Despedaçada
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Capítulo dois –
Ninguém conseguiu se lembrar quem havia adquirido aquela informação, muito menos onde. Mas não importava: Thalia havia sido despedaçada. Ainda naquela tarde chegou ao Olimpo a informação que mudaria tudo. Rachel, inquieta em sua “caverna”, rezava para que o Oráculo dentro de si mandasse “uma luz”. A ruiva não sabia quem era menina que estava em tão lastimável situação, mas compreendia a grandeza do perigo que todos corriam se não houvesse uma solução. Ela nunca chegou a saber como; de uma forma estranha ao habitual, o Oráculo não pussuira seu corpo, ele apenas armazenou os versos em sua memória. Correndo para apanhar um pégasso, chegou ao Olimpo com uma profecia que mais intrigou do que ajudou na hora, mas era tudo o que tinham.
–O que raios significa isso?
Nico estava exausto. O garoto interrogara pelo menos 2/4 dos Campos de Asfodelos obtendo a mesma resposta da maioria, enquanto os outros se sentiam abalados demais para responder.O próprio Hades se compremetera a interrogar as almas confinadas aos Campos da Punição. O menino mal aguentou caminhar de volta aos seus aposentos, tendo que ser arrastado por dois esqueletos vestidos com uniformes militares. Deu por si sentado em uma poltrona grande e confortável em seu quarto, a cama parecendo chamá-lo de forma insistente e manhosa; era bastante difícil de resistir, mas havia algo errado ali. Movendo lentamente os olhos, ainda meio adormecido, avistou pela janela parte do jardim de sua “adorável” madrasta e também...
–Olá garoto.
–O que faz aqui, Castellan? Estou acabado e minha audiencia com os Eliseos é daqui a três dias.
–Preciso saber o que aconteceu com ela.
–Ela? – Nico esfregou os rosto com força – Do que você está falando? – a frase foi terrivelmente prolongada por um bocejo.Ele sabia o que Luke queria, mas também não queria conversar sobre aquilo.
–Não se finja de tonto – Luke engrossou a voz; o desconforto assumindo o controle sobre suas emoções. Aquilo era um claro sinal de perigo, percebido por Nico; afinal, as almas nada mais são do que o conjunto de suas emoções de uma forma talvez até bastante estável – Thalia. O que aconteceu com ela? O que aconteceu para até o Hades estar preocupado? – Nico abriu a boca, mas foi cortado – Não! Não se atreva a me dizer que não é nada. Sei que algo terrível aconteceu a ela.
Nico ficou rígido. Não queria falar sobre a Caçadora, não queria falar sobre o comportamento do pai ou sobre o caos que o mundo estava prestes a se tornar. Estava cansado. Quanto tempo mais ainda teria de permanecer acordado e consciênte?
Luke estava inquieto. Sua imagem tremulava tamanha era sua raiva com...
–Se gosta da sua sanidade mental, acho bom me contar tudo o que sabe. Garanto que posso deixá-lo louco.
–É muito mais sério do que você imagina. – bagunçou os cabelos, chamou um esqueleto que voltou trazendo um copo de refrigerante.
–Eu tenho tempo.
–Mas ela não têm. – engoliu o liquido com dificuldade enquanto Luke parecia prestes a ruir. Havia muito a ser dito.
A profecia parecia estar incompleta, o que confundia ainda mais cada deus e filhos; o próprio Apolo não sabia o que aquilo queria dizer. “Nove partirão” ela afirmava; não especificava quem. Assim partirião apenas os primeiros a se manifestarem e os mais próximos a Thalia: Annabeth foi a primeira, seguida por Percy e Grover. Hades ofereceu o filho argumentando que algum conhecimento do mundo inferior poderia ser útil. Rachel se apresentou defendendo que não tinham tempo para especulações e que ela decifraria a profecia; embora no fundo de si ela soubesse que, sendo incompleta, outra profecia poderia surgir. Três caçadoras, as mais chegadas a tenente... E faltava um... Até uma Annabeth dizer de forma histérica que já havia compreendido parte da profecia.
Hades simplesmente sumiu em sombras enquanto as “crianças” desviavam o olhar.
A história narrada por Nico não havia chegado nem na metade quando o próprio deus apareceu no meio do quarto irradiando poder. O deus não perguntou porque aquela alma estava ali ou porque Castellan deveria saber. Ele próprio terminou de narrar os eventos recentes e encerrou com a profecia:
Pela fragilidade da vida
Uma alma foi destruida.
Encontrarás as respostas
Na estrela de cinco pontas.
Unidos nove partirão
Encontrar a alma perdida em solidão.
