Desistência
1 One shot
Notas iniciais
O americano odiava dias de chuva por motivos bem claros. Em primeiro, lembravam-lhe Londres com o seu cinzento constante como se fosse um coração magoado sempre em sofrimento e em segundo, tudo ficava com uma tonalidade depressiva.
Era raro ver Alfred F. Jones de mau humor e todos os que o conheciam minimamente sabiam que era um erro pressionar para saber qual o motivo dessa aura negativa.
Entrou no edifício de conferências a passos largos, pouco se importando se molhava o chão com os seus sapatos encharcados.
Ignorou todos os "olás" e "bons dias" . Também não era como se conhecesse as pessoas que falavam para ele... Tudo bem, algumas vozes eram reconhecidas mas... Ele tinha os óculos cheios de gotas de água, o que só o deixava ainda pior pois é uma sensação frustrante não conseguir ver na totalidade.
Percorreu o caminho para a sala onde se realizaria a próxima reunião totalmente alheio nos seus pensamentos.
Porém, não contava ouvir aquela voz.
"Alfred?"
O sotaque nasal, o 'Al' enrolado e o "e" carregado não enganavam ninguém. Podiam-se ter passado séculos sem que Alfred tivesse ouvido essa voz que ele iria reconhecer de qualquer forma.
Olhou para o britânico e franziu subtilmente o sobrolho.
"Que foi?"
A sua expressão foi imitada por Arthur, "Bom dia para ti também. Toma isto, o teu chefe mandou-me entregar-te.”, viu que ele tinha olheiras enormes e perguntou, "Está tudo bem?"
O que é que lhe Alfred podia responder? Que estava assim por culpa dele? É claro que ele não ia dizer isso. Não podia. Os heróis não admitem qual a sua maior fraqueza ao seu inimigo. Claro que ele não via Arthur exactamente como um inimigo mas... Os seus sentimentos estavam tão trocados e dilacerados naquele momento…
"Desde quando é que te importa se estou ou não bem?"
[Dia anterior]
Tinha dito qualquer coisa arrogante, de novo. E de novo não percebeu nem quis admitir o seu erro, causando irritação às outras nações que se encontravam presentes na reunião.
Quando saiu cá fora deparou-se com Arthur furioso, de braços cruzados, à espera dele.
"Se vais começar a reclamar, mais vale ficares calado."
"Eu não estou a reclamar!", respondeu irritado, " Deixa de agir como uma criança mimada e de uma vez por todas toma consciência dos teus actos e palavras!"
A parte do 'criança mimada' bateu como uma pedra Alfred. O inglês realmente tinha essa opinião dele? Tomou uma posição ofensiva. Quem é que o outro achava que era para chamar aos poderosos Estados Unidos da América criança?
"Não estou a ser mimado. Tu é que não aceitas críticas!"
Arthur piscou os olhos e depois riu forçadamente, "Eu? De certeza que sou eu? Lamento Alfred, mas ao contrário de certas pessoas, eu penso antes de falar."
A pouca paciência de Alfred começava a esgotar-se.
"O que estás a insinuar?"
O outro suspirou e cruzou os braços, "Aquilo que ouviste."
Alfred sentiu a sua cara ficar vermelha de raiva e então quase gritou, " É por culpa dessas tuas atitudes snobs que eu por vezes me orgulho de ter conseguido tornar-me independente de ti!"
Observou que o inglês ficou sem expressão e abriu a boca para retorquir, porém, nenhum som saiu.
Então continuou, "Essa tua estúpida ideia de que tens sempre razão... Acorda! Estamos no século XXI não XVI! Tu não tens nenhum poder sobre mim! Pára de me dizer o que tenho ou não de fazer ou como tenho de me comportar! Vai morrer longe, Inglaterra!"
Parou de gritar e respirou fundo, apertando as mãos num punho. Algo no seu interior dizia-lhe que se iria sentir culpado se fizesse Arthur chorar. Não que o ex-colono fosse um chorão sensível, porque não era, mas o americano sabia que na maior parte das vezes ele chorava por frustração ou fúria. Apesar de tentar dar a parecer que era uma pessoa fria, Alfred no fundo sabia que Arthur apenas fazia isso para se proteger, mesmo que na maior parte das vezes as suas emoções fossem tão fáceis de identificar só pela expressão facial que ele tinha ou por pequenos gestos que fazia. Claro que isso apenas se aplicava a Alfred, que passava demasiado tempo a observa-lo e a provocar. No entanto, odiava que ele lhe chamasse de 'criança'. Doía. Sobretudo quando ele tanto lutou para que não fosse mais considerado uma. Doía ainda mais ter de magoar Arthur para que ele percebesse isso.
