Designated Survivor: A Qualquer Custo.
1 Capítulo Único.
Notas iniciais
Alex Narrando:
Ao virar-me, vejo-me frente a frente com a agente Wells e o ex-agente Atwood. Não consigo acreditar na minha falta de sorte.
Há tantos anos mascarando meu papel... Penso que, daqui, provavelmente, vou direto para uma prisão no Alasca. A expressão deles é de espanto, ou talvez de dúvida. Prendem Catalan e, em seguida, colocam-me em um carro oficial. Embora imaginem meu envolvimento, não conseguem afirmar a exatidão da minha participação na conspiração, e, querendo ou não, continuo sendo a Primeira-Dama dos Estados Unidos.
Aparentemente, estou indo em direção ao Pentágono. Tento ser o mais fria possível, mas já consigo ver todo o meu mundo desmoronando em questão de segundos. Cada metro percorrido traz uma nova sensação. Passo o caminho todo em silêncio, apenas em guerra com meus pensamentos e, embora tudo isso esteja acontecendo, não consigo pensar em ninguém além de mim mesma.
Entramos. É um local escuro e provavelmente um dos mais seguros do mundo. Passeio meus olhos pelos corredores, e a única cena que vejo são agentes, a maioria com capuz. Os poucos agentes que estão sem capuz parecem completamente espantados com a minha repentina presença. Viramos à direita, e me deparo com Mike com um olhar arrebatador. Nunca o havia visto mais sério e quieto como hoje. Eu o encaro e tento me manter intacta. Sem pronunciar uma única palavra, ele abre a porta de uma sala totalmente solitária. A iluminação é pouca, não há decoração, apenas uma única cadeira. Sento-me. A porta se fecha, e o vazio daquele lugar toma meus pensamentos. Os minutos passam, mas a noção de tempo é inexistente em tal espaço.
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Tom Narrando:
Estou no Salão Oval. Ainda não sei como chamá-lo de "minha sala". Tudo ainda é muito novo; a cadeira, embora confortável, não me conforta como minha antiga. Distraio-me lendo algumas pautas enquanto penso na Alex e nas crianças. A ideia de ter meus filhos afastados de mim, em um local seguro, pelo fato de quem eu sou, não é nada fácil.
Só nos falamos por transmissões online, e mesmo assim por um tempo limitado, pois nossa conversa pode ser monitorada por hackers de plantão. Minha vida com a Alex está cada vez mais difícil. Mal nos vemos e sequer consigo ter um único jantar com ela. Alex diz que compreende, mas sei que não. Passamos dezessete anos de nossas vidas juntos, e agora, como presidente, tenho deveres com meu país, e meu dever enquanto marido inexiste.
Perdido em meus pensamentos, ouço uma batida na porta. Seth entra rapidamente e já vai direto ao ponto:
— Senhor presidente. — Sua voz, apesar de hesitante, soa firme. — Recebi uma informação da imprensa de que a Primeira-Dama está sob custódia do FBI.
Minha cara de espanto é visível. Mas, com um tom de ironia, eu o questiono:
— Essa informação só pode ser uma brincadeira de mau gosto. — Sorrio sarcástico.
— Sinto desapontá-lo, senhor. — Ele me olha apreensivo, em negativa. — Recebi essa informação de Lisa. Ela jamais brincaria com isso. — afirma categoricamente.
— Isso é impossível. — exclamo exaltado. — A minha esposa está na residência. Ela tem que estar lá. — Vou até o telefone e peço para que meu secretário, Wytt, telefone para a residência, e que comprove minha teoria de que Alex está em casa. Alguns segundos de espera parecem horas, até que finalmente a governanta me assegura que Alex havia saído com o Serviço Secreto.
— Alex saiu, deve ter ido comprar algo para as crianças. — Tento convencer a mim mesmo.
— Peço que me perdoe, senhor. Mas...
— Não, Seth. Não posso e nem quero acreditar que o FBI possa estar com Alex. — eu o interrompo impaciente, passando a mão por meus cabelos. Peço que chamem Mike. Com certeza ele saberá me dar uma resposta. Sou informado de que ele está no Pentágono e, por meio de um de meus seguranças, sou informado de que Alex também está lá.
Ordeno que me levem. Claramente, deve haver algum erro. Por quais motivos Alex estaria lá? Talvez conversando com algum general, é claro. Afinal, ela está tentando me ajudar a melhorar minhas relações com membros do governo.
Durante o caminho, perco-me em meus pensamentos. Passamos perto de minha antiga casa, e as memórias vividas lá são incontestáveis. Um sentimento de vazio toma meu peito.