Mas de nada servirá
Se um semideus morto não ajudar.
–O que? Sou eu? Mas como posso...
–Quem mais poderia ser? – a voz do deus soou rouca – É o único semideus morto ligado a ela.
–Mas como eu posso ajudar? Estou morto, lembra?
–Posso trazê-lo de volta a vida. Sem passar pelo Rio Lete. Sem renascer. – o morto arregalou os olhos e Hades sorriu sinicamente – Normalmente meus favores exigem um pagamento, mas este é um caso especial. Uma causa bastante importante
Luke não recuou. Nico observava a tudo com facínio. Uma fumaça negra saia das mãos de Hades e envolviam o então morto. Aquela alma, aos olhos de Nico, parecia em chamas, embora Luke não sentisse calor. Luke estava sendo moldado de novo. As camadas de fumaça se transformavam em ossos em um processo que começou a ser desconfortável. Logo eram camadas de carne e gordura que grudavam; agora ele se sentia como se toda a sua pele tivesse sido arrancada, quando, na verdade, estava sendo recolocada. Di Angelo não aguentou: correu até o banheiro e vomitou o pouco que comera. Quando retornou encontrou Luke Castellan arfando, as mãos no peito e corpo sólido tremendo.
–Você sentirá alguns efeitos colaterais durante um intervalo de duas horas como falta de ar, enjoos, tremedeiras... – Hades falou fazendo pouco caso. Nico foi oferecer a mão para ajudá-lo a levantar, mas o loiro recusou.
–Um peso... Um peso no peito – ele falava entre ofegos – um vazio; faz parte dos efeitos?
Hades voltou a expressão de seriedade, mas não respondeu.
No Olimpo os sete selecionados se preparavam como podiam, mas o ponto onde queremos chegar é mais ao fundo. No templo de Afrodite estava uma Thalia inconsciente; seu corpo estava sendo banhado e perfumado pelas melhores criadas da deusa da beleza, enquanto esta arrumava o vestido perfeito. A deusa tinha um brilho no olhar entre a tristeza e a alegria por motivos que os mais espertos podem bem deduzir sozinhos sem a ajuda de palavras desnecessária. O cheiro suave de lavando dos produtos fez com que voltasse a olhar para a menina que agora estava sendo secada com cuidado e temor, como se pudesse acordar ao menor dos descuidos. Foi vestida e adornada com jóias finas. A deusa com seus olhos detalhistas notou o anel no dedo anelar e, mesmo a jóia não sendo uma das mais bonitas que ela já vira, ela sabia que tinha um significado e não se atreveu a retirá-lo.
Thalia foi posta em um esquife de cristal, prata, sáfiras e onix. O vestido longo que lhe cobria o corpo era negro de um tecido leve e realçava suas curvas suaves. No busto um decote nem ingênuo nem ousado, adornado em pedrinhas cintilantes de uma cor escura. A deusa da beleza fez questão de ela própria fazer a maquiagem; nos olhos fechados sombra escura esfumaçada enquanto os lábios cintilavam em um avermelhado suave. O bracelete de prata no pulso esquerdo escondia pequenas cicatrizes velhas e novas enquanto as do pulso direito foram encobertas com suaves correntes feitas por seus amigos mais próximos: cada uma tinha um pingente diferente e especifico que os identificava. Os cabelos escuros já secos emolduravam seu rosto pálido suavemente enquanto uma nova coroa foi feita para ela a mando de Zeus. Enquanto a outra tiara era a representação da Caçada, aquela era a indentificação dela como a filha de Zeus, a princesinha do deus que nunca soube demonstrar amor.
Ela estava linda. A imagem da pureza e importancia da semideusa reluzia ao seu redor. Deuses menores apareceram; estavam encarregados de levarem o esquife para a clareira escolhida por Ártemis. O lugar era bonito da maneira que podia. Embora a clareira fosse ampla, estava tão encoberta de pessoas que se fazia pequena. Mesmo tão cheia, o silencio reinava na noite pálida e sem luar, um sinal de luto da deusa.
Hades apareceu nem dois segundos depois trazendo Nico e Luke (ambos preaparados, armados e dispostos) consigo. Os dois jovens caminharam para um canto onde os escolhidos partiriam. Annabeth ergueu o olhar e encontrou o velho amigo, tentou sorrir, mas não conseguiu. O mesmo se passava com ele. Em outras condições, ambos se abraçariam forte enquanto ririam das bobeiras que passaram. Tudo estava diferente, tudo era diferente com Thalia naquele estado.
