Desert Bloom
1 Capítulo Único
Notas iniciais

Shinki sempre encontrava tranquilidade nas manhãs.
Aquela trazia um silêncio quase melodioso. O calor era ameno no deserto, lembrando-o de regar as plantas o quanto antes. O sol ainda se escondia, mas alertava sua presença aos olhos atentos.
Pouco a pouco, ele deixava a água escorrer sobre cada vaso. A resistência era fértil no ambiente hostil e ele orgulhava-se disso. Orgulhava-se de muita coisa, orgulhava-se demais.
Orgulhava-se de uma em particular.
Destacava-se das colegas esverdeadas. Aquela era uma flor chamativa até no jardim mais colorido. Shinki tinha sempre especial cuidado com ela. A razão? Ainda adormecida na sua cama, atrás dele enquanto fitava o parapeito.
Aquela flor lhe lembrava, acima de tudo, seu orgulho.
Era por isso que se demorava mais com ela, como um pedido de desculpas ao namorado. Por subestimar sempre sua adoração por ele. Relembrando como o orgulho o cegava.
A memória era doce, sempre seria enquanto ele dormisse no seu quarto.
***
Shinki visitava Konoha rotineiramente para vê-lo. Naquela vez, decidiram ir a uma floricultura.
Ele não entendeu à primeira, lapso de julgamento que sempre o atacava em momentos como aquele. Cómico olhando para trás, mas, afinal, ninguém realmente poderia culpá-lo.
Seu namorado era encantador.
Simples e posto, ele o era e Shinki sabia-o melhor que ninguém. Desejava continuar sabendo-o melhor que ninguém. Esse desejo vinha com um preço alto que muitas vezes nem queria ser pago. Inevitável.
Era tão encantador que, na maioria do tempo, só o notava quando estavam sozinhos.
Quando haviam outros encantados, era neles que Shinki notava, ao longe, porém nunca o suficiente para deixá-los confortáveis. Ele notava e ouvia tudo.
Assim pensava.
Ele via-os à distância, via-os antes mesmo de se encantarem, porque ele sabia exatamente como era deixar-se levar por Tenji. Desde o início ao fim, ele conhecia todos os passos, todos os estágios, notava todos os sinais, do mais sutil ao mais audacioso.
Aquele dia não foi diferente. No momento em que entraram, ele notou o brilho nos olhos da atendente.
E se fosse só isso, talvez conseguisse ficar ao seu lado e perceber o que Tenji realmente pretendia com aquela visita. Mas assim que ouviu o tom da conversa e viu o sorriso alargado, não conseguiu não se distanciar, emaranhado no seu próprio ciúme.
Exatamente como seus pais tinham avisado. Bem, eles estavam certos.
— Duvido que alguém queira uma flor de você. — A florista sorria. Shinki estava praticamente colado à entrada do lugar, os braços presos e cruzados. — Não há nada aqui mais belo.
Tenji riu, metade lisonjeado, metade nervoso. As pessoas não eram as mais criativas e eficientes nos seus flertes, ainda assim irritavam-no. Shinki não era de flertar com ele, não fazia o seu estilo, talvez fosse algo que Tenji gostasse, talvez ele percebesse a falta sempre que se encontrava naquela situação. Era um incômodo calado, ruidoso naqueles momentos.
— Oh, obrigada — agradecia de um jeito que pedia por mais.
Shinki não conseguia culpá-lo, Tenji não estava fazendo nada demais, era seu jeito. Longe estava o dia em que alguma vez seria rude para alguém. Provavelmente não pensava que era sério, provavelmente nem pensava que estava sendo tão gracioso, belo, que era inevitável a conversa continuar.
Talvez nem percebesse como a florista não tinha feito nada para ajudá-lo porque o enchia de conversa.
Shinki suspirou e limitou-se às expressões, aos gestos, não queria ouvir mais nenhuma palavra de quem se atrevia a aproximar-se dele. Perguntou-se por quanto tempo Tenji iria ficar, logo percebendo que o tempo estava a ser arrastado propositadamente.
Estava com um pé fora do lugar, mas tinha que permanecer atento.
— Obrigada! — Foi a primeira coisa que ouviu desde que decidiu ignorar a conversa à sua volta.
