Desligada do Perigo
4 Teorias nada mais que teorias
Notas iniciais
Fui trabalhar com enormes olheiras, o racha tinha acabado bem tarde e meu cérebro não quis pegar logo no sono estava a mil por hora e não conseguia parar de repensar em todos os acontecimentos meticulosamente e planejar o próximo passo. Mal tinha chegado no jornal e o Tulio meu chefe apontou para mim, com as mãos cheias de papeis e um caneca esborrando café, e o rosto vermelho.
–5 Minutos atrasada Juli. 5 Minutos- falou enquanto se aproximava e tentava limpar um dos papéis na camisa, que tinha pingado café – O jornal hoje está uma loucura. Aquela famosa atriz vai casar hoje, e a Rebeca conseguiu uma exclusiva, elas estudaram juntas ou coisa assim... Não importa, o importante é que temos que fechar várias matérias sobre vestidos, sapatos, e a provável roupa que aquele cantor sertanejo vai usar. – Ele balançava a cabeça negativamente, ele odiava o quanto as matérias de fofoca vendiam, odiava ver o jornal que ele tanto amava e se matava de trabalhar, ter que ganhar dinheiro vendendo isso, mas o que ele mais odiava acima de tudo isso, era atraso no fechamento do jornal. Por mais idiota que seja a sua matéria, ela precisa estar pronta no prazo, e pela cara dele estavam todos atrasados.- Teve uma lavagem de dinheiro no governo de algum país na Europa e queremos a opinião de um professor da Federal de Ciências Políticas, ele está esperando vocês lá na Universidade, quero essa matéria ainda hoje Juli, leva aquele estagiário ali – apontou para um garoto de no mínimo 18 anos bem magricela, e com óculos grandes demais para ele – Se ele me perguntar mais uma vez como ele precisa alinhar o texto e se o tamanho da letra está bom, cometerei um homicídio.- e saiu resmungando sobre como cada vez mais as pessoas estão indo cedo pra faculdade, daqui a pouco teria que lidar com um estagiário de 14 anos.
Bufei. Estava extremamente cansada, mas eu precisava fazer isso para permanecer no emprego, olhei para o estagiário com óculos grandes e ele não parava de digitar e apagar no computador.
–Ei!
–Oi, é você é a Julieta, não é? Você é da área de jornalismo investigativo, eu já pensei em fazer especialização dessa área, mas acho que prefiro a área política talvez...
–Olha desculpa, te interromper. Desculpa, não lembro o seu nome?
–Arthur.- disse levantando os óculos
–Olha Arthur, o Túlio acabou de me pedir para fazer uma matéria com um professor de ciências políticas da federal, e pediu para que você fosse junto, seria uma ótima oportunidade pra você que quer entrar nessa carreira política. – Ele arregalou os olhos, fazendo com que eles ficassem quase do tamanho dos óculos.
A entrevista foi interessante, era um homem nos seus 50 anos, extremamente culto, toda entrevista ocorreu normalmente e assim que acabei de fazer as perguntas, o Arthur e o professor entraram em uma conversa muito animadora sobre política, não quis acabar com a animação do Arthur ele estava se divertindo conversando com o professor, e o professor estava animado, acredito que seus alunos não estavam tão interessados assim. Fiquei escutando um pouco da conversa, enquanto mandava uma mensagem para o Tulio avisando que tudo ocorrera bem e que a matéria ficaria pronta, quando ouvi algo que me fez parar, eles tinham entrado no assunto dos Barretos.
“...ouvi esses boatos tanto quando você, mas creio que eles são falsos Arthur, acredito que ele é só um laranja. Ele já sabia que ia ser pego, tanto é que antes da polícia federal pegar ele, alguns amigos meus políticos já tinham comentado que ele já vinha se preparando, colocou boa parte do dinheiro num paraíso fiscal, e já tinha colocado algumas coisas no nome da sogra dele. Acredito que a polícia federal já desconfie disso, por isso tem vigiado ele de perto. Mas você sabe como são as coisas aqui, daqui que descubram alguma coisa, já é tarde demais, agora na França...”
E começaram a falar sobre um caso na França, se ele já sabia que ia ser pego a ponto de guardar uma parte do dinheiro num paraíso fiscal e colocado alguns bens no nome da sogra, alguém pode ter avisado, mas se ele tivesse só sido avisado ele estaria com medo, se guardaria mais e ele está fazendo o oposto disso, continua indo a festas, mantendo os contatos, sem falar no seu filho o Júlio que anda gastando mais do que pode. Pense Juli, pense. Se você fosse do CSI, ou de Criminal Minds o que você faria….
Passei a maior parte do caminho da volta pensando nisso, respondi poucas vezes o que Arthur falava, mas sem prestar muita atenção. Chegamos no Jornal e pedi para que o Arthur me ajudasse com a matéria, ele tinha feito ótimas perguntas e ele merecia levar o crédito também. Depois de receber muitos agradecimentos por parte do Arthur, e receber um olhar feio do Túlio que queria que tivesse saído mais rápido a matéria, fui para casa. Estava desmaiada no sofá quando recebi uma mensagem do Douglas avisando que só teria outro racha na quinta feira, me tranquilizei já que eu tinha algum tempo para pensar nas coisas e eu realmente não conseguia pensar em muita coisa.
