Desenhando com a caneta
1 Estranhos desenhos
Notas iniciais
Toda essa saga — por assim dizer — havia começado a pouco mais de algumas semanas.
Enquanto eu escrevia a lição do quadro senti sutilmente toques delicados e precisos no braço. Abaixei os olhos para o caderno e desviei para o braço, vi os contornos de uma chama se formarem no pulso, boquiaberta, assisti enquanto mais símbolos me eram desenhados um a um, subindo em linha reta em direção ao antebraço.
Cinco deles.
Uma chama.
Duas mãos segurando uma a outra.
Uma balança.
Uma árvore de folhas escassas e galhos retorcidos.
Um olho.
Nada disso parecia fazer sentido ou esses os símbolos me serem remotamente familiares.
Contudo eles estavam aqui no meu braço sem que ninguém tivesse desenhado.
Permaneci olhando talvez esperando que aquilo fosse sumir para então eu ter certeza que estava mesmo ficando doida.
Era primeira vez que acontecia. E esperava que fosse a última.
— Hei, — Christina olha por cima do meu ombro e mira o meu braço virado pra cima na mesa. — Legal, mas desde quando você sabe desenhar assim?
Ela me olha com ar de riso sem desconfiar que eu nunca poderia ter desenhado isso, porque eu nem ao menos consigo segurar a caneta com a mão esquerda direito, quanto mais desenhar.
— Eu não sei.
— Não sabe? — ela ri e apoia o queixo no meu ombro — O que significam?
— Não tenho ideia.
Sinto ela abrir a boca pra contra-argumentar e fazer mais perguntas, porque Christina sempre fala tudo que vem na cabeça, sempre é sincera. Na maioria das vezes ela nem nota que ta falando demais ou até mesmo magoando alguém. Em geral eu preciso manda-la calar a boca.
O sinal anunciando o fim da aula toca. Eu fecho o caderno mesmo que não tenha copiado toda a matéria, e enfio as canetas e o caderno na mochila.
Christina me acompanha até o meu armário e Will aparece.
Ele olha pra o meu braço também notando os desenhos.
— Legal os desenhos.
— Obrigada. — Agradeço a contragosto, fazendo uma expressão azeda.
— O que significam?
— Nada em particular. — Respondo sem vontade de explicar o inexplicável.
Desde então esses desenhos vem aparecendo, seja no meu braço ou em qualquer outra parte do corpo. Acho que sou grata por desenhos com teor erótico nunca fossem desenhados e sinceramente esperava que nunca começassem a aparecer. Na verdade ia preferir que desenho nenhum aparecesse.
Usar camisas de mangas compridas ou jaqueta nos dias quentes era quase uma tortura, eu suava e não podia tirar pois eu nunca sabia quando começaria a ser usada como tela de pintura.
Ok, eu estaria sendo injusta se dissesse que esses desenhos apareciam todos os dias, não, eles não apareciam.
Mas sim, eles sempre estavam lá e sempre eram retocados, como se fosse uma tatuagem.
No banho eu esfregava a pele e tentava a todo custo tirar, ficavam mais desbotados, então novamente eu sentia os toques de caneta esferográfica retocando cada um deles.
Isso me deixava frustrada e enraivecida.
Então basicamente eu me acostumei a tê-las, e isso não significava que eu havia desistido de tentar fazer com que elas sumissem.
Certa noite enquanto eu assistia mais um dos episódios de uma das muitas série que acompanho, Christina irrompeu pela porta do meu quarto me fazendo pular da cama assustada.
— Como você entrou aqui? — disse acusadora enquanto me recuperava do susto e pausava a série. — Pera... você não ia em um encontro com Will ou algo assim?
— Seu irmão abriu a porta e nós vamos só amanhã. Além de que, acho que encontrei a resposta do seu problema.
— O que? — eu catava as pipocas da cama e jogava-as para cima tentando pega-las com a boca.
— Tris, que coisa nojenta. — Christina diz e se senta na cadeira de rodinhas da mesa com computador ligando a tela. — Eu estou falando do seus desenhos misteriosos.
Agora ela tinha minha atenção.
