Designium
5 Vincent
Notas iniciais
Tudo estava quieto "como sempre" pensou Vincent. Exceto pelos gemidos da senhora do sofrimento há alguns metros de onde ele estava. A rainha do pesar, e o seu reinado eram dentro daquela mansão.
Suas províncias: os cômodos aos quais regia a sua dor veemente. "Um dia ela foi a minha mãe", pensou já conformado, antes que lhe tirassem a felicidade, antes que lhe tirassem tudo. Agora ela só gemia estando consciente ou não, pois sua agonia estava presa tão profundo dentro de si que não há deixava nenhum instante. Tentou em vão pensar em outras coisas ,fugir do torpor que era a sua realidade e ligou a TV de plasma de seu quarto tão absurdamente grande quanto era desproporcional. Há dias que não saia de sua cama, e o dossel dela era como um limite invisível que o cercava de todos os males, e seus cobertores — embora já com cheiro de mofo — o escondiam e o esquentavam naquela casa tão fria.
Com o volume estando um pouco acima do incompreensível, ele viu pessoas na tela dando depoimentos sobre o que achavam dos super dotados e ora apoiavam o governo e seu pretensioso plano de por fim em todos que estavam infectados, hora apoiavam as pessoas atingidas sem culpa alguma por aquele vírus. Pois assim eram as pessoas, adoravam opinar em tudo o que não lhes dizia respeito, tudo o que não compreendiam de fato.
Sociedade ignorante de hipócritas, julgavam a morte como se fossem deus. Vincent deu um ,estalo com a língua — habito adquirido quando estava nervoso- e pensou que se ele pudesse julgar, todas essas pessoas morreriam. Não os afetados, pois ninguém escolhia sua doença, assim como a pessoa que gemia próxima ao seu quarto poderia afirmar se estivesse em condições de tal coisa.
Estando alheio ao que passava na televisão,ele desligou-a e jogou o controle para bem longe de si. Voltou a deitar em, sua cama querendo ter um sonho que durasse anos e que quando ele voltasse pra realidade que tudo estivesse em, seu lugar; sua mãe lúcida e feliz, e sua casa cheia de vida e cor como era antes.
A luz entrava de forma oscilante pela janela em forma de arco, alguns pontos obstruídos por formas brancas lá fora. Como se num átimo ele visse as coisas por outro ponto de vista, levantou-se de seu "caixão de penas" como ele denominava e saiu de seu quarto frio para um corredor mais frio ainda.
Vestiu a blusa felpuda que lhe fazia parecer os selvagens que moravam em cubículos de gelo,e ignorando os protestos da mulher moribunda, ao final do corredor seguiu a frente e desceu pela escada atapetada de vermelho do começo ao fim.
Quando atingiu o patamar inferior havia na parede atrás dele, um vitral como nas igrejas com três metros e meio de altura e ladrilhados com o desenho de uma ninfa dos bosques. Seguiu os degraus adjacentes abaixo depressa pra desviar daquela imagem tão perturbadora.
Passou pelo saguão tão bruscamente detalhado em contornos simétricos de ladeira negra, e abriu a porta para o mundo lá fora. Pedaços de nuvem caiam pesadamente do
céu, intermináveis em sua descida como eram ao cobrir tudo ao redor de Vincent. Sua respiração saia em vapor de sua boca mas ele não se incomodava muito. De certa forma viver dentro de sua casa era ainda mais frio. Mesmo que grande parte desse sentimento fosse no seu âmago. "neve querido, isso se chama neve. Não pedaços de nuvem" dissera o fantasma de sua mãe sorridente.
– Eu sei, Mãe — ele disse naquela manhã sozinho. — porém gosto mais de dizer assim.
E sua mãe sorria pra ele como se ele tivesse dito a coisa mais divertida do mundo.
Vincent caminhava pelo terreno branco, absorto em seus pensamentos e memórias que só lhe feriam mais, quando um carro chegou cantando pneu e espalhando uma nuvem branca em torno dele. Riley. Deduziu. Tinha que ser ele. De cabelos castanhos e curtos riscados com faixas prata ,o arrogante padrasto de Vincent chegou olhando a mansão com um olhar neutro, mas quando reparou no garoto ali em meio a neve, esboçou um daqueles sorrisos que Vincent tanto odiava.
