Despedida
1 DESPEDIDA
Após o DCP ( Departamento de Controle Planetário) descobrir a ameaça iminente do mundo acabar quando o meteoro intitulado de névoa atingi-lo ordenou vários pares aleatórios a tomar seus postos em cima de grandes montanhas, onde seria possível ter uma bela visão da explosão que seria ocasionada pelo meteoro.
Certificaram-se de ser um homem e uma mulher que nunca se conheceram antes, não importava a classe e nem a idade, numa conferência de imprensa o dono do departamento afirmou o seguinte como finalidade de certo ato: “Estamos fazendo isso como um modo de ninguém morrer sozinho, proporcionando um fim diferente, magistral!”.
Muitos se revoltaram com a medida proveniente do Controle Planetário, muitos queriam ficar com suas famílias, mas no fim, no fim foi tudo diferente, o maior poderio militar pôs todos que se opuseram na reta, muitos se suicidaram de cima das montanhas, alguns casais prevaleceram até a colisão, o casal de Kaik e Maria foi um deles.
Primeiro chegou Kaik que se acomodou no pico da montanha, ficou observando a vegetação clara e modificada pelo homem, Kaik tinha cabelos longos e uma barba em perfeito estado, vestia uma blusa do The Rolling Stones, uma calça preta e uma bota suja, depois chegou Maria com seu suéter sobre a camisa listrada rosa e branca, meias azuis marinho que iam até o joelho e um sapato de sapateado .
Sentou ao seu lado, esticou as pernas e por cerca de dois minutos ecoou o silêncio, até que Kaik puxou conversa do modo mais simples.
— Qual seu nome?
— Olha para o horizonte... O que você vê? Seja sincero.
— Eu não vejo nada.
— Então... Eu não sou nada.
Kaik a encarou por um lapso de milésimos se perguntando qual a finalidade daquela resposta, sem reação.
— Sabe? Eu não entendi nada até agora porque o Departamento nos mandou para as montanhas.
— Sério? — Kaik respondeu seco, sem a intenção.
— Cara, para que isso? Poderíamos morrer lá em baixo de boa!
— É só se jogar.
Kaik falava com um tom alegórico em sua voz, observando Maria a cada palavra, cabelos negros, olhos verdes e jeito de colegial.
— Não está muito para conversa hoje não é?
— Como você percebeu isso?
— Você é bem irônica... Não queria estar aqui? Eu também não.
— Dá para você ficar calado?
— Me desculpa ai lady .
O clima ficou tenso, Maria parecia marrenta aos olhares de Kaik, dois completamente desconhecidos aprendendo de novo a lidar, Maria como se estivesse arrependida respondeu o seu nome.
— Meu nome é Maria.
— Prazer Maria, meu nome é Kaik.
— Pronto? Feliz? Agora sabe o meu nome.
— Você é daqui?
— Roman City? Não... Nasci em Maik.
— Eu sempre viajava para lá com uns amigos, fazia uns shows lá perto.
— Tinha uma banda?
— Sim, chamava Os Pesadões, só peso pesado tinha na minha banda!
— Eu sempre quis ter uma banda... Meu pai sempre quis que eu fosse bióloga, desisti da música.
— Que pena moça, eu curto rock e você?
— Pop.
— Nunca imaginei morrer assim...
— Queria morrer como?
— Morte natural, seria ótimo, aproveitar a vida ao máximo e depois partir.
— Eu não pensava na minha morte, agora um meteoro está prestes a cair.
— Vamos esperar, vamos falar sobre alguma outra coisa, como era a sua vida?
— Entediante...
— Está em que ano?
— Segundo ano da faculdade.
— Depois do terceiro colegial eu parei os estudos.
— Os professores são entediantes, as amigas são chatas, meu pai me obriga a tudo e eu sou chamada de patricinha.
— Isso é bem ruim! Estuda onde?
— Last Birthday School.
— Caramba, lá é muito bom, só entra os ricos.
— Não entra só os ricos, só entra quem estuda!
— Os pobres não estudam então?
— Para com isso! Você largou os estudos e por isso não entra, isso me diferencia de você!
— Arrogan...
— Que?
— Nada, nada não.
Kaik pensou: “Que menina arrogante!”.
— Quer falar sobre o que Maria?
— Nada.
— Vamos falar sobre coisas das nossas vidas, conceitos.
— Conceitos? Tem certeza?
— Era o melhor na aula de filosofia.
— Conceitos não têm muito a haver com isso.
— Tem sim, se eu usar figuras de linguagem pode parecer.
— Pode parecer, mas não tem haver.
— Ok, ok, você venceu.
— Conceito sobre o que?
— Vamos fazer o seguinte, você me fala o seu conceito e me diz alguma experiência relacionada a ele.
— Ok, vou falar pouco.
— Amor... Seu conceito?
— Pensei em algo mais culto, mas tudo bem.
— Fala.
— Afeto incomparável por qualquer coisa, momento, pessoa, objeto.
— Diferença entre gostar e amar então?
— Sua vez agora, o que é amor para você?
— Sentimento cordial derivado do gostar, só que mais forte e mais singelo.
— Bem diversificado.
— Agora me responde qual a diferença!
— Acredito que gostar é quando é da noite para o dia, já amar precisa ser construído, dia após dia, gostar seria um pré-requisito para o amor, não existe amor sem gostar, existe gostar sem amar.
— Você é mais inteligente do que parece.
— Você que é facilmente impressionável.
— Vou levar isso como um elogio.
— Entenda como quiser.
— Agora me diz o que seria o medo.
— O que estou sentindo agora.
— Fala mais.
— Falei que ia falar pouco, mas eu te respondo.
