Desenhos, Poses E Fotografias
1 Desenhos
Notas iniciais
Allen tinha uma mania, desde que se entendia por gente, de desenhar aquilo que chamasse sua atenção; poderia parar de fazer qualquer coisa no momento apenas para isso. De início seus desenhos não eram bons, claramente, ele não era nenhum gênio para já saber desenhar perfeitamente, que evoluíram completamente ao ponto de conseguir traçar o que quisesse.
Sua atenção, porém, era sempre dirigida a objetos, desde o mais simples ao mais estranho. Poucas vezes havia desenhado uma pessoa que julgou ser bonita ou exótica. Nunca tinha realmente coragem de desenhar pessoas além daquelas que ele conhecia, ou que simplesmente nasciam em seus papéis, era tímido demais para isso.
E foi a partir dos desenhos, que ele começou a ter o interesse por fotografias. Inicialmente era apenas um hobby, mas depois quis seguir a carreira. Fez curso e mais tarde a faculdade, e hoje, era uma fotografo profissional. Atualmente ele estava à espera de algum telefonema das várias empresas que mandou seu currículo, não podendo negar que estava ansioso.
Soltou um suspiro enquanto analisava as fotos que havia revelado a pouco tempo, algumas eram paisagens, outras crianças brincando em um parquinho, e até mesmos casais em seus momentos românticos em praças. O clichê, que ainda era muito procurado em vários lugares. Tão concentrado em seus pensamentos, se assustou com o telefone tocando, pulou do sofá a procura do celular que deixou jogado em algum lugar da sala bagunçada. Atendendo rapidamente assim que o achou.
— Alô?
— Boa tarde, eu gostaria de falar com Allen Walker.— Uma voz feminina completamente profissional falou, fazendo-o ficar atento.
— É ele mesmo, quem gostaria?
— Olá senhor Walker. Sou Brigitte Fay, da Companhia Ordem Negra. Estou ligando em referência ao seu currículo que nos enviou.— Seu coração deu um salto. Ele não se lembrava de ter passado seu currículo para a Ordem Negra.
— Ahn... Sim… — Respondeu hesitante.
— O analisamos e ficamos interessados, por isso, gostaria que viesse fazer uma entrevista. Tudo bem?
— Sim, sim.
Ficou por algum tempo acertando o dia e o horário da entrevista com Brigitte, e dependendo de como se saísse nela, fariam um ensaio fotográfico. Desligou o telefone nas nuvens. Seu cérebro ainda não havia processado a informação. Jogou-se no sofá e olhou para o teto. Realmente Allen não se lembrava de ter entregado seu currículo para lá.
A Ordem Negra era simplesmente uma das empresas mais famosa do mundo! Era o sonho de qualquer pessoa trabalhar lá, porém, em lugares como esse, apenas com uma grande referência ou uma experiência bem conhecida de trabalho se conhecia ingressar nela. Allen nem ao menos sonhou em mandar seu currículo para lá pelo simples fato de que seria seu primeiro emprego. Cruzando os braços, o albino ficou pensativo. Um sulco entre as sobrancelhas e o lábio inferior mordido.
Seus olhos se arregalaram quando a ficha caiu, desesperado, pegou novamente o celular, procurando o contato dá única pessoa que poderia ter feito isso.
— Alô?
— Lavi, seu desgraçado! – Estava hiperventilando de tanto nervosismo.
— Allen? O que foi?— A voz do ruivo deixava claro que estava assustado e confuso.
— Lavi, eu não acredito nisso... – Sua voz saiu abafada pelo travesseiro posto em seu rosto.
— Hein?
— Você… Você… — Respirou profundamente, precisando se acalmar.
— Eu o que?
— Lavi, caramba! Olha, eu sei que você é um modelo famoso, trabalha para a Ordem Negra e tudo e tal... mas porque mandou meu currículo para lá?!
— Ah! Você está falando disso. — Ouvia a voz do maldito ruivo descarando, rindo. – Como descobriu?
— “Como?”, você me pergunta, seu maldito! Me ligaram aqui dizendo que estão interessados em mim, seu idiota! Eu simplesmente travei aqui, Lavi! Tra-ve-i! Eu estava achando que poderiam ter se confundindo ou ligado no lugar errado.
— Há! Eu sabia que iam te ligar!
— Como assim, sabia?! Lavi, poxa! É simplesmente meu primeiro emprego, eu não posso fazer feio na entrevista, senão qualquer chance de querer entrar lá vai para o saco! – Levou a mão livre ao cabelo, puxando os fios brancos em desespero.
— Fique calmo garoto! Para comemorar isso, vamos comer naquela cafeteria que você adora! — Allen suspirou.
— Eu quero te matar.
— Me matar? Você tem que me agradecer. — Lavi se indignou. – É assim que se fala com seu grande amigo? É? Oh Deus. — O ruivo fazia drama, fingindo chorar.
— Ahh Lavi, cale a boca! Ao menos me dissesse né! Em compensação vai pagar a conta do que vou comer. – Bufou, ainda irritado.
