Desenhando Futuros
4 Capitulo 4
Notas iniciais
O atelier de Rachel era grande, luminoso e envidraçado com portas de correr. Ela conseguia ver tudo o que se passava no corredor, e foi naturalmente uma opção dela essa particularidade. Da parte de fora do gabinete não se podia ver para o interior, a não ser que as portas de vidro estejam abertas. E era o caso.
Quinn chegou à recepção e conseguiu ver Rachel dentro do atelier debruçada sobre a mesa de desenho a rabiscar qualquer coisa com um lápiz. Estava de tal modo concentrada que se lhe notavam as expressões faciais franzidas. A loira ficou desconfortável e dirigiu-se à mesa de Adara, a assistente da estilista.
— Boa tarde, eu tenho uma reunião marcada com Rachel Berry. — disse Quinn com profissionalismo. Adara olhou para ela como se ela fosse um bicho estranho e apontou para Rachel.
— Olá, ela está ali. Pode entrar. — disse a assistente descontraída.
— Desculpe? — perguntou Quinn séria. Adara percebeu o tipo de pessoa formal que era a designer e decidiu não continuar a conversa.
— Rachel! — disse a mulher num tom mais alto mas sem gritar. A morena imediatamente levantou a cabeça do que estava a fazer e quando viu Quinn um sorriso torto nasceu nos seus lábios. Quinn ficou completamente sem chão pela maneira informal como Adara chamara Rachel pelo nome mas não teve tempo de dizer nada porque viu a estilista caminhar na sua direcção com aquele sorriso característico. Quando chegou perto dela abriu os braços mas não a abraçou, deu-lhe um beijo na face e fez um gesto para que ela entrasse.
— Olá Quinn. Como estás? — e caminharam juntas para dentro do atelier. Mal entrou naquele espaço Quinn percebeu que de dentro se via tudo para fora e sentiu-se exposta mesmo sabendo que ao contrário não.
— Bem, obrigada. Como é que consegues trabalhar assim?
— Porquê? — perguntou a morena sem entender.
— Vês tudo o que se passa lá fora.
— Sim, mas ninguém vê para dentro.
— Mas consegues concentrar-te?
— Até agora tem resultado bem... — riu-se Rachel. — tenho duas vistas, uma sobre a cidade e outra sobre o que se passa nos corredores.
— A tua secretária chama-te sempre assim? — a língua de Quinn ficava a picar se ela não fizesse esta pergunta.
— A Adara? Eu prefiro chamar-lhe assistente. Debaixo da minha guarda os meus assistentes tratam-me por "tu" e são naturalmente informais. — mas desta vez Rachel respondeu com um semblante mais sério e Quinn percebeu que se estava a meter onde não era chamada.
— Certo. — respondeu a loira desvalorizando o assunto. — Tenho uma proposta mais ou menos estruturada sobre o que me trás cá. — Rachel voltou a sorrir. Foi até à mesa e agarrou no telemóvel.
— Vamos. — disse em seguida.
— Onde?
— A parte do café era verdade. — e desta vez repetiu o gesto mas para sair em direcção ao Imperial Garden.
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Já sentadas na mesa de Rachel, Quinn não se sentia muito confortável, mas tinha de admitir que efectivamente aquele espaço dignificava o nome. Era Imperial e tinha um espaço de jardim interior que emanava um cheiro a rosas especial. Os funcionários tinham um ar feliz e simpático, e mais uma vez tinham cumprimentado Rachel de maneira informal. Era estranho para Quinn vê-los tratar a estilista por tu, mas preferiu não tecer mais nenhum comentário a respeito, não fosse acordar uma Rachel desconhecida.
— Conta-me, estudaste design na faculdade e acabaste por desenhar jóias. Porquê? — perguntou uma Rachel completamente descontraída.
— Eu achei que vínhamos falar de negócios. — Respondeu Quinn na defensiva.
— Qual é o teu problema comigo? — perguntou a morena antes de dar um gole no café. — Ou é com o mundo inteiro? — e sorriu depois.
— Eu não tenho nenhum problema, tenho é pouco tempo e gostava que esta reunião se focasse no importante para poder tratar do máximo de coisas possível.