— Fico feliz!
— Ilusão passageira que te leva a ter receio de algo.
— Boa! Eu vejo o medo como esse meteoro! Vem e te leva tudo, a sua vida, um sentimento ladrão.
— Sentimento ladrão? Estranho, mas eu entendi.
— Vou te contar uma coisa... Eu ia ser escritor se não me tornasse baterista.
— Por que mudou de ideia? Ou por que não seguiu a vida que queria?
— Não me chama de idiota por favor, foi por causa de uma garota.
— Idiota! Estragou a sua vida por causa de uma garota?!
— Eu sempre que escrevia lembrava dela, eu amei ela, lembro do dia que o meu mundo caiu.
— Pensou que parando de escrever pararia de ter ela no pensamento?
— Sim.
— Funcionou?
— Passou o tempo, passou muito tempo, mas ela é aquela garota que te marca.
— Parece amor adolescente o seu.
— Vai me falar que nunca amou alguém?
—Eu amo, tinha um encontro amanhã.
— Usou o tempo certo, pena que o amanhã não vai chegar.
— Não precisa me lembrar, ok?
— Desculpa...
— Não foi nada.
Os dois se olharam e se estranharam, ninguém nunca tinha conversado com tanta profundidade, sem risos, sem artimanhas para discussões, com uma pureza estranha, insana nesse mundo cruel.
— Parece que de uma hora para outra deu uma vontade de viver.
— Como assim?
— Sair daqui e viver a vida como se não houvesse amanhã.
— Por que de uma hora para outra?
— Você Maria, parece que está fazendo eu ver o mundo de outra maneira.
— Mas você é bobo mesmo em! O que eu falei para te fazer pensar assim?
— Falou tudo, é bom ver a vida de outros ângulos, sempre quis saber da vida das pessoas, dos seus afazeres, das suas decepções, dos seus sorrisos inocentes, quer saber um dos meus sonhos?
— Quero.
Kaik fez os olhos de Maria brilharem junto aos seus, pela primeira vez ele foi sincero ao extremo falando o sonho que guardava consigo a anos.
— Meu sonho é ser pelo menos uma vez o ombro amigo de alguém, gostaria de ser a primeira pessoa a ser mentalizada quando acontecesse alguma coisa, “Ai meu Deus tenho que contar isso para o Kaik!” Ia ser incrível.
— Você está chorando Kaik?
— É um cisco.
— Não precisa ser durão nessas horas.
A sensação de um desabafo foi inquietante dentro de Kaik, fez todas as lágrimas guardadas escorrerem pela sua face.
— Você parecia bem cabeça dura no começo, mas você é incrível.
— Será que eu sou incrível só por que sou a única que parei para te ouvir?
— Eu não sei sinceramente, mas eu gosto de você Maria.
— Você é facilmente impressionável mesmo.
Maria estava acuada por dentro com todas as palavras, queria se aproximar de Kaik e dar um belo abraço, eles estavam carentes, totalmente carentes.
— Eu nunca contei isso para ninguém, como eu não sei se é bom morrer com coisas entaladas na garganta eu vou te falar.
— Sou todos ouvidos.
— Meu pai é o dono da DCP, ele minha batia todas as noites, me dava Sintax e me deixava acordada a noite inteira estudando. — Maria sentiu uma rajada dividir sua alma quando recordou tormentas passadas.
— Por que ele fazia isso?
— É a mesma coisa que perguntar a uma porta porque ela não fala, eu não sei! Ele era mal comigo, mas mesmo assim eu o amo, pai é pai não é?
— Pai é pai, fazer o que?
— Eu fugi de casa, me capturaram em um ponto de controle e me mandaram para essa montanha.
— E o seu pai?
— A última coisa que eu falei para ele foi “dane-se.”.
— Deve estar detonada por dentro.
— Sim... E a sua família?
— Minha mãe está por ai bebendo, não mais, deve estar numa montanha agora, meu pai morreu num acidente de carro quando eu era pequeno.
— Meus pêsames.
— Tudo bem.
Apesar do clima variado no alto daquela montanha, no momento fazia um calor intenso, de uma hora para outra, repentinamente veio o frio com uma brisa gelada gelando os corações até dos apaixonados. Kaik perguntou a Maria.
— Posso?
— O que?
Ele se aproximou dela e a abraçou, usou o modo mais antigo dos primórdios, o abraço que aquece.
— Isso.
— Eu queria fazer isso.
— Eu ainda mais.
— Agora tem um motivo pelo menos.
— Claro.
Os dois olharam para o céu quando ouviram um grande estrondo, viram o meteoro rasgando o céu lentamente, os dois se desesperaram, entretanto ficaram um nos braços do outro, suando frio.
— Eu não queria que terminasse assim!
— Nem eu!
— Vamos fazer assim... Vamos cantar!
— Qualquer música!
— Sim! Eu canto uma e você canta uma!
— Então vai.
Os dois começam a cantar, esvaziando o peito com um medo que preenchia o vazio dos dois corpos, começaram a se mexer de um lado para o outro cantarolando como se não houvesse amanhã e não havia mesmo.
Quando houve a colisão eles viram com uma bela visão tudo sendo devastado, pássaros voando sentindo seus corpos queimarem com o calor intenso, árvores caindo rapidamente, o soprar do vento com rapidez, os dois se olharam, encostaram as testas.
— Foi bom te conhecer Maria!
— O mesmo Kaik!
— Quem sabe exista uma outra vida!
— Quem sabe?!
— Vou sentir falta!
— Se der tempo eu também!
Isso arrancou um sorriso dos dois, não deu tempo nem de sentir suas peles desintegrarem juntas.
FIM
31/07/13
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