— Adeus dinheiro…— Dramatizou novamente, o que dessa vez fez Allen rir. – Ok, ok. Amanhã vem para cá. Aí vamos comer as fantásticas comidas do Jeryy.
— Está bem… Tchau, Lavi. E obrigado… Eu acho.
— Acha? Haha, que sacana você Allen. – Riu. – Até amanhã.
Desligou o telefone pela segunda vez no dia, jogando-o em qualquer lugar no sofá, respirou fundo, passando a mão no rosto. Só Lavi mesmo para fazer uma coisa dessas, maldito ruivo. Riu sozinho, deitando de mal jeito no assento, Lavi é mesmo um grande amigo. Abraçou a almofada, fechando os olhos. Precisava guardar as fotos e seus desenhos que estavam espalhados pelo chão.
Bem, faria isso depois, o sofá lhe parecia mais convidativo para um cochilo, sabia que a noite não conseguiria dormir. Aconchegou-se melhor, rendendo-se ao sono.
~K.A.~
Seus olhos se abriam preguiçosos, pela escuridão que estava na sala, constatou que já anoiteceu. Olhou para o relógio digital ao lado da TV, eram 20h48. Havia dormido muito, levantou-se um pouco mole, espreguiçando-se, bocejou em seguida. Passou as mãos no cabelo bagunçado, esquivando dos papeis e fotografias no chão, acendeu a luz da sala. Pegou o celular, que vibrava sinalizando uma mensagem nova.
Foi para a cozinha em passos preguiçosos, abriu a geladeira, pegou o pudim que havia feito mais cedo, e uma colher. Sentou-se à mesa, uma mão estava com a colher e a outra desbloqueava o telefone.
Lavi
Ei, vem pra cá as 11:30. Almoçamos no Jerry.
Ta bom.
Vai mesmo pagar a conta, ne?
Eu sou um homem de palavra.
Não confio muito em você, Lavi.
Que horror, Allen!!
Rindo, saiu das mensagens e foi procurar algum joguinho para passar o tempo enquanto comia. Ficou alguns minutos assim, até que desistiu depois de perder pela quinta vez. Apanhou o prato vazio e o deixou na pia, saiu da cozinha indo para o seu quarto, pegou apenas uma bermuda e uma cueca; entrou no banheiro que tinha no corredor, despiu-se e abriu o registo, entrando debaixo d’água.
Seus músculos se relaxavam mais ainda, fechou os olhos, ficando parado por um tempo apenas apreciando a água morna. Pegou o sabonete, passando-o por seu corpo; pensava no que faria depois do banho, talvez, arrumar a zona que estava na sala e desenhar algo.
Enrolou a toalha em sua cintura assim que terminou o banho, secou-se e colocou sua roupa. Foi para a sala, pegando e separando os desenhos das fotos, guardando-os em pastas. Após arrumar, aconchegou-se no sofá, trazendo o caderno de desenho para o colo, desenhando coisas aleatórias, passando até uma parte da noite assim, ao cansar-se, foi para o quarto, não demorando a dormir.
~K.A.~
Despertou com seu celular tocando, gemeu descontente, tateando o criado-mudo procurando o aparelho que não silenciava, arrastou o dedo pela tela touch-scream, atendendo a ligação.
— Hm. – Estava com preguiça demais para falar algo.
— Allen~. Você está atrasado~.— Ouviu o ruivo cantarolar.
— Hã? Atrasado para que? – Ainda extremamente sonolento, sentou-se na cama, franzindo a sobrancelha em confusão.
— Como pôde se esquecer do nosso encontro, Allen!! Eu iria declarar meu amor para você aqui, na cafeteria do Jeryy!
— Ai meus deuses! Desculpa, Lavi! Eu acordei agora! – Despertou completamente quando se lembrou que tinha marcado de sair com o ruivo; levantou da cama em um pulo, jogando as cobertas para o lado, sua sorte era que já havia separado uma roupa na noite passada, descartando a bermuda que usava. – Vou me arrumar correndo e já estou indo. Pode pedir algo se quiser.
— Relaxa, relaxa, sem pressa. Eu não vou fugir, ‘ta?— Lavi ria do desespero de Allen. – ‘To te esperando na mesa de sempre.
— Ok.
Desligou o celular, se trocando as pressas; no banheiro lavou o rosto e escovou os dentes, ajeitou o cabelo de qualquer forma, pegou a bolsa que carregava consigo para qualquer lugar, conferindo se tudo estava lá; guardou a carteira e o celular, trancou sua casa, andando num ritmo acelerado. Quase se matando mentalmente por não ter colocado o celular para despertar justamente para não se atrasar. Quantas vezes já não tinha feito isso com o ruivo? Lavi era um guerreiro por ainda não estar bravo com ele depois de tantas mancadas por chegar atrasado.
Começou a correr assim que avistou a cafeteria, apoiando as mãos nos joelhos, tentando respirar normalmente; estava ofegante. Entrou pouco depois de arrumar as roupas, viu seu amigo na mesa que havia comentando, caminhou até ele, dando-lhe um leve tapa na cabeça.