— Está bem. — Rachel pegou num guardanapo e fez um gesto com mão ao empregado de mesa como quem pede uma caneta. Não tardaram 30 segundos até que ele apareceu com uma. Rachel escreveu uma lista no guardanapo e finalmente levantou a cabeça e deu-o a Quinn. A designer não entendeu o que era aquela lista de coisas e montantes finais e olhou para Rachel em tom de interrogação. — Isso é tudo o que eu preciso para apresentar uma coleção conjunta contigo. O resto temos disponível a qualquer momento.
— Não estou a perceber. — disse Quinn nervosa.
— Tu desenhas as jóias, eu desenho a roupa e apresentamos combinações assinadas. Em relação ao desfile não é preciso nada porque temos tudo montado no piso debaixo do edificio, da minha parte só para o catálogo é que é preciso coisas, e são só essas que escrevi aí.
— "Um dia inteiro num SPA contigo 72 horas antes"? O que é isto? — Rachel sorriu.
— Para combinar pormenores, e para que relaxes um bocadinho. Não vamos conseguir trabalhar juntas se continuares à defensiva. — respondeu Rachel sem se importar com o que Quinn podia pensar. — Aliás, comecemos hoje mesmo... tenho dois convites para a inauguração de uma exposição esta noite. Não estava a pensar ir, mas calha mesmo bem. Vamos as duas.
— Já tomaste essa decisão sozinha? — perguntou Quinn com a sobrancelha arqueada.
— Já. Não tens opinião aqui. — respondeu Rachel com uma gargalhada. Quinn sentiu-se intimidada, mas mesmo assim não ia deixar a coisa fácil.
— Eu não gosto de exposições.
— Nem eu. — respondeu Rachel com descontração, o que deixou Quinn surpreendida. — Como te disse não estava a pensar ir, mas já arranjei um motivo para ir.
— Eu não sou uma pessoa muito sociável Rachel. — disse a designer agora mais pessoalmente.
— Ainda não tinha notado. — riu-se Rachel. — Vamos a esta exposição as duas, e assim é bom, porque não vou ter que fingir que acho muita graça àquilo.
— Qual é a lógica de ir a uma coisa que não se gosta? — perguntou Quinn agora com diversão. A morena sorriu para dentro.
— Tem graça se quem for contigo também não gosta, podes criticar à vontade sem ter de ser politicamente correcta.
— Quando disseste que íamos não sabias que eu não gostava. — Quinn pensou que ganhava nos argumentos.
— Não sabia, mas intuía. E agora que sei, melhor.
— Eu podia perfeitamente gostar de exposições.
— E eu podia perfeitamente ficar o dia todo a falar nisto, mas não acho que tenhas tempo para isso. — respondeu Rachel vitoriosa. Quinn respirou fundo. — Perfeito. Às 21h na Neue.
— Ainda por cima uma exposição Alemã? — era uma pergunta retórica.
— Pior.. é Austriaca. — riu-se Rachel. A designer terminou sem poder dizer mais nada a respeito.
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Quinn estava tão nervosa que não conseguia acertar no risco com o eyeliner.
— Maldita a hora que aceitei este disparate. — disse ela para o espelho.
Depois de alguns minutos acabou por conseguir maquilhar-se o suficiente para o que requer o evento. Agarrou na sua pochette e desceu as escadas com um semblante sério e quase arrependido.
Russell, que estava sentado numa poltrona da sala ouviu-a e chamou-a.
— Vais sair? — perguntou ele surpreendido.
— Vou a uma exposição no Neue. — respondeu ela sem emoção, e Russell demonstrou surpresa.
— E vais sozinha?
— Não. Vou com a tua amiga Rachel, e já estou bem arrependida de ter aceite o convite. — o homem riu-se instintivamente.
— Porquê? Eu acho bem que vás.
— Porque vou com ela? — e a pergunta saiu em tom de ironia.
— A Rachel é uma ótima companhia e tu precisas de ter uma vida social mais activa. Entrar nesse meio é positivo para ti.
— Até logo. — respondeu ela revirando os olhos e caminhando para sair.
