Depois de vários minutos procurando na completa escuridão, eu liguei todas as luzes. Eu não estava procurando errado, Peter simplesmente não estava em lugar algum do apartamento. Franzi o cenho, um tanto decepcionada, e fui tomar um banho.
Pensei em ligar para ele, mas olhava para a minha bolsa constantemente, sabendo que o presente estava ali. No balcão da cozinha, a comida que eu comprara para fazer um jantar especial.
Suspirei e decidi começar. Eu ia fazer seu prato preferido, chamado Sapo no Buraco. Era engraçado que uma comida tão comum fosse a sua preferida. Sapo no Buraco era simplesmente um prato de massa onde se colocava salsichas dentro, e assava, logo depois cobrindo tudo com molho de madeira e cebola roxa.
Era um prato simples de se fazer, e o deixei no forno para não esfriar. Arrumei a mesinha da sala com uma toalha branca, e coloquei os pratos, talheres, e duas taças, assim como o balde com gelo e o nosso vinho preferido.
Coloquei um vestido simples que eu tinha, e que Peter achava bonito em mim. Era num tom muito claro de verde, e tinha um laço nas minhas costas feito com uma faixa que modelava-me a cintura. Os cabelos presos num rabo de cavalo alto, mas com alguns fios caídos para todos os lados.
Eu me sentei no sofá com as pernas embaixo do corpo, e me encarei no reflexo da TV desligada.
Alguns longos minutos se passaram, até que eu decidi que eu devia, definitivamente, soltar o cabelo. Eu o fiz e me arrumei, ali mesmo, fazendo a TV de espelho.
Mais alguns longos minutos se passaram, minutos que na verdade eram horas, e logo me vi bebericando um pouco do vinho, e ainda esperando Peter.
Suspirei profundamente, e foi a última coisa que fiz antes de ficar preocupada. Peter não chegava tão tarde em casa. Um lado de mim imaginava que ele podia estar planejando uma surpresa, mas outro lado imaginava que algo podia ter acontecido.
Eu confiava em Peter, e ele sabia se virar.
Então para tirar qualquer um dos dois pensamentos da mente, eu liguei a televisão.
Chateada? Claro.
Alguns programas me distraíam por alguns minutos, até que chegava o comercial e eu fitava a porta, desamparada.
Compre já o seu próprio grill...
As vozes dos comerciais me deixavam mais entediada do que nunca. Eu me levantei para pegar um pedaço do Sapo no Buraco, simplesmente porque já havia passado muito da hora da janta, e eu estava com muita fome.
É queima de estoque, você não pode perder!
Eu olhei para a minha bolsa e tirei de lá o presente embrulhado.
Era uma caixa pequena e simples, envolvida num papel de presente azul. A verdade é que era um teste de gravidez. Eu e Peter Pan teríamos um filho! Aquele era o presente, aquela era a notícia mais maravilhosa dos últimos anos.
Mas agora, o pai da minha criança havia simplesmente desaparecido.
Fique agora com as notícias de última hora sobre o trânsito!
Olhei para o meu celular, desnorteada. A preocupação já tomava conta da maior parte dos meus pensamentos, então eu resolvi ligar para ele. Chamava, mas ninguém atendia.
E parece que o engarrafamento está piorando na interestadual...
Liguei mais uma vez, mas ninguém atendia. Eu liguei para o trabalho dele, e para todos que eu achava que podiam saber alguma notícia dele. Àquele ponto, eu pedia para que fosse uma surpresa, uma brincadeira de mal gosto.
... depois de um acidente logo após o viaduto...
Liguei para ele mais uma vez, e para minha surpresa alguém atendeu.
– Alô? — Atendeu uma voz feminina, inquieta do outro lado. Estava barulhento e parecia haver muitas pessoas por perto.
– Que é você? — Eu perguntei. Ela tentou responder algo, mas eu ouvia muitas outras vozes do outro lado da linha.
– Ele não quer largar, conseguiram alguma identidade? — Berrava uma voz distante.
– Cadê o Peter?! — Eu gritei, entrando em pânico.
Foi quando eu finalmente olhei para a TV e vi uma imagem aérea de um acidente. Havia um caminhão e um carro estraçalhado, o segundo havia capotado.
É inimaginável a dor que senti no coração quando reconheci o carro. Desliguei o celular imediatamente e peguei um sobretudo qualquer, me calcei e liguei para a central de taxis.
Pedi, desesperadamente, por um taxi que demorou cerca de 4 minutos para chegar. Dei as coordenadas para aquele exato ponto da interestadual. As ambulâncias não estavam conseguindo chegar lá por causa do trânsito, e não era um taxi que conseguiria.
Eu estava em pânico.
Saí do carro, deixando tudo lá. Minha bolsa e qualquer outra coisa que estivesse carregando. O céu estava cinza, parecia que ia chover, tinha poucas pessoas nas calçadas. Mas os carros pareciam se multiplicar. Eu corri por monutos que pareciam horas. Não sei ao certo o quanto, mas cheguei lá antes de qualquer ambulância, e encontrei Peter.
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