— Desculpe a mancada. De novo. – Sentou-se de frente a ele, sorrindo sem jeito.
— Não se preocupe. – Deu seus típicos sorrisos de orelha a orelha para o albino. – E aí, já sabe o que vai querer?
— Já. Planejei enquanto vinha para cá.
— Também né, não sei como pode ser tão pequeno e magro comendo tanto. – Negou, fazendo-se de indignado. – Quer me ensinar esse seu truque, Allen? Ah, menos a parte do pequeno, estou bem com meu tamanho e- Ai! – Acariciou o local onde levou um soco do mais novo. – Doeu, Allen!
— Bem feito, idiota.
Uma garçonete apareceu para tende-los, após fazerem os pedidos, ficando conversando sobre assuntos aleatórios, mas o maior papo entre eles é do quase emprego de Allen como fotografo da Ordem Negra. Lavi lhe dava algumas dicas de como se portar e falar, comentando também que falou com um dos fotógrafos conhecidos por si, o mesmo disse que Allen deveria fazer um portfólio para apresentar na entrevista.
Com seu celular em mãos, anotava tudo num bloco de notas, já tendo em mente quais fotografias usaria. Quando o assunto mudou para o tempo, os olhos de Allen vagaram pelo local. Havia casais sentados em algumas mesas, grupo de amigos ou pessoas sozinhas, com notebooks e celulares como companhia... menos um, notou o albino.
Seu queixo estava apoiado em sua mão, os olhos vagos eram direcionados à janela, que por ela o vento soprava sutil, balançando os belos fios negros, acariciando gentilmente seu rosto que expressava distração. A luz do Sol dava um toque a mais naquela visão, entorpecendo Allen por aquela beleza. O albino precisava desenha-lo.
Com urgência pegou seus fiéis companheiros, traçando com agilidade no papel. Em pouco tempo se reconhecia o moreno que permanecia do mesmo jeito, como se estivesse posando para Allen. A arte logo foi finalizada, Lavi, acostumado com a mania do albino apenas o olhava, curioso para saber o que havia chamado tanto a atenção do amigo ao ponto de o ignorar. Quando viu os movimentos cessados, tomou o caderno das mãos do dono, analisou o desenho; virou-se de costas, logo avistando aquele que estava no caderno. Lavi sabia quem era, o conhecia, entretanto, por hora, ele permaneceria em silêncio.
Sempre se surpreendia com a habilidade nata de Allen, porém, daquela vez ele havia se superado. Os traços completamente realísticos, as curvas e sombras. Tudo. O desenho faltava apenas cor e criar vida. Estava a cópia exata do moreno, que agora bebericava algo da xícara que a garçonete trouxe. Olhou para Allen, este estava completamente distraído. Espantou-se quando o menor tomou o caderno de sua mão, desenhando novamente o moreno de aparência asiática, que estava com os olhos fechados, apreciando sua bebida.
O ruivo apenas observava o amigo desenhando furiosamente no papel. Desenho após o outro. Ele apenas deu uma pausa quando a comida chegou; o caderno ao lado. Seus olhos eram alternados entre sua comida, Lavi, e o moreno. O fato de ser ambidestro ajudava e muito. Lavi não podia deixar se se sentir divertido, um sorriso surgindo no rosto.
Ficou assim até que o moreno foi embora. Suspirou, relaxando na cadeira, fechou os olhos. O que foi aquilo?
— É a primeira vez que te vi assim, Allen. Achou sua musa? – Sorria sacana, os olhos com um leve brilho maldoso.
Allen sentiu seu rosto esquentar, abaixou a cabeça, murmurando: — Cala a boca. – Encarou fixamente seu caderno.
No momento deixaria Allen em paz, enquanto pensava que isso seria bastante divertido. Puxou qualquer outro assunto apenas para amenizar o clima, o que funcionou; o albino apenas guardou o caderno na bolsa, indo comer os doces que havia pedido.
Foram embora pouco tempo depois, Lavi prometeu que iria com o menor à sua entrevista na próxima semana, afinal trabalhava no mesmo local e falaria com seu produtor sobre entrar um pouco mais tarde. Não faria mal algum dar um apoio ao amigo.
Allen caminhava calmamente na rua, absorto ao pensar no moreno da cafeteria. Bufou, exasperado. Musa... Lavi estava realmente de brincadeira. Não que houvesse algum problema com “musas da inspiração” ser um homem, claro que não... mas ele nem sabia como é que conseguiu desenhar aquele cara sem explodir de vergonha.
Assim que chegou em sua casa, pegou o caderno e se sentou no sofá, folheando nas páginas que continha o desenho do moreno, encarando fixamente o primeiro que fez.
— Ele realmente é muito bonito…
Suspirou, passando o indicador levemente sobre o desenho, traçando o rosto. Não ligaria mesmo de vê-lo em seu dia-a-dia.
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