Terça e Quarta passaram tão rápido, que só quinta de manhã me dei conta a noite teria Racha, já tinha fechado a matéria antes da 16h e fui para casa, esperar até o horário da corrida. Fiquei assistindo os episódios atrasados que eu estava das minhas séries enquanto devorava um pote de pipoca, e tão de repente quanto um relâmpago meu cérebro resolveu funcionar, na parte da musiquinha introdutória da série tive uma clareza momentânea. Lembrei de uma conversa que escutei certa vez, na hora não fez sentido algum, mas agora se encaixava perfeitamente, ouvi um certo membro do governo (que não posso revelar por motivos de segurança), falar com tom irônico que um dos eleitos tinha sido colocado por ali propositalmente e que ele não merecia ter ganhado a eleição, tinha sido comprado e que ele não passava de uma marionete o outro membro que escutava atentamente os argumentos do colega, deu um sorriso e respondeu de forma calorosa:
– ******, você está ficando paranoico. Precisa deixar de ficar pensando nessas coisas, a imprensa aumenta demais.
Pelo modo que o senhor falou, até eu me dei por vencida e apaguei isso da minha mente, ele estava tão seguro se si ao falar isso, terno impecável, o cabelo sem nenhum fio fora do lugar, enquanto o outro usava um terno mais gasto, e seus cabelos pelo menos os que restavam estavam desorganizados de tanto que ele passava a mão no cabelo. Agora relembrando essa conversa e pensando nos fatos o Paulo Barreto se encaixava perfeitamente, lembro de alguns boatos sobre ele, sobre as suas amizades e influencias, ouvi até um colega de trabalho dizer que já tivera a oportunidade de conhece-lo e ele era uma pessoa sem personalidade, era como um camaleão se adaptava ao meio em que estava. Todas essas informações formavam uma teoria na minha cabeça, se Paulo Barreto fosse mesmo uma marionete ele saberia que iria ser caçado pela polícia Federal, e ainda mais se ele soubesse disso poderia ser que fosse para despistar a polícia de outra coisa, isso também explicaria o filho e ele ainda terem certas regalias mesmo tendo sido confiscados todos os bens, não conseguia mais parar, minha cabeça parecia uma criança animada com seu quebra cabeça, eu deveria avisar a polícia? Mas isso ainda eram teorias, eu precisava comprovar tudo isso. Também precisava de um plano, a polícia não iria permitir revelar dados confidenciais nos jornais. O Alarme tocou avisando da hora combinada hoje, eu iria dirigir antes do Racha começar, eles queriam ter certeza de que eu sabia dirigir, segundo o Carlos e com todo o respeito “você tem cara daquelas mulheres que gritam quando uma moto passa do lado, e tira o pé da embreagem o carro morre e você grita mais ainda”, pobre Carlos iria comer poeira hoje.
Cheguei na mesma avenida um pouco mais cedo e já tinha uma certa movimentação, estavam lá os corredores e o pessoal da organização, e claro o Júlio conversando com alguns dos pilotos, encontrei o Rodrigo perto dali conversando com o Comercial de Margarina e com o Carlos, algo deveria ter acontecido porque eu não lembro de ter visto o Brad Pitt com uma cara tão muxoxa nos filmes.
–Julieta, nós esperávamos você, minha cara.- declarou como um poeta medíocre o Carlos, beijando a minha mão em seguida, o Sr. Margarina me deu um sorriso de pasta de dente como cumprimento.
–E ai eu vou correr ou não ?
Todos eles riram, ri junto apesar de estar extremamente nervosa, fazia tempo que eu não corria, desde a morte do meu irmão, era uma coisa que fazíamos juntos e depois que ele se foi, tinha perdido a graça. Mas agora eu precisava correr de novo.
–Vem, por aqui. – disse o Rodrigo me puxando em direção a dois carros que estavam juntos o carro do Carlos que dava pra reconhecer de longe com aquele verde bem pastel pra ser irônica, e um Astra preto que reconheci porque já tinha dirigido um. Olhei para o Rodrigo certamente com uma cara de dúvida, outra pessoa também iria correr ? Ele notou minha cara estranha e disse: — Você não achou que iria correr com aquele seu Sedan né ?
Me preparei pra xinga-lo, como ele ousava falar do meu carro assim ? Tudo bem que o motor não era lá essas coisas pra correr, e ele estava um pouco velho já que eu tinha comprado de segunda mão, mas era o meu bebê, minha boca já estava aberta quando ele bateu na parte de cima do carro e de repente surgiu um ser humano com a cara melada de graxa.
–Julieta esse é o Dimitri, quando dá um probleminha no carro, ele sempre ajuda. E não podíamos deixar você correr com aquilo. – disse apontado para o meu carro- então ele deu uma ajeitadinha.
O tempo que levou para o Rodrigo falar isso, foi o tempo que demorou para o cara limpar o rosto, ele me encarou e depois começou a explicar o que ele tinha feito de mudança no carro, o que não adiantou nada porque eu não conseguia parar de prestar atenção numa mancha de graxa na bochecha dele que tinha se recusado a sair. Era como quando você via alguém com batom no dente ou feijão e não consegue parar de olhar para aquilo, mas também não consegue dizer pra pessoa que tem alguma coisa errada. Quando ele terminou de falar, eu não aguentei, olhei para ele e disse que estava melado, ele arregalou os olhos como se eu tivesse o xingado, ele limpou a mancha e saiu esbarrando meu braço.
–E ai Julieta Maldonado está pronta pra correr ?
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