– Olá rapaz, como sua Mãe está?
– Não consegue dormir e fica gemendo. — Respondeu Vincent sem por emoção na voz. Nada disso era novidade para eles há muito tempo, e ele suspeitava com afinco que o padrasto lhe perguntava sempre essas coisas só para entristecê-lo .
– Vou dar uma olhada nela, vê se não demora muito aqui ou ficará resfriado. -Disse seu padrasto e se dirigiu à entrada da mansão.
Ultimamente ele parecia preocupar-se demais com Vincent, e isso dava medo. Percebeu que seus dedos estavam azuis quase congelados, efeito de ele
ter saído sem luvas. Certamente aquilo foi uma indireta do padrasto para o corpo magro de Vincent, que aos dezesseis não crescera o suficiente. Tinha olhos azuis e cabelos castanhos avermelhados, como os cabelos de sua mãe foram antes de ela adoecer. Agora eram finas linhas brancas numa cabeça que parecia encolher,a medida que os anos passavam.
Ele devia mesmo sair daquele tempo,mas não queria voltar para dentro de casa e se deparar com o que via todos os dias. Não aguentava mais. Pra piorar Riley estava lá também, e ele odiava-o mais do que tudo. O ganancioso e arrogante homem que nunca visitara sua Mãe no hospital, cobiçando às propriedades e o dinheiro da mulher que ele já dava por morta. No entanto, sua mãe foi forte e resistiu a doença -, não sem uma grande sequela — para ser levada para definhar em sua própria casa.
Desde então seu padrasto aparecia uma vez por semana na casa deles ,sondando se a mãe de Vincent estava melhor ou pior. Pior era o que ele esperava sempre que ia lá, e seus desejos estavam se realizando. Vincent não tinha dúvida que assim
que sua Mãe partisse, Riley o mandaria para algum orfanato e encheria aquela casa de seus amigos bêbados e prostitutas, porém nada tinha a fazer e a muito deixara de acreditar numa melhora.
Fechou o punho com força e seus dedos semi-congelados protestaram de dor. Sua raiva era como uma onda que aos poucos crescia na continuidade do acumulo de água a sua massa, e quando chegava até a praia já era um tsunami. No caso de
Vincent aquela onda se nutria de dor e inconformismo da realidade abstrata em que ele fora posto inocente. A vida era o seu algoz. Cerrando os dentes abriu as mãos relaxando toda sua tensão, ou pelo menos tentando e uma esfera negra pouco maior do que uma bola de neve pequena saiu de encontro ao chão branco. Vincent não teve tempo de assimilar o que era aquilo mesmo quando o atrito da esfera ao chão causou uma explosão espalhando uma nuvem branca por todo o cumprimento do terreno da casa.
Encarou as mãos estupefato, abrindo e fechando, mas nada ocorria de anormal. A poeira branca já se dissipava,lembrou do que sentira quando aquela esfera saiu de sua mão. Pintou um quadro em, sua mente de sua mãe cheia de tubos e aparelhos no seu quarto e abriu novamente as mãos e lá estava a bola negra flutuando a meros centímetros de suas palmas. Experimentou mexer a mão direita que projetava a esfera, e a bola negra seguiu-o como se fossem ligadas magneticamente.
Vincent posicionou sua mão num sinal de pare na direção de um amontoado de folhas e neve, e forçou a imagem novamente em sua cabeça fazendo a esfera negra partir como que impulsionada por uma força invisível até onde ele mirava. Dessa vez a explosão foi ainda maior e Vincent cobriu seu rosto para a poeira branca que foi gerada com aquela nova explosão.
Exultante, Vincent apontou ambas as mãos na direção de sua casa ,agora estava calmo, num estado de paz interior e divagações pelos espaços vagos de sua mente. Um costume que adquiriu depois de anos de choro em seu quarto, a melhor viagem que fazia. No entanto as esferas que surgiram a frente de suas mãos dessa vez eram brancas, sem compreender Vincent as direcionou a uma árvore qualquer da propriedade de sua casa.