— Até logo, diverte-te. — acrescentou Russell, que ficou a rir-se sozinho pela cara de Quinn.
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— Claro. — disse Quinn baixinho para si quando percebeu que eram 21h e ela estava à porta da Neue Galerie e não havia sinal de Rachel. Mas a morena não demorou muito em aparecer.
— Admite que me estavas já a rogar pragas! — disse Rachel divertida quando chegou por trás de Quinn.
— Sem qualquer preconceito. — respondeu a loira séria.
— Quinn há um estudo que revela que as pessoas que se atrasam têm uma noção do tempo diferente das que são pontuais. Desculpa se te fiz esperar. — disse a estilista descontraída. — Vamos entrar?
— Está pomposo o aparato. — Rachel sorriu.
— Está como os meios onde te moves, ou não?
— E tu? Não te moves nestes meios? Afinal os convites foram feitos a ti.
— Eu mexo-me em todos os meios. — riu-se Rachel. — E mexo em algumas coisas também. — e a estilista não segurou a gargalhada ao ver o desconforto de Quinn. — Vamos entrar.
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Já dentro da galeria e com uma taça de champanhe na mão cada uma, Quinn fez uma nota mental de que aquele artista era de facto talentoso, contra todas as suas expectativas.
Rachel parou numa escultura e franziu a testa, Quinn reparou e não conteve o sorriso. Mais à frente a morena voltou a parar num quadro de dimensões panorâmicas, certamente criado em meses, e tentou descobrir o que ele tinha de especial. Porque era especial, e não era discutível.
— Quantos materiais usou ele nesta obra?! — era uma pergunta que não esperava resposta, como se fosse feita a si própria, mas Quinn cortou a magia.
— Deve estar na descrição do quadro. — respondeu a loira sem pudor, embora tivesse claro que aquela obra era realmente magistral.
— Assim não tem graça Quinn. Vamos adivinhar... — e deitou a cabeça para apreciar alguns pormenores específicos.
— Tem tinta acrílica, aquarela e tecido.- disse a loira despreocupada.
— Pastel e permanente. — respondeu Rachel. — E arriscaria dizer que tem papel de aluminio. — Quinn franziu a testa estranhando, mas depois olhou melhor para a tela e percebeu os dois primeiros materiais que Rachel nombrou, e não encontrou o papel de aluminio.
— Onde?
— Qual? — perguntou Rachel olhando para ela que estava ao seu lado de maneira próxima sem se ter dado conta. Quinn baixou a cabeça e retrocedeu.
— O papel de aluminio.
— No limiar do borde direito. Não percebo se o efeito é em verniz, mas acho que é aluminio.
— Eu apostaría no verniz. — responde Quinn.
— É aluminio. — disse uma voz masculina com um sotaque estrangeiro e um sorriso simpático no rosto. — É aluminio com o intuito de parecer verniz. Vejo que consegui. — e soltou uma gargalhada. Rachel sorriu simpática, e Quinn acabou por desenhar um sorriso mais leve. — Fico feliz que tenha deixado a dúvida. Igor Milstein, encantado. — disse o homem enquanto pedia a mão de Quinn para beijá-la, e a loira não teve remédio senão dá-la.
— Quinn Fabray, igualmente. — Depois o homem olhou para Rachel e rasgou um sorriso ainda maior. — Não sabes o gosto que tenho em que estejas aqui a ver o meu humilde trabalho. — e Rachel gargalhou e deu um abraço a Igor.
— Como estás? — perguntou a estilista.
— Estou muito feliz. Está a correr bem a inauguração e vejo que além de me teres dado a enorme surpresa de aceitar o convite, vieste muito bem acompanhada. — e Quinn sentiu desconforto, porque Igor disse o último em tom insinuante. Mas respirou fundo quando Rachel lhe respondeu cordialmente.
— Não te confundas. Sabes quem é a Quinn? — perguntou Rachel sabendo bem a resposta, e não deu oportunidade a Igor de responder. — Estiveste com o Russell Fabray no meu penúltimo desfile, recordas-te? — as expressões de Igor iluminaram-se de tal maneira que soltou um gritinho de entusiasmo.