Seus olhos encontraram Tenji a caminho da saída com um sorriso de orelha a orelha, o que realmente azedou a expressão de Shinki. Ele deu um passo para fora, querendo sair o mais depressa possível dali e passar o restante dia em casa dele.
— Shinki, espere. — Não tinha reparado que tinha ficado a metros de distância dele.
Ele parou a meio do caminho, uma distância segura do estabelecimento.
Só aí notou que Tenji tinha algo em mãos, claro, era o mínimo depois de tê-lo submetido àquilo. Shinki não sabia em que estado ficaria sua paciência se aquela conversa toda não tivesse ido a lado nenhum.
— Você podia ter perguntado para mim — disse Shinki assim que Tenji se aproximou.
Ele fez um olhar confuso.
— Perguntar o quê?
— Sobre as plantas — continuou.
Ele sabia como era seu hobby. Não fazia sentido ter ficado tanto tempo parado na conversa com uma estranha cujo encanto falava mais alto que o real profissionalismo.
Ele gostava dele — muito mais do que ela — e também sabia tudo o que precisaria, então, para quê?
A expressão de Tenji derreteu-se num sorriso e Shinki quis suspirar. Ele sabia que seu ciúme era visível a milhas de distância, mas naquela vez realmente tinha razão.
— É por isso que você ficou longe o tempo todo? — perguntou. — Porque ficou com ciúmes?
— Vocês ficaram falando por séculos sem razão.
Tenji soltou um riso que quase o irritou. Quase.
— Eu estava falando do meu namorado! — Shinki arregalou os olhos. — Perguntando sobre o melhor presente para ele.
Shinki parou a caminhada, fitando-o com um misto de surpresa e embaraço. Como era possível ele ter perdido isso? Estava ficando tão cego assim? Tenji ergueu os braços, o pequeno vaso invadindo a visão de Shinki.
Era algo como ele nunca tinha visto.
A flor era vermelha, destacável em qualquer lugar, uma meia esfera de pétalas saturadas e brilhantes, grossas. Shinki não tinha visto muitas plantas suculentas por ali, na verdade, estava descobrindo que não tinha visto quase nada, muito menos ouvido.
— É para você. — Ele entregou-a, Shinki segurou o vaso quase mecanicamente. — Ela não tinha muitas plantas que pudessem sobreviver no deserto, mas conseguiu achar essa.
Shinki apenas o olhou, não querendo dizer nada. Beirava o chocante a maneira como ele tinha perdido a essência da situação inteira. O sorriso de Tenji não era a cortesia característica, era por querer encontrar algo que o agradasse. Quando a conversa continuou, não era uma estratégia da florista para manter o seu namorado por perto por mais tempo, era esforço para encontrar algo para ele.
Qualquer orgulho que ainda tivesse, Tenji quebrou-o com uma palmadinha em seu ombro, seguido por uma gargalhada.
— Mas tu é ciumento demais!
Shinki bufou, mantendo o olhar preso em Tenji, próximo com sua expressão risonha.
— Eu tenho minhas razões.
Não queria falar muito, como sempre.
— Não, não tem — continuou Tenji, se aproximando mais.
Seus ombros foram cercados pelos braços dele. Tenji se aproximou para um beijo. Shinki segurava o presente com uma mão para abraçá-lo com a outra enquanto sentia a derrota mais doce com os lábios colados.
Era confortante saber que quem quer que passasse por ali naquele momento saberia que Tenji era dele.
Por muito que odiasse perder, era uma convicção fraca perante ele.
***
Shinki terminou de limpar as folhas mortas enquanto a memória desvanecia. Aquela planta era como um lembrete de que Tenji sempre estaria pensando nele, mesmo quando parecia que todo o mundo queria roubá-lo. Podiam querê-lo, o que importava era que Tenji tinha feito sua escolha.
— Bom dia. — A voz sonolenta formigou pelo pescoço de Shinki,
Tenji abraçou-o por trás, germinando um pequeno sorriso no rosto dele.
— Quase tarde — comentou Shinki.
Seu namorado sorriu, selando os lábios daquele jeito desajeitado e preguiçoso.
Perfeito.
— É bom na mesma, estou com você.
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