Desolada
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Essa one shot traz a Maria(que muitos não curtem muito) como uma menina sonhadora, que tem sua vida virada de ponta cabeça de uma hora para outra... E aí, topa ler?
PS:Essa one faz parte do "Ciclo de Fics" do Mereço Um Castelo. Que tal visitar o blog e conhecer as outras? :)
Já havia perdido as contas de quantas vezes meus pés haviam me trazido a esse lugar sem um comando real de meu cérebro. Eles apenas escolhiam para onde ir, e quando eu enfim me dava conta, já estava aqui.
Agora, você deve estar se perguntado que lugar é “aqui”, certo? Bem, o “aqui” é um lugar tranquilo, um tanto triste, mas sem deixar de ter uma certa beleza... repleto de lembranças, e o único lugar onde posso estar perto daqueles que eu amava. O “aqui” em questão é um dos vários cemitérios da cidade de Monterrey.
Outra pergunta que deve estar te assolando nesse momento é: “o que eu faço num lugar desses?” Aposto que está, nem tente me enganar. E a resposta é bem simples... Toda minha família está aqui. Pai, mãe, irmãos... e até mesmo Alexander, meu namorado, o garoto mais carinhoso e gentil que eu já havia conhecido.
Acho que, para entenderem direito, preciso explicar do comecinho, certo? Certo, eu acho... Bem, partiremos do princípio de que eu tinha uma família maravilhosa. Meu pai, Mathias, era sócio em uma das cervejarias da cidade, o que proporcionava uma vida digna e confortável para nós. Minha mãe, Mercedes, ocupava-se com os cuidados com a casa e a educação de seus três filhos: Maximiliano (ou apenas Max, para os mais próximos), Manuela (a caçula, princesinha da família) e eu, Maria, a filha do meio, repleta de sonhos com os palcos dos teatros e peças famosas desde pequena.
Mas é claro que a vida não pode ser feliz para sempre, não é? Ainda não sei por que iludem as crianças com aqueles contos de fada, onde, no fim, o bem sempre vence e todos vivem felizes pela eternidade. O mundo real não é assim! Ao menos o meu não...
Tudo começou a desmoronar quando meu pai faleceu, vítima de epiglotite, uma infecção grave da epiglote que se agrava rapidamente, causando obstrução respiratória e morte em algumas horas, caso não recebesse tratamento imediato. Ainda posso lembrar de suas reclamações por conta de dores de garganta durante alguns dias, e de minha mãe insistindo para que ele procurasse um médico. Mas o Sr. Garcia era teimoso demais, e justificava-se dizendo que era apenas uma gripe e que não iria ao médico por conta disso.
E isso acabou lhe custando a vida, pois quando a febre já era alta demais para ser controlada, quando enfim decidimos levá-lo ao hospital mesmo sem seu consentimento, os médicos não tinham mais o que fazer. Papai se foi naquela madrugada, deixando a mim, mamãe e meus irmãos.
Os tempos que se seguiram foram meio tempestuosos. Além de termos de lidar com a dor de não termos mais Mathias ao nosso lado, nos incentivando e apoiando, ainda tínhamos de dar um jeito de recolocar a vida nos eixos. Eu tinha apenas 17 anos, Max e Manu tinham 19 e 15, respectivamente, e não havia muito que pudéssemos fazer, afinal, nós, meninas, nem tínhamos nos formado na escola ainda, e Max estava cursando apenas o primeiro semestre de administração. Caberia a mamãe tomar as rédeas da situação, a começar pela administração da cervejaria...
Papai era quem cuidava da contabilidade da fábrica, enquanto Jorge Diaz, seu sócio, ficava a cargo de manter a produção em ordem e a qualidade da cerveja no nível de excelência que a marca exigia. E depois de nossa perda, ele pareceu bastante prestativo em querer nos ajudar no que fosse necessário, dizendo-nos que poderíamos recorrer a ele sempre que fosse preciso. Parecia um anjo enviado dos céus naquele momento desolador. Mas tudo não passava disso, de aparências... Mas é lógico que só descobrimos isso tarde demais, certo?