Uma vez Christina presenciou os desenhos tomarem forma no meu braço, no começo ela achou que aquilo podia ser algum truque de mágica barato mas eu não sei fazer mágica e ela sabe disso.
— Como assim a resposta? — digo levantando, me colocando detrás dela.
Ela abre a navegador e digita na barra de pesquisa.
— Então? — pergunto sem entender.
— Espera, — ela procura um site e clica. — Aqui! Leia.
A tela do monitor exibe uma página do tumblr.
Eu começo a ler sem entender muito bem onde ela pretende chegar com isso, até que um parágrafo em particular me chama a atenção.
"Imagine ter uma alma gêmea super artística que desenha flores, designs e padrões muito bonitos e a pessoa 2 assiste as linhas aparecerem em seus braços; ela não para de sorrir e essa é a parte favorita do dia dela."
— Chris você enlouqueceu? — me jogo na cama sobre as pipocas. — Isso não existe. E mesmo que existisse essa seria a parte menos favorita do meu dia. Eu vou acabar com um câncer de pele. — Choramingo.
— E que outra explicação teria pra esses desenhos? — ela gira a cadeira pra cama na minha direção, sem se abalar pela minha descrença.
"Ok, eu também não acreditei quando li sobre isso, contudo ontem quando eu saí com o Will e um dos amigos dele que se mudou pra Chicago a pouco tempo tinha esses desenhos no braço também."
— E daí? Qualquer um pode desenhar isso no braço.
Ela estala a língua.
— Tris, eu conversei com ele, sabe, pra tentar descobrir pelo menos a origem desses desenhos ou que eles significam. — ela faz uma pausa curta e dramática. — Ele inventou esses desenhos.
— O que?
— Ele inventou esses desenhos e o significado deles.
Estreito os olhos pra ela, ainda cética. Eu havia procurado a razão pra isso, como se dependesse da minha vida encontrar a resposta. Contudo é óbvio que não encontrei nada.
— Sabe o que mais? Ele retoca elas todos os dias. Porque elas vivem saindo ou ficam borradas, como quando você tenta tira-las a todo custo no banho.
— Ok — digo começando a acreditar. — Qual o nome dele? Desse tal amigo do Will que nós não conhecemos?
— Tobias. E só você que não o conhece, eu te falei conversei com ele.
— E o que eu faço com essa informação?
— Ah, — seu rosto se ilumina quando ela se lembra de algo. — Ele me disse, vai tatua-las nas costas semana que vem. E segundo o que eu imagino talvez você também exibirá esses símbolos nas costas a partir da semana que vem, espero que você tenha uma boa desculpa pra dar aos seus pais.
Minha expressão de desespero não passou despercebida. Christina gesticula com as mãos.
— Mas espera, nós podemos encontrar um jeito... que tal falarmos com ele, explicar quem sabe ele não muda de ideia sobre as tatuagens?
— É. Sim. Acho que nós podemos falar com ele.
— Sim, sim.
Uma ideia.
— Hei, — me levanto pegando um caneta — que tal eu escrever? Conversar com ele? Se os desenhos dele aparecem em mim, talvez os meus também apareçam nele.
Christina concorda.
— Bem... e o que eu escrevo?
— Pergunta alguma coisa?
— O que?
Christina puxa a caneta da minha mão.
— Vamos começar com o básico.
Ela escreve um simples oi no braço esquerdo.
Nós nos encaramos e então o meu braço, mas nenhuma resposta aparece. Olhamos por longos segundo até desistir.
— Talvez só os desenhos dele apareçam no seu braço... — Christina sugere
— É, eu acho que sim. Bem agora eu vou voltar pra minha série. — digo me aconchegando na cama, desistindo dessa ideia maluca.
Ela se levanta.
— Eu vou embora. Se ele te responder me liga ou manda uma mensagem. Me avisa!
— Ok.
Então eu basicamente voltei a assistir a série quase me esquecendo do que Christina havia me mostrado até voltar a sentir como se ele tivesse voltado a escrever. Puxei a manga da camisa e vi um outro olá debaixo do de Christina.
Encarei aquela palavra por um tempo que pareceu uma eternidade, eu não acreditava que Christina pudesse estar certa. Que essa história maluca de soulmate fosse verdade.