“Não é possível que eu esteja duvidando de minha esposa.”
“Duvidando de quê? Se nem sei o que aconteceu.”
“Não, Tom, você não pode começar a duvidar da mulher que esteve do seu lado nos últimos dezessete anos. Ainda mais, duvidar sem saber o motivo.”
“Isso não passa de um mal-entendido. No fim da tarde, estaremos todos em casa rindo dessa confusão.”
Minha cabeça está uma bagunça só. Meus pensamentos estão me deixando louco. Preciso me manter calmo, ou não conseguirei tentar entender e resolver a situação de Alex.
Mais alguns longos minutos e chegamos ao Pentágono. Ainda me surpreendo com tamanha segurança contida nesse local. Desço do carro, e um dos agentes me acompanha até uma porta. Sou advertido para que não entre. Perco a cabeça e ordeno que abram a porta. Nesse momento, o stress e o desespero tomavam conta do meu corpo.
Entro e me deparo com uma sala com uma única parede de vidro. Olho por ele e não acredito no que vejo. Era Alex. Sentada em uma cadeira, cercada por Mike, Wells e Atwood.
Perco a paciência e ordeno que a soltem. O agente que está comigo, temendo que eu fizesse alguma loucura, vai até o local onde Alex se mantém isolada e conversa com Mike.
Vejo Mike olhar para a parede de vidro e sacudir a cabeça em afirmação. Ele retorna até Wells e Atwood, fala alguma coisa e sai da sala. Depois de alguns segundos, aparece na minha frente.
— Exijo que me explique o que está acontecendo aqui, Mike. — Minha voz soa fria, me surpreendendo.
— Senhor. — Ele mal consegue olhar em meus olhos. — Prendemos a Primeira-Dama fazendo contato com Catalan. — explica com mansidão.
— Como assim prenderam? — Meu coração dispara, mas tento manter a calma. — Até onde sei, apenas criminosos são presos. Ela é minha esposa e a Primeira-Dama desse país. — grito com Mike, mas a sala é totalmente isolada, e nem um mosquito conseguiria ouvir o tamanho do desespero que eu sentia.
— Precisamos interrogá-la, são as leis de nosso país. O seu país, senhor. — ele informa, tendo a sutileza de não ser rude.
Sem saber o que dizer, apenas balanço minha cabeça. Estou confuso, mas talvez seja melhor esclarecer todo esse mal-entendido.
Mike volta para a sala e começa a interrogá-la. Fico de frente para o vidro; mesmo eu estando ali, Alex não consegue me ver.
Olho-a com certo pesar.
— Como cheguei a esse ponto? Interrogar minha própria esposa? A mãe dos meus filhos? — comento com um de meus seguranças. Em seguida, peço para que ele se retire.
Não queria que mais ninguém visse Alex nessa situação. Ela é inocente, sempre me contou a verdade. Isso tudo é só um mal-entendido. Ao menos é nisso que preciso acreditar: na inocência de minha esposa.
— Senhora, o que estava fazendo junto com Catalan? — Mike pergunta. Um silêncio ensurdecedor toma conta. Alex permanece imóvel. — A senhora tem algum envolvimento com a conspiração para derrubar o governo americano? — Mike aumenta seu tom.
Nunca o havia visto dessa forma. Ele respeita Alex mais do que tudo.
“Isso era mesmo necessário?”
Distraio-me por um segundo com meus pensamentos, e levo um susto ao vê-lo se exaltar ainda mais.
— Senhora, preciso que fale tudo que sabe. — O grito de Mike foi amedrontador.
Eu não podia ver minha esposa sendo tratada com tamanha frieza. Ordeno que parem, mas é em vão. Não podem me ouvir.
Alguns segundos se passam, transformando-se em eternos minutos, e Alex derrama uma lágrima.
Minha vontade era entrar ali e abraçá-la. Ela é tão forte, mas, ao mesmo tempo, é tão frágil.
— Ééé... — Alex tenta falar, mas se policia e volta ao silêncio.
— Diga, senhora. Preciso saber o que está acontecendo. — Mike está cada vez mais impaciente.
Posso ver em seu olhar que ele também está desconfortável, mas é o trabalho.
Alex volta a falar:
— Logo depois que tivemos a Penny, fiquei grávida novamente. Havia descoberto naquele dia e não via o momento de voltar para casa. — ela contava com certa tristeza na voz.
Nesse momento, só um pensamento vinha à minha mente. Uma dúvida de por que ela nunca me contou isso.