E ambas às esferas atingiram galhos opostos, que ao invés de explodirem simplesmente sumiram quando tocados pela matéria branca dessas novas esferas. Intrigado Vincent sentou com as pernas cruzadas no chão frio sem se importar com a neve que ficaria em sua roupa. Recordou-se do que sentira exatamente quando lançou ambas as esferas. A negra surgiu em um momento de tristeza e fúria, porém a branca aparecia quando ele estava concentrado e em paz. "Os meus estados de espírito são os que decidem como será estas esferas" ele chegou a conclusão. A negra destrói,e a branca desmaterializa.
Deixou-se cair na neve quando a compreensão o atingiu. Não precisava se perguntar o que lhe havia acontecido pois já sabia. Havia sido infectado. Sua mãe não era a única doente da casa agora. Ficou feliz por isso, não era justo ela passar por tudo sozinha.
Triste ele não ficava mais, pois já tivera o suficiente desse sentimento agourento por toda a sua vida. Levantou-se obstinado e caminhou em direção a sua casa caminhou como num sonho pelos corredores frios e escuros de sua casa, era como se uma parte dele não estivesse lá. Subiu as escadas sem, sentir as pernas como se estivesse sendo conduzido. No entanto, nada sobrenatural ou efeito do vírus tinha relação com esse sentimento. Eram os seus próprios desígnios que lhe guiavam como se fosse uma corrente grossa de outro mundo, levando-o para o seu destino.
Ao atingir o corredor que levava ao seu quarto recobrou sua consciência ouvindo alguns grunhidos animalescos. Seguiu-os a poucos metros de seu quarto uma porta estava entreaberta. Vincent reparou que mulheres nuas se beijavam na TV daquele quarto. Numa poltrona virada de costas para a entrada do cômodo ele viu alguém se contorcendo e grunhindo.
Sua fúria misturada com o desprezo acendeu em, sua mente como uma lamparina iluminando os seus propósitos escondidos nos recônditos de suas lembranças e com alguma prática que há minutos não tinha mirou a poltrona e lançou uma esfera negra. O efeito foi melhor do que ele esperava,e a poltrona explodiu espalhando seus pedaços pra todo lado enquanto seu padrasto foi atirado com violência para a televisão de sessenta polegadas e contra a parede em seguida ele caiu inerte no chão e a TV como que o seguindo terminou de esmagá-lo. Riley gemendo virou seu rosto pra Vincent numa carranca furiosa.
– Eu vou te matar por isso seu maldito! -Ele gritou. Como que impulsionado para frente Vincent adentrou no cômodo que fedia a esperma e cerveja franzindo o nariz, e disse:
– Não mais, Riley. — Levantou sua mão direita para cima concentrando a sua fúria e pesar tudo naquilo. Assim que a esfera saiu, ele continuou a mandar essas sensações para a esfera e ela absurdamente aumentou moldando a sua forma acima de Vincent como um triângulo longo e comprido ainda assim fino.
– Você esta infectado! — Concluiu Riley com os olhos esbugalhados.
– E você esta morto. -Enfatizou Vincent descendo o seu braço direito e consequentemente a massa negra também atingindo o corpo de seu padrasto que tanto odiava.
Dessa vez a explosão por ser perto demais o jogou de costas na parede do corredor . A sua frente a vista havia mudado, e flocos de neve adentravam pelo rombo que a explosão fizera. Não via sinal do corpo de Riley e uma parte da TV jazia perto da porta do quarto, mas sem pornografia dessa vez. Alguns segundos depois ouviu os gemidos que estava acostumado de sua mãe e se levantou para ir até ela.
Vincent ofegava enquanto caminhava até a única pessoa que ele amara em sua vida. E cada passo era mais difícil de dar, aproximar de sua mãe, vê-la naquele estado deplorável lhe enchia de angústia sempre e irremediavelmente todos os dias.
Alcançou a porta e apenas tocando-a ela abriu. E foi como se todo o peso do mundo caísse em seus ombros quando a viu ali. Os ralos cabelos brancos pouco escondiam a cabeça cheia de veias de sua mãe. Sua pele adquirira a tonalidade branca- azulada mais própria de um cadáver,e olhos tão azuis quanto os de seu único filho. E apesar de tudo sorria ao vê-lo como a mulher alegre que fora um dia, como sua cópia falsa que havia visto lá fora naquele mesmo dia.