Um murmurio se espalhou lentamente; haviam sido comunicados para pensarem uma flor, um arranjo, um buque especifico. Como acontecia no Acampamento com as refeições, as flores foram surgindo aos poucos conforme cada um via sua oferenda. A grande maioria oferecia rosas brancas pensando na pureza de uma Caçadora, outros foram mais além pensando na própria garota fazendo surgir orquideas negras; flores d’água, lírios, margaridas, cravos, até ramos de cerejeira surgiram de algum canto. Grover segurava flores lilases que pelo aroma poderiam ser lavandas. Eram tantas cores claras e escuras, tantos aromas e Luke se encontrava pensando no que Thalia diria se visse aquela cena. Conseguia imaginá-la quase perfeitamente.
O riso era chamativo, pois não lhe vinha com tanta facilidade, um timbre gostoso e diferente de se ouvir. Luke olhou para o lado e viu a imagem sólida do que não poderia ser verdade. A meia calça detonada, o short jeans curto e a camiseta de banda a identificavam. Os cabelos bagunçados e os olhos marcados por deliniador envolvendo-a em mistério. – Francamente; isso é mesmo necessário? – ela tinha um olhar de repulsa e um sorrisinho ironico nos lábios – Depois quero ver alguém reclamar do desmatamento. Isso aqui é um crime! Luke esfregou os olhos e encontrou apenas o ombro de um sátiro desconhecido, ainda conseguindo ouvir sua risada. Bagunçou os cabelos e voltou a ollhar para os lados procurando o corpo de Thalia. Embora todos estivessem prontos o esquife ainda não havia chegado.
–Você está bem? – a voz de Jackson se fez ouvir. Ele ainda estava ressentido com o homem a seu lado. Confiara nele nos momentos mais confusoso de sua vida e fora traido sem mas; entretanto, aquela alma era bondosa e tendia a ver o lado bom das pessoas.
–Por quê?
–Sei lá. Você está inquieto. Não conseguiu pensar em nenhuma flor?
Luke não respondeu. Olhou para as próprias mãos e as encontrou tremendo e suadas, mas sem flores. Olhou em volta vendo diversas cores e percebeu a ausencia de uma cor, pensou em uma única flor, sozinha e sem nenhum enfeite.
Segundos depois todos prenderam a respiração. Na frente de todos o esquife aparecia lentamente, como se fosse apenas uma projeção e não real. Lá estava a imagem que temera ver. Cada um foi lentamente depositar seus arranjos grandiosos e buques coloridos no chão cercando o belíssimo caixão. Não conseguiu deixar de pensar no quanto aquilo lhe lembrava a Branca de Neve.Todos foram inclusive deuses, mas ele não. Castellan ainda não tinha nenhuma flor em mãos. Puseram-se de joelhos e rezaram, alguns sátiros tocavam melodias tristonhas e algumas ninfas davam uma voz fúnebre a ocasião.
“Estão agindo como se ela já estivesse morta, perdida em nada” o pensamento lhe encheu de raiva enquanto observava pessoas chorar “Estão desistindo dela... Mas eu não vou”.
Muitos foram embora sobrando apenas poucos deuses e os atrevidos a partir; cada um a uma distancia considerável do corpo. Luke que estava até agora ajoelhado, sem forças psicológicas para levantar, se ergueu devagar com uma flor em mãos. Caminhou até estar o mais próximo que podia dela. Tão inatingível. Com a mão direita acariciou a pele da menina; estava quase fria embora ainda macia. Depositou a rosa azul em seu peito e colocou suas mãos em cima como se segurasse a flor, como se lembrava de ver as princesas dos contos de fadas; primeiro a esquerda, notando o tão temível Aegis e na direita... Ele parou surpreso com o anel reluzindo, segurou a mão parcialmente gelada dela entre seus dedos agora quentes. “Vou te trazer de volta, vou concertar tudo, só para poder ouvir sua voz de novo”. Colou a mão dela sobre a outra e ali estava a imagem da princesa que ela era embora se negasse a acreditar.
No horizonte a aurora chegava em raios pálidos de sol. Algo bastante incomum para o verão. Ele não se sentia pronto para desviar o olhar...
–Estão prontos?
–Está na hora.
Os nove caminhavam lado a lado adentrando a mata bastante fechada. Luke virou-se uma última vez; não aguentava deixá-la de novo. Ele ansiava pelo momento em que poderia pedir desculpas, ansiava ouvir seus gritos e sentir seus tapas, seus tão adoráveis choques acidentais... Ela não estava lá. O esquife não estava mais lá ou as flores ou os deuses ou sátiros ou ninfas. Era só mais uma clareira vazia.
Como ela agora estava.
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