— No caminho para casa, recebo uma ligação de uma família afegã que havia sido barrada no aeroporto e impedida de entrar nos Estados Unidos. — Alex retomou sua explicação. — Eu não podia deixar isso acontecer. Eram inocentes, frágeis, só buscavam uma nova vida. Fui em direção ao aeroporto. Liguei para o Tom, pensei em noticiá-lo sobre a gravidez ali mesmo pelo telefone, mas quis manter segredo para uma surpresa. — Alex ficou novamente em silêncio.
Nesse momento, uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Alex sabe o quanto amo ser pai. Não consigo entender o motivo de eu nunca ter ficado sabendo dessa gravidez.
— Já no aeroporto, abordei o FBI. Como sempre, eles foram extremamente rígidos e, de forma alguma, consegui dialogar com eles. Tentei de toda forma até que me levaram sob custódia, junto com a família, alegando que eu tinha cometido desacato. Me levaram para uma cela. Ao saber que minha mãe era russa, começaram a me interrogar. Chegaram a achar que eu fosse espiã e, a partir daí, passaram a me torturar buscando respostas. Eu não tinha a resposta que eles queriam. Eu era apenas uma advogada tentando ajudar uma família de refugiados. Após três dias, que sem dúvidas foram os piores de minha vida, me liberaram. Fui para casa abalada, pois sabia que havia perdido meu bebê. — ela passou a mão por seu ventre, como se ali, naquele local, ainda tivesse um ser indefeso que precisasse de proteção. — Inventei para o Tom que eu havia viajado às pressas para uma reunião em Nova York. — ela se abraçou como se buscasse forças para continuar seu relato. — Havia vários hematomas por meu corpo e, por algumas semanas, tive que me vestir com roupas longas, e dormir no quarto com a Penny, alegando que nossa filha estava com medo de dormir sozinha. — ela soltou um longo suspiro, como se tudo aquilo ainda lhe causasse desconforto. E, com certeza, causava. — O sentimento de esconder algo dele era como a morte, mas eu não podia contar tais fatos para ele. O que ele pensaria de mim? Uma mulher que foi torturada, que foi usada. — Alex leva as mãos à cabeça em desespero. — E nosso bebê? Como eu contaria para ele sobre uma gravidez que parou de existir? — Alex dá uma pausa e cai em prantos.
“Estou arrasado. Minha mulher não confiou em mim e tentou poupar-me de um dos piores momentos de sua vida. Como ela pôde? Ela não tinha o direito de me esconder isso.”
Cada vez mais as lágrimas escorrem, e o pranto é incontrolável. Alex se recompõe e volta a falar:
— Foi quando conheci a mulher de Catalan. De alguma forma, ela ficou sabendo do ocorrido, viu meu ódio por tais fatos e utilizou o meu sofrimento para fazer minha cabeça. Ela propôs que eu a ajudasse a derrubar o governo e todas essas instituições, como o FBI, e, num momento de ódio, concordei com tais fatos. — Alex faz mais uma pausa.
“Não consigo acreditar que minha mulher faz parte disso tudo. Por que, Alex? Por que fez isso comigo?”
— Eu tentei inúmeras vezes cair fora disso, mas a cada dia foi se tornando mais difícil. — Alex balançava a cabeça, e sua voz demonstrava a exaustão que esse relato lhe deixava. — Quando soube que Tom ficaria no posto como presidente, tentei convencê-lo de todas as maneiras a não se envolver. Porém, falhei miseravelmente. — Alex tocou o colar em seu pescoço, onde tinha a foto dos nossos filhos. — Tentei mais algumas vezes sair, mas ameaçaram matar Penny e Leo, caso eu avisasse meu marido ou alguma autoridade. E, logo após o atentado contra meu marido, eles sequestraram minha mãe. Obrigaram-me a não informar ninguém. Eu nem sei se ela está viva, ou se estão torturando-a. — Alex cai em prantos. — Eu concordei com isso, sim, mas não sabia as proporções que iria tomar. Quando soube, tentei fugas por todos os lados, mas era impossível sair disso sem arriscar as pessoas que mais amo. Eu nunca me perdoaria se acontecesse algo com Tom, Penny ou Leo. Então fui fraca e covarde, deixei-me levar pela ira e olhe onde estou? — Alex olha ao redor. — Presa aqui, sem saber se o Tom irá me perdoar quando descobrir em tudo que estou envolvida.