Peguei a caneta e escrevi, "quem é você e por que desenha no próprio corpo?"
A resposta demorou como eu imaginei que demoraria e quando veio foi apenas um "o que?"
O QUE?
— Ok, Tris. Respira, só respira. Eu que faço as perguntas aqui.
Ponderei sobre o que perguntar e então tive uma ideia que não pareceu ser ruim quando pensei nela.
"Nós podemos nos encontrar? E eu te explico a nossa situação?"
Dessa vez não demorou como eu imaginei.
Ele me respondeu com um endereço ao qual eu conhecia muito bem.
O relógio marcava oito e meia e eu não deveria sair esse horário.
Primeiro porque eu ainda estava na metade da maratona e segundo porque eu apenas não queria de fato sair.
Como eu disse, quando eu tive a ideia me parecia ótima.
E eu nem o conhecia direito mas talvez, só talvez ele fosse minha soulmate ou algo assim. Coisa que eu não acreditava muito, mas precisava de respostas e estava prestes a tê-las, essa desculpa era a melhor que eu conseguia pensar agora.
Por esse motivo eu vesti uma calça jeans, uma camisa de manga comprida e uma jaqueta.
Peguei uma caneta e o celular. Eu não havia avisado Christina.
Desci as escadas com o chaveiro na mão.
A sala estava vazia, Caleb provavelmente estava estudando no quarto — ele é o orgulho da família — enquanto eu estava marcando um encontro com um desconhecido as nove da noite. Tudo indo normal.
Com o Millenium como destino caminhei pelas calçadas.
Não demorou muito pra chegar, contudo as ruas estavam desertas. Não que eu tivesse medo, afinal já tinha o costume de andar de noite com Christina, Will e alguns dos amigos dele. Nós nos reuníamos na praça chamada Millenium pra conversar e entre outras coisas.
Meu pai definitivamente era o mais protetor, entretanto minha mãe sempre o fazia mudar de ideia em relação a me deixar sair com os amigos, mesmo estando um pouco tarde pra sair.
O Millenium não estava vazio, como eu esperava.
De longe pude ver Christina e Will sentados no chão no meio de várias outras pessoas que chegando mais perto reconheci.
Christina foi a primeira a me ver.
— Tris?
Não respondi.
— Você não estava vendo uma das suas preciosas séries?
— Estava. Sim, eu estava, mas agora eu estou aqui.
Ela me olhou desconfiada entendendo que interromper minhas maratonas era sempre para fazer algo importante e logo ficou de pé me puxando para longe dos outros, sem me dar tempo de ao menos falar ou olhar na cara deles.
— Ele te respondeu? — ela perguntou num tom de voz baixo.
— Sim, na verdade eu vim me encontrar com ele agora.
— Se encontrar? Agora? De noite? — ela pergunta meio histérica.
— É... — minha fala morreu, eu continuaria mas de fato me parece descuidado fazer isso. — Você mesma disse que ele pode ser minha alma gêmea ou qualquer coisa assim... então se ele é minha alma gêmea não me faria mal, faria?
— Eu não sei... — ela coloca a mão no queixo pensativa e então concluí — é acho que não.
— Então, agora que estou aqui e você me disse que sabe quem é ele, pode me apresenta-lo, hein?
— Poderia se ele estivesse aqui.
Nós olhamos para o grupo ao mesmo tempo, vendo mais duas pessoas chegarem e se juntarem ao grupo.
— Ah, olhe só, — Christina me puxa de volta ao grupo — ele acabou de chegar.
Um jovem alto de olhos azuis e fundos está acompanhado de Zeke.
Christina se planta na frente de ambos. O olho bem, quase me irritando quando lembro o motivo de estar aqui e não terminando uma maratona que estou protelando mais do que poderia me dar ao luxo.
— Então Tobias, essa é Tris, — Christina tagarela, e então se dirigindo a mim — e esse Tris, é o Tobias.
Ela sorri satisfeita, provavelmente se achando uma cupido.
Sorrio forçada a ele e diferente de mim, Tobias apenas sorri.
Christina me abandona e vai para o lado de Will, Zeke faz o mesmo e vai implicar com seu irmão Uriah, nós ficamos quase sozinhos.