– Vincent, chegue mais perto. Deixe eu lhe contar uma coisa. -Balbuciava a velha.
Com toda a força do mundo Vincent caminhou, passo a passo contendo a aura de tristeza que insistia em, querer circundá-lo. Assim, que chegou a sua cama ele ajoelhou perante a sua mãe, e ela lhe tocou os cabelos.
– O seu pai, eu conversei com ele e ele disse que vai vir conhecê-lo. — Prometeu sua mãe com os olhos úmidos.
Eles já haviam tido aquela conversa quando ele tinha sete anos, lembrava-se de como ele ficou ansioso pra depois se decepcionar quando ficou sabendo que ele não viria nem aquele dia nem nunca. Mas eram tempos passados e não havia o porquê de contrariar sua mãe, sendo ela tão frágil como era.
– Mãe, aceita vir comigo para longe daqui? Ele perguntou resoluto apertando as mãos de sua mãe.
– Sim meu filho, vou aonde você for — foi a resposta da velhinha.
Era toda a confirmação que ele precisava. Despediu-se de sua mãe beijando sua testa e saiu do quarto. Desceu correndo as escadas e abriu de rompante a porta para fora parando para ficar de frente para a mansão, se concentrando no vácuo de seu pensamento, o seu lugar inexplorado. Suas mãos ficaram cobertas da matéria branca que compunha às esferas brancas e tocou com ambas nas paredes da casa. Como que criando vida a matéria branca começou a se espalhar gradativamente pelas paredes, contornando suas siluetas,e logo toda a mansão estava revestida da matéria branca.
Vincent reforçou a concentração e toda a mansão sumiu sem sequer um único ruído se fazer ouvir, via no chão as marcas de onde esteve todo o contorno dos alicerces da casa. Funcionara. Caminhou para onde sempre ficava a mansão dos Collins, olhando para o céu que não parava de mandar os seus pedaços de nuvem. Sorriu a primeira vez em anos, não precisava mais sofrer neste mundo.
Concentrando refez a matéria branca surgir em suas mãos novamente e focou ambas a frente e a sua frente a massa girava criando formas que ele, confeccionava com a mente. Dessa vez ele a fez numa forma oval, como um espelho de prata e caminhou a frente entrando no "espelho" não sentiu nada nem a sua consistência era como atravessar uma cortina d'água e não se molhar. Passou de olhos fechados e após sentir aquela sensação diferente abriu os olhos e tudo era branco, o chão e o que deveria ser o céu. A cor lembrava a das esferas brancas que ele soltava.
Não sabia a dimensão daquilo tudo até onde ia. Caminhou por um tempo indefinido no nada, se por um minuto, uma hora, um dia, um ano. Ele não poderia dizer, não se cansava naquele mundo. Após andar indefinidamente alguma coisa diferenciava a frente e ele correu pra alcançar, uma mudança num mudo imutável. A coisa crescia quando ele mais avançava e parou assim que percebeu que a coisa era a mansão de sua família.
Com um estalo sua mente associou as informações daquele dia e sorriu pela segunda vez em uma década ao chegar a uma conclusão: a matéria branca que aparentemente fazia as coisas sumirem, na verdade transportava coisas tocadas para essa dimensão, esse seu novo mundo. Na sua frente a porta foi aberta e sua mãe saiu andando, como se nunca tivesse estado doente, mantinha a aparência velha mas sua cor natural voltara e ela lhe sorria, e como era belo aquele sorriso.
O seu mundo era uma espécie de limbo tampouco, Vincent tinha a capacidade de preenchê-lo com o que quisesse. O que quisesse... Tinha agora um propósito, uma missão e faria de tudo para realizar. Abraçou sua mãe chorando como uma criança.
– Tudo vai ficar bem. — Disse sua mãe ao seu ouvido. E Vincent acreditou em, sua promessa como acreditou naquele dia que ela lhe dissera do, seu pai. No entanto desta vez tudo era diferente, tudo estava realmente bem.
– Agora eu sei mãe — disse — agora eu realmente posso acreditar.
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