O pequeno inglês não chorou. Fez uma expressão séria e fitou-o quase com desdém, como se ele fosse um reles animal.
"Com todo o prazer, América.", sibilou e rodou nos seus calcanhares, "Espero que nunca mais me tenhas de dirigir a palavra."
Ainda mais furioso, agora que tinha sido ignorado descaradamente, imitou o mais velho e foi na direcção contrária, dirigindo-se para a casa de banho masculina.
Ao entrar, bateu com a porta e apoiou-se no lavatório, olhando para baixo.
Arthur ia odiá-lo agora. Se é que já não odiava antes.
Deu um murro no suporte e depois afastou-se levando as mãos à cabeça.
Sentia-se tão idiota e cobarde... Ele amava Arthur. Era um facto que já tinha admitido a si próprio há muito tempo... Por não saber se era ou não correspondido e com medo que a sua fixação fosse descoberta, passou a tentar ignorar o mais velho ou a fazer piadas de mau gosto. Agora a brincadeira tinha ido longe demais. Teria de pedir desculpa ou não ficaria em paz consigo próprio.
Esperou alguns minutos saiu, começando a procurar por Arthur. Ouviu a voz dele e quase correu ao seu encontro. Ao chegar perto, viu que Francis estava ao lado dele e então encostou-se na parede, escondendo-se.
"Ah, isso não é verdade Arthur...", ouviu o francês falar com carinho.
O inglês não respondeu nada mas soluçou.
"Pronto, pronto... Vem cá."
Alfred franziu o sobrolho e voltou a espreitar pela esquina. Sentiu o seu coração quase a sair pela boca ao ver que o inglês estava a ser abraçado por Francis. Como ele gostaria de poder fazer o mesmo...
"Mon cher, acalma-te...", limpou-lhe as lágrimas, "As tuas sobrancelhas ficam ainda piores quando choras."
Arthur deu-lhe um soco no braço e Francis fez um meio sorriso, "Eu acho que estás demasiado stressado. Que dizes de irmos até ao bar amanhã à noite? Tal como nos velhos tempos?"
Após um longo suspiro, o outro respondeu, "Combinado."
O americano não quis ouvir mais e desencostou-se, seguindo para fora do edifício.
Enquanto andava pensava que era melhor assim. Preferia ser odiado pelo britânico do que a ser sempre o seu 'irmãozinho'. E quem sabe... Se calhar Arthur ficaria melhor e mais feliz com Francis.
Nessa noite não conseguiu dormir. O seu coração doía a cada batida e ele sentia-se estúpido. O que ele não daria para que o loiro estivesse ali, ao lado dele, a aconchega-lo nos seus braços quentes e confortáveis.
Nem deu pela chuva começar a cair. Fazia alguma diferença agora?
[Fim flashback]
"Desde o momento em que isso interfere com o teu rendimento no trabalho e prejudica o meu." , disse seco.
Alfred piscou os olhos, não esperava uma resposta dessas. E afinal, que tipo de respostas ele esperava receber? Fitou atentamente aqueles olhos esmeralda, pareciam tão baços e cansados... Saiu do seu transe e pegou nos papéis, "Obrigado."
Arthur deu de ombros e logo se ouviu a voz alegre de Francis ecoar pelo corredor, " Sr.Sobrancelhas, não te esqueças do nosso encontro hoje à noite~!"
O de olhos verdes suspirou e caminhou na direcção dele, deixando Alfred plantado, "Seria tentador deixar-te pendurado Sapo."
Alfred mordeu os lábios e observou-o a afastar-se.
Sabia que depois de se afastar, ele não ia regressar.
Mas importava isso? Não. Claro que não.
Alfred era um herói e os heróis não se deixam abater quando a pessoa que mais amam atravessa o corredor para ir para os braços de outrem…
Os verdadeiros heróis sabem desistir.
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