Enquanto Mercedes dava carta branca para os mandos e desmandos de Jorge, meus irmãos e eu tratamos de retomar as coisas que gostávamos de fazer, mesmo que sem a mesma empolgação e ânimo de antes...
Maximiliano, além das aulas na faculdade, treinava baseball três vezes por semana. Era um sonho de infância fazer parte de um grande time americano um dia. E veja, o menino levava jeito pra coisa, sabe? E nem digo isso porque ele é meu irmão não! Ele era realmente um batedor incrível, sua média de rebatidas era impressionante.
Manuela, por sua vez, além das aulas normais na escola, era praticante de ginástica artística. E sim, tal qual meu irmão, ela era perfeita no que fazia. Devo ser uma irmã muito babona mesmo, mas e daí? Compro um babador e beleza! Continuando... Manu era estupenda quando o assunto eram as barras assimétricas. Esse era, com toda a certeza, o aparelho onde ela tinha seu melhor rendimento! Não que não se saísse bem na trave ou no solo... mas nas assimétricas não tinha pra mais ninguém.
Já eu, por outro lado, não mandava nada bem em esporte algum. O meu mundo perfeito, meu sonho de infância e projeto de carreira era, e sempre seria atuar! Eu viveria sobre um palco de teatro se pudesse. E foi num deles, encenando “Rei Lear”, de Shakespeare, e dando vida à Cordélia, a filha mais nova do rei, que conheci Alexander. Ele também estava na peça e interpretava o Conde de Kent, que em certo momento, intercedia pela minha personagem e acabava banido do reino por isso.
Alex, como eu me acostumei a chamá-lo logo que nos tornamos mais próximos, além de ser muito bonito, alguns bons centímetros mais alto do que eu, cabelos escuros e um tanto rebeldes e olhos cor de avelã, era também inteligente, atencioso e lindamente tímido. Aliás, foi por conta dessa timidez que ele se matriculara no curso de interpretação. Ele queria poder superar esse pequeno... probleminha. Só Nossa Senhora de Guadalupe sabe quantas vezes ergui minhas mãos aos céus para agradecer o dia em que esse menino resolveu se matricular! E quantas outras tantas agradeci por fazê-lo me notar como namorada em potencial algumas semanas depois...
Cerca de um ano e meio após a morte de papai, os lucros que recebíamos da fábrica despencaram exponencialmente, fato que nos obrigou a cortar certos gastos e mimos com os quais éramos acostumados, mas nada que interferisse tão drasticamente em nossa qualidade de vida, afinal, ainda tínhamos um teto e comida na mesa, certo? E como dizia mamãe... “enquanto tivermos onde dormir e o que comer, podemos ser gratos”.
Desconfiado com o rombo no caixa familiar, meu irmão Max resolveu tirar a história a limpo com Jorge, que insistia em dizer que a fábrica estava passando por uma grave crise. O interessante é que ele acabara de dar entrada em um novo apartamento, e bem, quem está em crise não tem dinheiro pra esse tipo de coisa, não é?
Lembro do momento em que meu irmão me ligou perguntando se eu gostaria de acompanhá-lo até a fábrica assim que se encerrasse o expediente por lá, para investigar as contas, mas infelizmente eu estava indisposta por conta de uma febre naquele dia, então Manuela se ofereceu para ir com ele.
Duas horas depois, Max voltou a me ligar, já a caminho de casa, dizendo que não havia crise nenhuma e que havia descoberto os desvios de dinheiro feitos pelo Sr. Diaz, e que esse era o real motivo para a nossa parte nos lucros ter praticamente desaparecido.
Mas em meio à ligação, pude ouvir um ruído alto e metálico seguido pelos gritos de minha irmã caçula. Mais alguns segundos e tudo que me restava era o “tut... tut... tut...” ecoando pela linha.
Desesperada, pulei da cama ainda febril e corri pela casa procurando por mamãe, enquanto tentava ligar para meu namorado para pedir ajuda. Nem me dei conta de quando o chão desapareceu sob meus pés e a escuridão me envolveu.
