Desespero Momentâneo
1 Capítulo Único - Desespero Momentâneo
Notas iniciais
Os dedos moviam-se rapidamente pelo teclado, tão rápidos que o ambiente escuro era preenchido pelo som quase irritante. Naquele momento todo o cuidado era necessário, quanto tempo ele tinha? Não fazia a mínima ideia, mas o mais importante era chegar no final. Soando frio e sentado desajeitadamente naquela cadeira ele lutava contra os segundos, minutos e horas. Fazia quanto tempo que não saíra dali? Quanto tempo que ele não comia? Novamente não era importante, seu cérebro só o avisava do perigo eminente de não terminar aquilo.
Parou momentaneamente de digitar e tentou se concentrar nos sons ao redor, ele não ouvia nada. Levantou-se trôpego da cadeira desconfortável e arrastou cuidadosamente os pés descalços pelo chão frio, não conseguia ver nada além do que estava iluminado pela fraca luz do PC.
Seu coração disparou totalmente quando um barulho alto foi ouvido, parecia com algo caindo, logo após o tilintar de metal e passos firmes foram se aproximando. Suas mãos começaram a suar frio e a visão a ficar turva, oque ele faria? Bagunçou os cabelos desgrenhados em desespero olhando em volta do local vazio, além do computador, a procura de algo para se defender. Só havia a máquina ali, mas ele não podia desligá-la, sua vida dependia disso.
Como um perfeito covarde sentou-se acuado em um canto qualquer do chão, a respiração descompassada e os olhos lacrimejando. Escutou a porta sendo aberta vagarosamente, rangendo e emitindo um ruído seco pelo local, naquele momento pensou que estava tudo acabado, ele seria morto e terminar oque havia começado naquele computador não ajudaria em nada. Surpreendeu-se imensamente quando ouviu a voz de seu pai o chamando, tirando-o daquele desespero anterior.
— Victor oque está fazendo aí encolhido nessa parede? Não me diga que ficou o dia todo jogando de novo e esqueceu que eu chegaria mais cedo?- o mais velho perguntou irritado enquanto tateava a parede para encontrar o interruptor.
—Cla-claro que não pai, eu estava somente… Estudando o som em um ambiente fechado e escuro!- tentou se safar da bronca enquanto tampava momentaneamente os olhos por causa da luz acessa.
— E o PC ligado com seu jogo favorito faz parte disso?- arqueou as sobrancelhas
—Talvez?- mais perguntou que afirmou.
—Eu não me importo que você jogue, mas, pelo menos, se alimente direito e tome um banho, está deplorável!- disse irritado- Eu só… preocupo-me com você, nada mais.- suavizou a voz.
Victor abaixou minimamente a cabeça e concordou, como se dissesse, “Eu sei” e saiu a passos largos do quarto indo em direção ao banheiro.
—Eu sei que as coisas ficaram difíceis sem ela, mas... — Seu pai começou.
—Pai. — o interrompeu- Está tudo bem, o senhor faz o seu melhor. — comentou sem ao menos se virar.
O fato de estar assim não era culpa de ninguém, muito menos dele, ele só… não sabia oque fazer.
Parado praticamente imóvel embaixo do chuveiro a água quente escorria em abundancia, na sua mente lembranças que ele tanto queria esquecer viam à tona.
O caixão de madeira era coberto vagarosamente por areia, todos se encontravam ao redor da cova, contrariando seus sentimentos o céu estava de um azul vivido e os pássaros cantavam alegres naquela manhã, externos a toda tristeza do momento.
Como uma casca vazia Victor manteve a compostura, não derramou nenhuma lágrima, mas parecia quase impossível naquele momento, seu coração parecia esmagado, a respiração pesada e os olhos lacrimejando constantemente. Ele queria ser forte, ele devia ser forte, mas sempre fora covarde, por isso no final não pode evitar entrar em pranto.
Sentiu os joelhos cederem na terra e a cachoeira de lágrimas virem sem sua permissão, alguém o abraçou, mas naquele momento a mente nublada o impedia de saber quem era. Tentava falar, dizer algo ou ao menos parar de chorar, mas a cada vez a tristeza preenchia mais e mais seu coração, as lembranças vinham como facas e tudo que escapava de sua boca eram soluços.
Tudo parecia tão injusto. Victor se sentiu fraco e impotente, sentiu como se nunca fosse capaz de ser feliz novamente , sentiu que perdeu tudo oque tinha.
Batidas na porta o acordaram de seus pensamentos, ele deveria estar muito tempo já naquele estado. Respirando fundo e fingindo não notar a ardência nos olhos pelas prováveis lágrimas, terminou seu banho.
Por mais que não parecesse Victor amava muito seu pai, só que, em seu estado atual, seu coração e sua mente o impediam de enxergar e sentir algo além de tristeza, culpa e solidão. A vida não tinha muito mais significância e ele ainda não estava preparado para tentar dar a ela algum valor.
Ele esperaria, esperaria pelo momento certo para tentar novamente, afinal tudo havia sido muito recente e preferia acreditar que a tristeza é esquecida, pelos menos um pouco, com o tempo.
Ele só esperava que este momento não demorasse demais.
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