— Na verdade meu nome é Beatrice, mas as pessoas me chamam de Tris. — digo, porque nos encaramos tempo demais sem saber o que falar um para o outro.
Ele acena lentamente.
Fico sem saber o que fazer nem como chegar no assunto que me interessa, portanto tenho outra ideia e me arrependo tão logo ela me escapa dos lábios.
— Posso ver seu braço? Os dois? — se a minha ideia sem noção desse certo...
— Por que?
Engulo em seco.
Por que?
Não sei o que dizer. Porque se ele fosse a pessoa errada eu pareceria uma maluca.
— Eu posso?
Ele estreita os olhos e eu penso seriamente em sair correndo e me esconder debaixo do meu cobertor, no meu quarto enquanto passa uma série qualquer na tevê.
Como isso tudo foi acontecer logo comigo? Eu me pergunto todos os dias.
Porém antes que eu comece a pedir desculpas e realmente sair correndo, ele se afasta esperando que eu o acompanhe.
O sigo e ele anda até a grande estrutura que fica no centro da praça, ainda mais longe do grupo.
Tobias puxa uma das mangas revelando os seus desenhos, o qual conheço muito bem.
— E o que significam? — pergunto curiosa. Essa pergunta me persegue desde que esses malditos desenhos apareceram no meu braço.
Ele aponta o primeiro desenho no pulso:
— A chama significa audácia.
Sobe o dedo para o desenho seguinte:
— As mãos significam abnegação. A balança significa franqueza. A árvore é amizade e o olho erudição.
Ele me explica que cada um daqueles desenhos representa uma virtude que todos temos e que ele não quer esquecer que tem em momento algum.
— Então, — começo sem saber como continuar. — Você já ouviu falar de soulmate?
— Soulmate? O que você quer dizer com isso?
— Olha, eu não estou tentando flertar com você — me apresso em deixar claro. — Mas tem uma coisa estranha acontecendo comigo e certamente com você, se você for o cara certo, claro.
Olho ao redor e vejo Christina me vigiando de longe, quando eu a olho ela sorri e volta a conversa.
Respiro fundo e sem mais enrolação puxo a manga da minha jaqueta e lhe mostro os mesmos desenhos.
Observo sua reação, ele olha com o cenho franzido e então compara ambos os desenhos.
— São os seus desenhos. — digo exasperada. — No meus braço!
— Eu notei. E como você fez isso?
— Eu fiz? Eu não fiz nada. Foi você que fez, você que desenhou e de alguma forma louca e desvairada que segundo Christina significa que somos almas gêmeas, seus desenhos aparecem no meu braço no instante em que você os desenha.
Recupero o fôlego e puxo minha outra manga, dessa vez mostrando a nossa conversa.
Ele abre a boca e fecha. E então ri.
Mas o que?
— O que é engraçado?
— Então nós somos almas gêmeas? — Tobias desconversa.
— É... eu acho — e a pele sob meus olhos esquentam me deixando ruborizada. — Eu disse, não estou tentando flertar com você. Christina veio com essa ideia e francamente foi a única solução, a menos lógica também, porém ainda assim a única que ocorreu desde que isso começou a acontecer.
— E como vocês chegaram a essa conclusão?
— Christina!
— Ok, como Christina chegou a essa conclusão?
— Como você acha? Pesquisando na internet, em algum fórum no tumblr.
Ele acena, me irritando
— Bem, eu tenho muito tempo mesmo — digo de forma irônica. — Então eu posso te contar tudo que você quiser...
— Ótimo, eu também tenho muito tempo livre.
Sinto que ele notou a ironia.
Balanço a cabeça derrotada. Agora que eu já estou aqui... meus pais foram em um jantar e quando chegarem eu provavelmente já estaria dormindo, Caleb não me viu saindo e dirá que eu estou no quarto.
É, eu não tinha muita coisa pra fazer por isso me sentei e me encostei na estrutura ao qual estávamos ao lado, Tobias se sentou do meu lado.
Essa noite eu ia falar mais do que falei a semana inteira.
Suspirei e comecei a narrar a história toda, desde o começo.
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