Quando voltei a mim algum tempo depois, Alexander estava ao meu lado, suas mãos envolvendo as minhas delicadamente. Trazia no rosto uma expressão cansada e pesarosa, e só por isso, já senti meu coração partindo em meu peito. E o que ele me disse em seguida, sobre o acidente envolvendo meus irmãos, só fez com que a dor se tornasse praticamente insuportável para mim, despedaçando o que restara de meu coração.
Perdi Maximiliano e Manuela naquela noite, duas partes de mim que jamais poderia retomar. Sempre havíamos seguido o lema dos Três Mosqueteiros... “um por todos, e todos por um”, mas a partir daquele momento eu teria de seguir sozinha, sem o som das gargalhadas de minha irmãzinha ou os abraços reconfortantes de meu irmão, sem as discussões por coisas idiotas ou as alianças em prol de um desejo em comum... Não me sobrara mais nada.
Mantive-me respirando apenas por obrigação nos dias que se seguiram, esgotada demais para sequer pensar em alguma coisa. O que me impedia de mergulhar completamente na dor era a presença constante de Alex, que mesmo sem dizer uma palavra, já me trazia um mínimo de paz, e com ela, conforto.
E foi agarrada a isso que resolvi erguer a cabeça e por tudo em pratos limpos, cerca de três semanas depois. Afinal, alguém havia feito aquilo a meus irmãos, não fora um mero acidente. Max era muito bom motorista e não perderia o controle da direção, fazendo o carro descer a ribanceira, sem que algo o obrigasse a isso. E o mais estranho é o fato acontecer justamente quando ele descobre sobres as falcatruas do Sr. Diaz, não acha? Talvez fosse apenas coincidência, mas algo me dizia que havia mais ali do que apenas o destino cumprindo seu papel.
A primeira coisa que fiz foi contar tudo que sabia para Dona Mercedes, que recebeu a notícia dos desvios de dinheiro com a mesma surpresa que eu. Depois, chegou o momento de contar-lhe sobre minhas desconfianças, e eu pude ver o choque e a incredulidade tomarem suas feições. No instante seguinte, ela estava agarrada a mim, chorando compulsivamente. A ideia de que alguém pudesse ter provocado a morte de seus filhos era dolorosa demais para suportar.
Quando as lágrimas deram uma trégua e o silêncio tomou conta do quarto, mamãe desvencilhou-se de meu abraço, e sem dizer uma palavra sequer, rumou porta afora. Me deixei ficar ali, largada sobre a cama, já que provavelmente ela precisava de um tempo só para si. Deixei minha mente vagar por algumas lembranças da infância, e quando dei por mim, estava com o rosto banhado pelas lágrimas.
Minutos mais tarde, pude ouvir leves batidas na porta, e ao me levantar, lá estava mamãe, a expressão séria e decidida, mas nem assim eu podia deixar de notar a dor que transbordava de seus olhos.
Ela se aproximou e disse que iria para a fábrica confrontar Jorge, e que depois levaria nossas suspeitas à polícia. Mas é lógico que eu não a deixaria ir sozinha, certo? Pedi mais alguns minutos, liguei para Alexander pedindo para que ele nos acompanhasse e depois fui trocar de roupa.
Cerca de trinta minutos depois, Alex estacionava o carro no pátio da cervejaria. Assim que desembarquei, corri os olhos pelo estacionamento, mas não pude avistar o carro do Sr. Diaz. Seguimos direto para a sala da diretoria, pedindo para a secretária chamá-lo com urgência e deixando avisado que esperaríamos por ele lá dentro.
Levou quase uma hora completa até o cidadão enfim dar as caras nos escritório. Nesse tempo em que esperamos, meu namorado ligou para a delegacia e deixou avisado que passaríamos por lá mais tarde, já passando um breve resumo do assunto que nos levaria até lá ao assistente do delegado, que por sinal, era velho conhecido da família de Alexander.
Jorge entrou na sala esbaforido e com a roupa um tanto amarrotada, e por breves segundos, pude notar uma mancha de óleo no punho de seu paletó, fato que ele logo tratou de disfarçar. Mesmo desconfiada, deixei isso passar, pois no segundo seguinte dona Mercedes estava falando todas as verdades que o filho da mãe merecia ouvir.