— Modern Queen!!!??? — e apontou para Quinn em tom de interrogação. A designer estranhou, mas sorriu na resposta.
— Sim. — disse ela educada.
— Meu deus do céu. Eu sou teu fã, fartei-me de elogiar-te ao teu pai nesse dia. A tua linha é magistral. — Rachel sorriu quando viu que Quinn estava a sorrir surpreendida. Igor tinha-a tratado por tu e isso podia deixá-la desconfortável, mas não foi assim.
— Obrigada. Realmente quando me dizem que conhecem a minha linha é que eu tenho a verdadeira noção da expansão do meu trabalho. Principalmente neste meio.
— Claro que sim. Toda a gente conhece. É impossível passar indiferente à inovação da Luxe Fabray. Foste uma lufada de ar fresco no grupo e isso nota-se imenso no meio. — Rachel expandiu o sorriso e Quinn olhou para ela sem perceber o porquê, mas anotou que tinha de lhe perguntar mais tarde.
Beberam champanhe e deram 3 voltas à galeria. Igor estava a acabar o discurso e a abrir o momento relaxado quando Rachel notou que Quinn já estava a ficar farta.
— Finalmente. — disse a morena.
— O quê?
— Notei uma expressão de tédio em ti. Eu estou farta de estar aqui, podemos ir embora? — disse a estilista a rir-se. Quinn franziu a sobrancelha e disse que sim.
Já na porta da Galeria, Quinn não sabia como se despedir de Rachel, mas a morena não tinha planos de acabar a noite por ali.
— Vieste de carro? — perguntou Rachel.
— Sim, está ali. — apontou Quinn para o outro lado da avenida.
— Vamos no meu, depois passamos a buscar o teu. — Quinn olhou para ela instintivamente sem perceber o que ela queria dizer.
— Como assim?
— Realmente podemos ir a andar, são dois quarteirões. Mas de carro é mais cómodo. Ou se quieres podes trazê-lo já. — Quinn estava a olhar para ela como um burro para um palácio. Rachel percebeu e riu-se. — Vamos ao Imperial beber qualquer coisa quente. Pode ser?
— A esta hora?
— Sim. Naquele edificio trabalham pessoas 24h, por isso adaptei o horário para cobrir esses turnos também. — contrariamente ao que Rachel estava à espera, que Quinn reclamasse, a designer sorriu.
— Eu levo o meu, assim é mais fácil. — a morena adoptou uma expressão de desconfiança.
— Não vais fugir, pois não? — perguntou divertida.
— Do quê? — Quinn fez-se de desentendida mas nunca abandonou a seriedade.
— Vamos.
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— Há que admitir que este é o melhor Mocca Branco que alguma vez provei.
— Café Brasileiro. — respondeu Rachel com um sorriso.
— Está explicado.
Ambas ficaram em silêncio por um bocadinho, mas longe de parecer incómodo foi bom. Quinn perdeu-se a pensar na noite, e Rachel perdeu-se a reparar nela sem nenhuma discrição.
— Porque é que te riste quando o Igor disse que a minha linha era uma lufada de ar fresco? — perguntou a loira curiosa sem reparar que Rachel estava a olhar para ela.
— Porque é verdade.
— Mas o teu sorriso não foi de concordância. — respondeu Quinn com um semblante sério. Rachel voltou a rir-se da mesma manera. — Foi assim.
— Porque continuo a achar graça que as tuas criações não tenham nada a ver com a pessoa que transpareces ser. — a designer curvou os lábios em desagrado mas ignorou o tema. — Não é uma critica, pelo contrário, é muito interessante.
— Tu não me conheces. — respondeu Quinn antes de beber mais um pouco do seu Mocca.
— Porque tu não deixas. — acrescentou Rachel sem expressão, e a designer não soube o que responder. — Se fores assim de fechada com toda a gente, nunca mais encontrar o marido que o teu pai quer. — mas agora Rachel disse com um sorriso irónico mas simpático.
— Eu não ando à procura disso. — respondeu ela seca.
— Então andas à procura do quê? — mas Quinn não respondeu. Nem ela sabia do que andava à procura, e Rachel era a última pessoa com quem ela queria conversar sobre isso.
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