Após tudo que Alex disse, eu não conseguia me manter em pé. Tinha que manter minha postura de presidente, mas, nesse momento, eu era apenas um marido, um marido que foi traído com a pior das traições: a mentira. Ajoelhei-me e, em prantos, me entreguei ao chão. Chorei copiosamente encostado na parede, minhas lágrimas se misturando ao meu desespero.
Não sei quanto tempo passou, mas depois de um longo tempo chorando, levantei-me com uma decisão já tomada.
Isso feriria toda minha ética, todo meu senso de justiça e tudo aquilo que lutei para ser durante anos: uma pessoa honesta.
Mandei um de meus seguranças chamar Ritter, Wells e Atwood.
Nossa conversa não foi nada agradável. Por várias vezes, fui obrigado a impor minha autoridade de presidente.
Eles não aceitaram minhas ordens e tive que ameaçá-los com a prisão. Atwood, apesar de ser o mais bravo, conseguiu entender a minha decisão.
Com Wells e Ritter, foi mais difícil. Eles lutaram até o último momento, mas, como me mostrei irredutível, eles cederam e prometeram guardar segredo.
Respirei profundamente antes de entrar na sala onde Alex se encontrava:
Seus olhos azuis me olham com vergonha e tristeza. Ela se levanta vagarosamente e dá alguns passos em minha direção. Levanta sua mão direita e toca em meu rosto.
— Tom, amor... Sinto muito. — Sua voz morre por causa das lágrimas. Ela se afasta, indo para o outro lado da sala. Seus ombros balançam em sinal de seu choro torrencial.
Caminho até ela e abraço-a ternamente.
— Querida, também sinto por tudo que você foi obrigada a viver. — Viro-a de frente para mim, e seco suas lágrimas. — Só não consigo entender o porquê de ter passado por tudo isso sozinha. Sempre fomos guerreiros e sempre seremos guerreiros. Só que, dessa vez, sem segredos.
— Amor, eu nunca quis te esconder nada, só tinha vergonha de mostrar para você esse lado humilhante da minha vida. — Ela toca meus lábios com seus dedos. — Nunca quis te decepcionar...
— Alex, eu te amo. Amo como nunca amei e jamais amarei alguém. — Apertei-a em meus braços. — Desde a primeira vez que a vi, tive certeza que você seria minha pela eternidade.
— Meu bem, a única coisa que te peço é que nunca diga aos nossos filhos a razão da mãe deles ser presa. — Ela tirou o colar do pescoço e colocou na minha mão. — Diga ao Leo e à Penny que amo eles de todo coração, e que, não importa onde eu estiver, estarei pensando neles. — Ela sorriu minimamente e me deu um breve selinho. — Amo muito você, e foi um enorme prazer viver contigo esses dezessete anos. — Ela olhou ao redor e perguntou: — Onde estão os agentes?
— Alex, querida! — Abracei-a fortemente. — Não terá agente algum. — Vi seus olhos se arregalarem em surpresa. — Hoje à noite, embarcaremos para a Venezuela e pediremos asilo ao país. Amanhã, quando Washington acordar com a notícia da minha renúncia e sua traição, estaremos protegidos em outro país.
— Não vou te deixar fazer isso. Sua reputação não pode ser manchada por minha causa, amor. — Alex tentou argumentar.
— Nunca desejei ser político e muito menos presidente, Alex. — Segurei seu rosto e acariciei seus cabelos. — Do que valerá minha reputação sem você ao meu lado e ao lado de nossos filhos? — Beijei-lhe os cabelos. — As únicas pessoas que me importam são você e nossos filhos. E por vocês sou capaz de tudo, até de esquecer minhas convicções. A nossa família é o que me mantém em pé, e por ela lutarei até o fim.
— Mas...
— Nada de “mas”, querida! — Peguei em sua mão e fomos saindo da sala. — Precisaremos ser rápidos. Vamos buscar as crianças e começar nossas vidas em outro lugar. — Beijei Alex com paixão e sussurrei em seu ouvido: — Wells e Atwood prometeram encontrar sua mãe, e quando isso acontecer, ela se encontrará conosco na Venezuela. — Beijei-a na testa. — Viveremos nosso amor pela eternidade, e quando chegar o momento de um de nós partirmos, o outro ficará na espera de seguir em breve de encontro ao nosso amor. O amor não acaba com a morte, ele apenas se renova em outro lugar.
— Eu te amo, e espero que nosso amor seja renovado cada vez mais. — Alex me beijou, e juntos fomos de encontro a uma nova vida.
Uma vida que nada, nem ninguém, faria eu desistir de ter.
Fim.
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