É lógico que ele tentou se defender, dizendo que tinha como provar o péssimo estado das contas da fábrica, e que os papéis não mentiriam nunca, mas para nós, a palavra de meu irmão ainda valia alguma coisa, e era nela que acreditávamos.
Depois de muita discussão, Jorge enfim confessou tudo, mas não sem antes afirmar que jamais provaríamos nada, afinal, os papéis que Maximiliano encontrara já não existiam mais. Seria a palavra de um rapaz morto contra a dele, e bem... que juiz decidiria ir contra ele se não haveriam mais provas?
Saímos do escritório ainda mais derrotados do que quando chegamos, mas antes, minha mãe descontou parte de sua fúria e dor no rosto daquele senhor... Garanto que doeu bastante, viu? Dona Mercedes é conhecida por sua mão pesada!
Chegamos ao estacionamento, e quando Alex abriu a porta do lado do passageiro para que eu entrasse, mamãe segurou meu pulso e me olhou suplicante, me impedindo de entrar.
- O que houve? Está se sentindo mal? Quer que te levemos ao médico? – perguntei de uma vez, sem realmente dar tempo para que ela respondesse qualquer uma das minhas perguntas.
- Não meu bem, é só um... um pressentimento ruim. – ela responde, afagando meu rosto – Se importa se eu sentar no banco da frente dessa vez?
- Não mãe, é claro que não! – respondo, dando passagem para que ela ocupasse o tal lugar.
Assim que ela estava acomodada, Alexander fechou a porta e abriu a de trás para que eu entrasse. E sim, ele fazia questão de fazer isso sempre, mesmo que eu já tivesse dito inúmeras vezes que era perfeitamente capaz de abrir uma porta sozinha.
De onde eu estava, mesmo que não pudesse realmente ver, sabia que dona Mercedes estava chorando. Podia ouvi-la fungar baixinho, tentando passar despercebida. A meio caminho da delegacia, enquanto afagava os cabelos dela, tentando confortá-la ao menos um pouco, pudemos notar que havia algo muito, muito errado. O carro estava sem freios! E na descida daquela ladeira íngreme, era como um passaporte para que algo muito ruim acontecesse.
E fui justamente isso que aconteceu. Sem conseguir controlar o carro, Alexander invadiu o cruzamento, e a última coisa da qual me lembro antes de ser levada para a inconsciência é do som de ferro se retorcendo e do chamado angustiado de minha mãe...
Acordei três dias depois numa cama de hospital, só para descobrir que as últimas pessoas que me restavam também haviam partido... Alexander e Mercedes não resistiram aos ferimentos da colisão e foram a óbito ainda no local do acidente.
E bem, como era de se esperar, a notícia não foi muito bem recebida por mim, afinal, acordar e descobrir que está completamente sozinha no mundo não é algo que se deseje nem para o pior dos inimigos. Se bem que, no caso de Jorge Diaz, eu poderia abrir uma exceção...
Assim que recebi alta, fiquei sabendo que o filho da mãe fugira e que agora era procurado pela polícia. Soube também que a cervejaria agora era exclusivamente minha, mas isso não era assim tão importante no momento. Pensaria no que fazer com ela depois...
E desse modo, voltamos ao cemitério... Tantas semanas já se passaram desde o último acidente, mas a dor e a saudade ainda me acompanhavam para onde quer que eu fosse. E mesmo que eu evitasse pensar em qualquer coisa, por menor que fosse, como por exemplo “que meia calçar hoje?”, cada mínimo esforço de meu cérebro trazia consigo uma enxurrada de lembranças. E cada uma delas esmigalhava mais e mais o que sobrara de mim.
Mas mesmo que fosse difícil, eu precisaria encontrar uma maneira de seguir em frente, não importando o tempo que fosse levar. Afinal, eu devia isso a eles. Devia isso às pessoas que mais amei e ainda amo nessa vida.
Notas finais
xoxo
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